Chapter 4
--Ora essa! São as migrações, são os embates dos povos, é a acção das latitudes, dos climas,--aclarou o vélho pedagogo com decisão, a fria pupila azul momentâneamente acesa.--Nada há aí de arbitrário. Tudo obedece ao jugo imutável de grandes leis de que ando perseguindo o segrêdo. São afinidades que se exteriorizam, são electrons étnicos que se expandem. E são êstes biológicos reagentes que lenta e fatalmente opéram o desdobramento das raízes primitivas em grupos progressivamente diferenciados, na _tessitura_ incomovível dos quais se vão manifestando e impondo então modismos e qualidades peculiares, que lá residiam já no estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o celta e o latim, entre o mosárabe e o português...--E aqui, enviando uma terna olhada ao Silveira:--É sôbre o que eu tenho que pedir bastante à sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.
O Silveira fez-se pálido e tartamudeou um vago assentimento.
Veio tirá-lo do embaraço uma cantante voz feminina, clara e virginal, que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francês, aventurou com meiguice:
--Poderias conceder-me um momento, papásinho?...--E logo, um pouco perturbada e dobrando-se, ao notar a assistência:--Ah, perdão... mas eu não queria desarranjá-los.
Perante a deslumbrante aparição, o Silveira pôs-se de salto em pé, aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em branco... Mas já o encadernado professor estava de pé tambêm e cortêsmente solicitava vénia para ausentar-se. Apresentou com simplicidade à filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe interpusera no caminho.--Era Iréne, a mais nova das duas... «A doutora da casa»,--sublinhou o pai com afável desvanecimento. E daí a instantes seguiam os três, fácilmente acamaradados, para a coberta de bombordo, onde o dr. Wimeyer, na sua experiência de vélho viajeiro e por ser êste o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a família. Aí estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de abandôno, a espôsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vélha, Dolores,--esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira, entre D. Catalina e Irene.--Que sorte!... nem de propósito...--E, trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o salão, a reatar a sua voluntária catequése interrompida.
O Silveira ficou então só e inteiro senhor do campo, na sua tam apetecida situação junto das três senhoras. Encareceu com lisonjeiro calor o seu inexprimível prazer de travar conhecimento com uma família _tout-à-fait distinguée_ como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se logo... Na mais amável solicitude, buscava pela louvaminha _à outrance_ insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingénuo, D. Catalina corroborava, explicava então,--que era argentina, aparentada ainda com os Alvear, uma das raras famílias de aristocracia autêntica que podiam contar-se no seu embrionário, no seu mesclado país de _chacareiros_ sem passado e adventícios sem escrúpulos. Regressavam duma viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.--E, a propósito, iam preguiçosamente arrastando êsse mais ou menos sabido travamento de vagos comentários, de estribilhos banais, tôda a sorte de frases feitas, sôbre os encantos de Paris, as maravilhas da Suíça, as preciosas coisas da Itália. Neste terreno fácil de consabidas baboseiras, o tacanho Silveira, que tinha viajado algo e não era de todo alheio ao francês, acompanhava as três senhoras lindamente. Mas, à medida que o diálogo aquecia, o espírito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um critério seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por vezes imprevistos. Discreteava com elevação sôbre coisas da arte e do espírito. Em tôda a Itália, nada a cativára tanto como Florença.--Que ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente lançado e superiormente belo.
--É certo. Até as mulheres...--arriscou, com instintivo acêrto, o Silveira.
--É a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradição espiritual. Da sua arte divina a mesma Natureza é tributária. É o coração do mundo!--epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua tímida reserva habitual, singelamente:--Mas tambêm, a propósito de arte, deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rápido estudo da arte europeia, não há duvida. Oh, mas é uma arte demasiado sábia, uma arte tôda facturada e etiquetada de antemão, um curso forçado de _savoir-faire_ em que os rasgos de génio são espontados como se castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a espontaneidade, que sómente o viço criador dos países novos poderá voltar a restituir-lhe.
--O quê! tu crês na possivel afirmação duma arte americana, _ché_?--acudiu a irmã de Irene, parando de lêr, num desdem incrédulo.
--Tanto como creio em Deus! É uma questão de tempo.
O Silveira prometeu-se interiormente consultar sôbre o caso o Mackenna. E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, côr, interêsse, e travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a presenciar o primeiro número dos jogos sportivos. E é de saber que entre os mais entusiastas e ligeiros _aficionados_ passou a pequenina e desmanchada figura de Ramón Alvarez, o qual, ao ver assim de súbito o Silveira já mano a mano com as três sechoras, teve um saltinho de angurú e fechou num piscar de olhos patusco a parópsia do seu espanto.
No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas, falou-se na variedade, na magnificência e beleza da paisagem europeia, na doirada opulência da sua luz, nas carícias infinitas do mar, nas perspectivas majestosas da montanha. Mas tambêm aqui a longa e espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o braço, sempre na mesma toada modesta e simples:
--Aí está outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a deslumbramentos e pontos de vista inéditos, hão-de-me permitir que discorde; porêm tenho minhas restrições a fazer.--E com a expressão sincera e calma, sob o olhar atento da assistência:--Eu não sei... talvez seja por efeito de haver nascido num país horrivelmente chato e monótono, mas a verdade é que no meu conceito a Natureza, ao contrário dessa apregoada opulência, dessa mirabolante fecundidade e viva sucessão de aspectos que tôda a gente lhe atribui, é duma indigência manifesta de iniciativa e invenção, não consegue renovar mais que os mesmos invariáveis _coups de théâtre_ e os mesmos cansados e gastos espectáculos, seja qual fôr a altitude ou o clima. Repete-se a cada passo.
D. Catalina, no íntimo desvanecida, julgou oportuno intervir:
--Lá volta esta minha filha às suas originalidades... Por mais que o pai a corrija...
--_Mamita!_ original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem observar por igual?
--Os outros, não!--objectou Dolores, com mal contido azedume:--Eu pelo menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves alpinas e as escarpas sangrantes da Sicília.
Mas, na mesma dogmática singeleza, Irene, de mão estendida, fechando com o polegar o indicador e abatendo as pálpebras:
--Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o coração destroçado, essa corôa alvíssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O chamado esplendor do Mundo é tudo quanto há de mais convencional. Depende de nós... de nós exclusivamente. Êsse consagrado chavão do deslumbramento pagão das coisas não é, no fundo, mais que o espelho da nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.--A irmã e a mãe sorriam, com um ar incrédulo; e ela, persuasivamente:--É certo! Tal a sensibilidade no nosso íntimo braveja ou esplende, tal vemos de roda de nós a vida. São as mais das vezes as vibrações cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo êsse decantado brilho objectivo. É um esplendor de empréstimo. Sem nós não valeria nada.
--Está bem, está bem...--comentou D. Catarina, prolongando um risinho irónico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade.
De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e não sabendo que contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabeça, idiotamente.
Assim, à medida que o diálogo ganhava interêsse, ia-o Irene esmaltando de notas originais, de impressões verídicas e frescas que ela extraía e desdobrava do íntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue, espontâneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num atolondrado mutismo, por serem coisas impenetráveis à sua ignorância e inacessíveis ao seu critério. Entretanto, o seu temperamento sensual, agora, acobardava-se... sofria a influência transcendente e dominadora daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferência para êle, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amáveis paradoxos, sempre com a mesma voz límpida e virginal, em frases breves como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas mãos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era como se na espiritualização crescente das frases e dos conceitos a sua indumenta animal gradualmente se fundisse. Tôda a impressão de matéria desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lábios eram tintas de emoção, os seus braços eram volutas de sonho; e um nimbo de harmonia dulcíssima emanava, como um fluído mágico, de todo o seu atenuado ser, simples e tranqùilo. Não obstante, junto dela o coração do Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia mais apressado.
Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do crepúsculo começaram a abater sôbre o barco o seu véu de tristeza, D. Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vénia para retirarem-se.--Aproximava-se a hora de comer.--Houve uma afectuosa saùdação de despedida,--para Irene a última,--e depois o Silveira, imóvel e em pé no mesmo logar à medida como ia vendo esta fina, longa e clara figura esfumar-se na luz fugacíssima da tarde e delir-se na distância, tinha a ilusão de que ela não era mais do que uma pura abstracção, imaterial, intangível, como êle se lembrava de ter uma vez lido de Pierrot,--que nascera da projecção de um raio de luar sôbre um muro branco...
Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volúpia dum vago e alado sonho, erguido nas espírulas de oiro dum alheamento alto e inefável. A ablução espiritual daquele curto diálogo com Irene afinára-lhe o sentir, infiltrára-se nas mais nobres e puras radículas do seu ser, e como que alimpára por momentos a sua alma fruste das escórias brutais do instinto. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que o _Almeria_ ralentára a marcha, e que lhe montava ao coração e lhe toldava o cérebro o que quer que fôsse de opressivo e cálido. Ganhava-o a depressiva molenta do aproximar dos trópicos. Pela ventanilha, mesmo da cama, olhou ao largo e viu que barrava cêrca o horizonte uma espécie de ciclópico muro negro. Era o arquipélago de Cabo-Verde,--recordou. Lentamente, com uma delidora quebreira nos músculos dormentes, reagiu, ergueu-se.--Em cima, na tolda, não havia sol, e a luz diluia-se em grisáceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado da neblina, cortada como era por êsse formidável circuìto de montanhas áridas e a prumo, escalando sinistramente o espaço. Não se divisava em tôda esta imponente massa, de ruína e de sombra, uma nota clara, um cântico de luz, uma choupana, um rebanho, uma árvore, qualquer perdido _oasis_ de frescura e de repouso. Era o repúdio formal da Natureza. Dentro dêste revôlto anfiteatro de maldição e de treva, o mar, fundo, plácido, dum tom uniforme de pêz com espelhamentos lívidos, parecia amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa paralização dum cataclismo. E tudo falava de desolação e de morte neste atormentado pórtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada, paìsagem de pesadelo tôda em pontas ásperas e hostis, em escarpas que davam vertigens, em agulhas topetando o céu, em rampas escalavradas e adustas; terra de abominação onde a vida parára por completo... arestas sôbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trágica insensibilidade o mar, com os seus mansos rolos, buscava em vão comover, mandando-lhe o acariciamento deslumbrante das suas franças de espuma.
Mal tinha o barco lançado ferro e já era simultâneamente invadido, a bombordo e a estibordo, por um duplo cordão de negros,--puros bronzes vivos,--ágeis, luzentes, hercúleos, a maior parte vestidos apenas dum pó ainda mais negro do que êles, e que trepavam lestos à amurada ou marinhavam pelas cordas como símeos, para deixar-se escorregar depois sôbre as várias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecável marfim dos dentes. Eram os carregadores de carvão que acudiam à faina. Porêm, seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-número de pequeninas embarcações rodeando, em baixo, o vapor, um outro impúdico enxame de simiescos truões agora surdia, igualmente ágeis e negros, igualmente nus, mas êstes na maior parte ainda impúberes, limpos e de formas delgadas, desdobrando na sua exótica invasão adoráveis linhas de graça gentílica,--e todos na vibrante impaciência de disputar pelo mergulho a caça das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam, por divertir-se. Uns da casca frágil dos botes, outros pelas enxárcias e mastaréus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava sôfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura, erguendo os joelhos, batendo as mãos, desmanchadas nas mais inverosímeis atitudes, zurrando tôda a classe de ruídos bárbaros; depois, quando a tentadora rodelita de prata ou de oiro traçava o seu meteórico brilho pelo espaço, êles atiravam-se a nado, de braços em ponta, como flechas, havia um abundante chapinhar nas águas, e daí a segundos um dêles reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho triunfante.
Com tôda a sua abominável selvajeria, o espectáculo tinha um impressionante sabor pagão a que o Silveira não pôde manter-se alheio. Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estímulo daquele torneio brutal de agilidade e de fôrça; e apenas, uma que outra vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em tôrno, tomado por ela dum instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato por aquela impudente exibição animal se sentiria ofendido.
Nem ela, nem ninguêm dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira descortinou porêm, não sem uma certa surprêsa, gozando muito compadres aquele _sport_ bárbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenções no mais escuso ângulo da ré, em cima, sôbre a última coberta.
Um vélho negro, derreado e esquelético, se lhe acercou entretanto, ofertando produtos da indústria rudimentar do país: colares, anéis e broches de coral, saquitos de junco, bôlsas de sementes luzidías e duras como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de corais, de pedras polidas, de caroços de plantas indígenas e gomas aromáticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num galimatias gutural todo em monossílabos, adulteração burda do português, cortada, áspera, intraduzível. De roda, uns tantos mais mercadores mendigos, como êste, circulavam tambêm, oferecendo laranjas, bananas, côcos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam suavemente comover a esquiva indiferença dos clientes, em gestos não isentos de docilidade, dobravam-se tímidos, humildes, e apenas se lhes traía a braveza inculta da condição no ávido dilatar das chatas narinas, na escrutadora dureza do olhar astuto.
Entretanto, por efeito do transbôrdo do carvão, ganhava mais e mais a imobilidade gorda do ar um pó negro finíssimo, imponderável, que tudo inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa fuliginosa do seu irresistível poder emporcalhante, não havia brilho que êle não apagasse, não havia limpa claridade que êle não pontilhasse de sombra. Então o Silveira, que começava a ver o seu rico fatinho claro salpicado e mordido de minúsculas lâminas negras, como coleopteros daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximação de Helena e do marquês, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salão, seguindo o exemplo do maior número. Mas aí logo, do canto duma mesa, o pequenino Ramón Alvarez a chamá-lo em grandes gestos, com uma intimativa insistente, quáse aflita.--Queria em primeiro logar felicitá-lo... Que bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Júlio César... Maganão!--Depois, ao notar a expressão de desagrado do Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez aflito:--Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo demónio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E êle, embaraçado na escolha, não sabia bem por que decidir-se...
--Tenho aqui tantas, tantas coisas!
E estrangulava nas mãos nodosas a cabeça descomunal, nesta hora crítica por fôrça ardendo em plena gestação de baboseiras.
Daí a umas horas, no _bar_, juntavam-se os parceiros habituais do _bridge_, faltando apenas o marquês, que num estranhável desmentido à sua habitual correcção, já ia tardando. Faltava tambêm _M._^{me} d'Ellery, e o seu imprescindível assessor, o vélho bonzo, fazia maçaneta com as mãos sôbre o paninho verde e franzia a bôca exangue, em mal reprimidos sinais de impaciência.
Então, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um risinho cheio de reticências, cujo significado exacto êste não podia apreender, perguntou-lhe «como ia a coisa?» E logo, todo jactancioso, o outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura...
O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na conversa, tossicou, amolou, coçou as barbas, incrédulo. E, com ar ofendido, o chileno:
--Parece que o amigo duvida?
--É que o vejo tornar as coisas fáceis... Não se caminha assim. Devagar, devagar... Entre o pensar e o fazer, _hay que tomar el tranvia_.
--Se queria apostar?
Porêm o Silveira, que tinha dançando-lhe pícaramente diante dos olhos o inopinado grupo do tópe da ré, naquela manhã, encolheu os ombros numa ironia mansa:
--Eu já não digo nada...
Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar terra firme. Uma larguíssima sucessão de horas, sempre as mesmas, que seriam vividas inevitávelmente sôbre a cálida opressão daquela atmosfera pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre o proceloso encapotamento do céu e a opacidade revôlta das águas. Então, tôda esta grande família que o acaso improvisára ali, sôbre o piso encerado das várias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a anestesia morna do tédio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada momento pretextos novos de aproximação, lances de mútua intimidade; teciam-se correntes súbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de galanteios, atenções, franquezas; concertavam-se negócios e associavam-se interêsses;--como se no precário âmbito daquela enorme jaula ambulante êles constituissem um universo novo, como se dentro dêsse frágil circuìto de madeira e aço coubessem tôdas as suas preocupações, planos, sonhos, febres, ambições, desejos... o concêrto do seu futuro e a incógnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a irresistível sugestão dêste acercamento crescente de relações e intimidades, o Silveira teve ocasião de notar que as senhoras Wimeyer, coerentes e imutáveis na sua linha de inviolada isenção, não se davam senão com êle.
_Mrs._ Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade senhoril, andava agora tôda entregue à divertida seriação dos jogos. O ardente sôpro panteísta da desgarrada vida de bordo acendêra-lhe a repousada candura infantil em espontâneos ímpetos; e a cada passo ela vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de membro do _Committee_, sôbre horas, datas e mais circunstâncias e pormenores, que a redonda ignorância do interpelado tinha que deixar invariávelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos chistes e coquetonas burlas, a que servia de intérprete a complacência cínica do marido.--Estranhava realmente não o ver inscrito em nenhum dos números do Programa. Já não dizia, em suma, no _Passo entre as garrafas_ ou na _Luta dos travesseiros_, que requeriam predicados especiais de agilidade e de fôrça; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na _Corrida das batatas_, tam fácil... ou então no _Combate dos galos_.--Ao desenho grotesco desta idea, tôda a patrícia figura da irlandesa estremeceu num júbilo: e arrebatadamente, batendo as mãos:
--Ah, sim! sim! aí está... Queria vê-lo de galo... Seria tam interessante!
Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela então, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de promessas:
--Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no _Enfiar da agulha_. É fino! é lindo!
E com um risinho provocador a erguer-lhe a púrpura sensual dos lábios:--Que fôsse, que fôsse... que ela lhe procuraria a vitória.