Amor de Perdição: Memorias d'uma familia
Part 12
Ás nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau, que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.
Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a já froixa claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer aferrar a luz fugitiva.
Foi então que Simão Botelho a viu.
E ao mesmo tempo atracou á nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu chamando Simão. Foi elle ao portaló, e estendendo o braço á mendiga, recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira não era sua, pela lizura do papel; mas não a abriu.
Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simão encostou-se á amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.
Viu agitar-se um lenço, e elle respondeu com o seu áquelle aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das rêxas de ferro; mas não era de Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.
--É Thereza?--perguntou Simão a Marianna.
--É, senhor, é ella--disse n'um afogado gemido a generosa creatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no seguimento d'aquella por quem se perdêra.
De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e avistou Simão um movimento impetuoso de alguns braços, e o desapparecimento de Thereza e do vulto de Constança, que elle entre-vira mais tarde.
A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o subito encapellamento das ondas, causára a suspensão por ordem do commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mór, que mandava lançar ferro, até novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a sahida para o dia seguinte.
E, no entanto, Simão Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, lá tinha os seus immersos na interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas passaram até que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do mosteiro.
Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras estrellas, eminentes ao mirante.
--Procura-a no ceu?--disse o nauta.
--Se a procuro no ceu!--repetiu machinalmente Simão.
--Sim!... no ceu deve ella estar.
--Quem, senhor?
--Thereza.
--Thereza!... Morreu?!
--Morreu, álem, no mirante, d'onde lhe estava acenando.
Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O commandante lançou-lhe os braços e disse:
--Coragem, grande desgraçado, coragem! os homens do mar crêem em Deus! Espere que o ceu se abra para si pelas supplicas d'aquelle anjo!
Marianna estava um passo atraz de Simão, e tinha as mãos erguidas.
--Acabou-se tudo!...--murmurou Simão-- Eis-me livre... para a morte... Senhor commandante--continuou elie energicamente--eu não me suicido. Póde deixar-me.
--Peço-lhe que se recolha á camara. O seu beliche está ao pé do meu.
--É obrigatorio recolher-me?
--Para v. s.^a não ha obrigações; ha rogos: peço-lh'o não mando.
--Vou, e agradeço a compaixão.
Marianna seguiu-o com aquelle olhar quebrado e mavioso do jáo, quando o poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Camões.
Encarou n'ella Simão, e disse ao commandante:
--E esta infeliz?
--Que o siga...--respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.
Simão recolheu-se ao beliche, e o commandante sentou-se em frente d'elle, e Marianna ficou no escuro da camera a chorar.
--Falle, senhor Simão!--disse o commandante--desafogue e chore.
--Chorei, senhor!
--Eu não tinha imaginado uma angustia igual á sua. A invenção humana não creou ainda um quadro tão atroz. Arripiam-se-me os cabellos, e tenho visto espectaculos horriveis na terra e no mar.
Acintemente, o commandante estava provocando Simão ao desabafo. Não respondia o degredado. Ouvia os soluços de Marianna, e tinha os olhos postos no masso das cartas, que pozera sobre uma banqueta.
O capitão proseguiu:
--Quando em Miragaya me contaram a morte d'aquella senhora, pedi a uma pessoa relacionada no convento, que me levasse a ouvir d'alguma freira a triste historia. Uma religiosa m'a contou; mas eram mais os gemidos que as palavras. Soube que ella, quando desciamos na altura do Oiro, proferira em alta voz: «Simão, adeus até á eternidade!» e cahiu nos braços d'uma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ella penára em dois annos e nove mezes n'aquelle mosteiro. O amor que ella lhe tinha, e as mil mortes que ella ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria, Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é!
--Por pouco tempo...-- disse Simão, como se o dissesse a si proprio, ou a propria imaginação o estivesse dialogando comsigo.
--Creio, creio, por pouco tempo--proseguiu o capitão;--mas se os amigos podessem salval-o, senhor, eu dar-lh'os-ia na India mais fieis que em Portugal. Prometto-lhe, sob minha palavra de honra, alcançar do visorei a sua residência em Gôa. Prometto segurar-lhe um decente principio de vida, e as commodidades que fazem a existencia tão saudavel como ella é na Asia. Não o intimide a ideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por vencer-se, e será feliz!
--O seu silencio, por piedade, senhor...--atalhou o degredado.
--Bem sei que é cêdo ainda para planisar futuros. Desculpe á sympathia, que me inspira, a indiscrição. Mas aceite um amigo n'esta hora atribulada.
--Aceito, e preciso d'elle.... Marianna!--chamou Simão--Venha aqui, se este cavalheiro o permitte.
Marianna entrou no quarto.
--Esta mulher tem sido a minha providencia--disse Simão--Porque ella me valeu, não senti a fome em dois annos e nove mezes de carcere. Tudo que tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta creatura. Seja respeitavel aos seus olhos, senhor, porque ella é tão pura como a verdade o deve ser nos labios d'um moribundo. Se eu morrer, senhor commandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se ella fosse minha irmã. Se ella quizer voltar á patria, seja o seu protector na passagem.--E estendendo-lhe a mão, disse com transporte:--Promette-me isto, senhor?
--Juro-lh'o.
O commandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com Marianna.
--Estou tranquillo pelo seu futuro, minha amiga.
--Eu já o estava, senhor Simão--respondeu ella.
Não se trocaram palavra por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a mesa, e apertou com as mãos as fontes archejantes. Marianna, de pé, ao lado d'elle, fitava os olhos na luz mortiça da lampada oscillante, e scismava, como elle, na morte.
E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.
CONCLUSÃO.
Ás onze horas da noite o commandante recolhêra-se n'um beliche de passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas horas d'aquelle dia.
Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente d'um arame. O ouvido têl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra e do ceu.
Á meia noite estendeu Simão o braço tremulo ao masso das cartas que Thereza lhe enviára, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que era d'ella. Rompeu a obreia, e dispôz-se no camarote para alcançar o baço clarão da lampada.
Dizia assim a carta:
«É já o meu espirito que te falla, Simão. A tua amiga morreu. A tua pobre Thereza, á hora em que leres esta carta, se me Deus não engana, está em descanso.
Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; não devia escrever-te; mas perdôa á tua esposa do ceu a culpa pela consolação que sinto em conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.
Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? D'aqui a pouco perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de leguas, e não acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: «A infeliz espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.»
Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava com vida e com esperança de vêr-te na volta do degredo? Assim póde ser, mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem ás vezes vaidade de mostrar que o é, até não podêl-o ser mais! Quero que digas: Está morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperança.
Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez que eu podesse alguns dias resistir á morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo que se está partindo, e eu mesma o oiço partir.
Não vão estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar um remorso injusto á tua saudade.
Se eu podesse ainda vêr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse á minha alma esta visão!... _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!... Sem o querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar ainda antes de succumbires á dôr do espirito.
A vida era bella, era, Simão, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. A tua imaginação passeava comigo ás margens do Mondego, á hora pensativa do escurecer. Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia em quanto a alma se esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e immortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou adiante d'ella, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espirito queria eu que fosse meu. Era criança ha tres annos, Simão, e já entendia os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o estimulo do meu amor.
Ó Simão, de que ceu tão lindo cahimos! Á hora que te escrevo estás tu para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se não podemos jámais ter n'esta vida a nossa esperança de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos beneficios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é uma misericordia divina, uma bemaventurança para mim.
E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem poder esmagar a imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua malfadada sorte?
Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos enxutos? Soffre, soffre ao coração da tua amiga estas derradeiras perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta lêres.
Rompe a manhã. Vou vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus dezoito annos!
Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa. Todas as minhas angustias lhe offereço em desconto das tuas culpas. Se algumas impaciencias a justiça divina me condemna, offerece tu a Deus, meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada.
Adeus; á luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão.»
Erguei-se Simão Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo Marianna, que levantava a cabeça ao menor movimento d'elle.
--Que tem, senhor Simão?--disse ella, erguendo-se.
--Estava aqui, Marianna?... não se vai deitar?!
--Não vou: o commandante deu-me licença de ficar aqui.
--Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é necessario o seu sacrificio.
--Se o não incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.
--Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convez?
--Quer ir ao convez, senhor Botelho?--disse o commandante lançando-se do beliche.
--Queria, senhor commandante.
--Iremos juntos.
Simão ajuntou a carta de Thereza ao maço das suas, e subiu cambaleando. No convéz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que actualmente vai a rua da Restauração.
O capitão passeava da prôa á ré; mas com o ouvido fito aos movimentos do degredado. Receára elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras consoladoras, mas pensava comsigo: «O que ha de dizer-se a um homem que soffre assim?» E parava junto d'elle algumas vezes, como para desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante.
--Eu não me suicido!--exclamou abruptamente Simão Botelho--Se a sua generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, póde dormir descansado a sua noite, que eu não me suicido.
--Mas mereço-lhe eu a condescendencia de descer comigo á camara?
--Irei; mas eu lá soffro mais, senhor.
Não replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das rajadas de vento.
Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia de Simão. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se.
Ás tres horas da manhã Simão Botelho segurou entre as mãos a testa que se lhe abria abrazada pela febre.
Não pôde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabeça, ao declinar, pousou no seio de Marianna.
--O anjo da compaixão sempre comigo!--murmurou elle--Thereza foi muito mais desgraçada...
--Quer descer ao camarote?--disse ella.
--Não poderei... Ampare-me, minha irmã.
Deu alguns passos para o alçapão, e olhou ainda para o mirante. Desceu a ingreme escada, apegando-se ás cordas. Lançou-se sobre o colchão, e pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio.
De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando o condemnado, disse que era «maligna» a doença, e que bem podia ser que elle achasse a sepultura no caminho da India.
Marianna ouviu o prognostico, e não chorou.
Ás onze horas sahiu barra fóra a nau. Ás ancias da doença accresceram as do enjoo. A pedido do commandante, Simão bebia remedios, que bolsava logo, revoltos pelas contracções do vomito.
Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simão:
--Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer áquellas cartas que vão na caixa?
Pasmosa serenidade a d'esta pergunta!
--Se eu morrer no mar--disse elle--Marianna atire ao mar todos os meus papeis; todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro tambem.
Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simão continuou:
--Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna!
--Morrerei, senhor Simão.
--Morrerá?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!...
A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do capitão, que tinha sobeja experiencia de vêr morrerem centenares de condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum medicamento.
Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes, sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia de navegação incerta, por entre espêssas brumas, partiu-se o leme defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas, desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da enfermidade de Simão Botelho.
Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou:
--Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos já passados!...
--Já acabados... de certo...--disse ella.
Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia assim no seu delirio:
«A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. Passeavas comigo á margem do Mondego, á hora pensativa do escurecer. Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava a face ao teu seio como se fosse o de minha mãe... De que ceu tão lindo cahimos... A tua amiga morreu... A tua pobre Thereza.............................
E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?... Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou... Rompe a manhã... Vou vêr a minha ultima aurora... a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada... Marianna...»
Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou ouvir o seu nome.
«Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu... O mais puro anjo serás tu... se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna...»
A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio infallivel do trespasse.
Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos.
Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração, que não embaciou levemente o vidro.
--Está morto!...-- disse elle.
Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não orava nem chorava.
Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:
--Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo ... É ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrella... Passe a senhora Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.
Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o embrulho á cintura.
Foi o cadaver envolto n'um lençol, e transportado ao convez.
Marianna seguiu-o.
Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou ás pernas com um pedaço de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, tão funeral respeito os acurvava, que insensivelmente se descobriram.
Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aquelles empuxões, que o marujo dava ao cadaver para segurar a pedra na cintura.
Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se fizesse ouvir na agua, todos viram, e ninguém já pôde segurar Marianna, que se atirára ao mar.
Á voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Marianna.
Salval-a!...
Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir á morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirára, e viu, enleado no cordame, o avental, e á flor d'agua um rolo de papeis que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de Thereza e Simão.
* * * * *
Da familia de Simão Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes, a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irmã predilecta d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel Botelho, pae do author d'este livro.
FIM.
* * * * *
[1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho, irmão de Domingos, estava na festa de endoenças, em S. Francísco, defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era. N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e coração á mesma mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume até ao final do officio da paixão. Á sahida do templo encarou no militar, e provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmão de Marcos, desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli á entrada da «rua do Jogo da Bola» o derribou morto. O homicida foi livre por graça regia.
[2] É a casa-palacete da «rua da Piedade», hoje pertencente ao doutor Antonio Girardo Monteiro.
[3] Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão, a qual tenho presente, e é extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a folhas 159 v. Reza assim:
«Aos dois dias do mez de maio de 1784, pôz os santos oleos o reverendo padre cura João Domingues Chaves a Simão, o qual foi _baptisado em casa em perigo de vida_ pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.»
[4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta carta: «Meu amigo, collega e senhor. Entregará, ao portador d'esta, que é o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe fallei na sua passagem para Lisboa. A appellação de seu filho está a meu cuidado, e está segura, apesar das grandes forças contrarias. Seu amigo--O desembargador _Antonio José Dias Mourão Mosqueira_. Porto 11 de fevereiro de 1805.--Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes.--Lisboa.»
(_Nota do auctor_).
[5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relação do Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das abobadas. Anno da Graça de 1861.
[6] _Hoje então!..._ Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa. Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o seguinte:--«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.» --Póde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor quer querelar por adulterio?--Responde o queixoso: «O que eu quero é o meu dinheiro.»--Mas, redargue o consultor, o senhor póde querelar de ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.--«E receberei o meu dinheiro?»--Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu dinheiro?! O que sei é que não póde pronuncial-a a ella como ladra.--«Mas os meus oitocentos mil reis?!»--Ah! o senhor não se lhe dá que sua mulher fuja e não volte?--«Não, senhor doutor, que a leve o diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»--Pois querele d'ambos, o veremos depois.--«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»--Certo não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas capturam o ladrão com o seu dinheiro.--«E, se elle o não tiver já?--redargue o marido consternado.»--Se o não tiver já, o senhor vinga-se na querela por adulterio.--«E gasta-se alguma coisa?»--Gasta, sim; mas vinga-se.--«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor: a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»--Cincoenta annos!--acudiu o doutor--o senhor está vingado do amante. Vá para casa, deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é elle.
Encadernação N.° 2465
FAUSTO FERNANDES
ENCADERNOU
Patio de D. Fradique, 1--LISBOA
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