Amor Crioulo vida argentina

Chapter 8

Chapter 83,596 wordsPublic domain

O ar, pesado e espêsso, impedia a visão clara, e era como se todo o espaço se houvesse diluido numa obliteradora meia-tinta, numa suja mucilagem que delia os contornos e comia o brilho às coisas; contudo, tanto quanto podia adivinhar-se das condições de desarolo e vida daquela planura intérmina, o âmbito dêste pôrto modelar era enorme e colossal o seu movimento. Um enxame, um delírio. Crescia grosso para o alto um como que resfolegar de opressão, a afirmação potente, a rebeldia sujeita de fortes energias represas, dessa floresta de chaminés fumarando, dêsse empilhamento marítimo de monstros de tôdas as idades, de máquinas de tôdas as formas, dimensões, feitios, côres, que latejavam e arfavam com veemência, ora premindo-se, ora evitando-se, em risco de se entrechocarem e que a limosa torrente do Plata no seu gigantesco dorso embalava brincando, docemente, por uma extensão sem termo e sem medida. Pela carcassa formidável dêste báratro de enormidades os homens, iluminados de escape, lidavam como formigas. Saltavam choques brunidos de metais do alto bôjo flamante dos grandes transatlânticos, havia roces de cremalheiras, roldanas, cordagens, quedas surdas de fardos, vozes agudas de comando, tangiam as sinetas de bordo, as sereias apitavam; na gorda pacificação do ar, saturado de maresia, sentia-se, a quando e quando, um chapinar de remos, batendo claro no intervalo dalgum trinado lamento de guitarra; e no fundo humilde de alcatroadas barcaças fumegavam, a um lume discreto, caldeiradas apetitosas. E agora já, com o avanço lento e crescente do paquete, aquele primeiro esfumado e negro bosquejo da cidade povoava-se, tomava volume, aclarava, definia-se a cada momento; aqui, alêm, bisbilhoteiras luzitas saltavam, riscando arruamentos, desvendando interiores, trémulas e brancas como estrêlas; ou eram os grandes rèclames luminosos que no seu relampaguear interesseiro chispavam súbito, como borboletas de fogo, estremando planos, talhando duras silhuetas na sombra e em manchas fortes como _gouaches_ lambendo os panos do muro; esbatidamente. E agora tambêm, a favor da molhada ressonância que lhe emprestava a proximidade das águas, vinham acariciar o ouvido atento do Silveira as sonoras trepidações da vida urbana,--o _tlim_ nervoso dos tranvias, o lento arrasto das carroças, o pregão dos vendedores de diários, o buzinar dos automóveis, o trapejar das oficinas.

Atracado ao cais o _Almeria_, e enquanto a marinhagem ajustava a _passerelle_ para o desembarque, João da Silveira buscava com afã em baixo, na multidão apinhoada cêrca, sob a _marquise_ monstro da aduana, a figura pequenina e viva do seu amigo Pedro Azeredo.--Um convicto monárquico tambêm, igualmente fidalgo, da linhagem seis vezes secular dos Azeredos, senhores de Penamacôr e redondezas, alferes de cavalaria ao tempo da revolução, e que naturalmente, incompatível com o salafrário regímen da Rèpública, seis meses havia que viera para a Argentina, com licença ilimitada.--Lá estava êle,--via-o agora!--plantado bem na frente, mesmo na orla do cais, e correndo a amurada com a mão em pala sôbre os olhos, ao alto erguidos. Soltaram um simultâneo brado de cordealidade alegre, ao reconhecerem-se; e o Silveira, tam pronto como pôde, desceu, rompendo em cunha a atropelada impaciência da grossa onda cosmopolita que jorrava de bordo. Um quente abraço, no cais, de efusiva ternura; logo o Silveira confia do corretor do hotel e tediosa revisão e entrega da bagagem; e breva saltam os dois para um automóvel, que, à indicação dada pelo Azeredo, partiu roncando.

--Então, como vais tu?...--rompeu êste, num claro riso, saltando e sacudindo a espalda ao amigo com a mão em leque, todo voltado para o recêm-vindo.

--E tu, meu alma do diabo?--acudiu vivaz o Silveira, fitando, confiado, o companheiro e premindo-lhe afável os joelhos.

--Menos mal, meu vélho. Ganha-se _plata_. Hei-de-te contar...--E com desdenhosa arrogância, atirando o palhinha para a nuca:--Bem melhor do que lá nessa pepineira de rèpública.

Mas o Silveira, que não cessava de mirar a um e outro lado, interessadamente:

--Parece-me uma grande cidade, esta?

--_Como no!_

--E bela, caramba!

--Grande, grande...--corrigiu com sentencioso ademan o Azeredo.--Sobretudo grande. Quanto a beleza, _hay que distinguir_.

Com efeito, o Silveira achava tendido sôbre aquela vastidão sem termo um como que mortiço pano de melancolia... Escasso movimento e pouca luz. Seria por motivo talvez do enfado da viagem, mas parecia-lhe aquilo triste.

O automóvel deixára a larga avenida marginal e subia agora uma pequena rampa, empedrada a paralelipípedos, sulcada de _rails_ e tomada a todo um lado por um maciço casarão banal, atijolado e de balcões em arcaria, de comesinho aspecto colonial, sem vôo, sem majestade.

O Azeredo aclarou:

--Aqui tens a chamada Casa do Govêrno... _La Casa Rosada_. Residência do Presidente e instalação de vários ministérios.

--Não vale o nosso Terreiro do Paço,--com impertinente fatuìdade o Silveira anotou.

--Foi feito noutra época, noutras condições. Não se comparam.

Seguia-se uma grande praça rectangular, definida pelas cimalhas caprichosas de imponentes palácios barôcos, e num dos extremos, longitudinalmente cortando-se, à direita, uma colunata helénica de templo.

--Ali é a Catedral, vês?--ciceronava entretanto o Azeredo.--Logo ao lado, a Municipalidade. Aqui à ilharga o _Banco de la Nación_, a Bôlsa. Tens pois aqui assim, logo por entrada, o coração, o índice político do país, o centro burocrático da cidade.

O vasto recinto, tirante as ruas periféricas, estava quase totalmente tomado por uma caótica profusão de materiais em osso, via-se coberto por um pejamento heteroclito e informe de linhas abstrusas, bárbaras, de coisas duras, cortantes, agressivas, sujas,--montes de saibro, caliça, areia, pilhas de beton, caixas de latão, barricas, vagonetes, vigas de ferro, cabrestantes, escadotes, carretas, arames em puas hostis, barracas de taipa, casotas de zinco, pastas de lama. E desta hirsuta barricada, ao centro, sôbre esta aluvião industrial monstruosa, de destroços de ruína e de tesas projecções suspensas, uma ingénua figurita, espécie de Palas, no vértice duma pirâmide de _confiture_, débil e só no espaço, assomava com tristeza.

--Tôda esta confusão é por causa das obras do ferrocarril subterrâneo,--tornou o Azeredo, solícito.--Como o _Metro_ de Paris... Ou melhor! muito melhor! Ah, indubitávelmente é um grande melhoramento.--E enquanto o automóvel rodava à esquerda, passada a Catedral:--Eu queria levar-te pela Avenida de Maio, a principal artéria da cidade; mas creio que não será possível.

--Tambêm anda em obras?

--Tambêm... em parte. Mas não é por isso. É que estava defeso, e muito bem, estender hoje o _côrso_ por aqui; mas, a despeito da proìbição municipal, a multidão agora à noite conseguiu invadir a Avenida e todo o campo é pouco para ela. Não ouves?...

Pelo ar gordo e parado montava e alastrava um grosso resbunar pagão, o relincho orgíaco da multidão em febre, avassalando, acanalhando o espaço, tomando e prostituindo tôdas as direcções, sobrepujando e sujando todos os ruídos. Havia um vago clamor sobrenadante, assobios, gritos, risadas, fanfúrrias desafinadas, canções estúrdias, e a espaços buzinava áspero pelo ar o trilo irritante das cornamusas de barro. Era a despedida foliona do Carnaval, retida com ardor, prolongada com delírio. Eram os últimos arrancos da bruta bambocha anual em que a essa fera travestida, que é o homem, se permite desdobrar à sôlta as suas inclinações e regressar à sua origem. Naquela noite dionisíaca, a pressão cálida do ambiente era engrossada pela onda impúdica dos desejos. Adivinhava-se a vulgaridade, a brutalidade, a volúpia sórdida, a fúria erótica, os grotescos desmandos do instinto plebeu, nesse asfixiante turbilhão animal, brigando, rugindo e tressuando. Como se por completo se houvessem delido tôda a luminosidade, todo o espiritual enlêvo, todo o fino ar, tôda a aristocrática leveza da magnífica cidade, paresiada neste momento por um espasmo vêsgo de loucura.

Na raíz mesmo da Avenida, ao fundo da praça, o automóvel teve que parar. Dois polícias a cavalo davam-se a pêrros para regular aquela desordem e facultar o trânsito aos veículos, positivamente bloqueados, na frente, pelo marulho compacto da multidão, nos flancos, pelo aprumo bisarmal dos prédios. Num ligeiro estremecimento de contrariedade, disse o Azeredo para o _chauffeur_:

--Bem, tome aí por Rivadavia e veja se pode dar a volta por Cerrito. Apeâmo-nos em seguida.--E, com ar enfastiado, para o amigo:--Aqui, o entrudo é o que tu vês: é uma coisa antipática, vulgar, uma festa do populacho.

Depois, quando o automóvel, desandando lentamente, conseguiu retomar caminho:

--Mas que mania foi essa de hotel?

--É o mais prático, meu filho.

--Bem: se chegasses aqui só, absolutamente sem conhecimentos, de acôrdo. Mas tendo-me a mim... Instalavas-te na minha pensão. Eu até falei à dona da casa... Estarias mais cómodo e mais barato. Como em família.

--São essas familiaridades que eu detesto, que eu temo,--objectou num instintivo horror o Silveira.

--Tonto! Ao contrário, é delicioso...--insistiu o Azeredo; e, saltando sempre, com o seu riso escarninho:--Há lá um matrimónio sério, provincianos _burgêssos_, que convidam tôda a gente a jogar o quino. Quando não há _plata_ p'ra gastar fora, compreendes, é excelente... Há mais duas francesas, muito reinadias, que tem a excentricidade de não receber visitas senão meia-noite passada. Há uma professora de _tango_, um estudantito de medicina, um caixeiro da _Ciudad de Londres_ ... e então uma _gaja_ chilena, menino!--aqui o Azeredo sublinhava o seu entusiasmo, mirando em alvo, com requebros lúbricos,--uma viúva, _morenucha_, gordota, com uns olhos assassinos que trespassam a gente!

--Atiras-te?

--Ela parece-me amável, isso é... Tem um filho que é um _pibe_ insuportável... Outro dia, com uma seta, de papel, ia-me vasando um ôlho. Ah, mas pelas celestiais delícias que se adivinham na mãe, aturam-se bem as diabruras do filho.

Prudencialmente, ao cabo duma pausa, João da Silveira mascou:

--Bem, tudo isso eu acho detestável... Quero estar independente, livre, absoluto senhor meu, entendes?--E como fazendo um exame de consciência:--Não que às vezes, sem querer, prendemo-nos, e é uma maçada depois para sacudir essas seresmas.

--Ora!--com um desdêm superior objectou o Azeredo.--A gente defende-se...--E voltando a insistir:--Vê lá, meu vélho, se preferes, anda. Ainda estás a tempo.

--Não, não... Prometo ir, mas de visita.

Uns minutos depois, junto a uma esquina, apeavam-se; e o Azeredo deixava o seu amigo no _Cecil Hotel_, onde lhe tomára alojamento. E, ao despedir-se:--que no dia seguinte não poderia vir logo de manhã, porque tinha o escritório; mas pela tarde, ás 4, viria buscá-lo para darem uma volta por Palermo e _fazer_ em seguida a _calle_ Florida.

--Vê lá não te constranjas...

--Qual! Se é o que eu faço habitualmente. É o _chic_...--E com o ôlho ladino:--_Noblesse oblige_.

--Bem, está direito. Depois jantas comigo.

Na manhã seguinte, o Silveira que dormira como um bispo, levantou-se bem cedo, banhou-se com deliciada pausa, e enquanto esperava o _desayuno_, foi abrir os dois largos batentes da porta do seu quarto, rasgada em balcão sôbre a rua. Era no último andar do hotel, a uma altura onde chegavam já mortiças num adormecimento lânguido as pulsações fortes do exterior.--Ele queria ver a cidade com ar de dia, no seu fresco aspecto matinal, no brio potente da sua vitalidade, erecta e liberta emfim das vagas figurações da sombra, daquele pesadelo de animalidade e desordem, da passada noite.--Saíu ao ar livre e avançou o busto com avidez, a mirar a extensa, a plena toalha de movimento, de vida e de luz que lhe oferecia, em baixo, o traço imponente da Avenida de Maio. Era um golpe de vista bem digno duma grande metrópole, não havia dúvida, essa formosa e ampla linha correndo dum jacto, inflexívelmente, limpa e direita, da pirâmide rudimentar da Praça de Maio à esbelta cúpula monumental do Palácio do Congresso. E esbeltos eram por igual os opulentos prédios marginais, caprichosos, brincados de formas, atirados com arrogância para o espaço: Traziam-lhe reminiscências de Paris na sua _patine_ cinzenta e monótona, nos seus rendados balcões floridos: e de Paris eram tambêm a atmosfera velada, o asfalto luzidío, o ar discreto, as filas de mesitas redondas acaparadas sob os tôldos dos _cafés_ e _restaurants_, a entestarem, numa disciplina idílica perfeita, com os renques de plátanos muito escovados, tosquiados com simetria e alinhados marcialmente ao longo dos passeios.

Contudo, abrangida daquela altura, a magnificente artéria resultava estreita em relação com o vôo possante, com as maciças dimensões da casaria; das franças das árvores, dos postes telefónicos, dos colunelos da luz eléctrica, de tôdas as arestas, de todos os ângulos, de tôdas as curvas e ressaltos daquela floresta arquitectónica, restos ignóbeis de serpentinas pendiam esfarrapados, tremulando ao vento; e aqui tambêm, a intervalos, tomando por vezes a extensão de quarteirões inteiros, voltava o Silveira a ver com desgôsto o mesmo pejamento industrial com que, durante o seu breve percurso, esbarrára na véspera,--havia trechos largos de calçada esventrados de lés a lés, fundidos em abismos de tréva, rasgados e cavados em boqueirões hiantes, como chagas, que geométricas vedações de zinco ondulado debruavam, polvilhadas de purulências de cisco, escoradas por eczemas de barro, e de cujo negro ventre revôlto subia incessante um bater ciclópico de picaretas e ferragens, na mais irritante dissonância com a gritada fúria dos pregões, o compassado chouto das tipóias, todo êsse marulho vago das ruas. Pelo ladrilho pardo dos amplos passeios marginais farandunava uma peonagem atarefada e compacta, de tôdas as origens, de tôdas as idades, feitios, tamanhos, côres,--o mostruário ofegante do universo, o resíduo aventureiro de tôdas as raças, sôbre cujo movediço plasma, salvando a onda banal dos jaquetões e dos chapéus de palha, se afirmavam, aqui e ali, exóticamente, figuritas nervosas e amarelas de _nipons_, o tudesco sólido e arrogante, _képis_, turbantes, chimarras, _ponchos_; grupos de homens espadaúdos e arremangados, de avental, a cabeça de boina e o grosso artelho nu sob o farto _calcetin branco_; tipos refeitos de mulheres de aspecto arisco, o rosto acobreado e extático, a saia muito farta tecida em tons berrantes, e descido o cabelo esfíngicamente, à frente das orelhas, em duas tranças negras. Correndo a parte central da Avenida que se mantinha viável, pelas suas porções livres, uma dupla fila de côches e automóveis subia, e outra descia, infindáveis, incessantes, sem claros e sem trégua, aglomerados e suspensos por vezes, em nódos de embaraço, ao cruzarem as ruas transversais, donde perpendicularmente golfavam a jôrro mais automóveis, mais côches, mais ciclistas, mais cavaleiros, mais pregões, tôda a ordem de obstáculos, na sua invasão resfolegante engrossados ainda pelo pesado tropear das galeras, dos _camions_, das carroças e tranvias. E desta forte trepidação material e espêsso escoamento, o fluxo e refluxo interminável, era regulado, às esquinas, numa sorte de automatismo consciente, pelo bastão vigilante dos polícias.

O comedor do hotel era na _planta baja_, furtado às vistas do público por brancas e discretas _brise-bise_, mas invadido em cheio pelo marulho atroador da rua. Tudo isto estimulava mais e mais a espertinada atenção do Silveira, que, apenas findou de almoçar, subiu a tomar a bengala, o chapéu e as luvas; e num momento aí o temos no pequeno vestíbulo outra vez esperando que o porteiro lhe tomasse um _taxi_, onde a asa pitoresca do movimento lhe acalmasse a actividade e lhe désse pasto ao interêsse. Não tinha fim determinado. Queria ir dar uma volta de aventura, ao acaso, puramente ao arbítrio do _chauffeur_ e ao sabor do imprevisto. Mesmo que outra coisa podia êle querer, por agora, não conhecendo nada da cidade?... Apenas recomendou à silhueta automática do condutor, que, de mãos ao leme, sem olhar aguardava indiferente,--que não queria estar a parar constantemente... e então que fôsse por onde houvesse menos confusão, menos movimento.

O vélho _auto_ partiu logo, tomando a oeste, e pronto desembocou numa praça amplíssima, desbordante de luz, num aceio irrepreensível as suas largas avenidas de asfalto reluzente, e orlada apenas, como que provisóriamente, de casitas abarracadas e construções mesquinhas, na cimalha _tape à l'oeil_ duma das quais, espécie de mercenário frontespício de instalação de feira, mugia a toada populacheira e aldeã dum realejo. A todo o fundo, desdobrava-se e crescia majestoso para o alto, no seu deslumbramento marmóreo, o Palácio monumental do Congresso, vaidoso e lindo no estadeamento olímpico das suas colunatas, nos seus astragalos e florões clássicos, nos seus génios de bronze, nos seus grupos alegóricos, na linha puríssima e alada da sua cúpula sem par, traçando suavemente, na mansa tela lilás do céu, uma grande parábola de arrogância e de sonho. Entretanto, e apesar da nobre e empolgante linha geral do seu conjunto, esta mole colossal, erguida ali, não suportava a vastidão da perspectiva, sentia-se esmagada pela imensidade absorvente do recinto. E êste aparecia-nos tambêm inexoravelmente tomado pela mesma grossa e incómoda farfalha industrial que, parecia, aqui avassalava tudo; por tôda a sorte de vedações, de máquinas, de materiais, de esboços de construção e montes de escórias. Uma como que subversão de terremoto se produzira, ao centro, protuberado horrivelmente de pequenos Atlas de ferro e aço, de Himalaias de cascabulho, de Jungfraus de lama. Apenas, neste estrangulamento de sórdidas durezas, algum triste e anémico trecho do relvado, mais resistente, conseguia oferecer ainda uma acariciadora mancha de frescura; e num dêsses perdidos oásis de plácida harmonia debuxava-se, solitário e nostálgico, o bronze do atlético _Penseur_, de Rodin, na sua acefalía paradoxal, na sua absurda corpulência. O mesmo edifício do Congresso, que o Silveira deixára agora à sua esquerda, estava por concluir, com o poderoso flanco sem epiderme, amparado em andaimes, esperando o revestimento para as arestas descarnadas e o tijolo ennegrecido.

Internou-se a seguir o automóvel por uma rua espaçosa e clara, espécie de _boulevard_, no seu arranjo cuidado e simétrico, na sua dupla fiada de árvores, no delírio policromo das taboletas, nas artísticas vidreiras, na sua vida sussurrante. Alongava-se a perder de vista, e na sua orla barulhenta as _étalages_ comerciais e os tôldos dos _restaurants_ sucediam-se e disputavam primazias em alternâncias coruscantes. No letreiro duma esquina, de corrida, o Silveira conseguiu lêr--_Rivadavia_; e então recordou que esta era talvez a principal artéria _porteña_, e decerto a mais extensa, a de maior tradição, como que a coluna vertebral da cidade. Depois, fortuìtamente e a intervalos, consoante o giro caprichoso do veículo, o Silveira deu-se conta de passar por uma rua Andes, cruzar aí com um grande edifício pesado e austero, meio hospital, meio academia; a seguir outros arruamentos, quáse iguais, todos com lacónicas designações,--Córdoba, Triunvirato, Santa-Fé, Las Heras, Montevideo... por fim já nem tomava tento por onde ia e abandonava-se, alheadamente, à incerteza voluptuosa do desconhecido. Mas eram sempre as mesmas ruas infindáveis, riscadas a cordel, invariávelmente chatas e implacávelmente direitas. Em vão se buscava neste taboleiro de xadrez colossal, a adoçar-lhe a hirta algidez sem termo, o desafôgo verde e livre dum _square_, o perfume sorridente dum jardim, um refúgio amigo de sombra, a carícia duma curva, o boleamento duma colina. De onde a onde, algumas tacanhas _plazuelas_ se riscavam, é certo, porêm submetidas por igual à mesma implacável esquadria, como que incrustadas na massa barrenta dos prédios, e na sua tímida penumbra alimentando uma flora de claustro, recolhida e triste. E por tôda a parte tambêm, mais ou menos, o mesmo pejamento de coisas tôscas e informes, o mesmo prurido desconcertante de renovação: ou era a calçada, esburacada em longos trechos e o trânsito impossibilitado pela aglomeração impertinente de paralelipípedos, em monte, de tubagens em linha, de rolos de cabos, de maçaricos, paz, alviões, lanternas; ou eram os primeiros ensaios de _rascacielos_, com seu rodapé de tapumes lambusados de cartazes irritantes e aprumando hirsutos no vácuo os seus esqueletos de tijolo e de ferro.--Uma cidade colhida em gestação flagrante, sacudida num estremeção apoplético de vida, onde tudo estava por fazer, onde nada se concluíra ainda. No seu subsolo esfarrapado e arfante, sob a sua carapaça movediça e áspera como o dôrso dum monstro antediluviano, bravejava uma caudal fremente de energias, reacionava no mistério a química formidável dos interesses e a impetuosidade brutal dos instintos. Nada quieto, nada seguro, nada inerte. Havia um eterno ponto de interrogação suspenso sôbre o seu arranjo definitivo, não se atinava com o termo a esta sua cavalgada frenética na conquista delirante do progresso e da fortuna.

Em contraste aberto com os populosos aglomerados das grandes capitais europeias, aqui em Buenos-Aires as casas, de frente angosta e profundamente esticadas, não tinham, pelo geral, mais que o andar térreo. A lisura convidativa da _pampa_, deserta e sem obstáculos, incitava a esta expansão libérrima, o que explica que Buenos-Aires abranja hoje uma área superior à de Londres. Alêm disso, como o valor da terra nas zonas de vida mais intensa sóbe vertiginosamente, por isso tambêm, na economia do seu lógico desdobramento, as sucessivas construções tendem a irradiar para a perifería, como os tentáculos dum aracnídeo colossal, neste seu denso rastejamento sem freio e sem medida. À proporção que se distanceiam do centro, as edificações apequenam-se, rustificam-se, vão gradualmente despindo o carácter urbano, solidarizam-se, confundem-se com a terra, e a sua construção é mais e mais simples, até descerem às combinações rudimentares do tijolo, da taipa e do adôbe. E não é fácil fixar o limite a êste encurralamento galopante para o Infinito.

O Silveira considerava com particular interêsse a fisionomia, tôda peculiar, das construções principais,--essas altas bisarmas que rompiam desamparadamente, aprumadas e esguias, do rasteiro cordão habitual da casaria, e que assim desdobravam no espaço livremente os seus flancos, não impenetravelmente murados, ao modo de Lisboa, como tumbas, porêm abertos e entremostrando a trechos a sua estrutura intestina, no escalonamento paralelo dos vários andares sobrepostos, e, em cada andar, na sucessão linear dos compartimentos, cujas portadas se entreviam superando, muito alinhadas, a aresta do parapeito discreto dos _pasillos_. Tambêm lhe chamou a atenção o decorativo luxo exterior, o rebuscado adôrno das fachadas. E êste vicio era geral; nos palácios mais opulentos como nas vivendas mais comesinhas, prevalecia e ressaltava inalterável uma indumenta excessiva da _pâtisserie_ italiana; em todos havia, um gongorismo de ornatos desbordante, uma ânsia eruptiva de contornos, um espolinhamento doido de torcicólos barôcos, de emblemas, de florões, de amorinhos, cariátides e quimeras. As paredes mais modestas não dispensavam alguma máscara de fauno ou uma lira entre malmequeres e rosas; mas eram sempre capas e capas de redundâncias sobrepostas, era um atropelado derroche de cimentos e argamassas que retinham a luz, que arranhavam o gôsto e varriam tôda a sobriedade e pureza de linhas. Não havia arquitectura, mas apenas _albañilería_.