# Amor de Perdição: Memorias d'uma familia

## Part 10

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Sahiram, e o ferrador só então reflectiu no modo de entregar a carta, A primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:

--Ó senhora freira!

--Que quer vocemecê?--disse a prelada.

--A senhora faz favor de dizer á senhora D. Therezinha de Vizeu, que está aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe?

--E quem é vocemecê?

--Sou o pae da tal rapariga que ella sabe.

--Já sei!--exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio.

A prelada retirou-se a um lado, e disse:

--Vê lá o que fazes, minha filha...

--A sua filha escreveu-me?--disse Thereza a João da Cruz.

--Sim, senhora, aqui está a carta.

E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse sorrindo:

--Muito engenhoso é o amor, Therezinha... Permitta Deus que as noticias da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não cuides que a tua velha tia é menos esperta que o _pae da rapariga da aldeia_.

Thereza respondeu com beijos ás jovialidades carinhosas da santa senhora, e sumiu-se a lêr a carta, e a responder-lhe. Entregando a resposta, disse ella ao ferrador:

--Não vê ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre?

--Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio aqui parar esta mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelão, a pobresita não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem fibras d'aquella casta!

--Falle baixo--tornou Thereza--Pois olhe... quando trouxer as cartas, entregue-lh'as a ella, sim? Eu já a mandei á cadêa; mas não a deixaram lá entrar.

--Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.

Esta boa nova alegrou Simão. A Providencia divina apiedára-se d'elle n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar do ceu ao seu cerrado infortunio.

Exaltára-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que arrumava no quarto uns moveis que comprára em segunda mão, quando este, suspendendo o trabalho, exclamou:

--Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer, para o apanhar de _súpeto_.

--Que é?

--A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha e varrer a casa.

Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe causára, disse com melancolica pausa:

--É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu!

--Que está o senhor ahi a prégar?--interrompeu o ferrador--Parece que ficou a modo de tristonho com a noticia!...

--Senhor João--tornou solemnemente o prêso--não deixe aqui a sua querida filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e perseguida como tem de ser!?...

--Perseguida! _Tó carocha_! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a persigam!... Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe. Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!... aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima da burra!

Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes de quasi continuada convivencia.

--E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?--insistiu o prêso.

--Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará.... O senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo.

Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:

--Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!

--Qual marido!...--disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras lagrimas que Simão lhe vira--Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!... Eu sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego a chorar sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá. O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga. Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a Marianna já me disse que comprasse duas aquellas... como se chamam aquellas invasilhas de pôr ramos?

--Jarras.

--É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.

VI.

Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo.

Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina.

Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva, alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas dos adornos proprios dos annos e da qualidade.

Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da familia.

Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze dias depois que Simão entrára no carcere.

Já n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram nem estimaram; mas o infortunio de Simão remia as culpas do genio fatal que o orphanára de pae e mãe, e só da irmã Rita lhe deixára uma lembrança saudosa.

Foi Manoel á cadêa, e abrindo os braços ao irmão, teve um glacial acolhimento.

Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre.

--Consta do processo--respondeu Simão.

--E tem esperanças de liberdade?--replicou Manoel.

--Não penso n'isso.

--Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha.

--Não preciso nada. Esmolas só as recebo d'aquella mulher.

Já Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moça inferira conclusões para formar falsos juizos.

--E quem é esta menina?--tornou Manoel.

--É um anjo... Não lhe sei dizer mais nada.

Marianna sorriu-se, e disse:

--Sou uma criada do senhor Simão, e de v. s.^a

--É cá do Porto?

--Não, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu.

--E tem feito sempre companhia a meu mano?

Simão atalhou assim á resposta balbuciante de Marianna:

--A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel.

--Cuidei que não era offensiva--replicou o outro, tomando o chapéo.--Quer alguma coisa para a mãe?

--Nada.

Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão Mosqueira, e pelo corregedor do crime.

--Devemos á espionagem da policia--disse o corregedor--a novidade de estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?--continuou o magistrado, reparando na açoriana.

--Não é minha esposa...--balbuciou Manoel--é... minha irmã.

--Sua irmã!...--disse Mosqueira--qual das tres? Ha cinco annos que as vi em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia?

--Justamente--disse Manoel.

--Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto muito outro do que era!...

--Vieram vêr o infeliz Simão?--atalhou o corregedor.

--Sim, senhor... viemos vêr meu pobre irmão.

--Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!...-- ajuntou Mosqueira--mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae, segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz com uma sem-ceremonia que indigna o animo.

--E essa menina que foi a causa da desgraça?--perguntou Manoel.

--Isso é uma heroina!--respondeu o corregedor do crime--Davam-na já por morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da commutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me disse o medico.

--Conhece-a muito bem, minha senhora?--disse o desembargador á dama, supposta irmã de Manoel.

--Muito bem--respondeu ella, relanceando os olhos ao amante.

--Dizem que é formosissima!

--De certo--acudiu Manoel--é formosissima.

--Muito bem--disse o corregedor, erguendo-se.--Leve este abraço ao pae, e diga-lhe que o condiscipulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu tenho de lhe escrever brevemente.

--E outro abraço a sua virtuosa mãe--acerescentou o desembargador.

--Vou desconfiado!--disse o Mosqueira ao collega--Manoel Botelho tinha, ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella mulher, que vimos, não é irmã d'elle.

--Pois se nos mentiu é mariola, por nos obrigar a cortejar uma concubina!... Eu me informarei...--disse o corregedor, offendido no seu austero pundonor.

E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo final: «Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas; por elle te mandei um abraço, e por ella te mandaria outro, se fosse modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos paes.»

Estava já Manoel em casa de seus avós, e cuidava em trastejar uma modesta casa para a açoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente mãe. O pae fôra informado da vinda, e dissera que não queria vêr o filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis, desde que abandonára os estudos, onde estava com licença.

Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz de fóra, e este mandou chamar á sua presença a mulher suspeita, e ouviu d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o juiz, e revelou ao collega as suas averiguações. Domingos Botelho foi a Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fóra, onde a senhora foi novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavallaria de Bragança.

A açoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda sombra, e apparencias de intenções sinistras.

--Eu sou pae de Manoel--disse Domingos Botelho--Sei a historia da senhora. O infame é elle. V. s.^a é a victima. O castigo da senhora principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que praticou uma acção indigna. Se a consciencia lh'o não disse ainda, ella lh'o dirá. D'onde é?

--Da ilha do Fayal--respondeu tremula a dama.

--Tem familia?

--Tenho mãe e irmãs.

--Sua mãe aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo?

--Creio que sim.

--Sabe que Manoel é um desertor, que a estas horas está prêso ou fugitivo?

--Não sabia...

--Quer isto dizer que a senhora não tem protecção de alguem.

A pobre mulher soluçava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas.

--Porque não vai para sua mãe?

--Não tenho recursos alguns--respondeu ella.

--Quer partir hoje mesmo? Á porta da estalagem encontrará uma liteira, e uma criada para acompanhal-a até ao Porto. Lá entregará uma carta. A pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sahir para os Açores. Estamos combinados? Aceita?

--E beijo as mãos de v. s.^a... Uma desgraçada como eu não podia esperar tanta caridade.

Poucas horas depois a esposa do medico....

--Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez!--exclama uma leitora sensivel.

Não, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a Universidade; e como tinha já vasta instrucção em pathologia, poupou-se á morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e á morte de paixão, que é outra morte inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então...[6] Pois o medico não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica.

A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:

«Déste-me noticia d'uma filha, que eu não conhecia, nem reconheço. A mãe d'esta senhora está no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr com a passagem d'ella para os Açores no primeiro navio. A mim me darás conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de não matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos, muito virtuoso é um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se consegues do general, que está ahi, perdão para o rapaz, que é desertor de cavallaria seis, e me consta que está escondido em casa de um parente. Em quanto a Simão, creio que não é possivel salval-o do degredo temporario... É uma lança em Africa livral-o da forca. Em Lisboa movem-se grandes potencias contra o desgraçado, e eu estou malvisto do intendente geral por abandonar o logar... etc.»

Partiu para Lisboa a açoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo de sua mãe, que a julgára morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa, socegada e desilludida de chimeras.

Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que, fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou á provincia.

VII.

João da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se á mesa com triste aspecto e nenhum appetite do almoço.

--Não comes, João?--disse-lhe a cunhada.

--Não passa d'aqui o bocado--respondeu elle, pondo o dedo nos gorgomilos.

--Que tens tu?

--Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quanto tenho para a vêr aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para sempre!... Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou morresse...

--Mas se tens saudades--atalhou a senhora Josefa--manda buscar a rapariga, tem-l'a cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor Simão.

--Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me deu hoje... Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: ámanhã vou ao Porto.

--Pois isso é o que tu deves fazer.

--Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.

Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto.

Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano.

--Ainda estás malucando?!--tornou Josefa.

--Parece coisa do demonio, mulher!... A rapariga estará doente ou morta?

--Anjo bento da Santíssima Trindade!--exclamou a cunhada, erguendo as mãos--que dizes tu, João!

--Estou cá por dentro negro como aquella sartã!

--Isso é flato, homem! vai tomar ar, trabalha um poucaxinho para espaireceres.

João da Cruz passou ao coberto onde tinha o armario da ferragem e a bigorna, e começou a atarracar cravos.

Alguns conhecidos tinham passado, palavreando com elle consoante costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graças.

--Que tens tu, João?--dizia um.

--Não tenho nada. Vai á tua vida, e deixa-me, que não estou para lérias.

Outro parava e dizia:

--Guarde-o Deus, senhor João.

--E a vocemecê tambem. Que novidade ha?

--Não sei nada.

--Pois então vá com nossa Senhora, que eu estou cá de candeias ás avessas.

O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos.

--Isto é coisa do diabo!--exclamou elle; e foi á cosinha procurar a pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões ethereas se aturde com absyntho--Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando a alma!--continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no soalho.

Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote á moda hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapéo derrubado sobre os olhos.

--Ora viva!--disse o passageiro.

--Viva!--respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas da mula, a vêr se tinha obra em que entreter o espirito--A mula é de ropia e chibança!

--Não é má. Vocemecê é que é o senhor João da Cruz?

--Para o servir.

--Venho aqui pagar-lhe uma divida.

--A mim? o senhor não me deve nada que eu saiba.

--Não sou eu que devo; é meu pae, e elle foi que me encarregou de lhe pagar.

--E quem é seu pae?

--Meu pae era um recoveiro de Garção, chamado Bento Machado.

Proferida metade d'estas palavras, o cavalleiro afastou rapidamente as bandas do capote, e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O ferido recuou, exclamando:

--Mataram-me!... Marianna, não te vejo mais!...

O assassino teria dado cincoenta passos a todo o galope da espantada mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o ultimo suspiro com a cara posta no chão, d'onde apontára ao peito do almocreve dez annos antes.

Os caminheiros, que perpassaram pelo cavalleiro inadvertidamente, ajuntaram-se em redor do cadaver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro e já não ouviu as ultimas palavras de seu cunhado. Quiz transportal-o para dentro, e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no ajuntamento, e declarou morto o homem.

--Quem o matou?--exclamavam trinta vozes a um tempo.

N'esse mesmo dia vieram justiças de Vizeu lavrar auto e devassar: nenhum indicio lhes deu o fio do mysterioso assassinio. O escrivão dos orphãos inventariou os objectos encontrados, e fechou as portas quando os sinos corriam o derradeiro dobre ao cahir da lousa sobre João da Cruz.

Deus terá descontado, nos instinctos sanguinarios do teu temperamento, a nobreza de tua alma! Pensando nas incoherencias da tua indole, homem que me explicas a providencia, assombra-me as caprichosas antítheses que a mão de Deus infunde em alentos na creatura. Dorme o teu somno infinito, se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e pelo uso que fizeste da tua. Mas se ha estancia de castigo e de misericordia, as lagrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz Supremo, os teus merecimentos.

Fez Josefa escrever a Marianna, noticiando-lhe a morte de seu pae, mas sobrescriptou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava Marianna no quarto do prêso, quando a carta lhe foi entregue.

--Não conheço a letra, Marianna... E a obreia é preta...

Marianna examinou o sobrescripto, e empallideceu.

--Eu conheço a letra--disse ella--é do Joaquim da loja.

--Abra depressa, senhor Simão... Meu pae morreria?

--Que lembrança! Pois não teve ha tres dias carta d'elle? E não lhe disse que estava bom?

--Isso que tem?... Veja quem assigna.

Simão buscou a assignatura, e disse:

--_Josefa Maria_... É sua tia que lhe escreve.

--Leia... leia... que diz ella?

O prêso lia mentalmente, e Marianna instou:

--Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer... e v. s.^a descora... que é, meu Deus?

Simão deixou cahir a carta, e sentou-se prostrado de animo. Marianna correu a levantar a carta, e elle, tomando-lhe a mão, murmurou:

--Pobre amigo!... choremol-o ambos... choremol-o, Marianna, que o amavamos como filhos...

--Pois morreu?--bradou ella.

--Morreu... mataram-no!...

A moça expediu um grito estridulo, e foi com o rosto contra os ferros das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura e vehemencia:

--Marianna, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as ultimas palavras de seu pae deviam ser a recommendar-lhe o desgraçado que recebe das suas mãos bemfeitoras o pão da vida. Marianna, minha querida irmã, vença a dôr que póde matal-a, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga da minha alma?

Marianna exclamou:

--Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a endoidecer!

--Que seria de mim!--atalhou Simão--A quem deixaria Marianna o seu nobre coração para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma palavra amiga que me animasse a crêr em Deus!... Não ha de enlouquecer, Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontará com coragem a maior desgraça, que ainda póde suggerir-me o inferno! Chore, minha irmã, chore; mas veja-me através das suas lagrimas!

VIII.

