Amor de Perdição: Memorias d'uma familia
Part 11
Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára.
Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento.
--Porque vendeu as suas terras, Marianna?--perguntou o prêso.
--Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.
--Não faz?... Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no Porto?
--Não, senhor, não fico--balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á qual o seu coração julgava ter respondido de muito.
--Pois então!
--Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.
Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos.
--Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas sabe o que é o degredo, minha amiga?
--Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se...
--E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das galés, que tem um condemnado na conta de féra.
--Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo.
--E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?
--Não fallemos n'isso, senhor Simão...
--Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino... Se eu morrer?
--Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.
--Ninguem morre quando quer, Marianna...
--Oh! se morre!... e vive tambem quando quer... Não m'o disse já a senhora D. Thereza?
--Que lhe disse ella?
--Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simão... E mais a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no braço e deixar correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz.
--Oiça-me, Marianna, que espera de mim?
--Que hei de eu esperar!... Porque me diz isso o senhor Simão?
--Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim só podiam ter uma paga, embora m'os não faça esperando recompensa. Abre-me o seu coração, Marianna?
--Que quer que eu lhe diga?
--Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
--Conheço, e que tem isso?
--Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte áquella desgraçada senhora?
--E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?!
--Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
--E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!
--Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz o pêso da obrigação.
Marianna não respondeu, chorou.
--E porque chora?--tornou Simão carinhosamente.
--Isso é ingratidão.... e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.
--Não me comprehendeu... Sou infeliz por não poder fazêl-a minha mulher. Eu queria que Marianna podésse dizer: «Sacrifiquei-me por meu marido; no dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado; quando a desgraça o encerrou entre ferros, dei-lhe o pão, que nem seus ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado á forca, endoideci; quando a luz da minha razão me tornou n'um raio de compaixão divina, corri ao segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle pobre coração, trabalhei á luz do sol homicida para elle se resguardar do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam...»
O espirito de Marianna não podia altear-se á expressão do prêso; mas o coração sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e chorava a um tempo. Simão continuou:
--Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia não póde ser senão um supplicio occulto. Viva, que não deve dar tudo a quem lhe não póde restituir senão as lagrimas que lhe eu tenho custado. O tempo do meu desterro não póde estar longe; esperar outro melhor destino seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prêso, pediria a minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando que eu lhe désse a ultima palavra da minha vida. Mas não vá comigo á África ou á India, que sei que voltará sósinha á pátria depois que eu fechar os olhos. Se o meu degredo fôr temporario, e a morte me guardar para maiores naufragios, voltarei á patria um dia. E preciso que Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia, que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com marido e filhos, a sua familia será a a minha. Se a vir livre e só, irei para a companhia de minha irmã. Que me responde, Marianna?
A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:
--Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o degredo....
--Pense desde já, Marianna.
--Não tenho que pensar... A minha tenção está feita...
--Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção.
Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:
--Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim? paciencia!... eu é que não posso...
Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:
--Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria.
Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios, porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu fiz.»
E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada, tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha de aquella senhora amargurar-lhe a vida!»
E amargurava acerbamente a desditosa menina!
Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo.
Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos estranhos.
E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do corpo.
No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a sua sentença na prisão de Villa Real.
Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a morte.
Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente obtida.
Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi inscripto no catalogo dos degredados para a India.
IX.
A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.
Na vida real, recebemol-a como ella sáe dos encontrados acasos, ou da logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o author, se inventa, não invente melhor; e, se copía, não minta por amor da arte.
Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora, cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivella do egoismo.
A verdade! se ella é feia, para que offerecêl-a em paineis ao publico!?
A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergil-o, retratal-o, e dal-o á venda!?
Os reparos são de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintal-a, como ella é, feia e repugnante.
A desgraça afervora ou quebranta o amor?
Isso é que eu submetto á decisão do leitor intelligente. Factos e não theses é que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as funcções opticas do apparelho visual.
Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simão Botelho almejava um raio de sol, uma lufada de ar não coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito.
Ancia de viver era a sua; não era já ancia de amar.
Seis mezes de sobresaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras do coração; e o coração, para o amor, quer-se forte e tenso de uma certa rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anceios das esperanças, e com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes.
Cahiu a forca pavorosa aos olhas de Simão; mas os pulsos ficaram em ferros, o pulmão ao ar mortal das cadêas, o espirito intanguido na glacial estupidez d'umas paredes salitrosas, e d'um pavimento, que resôa os derradeiros passos do ultimo padecente, e d'um tecto que filtra a morte a gottas d'agua.
O que é o coração, o coração dos dezoito annos, o coração sem remorsos, o espirito anhelante de glorias, ao cabo de dezoito mezes de estagnação da vida?
O coração é a viscera, ferida de paralysia, a primeira que fallece suffocada pelas rebelliões da alma que se identifica á natureza, e a quer, e se devora na ancia d'ella, e se estorce nas agonias da amputação, para as quaes a saudade da felicidade extincta é um cauterio em braza, e o amor que leva ao abysmo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigerio.
Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora de desafôgo, como que sentia o patibulo lascar entre os seus braços, e então convidou o coração da mulher, que o perdêra, a assistir ás segundas nupcias da sua vida com a esperança.
Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Asia, e o coração intumecia-se de fel, o amor afogava-se n'elle, morte inevitavel, quando não ha abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão intima.
Esperança, para Simão Botelho, qual?
A India, a humilhação, a miseria, a indigencia.
E os anhelos d'aquella alma tinham mirado a ambições de um nome. Para a felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor, estava a gloria, o renome, e a vã immortalidade, que só não é demencia nas grandes almas, e nos genios que se presentem viver nas gerações vindouras, e se preluzem n'ellas. Mas grinaldas de amor a escorrerem sangue dos espinhos, essas instillam veneno corrosivo no pensamento, apagam no seio a faisca das nobres affoitezas, apoucam a ideia que abrangêra mundos, e paralysam de mortal spasmo os estos do coração.
Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito mezes de carcere, com o patibulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor da alma.
A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava responder, retrahia-se recriminado pelos dictames da razão.
D'além, d'aquelle convento onde outra existencia agonisava, gementes queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ella, e recebias as do demonio do desespêro para ti.
Os dez annos de ferros, era que lhe quizeram minorar a pena, eram-lhe mais horrorosos que o patibulo. E aceital-o-ias, por ventura, se amasse o ceu, onde Thereza bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em peçonha? Creio:--antes a masmorra, onde póde ouvir-se o som abafado de uma voz amiga; antes os paroxismos de dez annos sobre as lages humidas d'uma enxovia, se, na hora extrema, a ultima faisca da paixão, ao bruxolear para morrer, nos alumia o caminho do ceu por onde o anjo do amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do que ficou.
Thereza pedira a Simão Botelho que aceitasse dez annos de cadêa, e esperasse ahi a sua redempção por ella.
«Dez annos!--dizia-lhe a inclausurada de Monchique--Em dez annos terá morrido meu pae, e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te perdôe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vaes ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memoria de mim quando voltares.»
Como a pobre se illudia nas horas em que as debeis forças de sua vida se lhe concentravam no coração!
As ancias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que creára novo, já lhe sahia em golfadas com a tosse.
Se por amor ou piedade o condemnado aceitasse os ferrolhos tres mil seiscentas e cincoenta vezes corridos sobre as suas longas noites solitarias, nem assim Thereza sosteria a pedra sepulcral que a vergava d'hora a hora.
«Não esperes nada, martyr--escrevia-lhe elle.--A lucta com a desgraça é inutil, e eu não posso já luctar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não temos nada n'este mundo. Caminhemos ao encontro da morte... Ha um segredo que só no sepulcro se sabe. Vêr-nos-hemos?
Vou. Abomino a patria, abomino a minha familia, todo este solo está aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens fallam a minha lingua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a liberdade com a opulencia; nem já agora a realisação da esperanças que me dava o teu amor, Thereza!
Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero vêr o ceu no meu ultimo olhar.
Não me peças que aceite dez annos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade captiva dez annos! Não comprehendes a tortura dos meus vinte mezes. A voz unica que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova de uma graça real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas agonias de dez annos de carcere.
Salva-te, se pódes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande desgraçado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E senão, morre, Thereza, morre, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as fibras laceradas pela dôr, é o esquecimento que salva das injurias a memoria dos padecentes.»
As palavras unicas de Thereza, em resposta áquella carta, significativa da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdôa tu ao meu destino... Perdi-te... bem sabes que sorte eu queria dar-te... e morro, porque não posso, nem poderei jámais resgatar-te. Se pódes, vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-ha o meu espirito... Estou tranquilla... Vejo a aurora da paz... Adeus até ao ceu, Simão.»
Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão Botelho não respondia ás perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos tão attribulados, chorava; mas as lagrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos de afflicção, que a final o extenuavam á força de convulsões.
Decorreram seis mezes ainda.
E Thereza vivia, dizendo ás suas consternadas companheiras, que sabia ao certo o dia do seu trespasse.
Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu carcere. A terceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.
Era em Março de 1807.
No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimação para sahir na primeira embarcação que levava ancora do Douro para a India. N'esse tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa os que tinham igual destino.
Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu amo.
--E a passagem vale-a bem!--disse o galhofeiro magistrado.
Simão assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietação terrivel, como se ignorasse o seu destino.
Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta á moribunda Thereza, e nem signaes de lagrimas podia já enviar-lhe no papel.
--Que trevas, meu Deus!--exclamava elle, e arrancava a mãos cheias os cabellos--Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que este soffrimento é insupportavel!
Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os não menos medonhos da lethargia.
--E Thereza!--bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo--E aquella infeliz menina, que eu matei! Não hei de vêl-a mais, nunca mais! Ninguem me levará ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dirá que eu morri, ó martyr!
X.
A 17 de Março de 1807 sahiu dos carceres da Relação Simão Antonio Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não ia amarrado com cordas ao braço d'algum companheiro. Desceu da cadêa ao embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o á sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e na presença de Mourão Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.
--É demente o senhor Simão?!--disse o desembargador.
--Tenho a demencia da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi: quero agora vêr a que extremo de infortunio ella póde levar os seus amantes. A caridade só me não humilha, quando parte do coração e não do dever. Não conheço a pessoa, que me remetteu este dinheiro.
--É sua mãe--tornou Mosqueira.
--Não tenho mãe. Quer v. ex.^a remetter-lhe esta esmola rejeitada?
--Não, senhor.
--Então, senhor commandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto ao rio.
O commandante aceitou o dinheiro, e o desembargador sahiu de bordo como espantado da sinistra condição do moço.
--Onde é Monchique?--pergutou Simão a Marianna.
--É acolá, senhor Simão--respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaya.
Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um vulto.
Era Thereza.
Na vespera recebêra ella o adeus de Simão, e respondêra enviando-lhe a trança dos seus cabellos.
Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou á grade do côro, onde se foi amparando á sua criada. Parte das horas da noite passou-as sentada ao pé do sanctuario de sua tia, que toda a noite orou. Algumas vezes pediu que a levassem á janella que se abria para o mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu pé, ás cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida.
Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Thereza leu uma a uma as cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego, enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos á felicidade prevista: eram tudo que mais formoso póde dar o coração humano, quando a poesia da paixão dá côr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscencias d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dôces tristezas, esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irmã querida de Simão, o ceu aromatico que se lhe ampliava á aspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraçados.
Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sêda desenlaçadas de raminhos de flôres murchas, que Simão, dois annos antes, lhe atirára da sua janella ao quarto d'ella.
As petalas das flôres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza, contemplando-as, disse: «Como a minha vida...» e chorou, beijando os calices desfolhados das primeiras que recebêra.
Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito d'ellas, que logo veremos cumprida.
Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: «Para a viagem...»