Chapter 3
Dizendo, o desengonçado Ramón exagerava a sua abominável aparência fetal, ao erguer-se, todo dobrado, sôbre a mesa, para corresponder às provocadoras saùdações que, passando, a rapariga lhe fazia com a cabeça, com os olhos, com o leque, com as mãos, batendo forte o tacão, bolinando os quadrís lascivos. E quando a perturbadora visão se desvaneceu, êle, familiarmente:
--Prometi-lhe um soneto e neste momento mesmo o terminava. Quere ver?
Procurou, com a pupila febril, nas tiras sôltas, e erguendo uma por fim entre os dedos trémulos, leu então, enfáticamente, com cabotina audácia, como sua, o puro decalque duma das líricas mais inferiores de Manuel Palácio. Contára antecipadamente o seu instinto com a iletrada ignorância do Silveira, o qual, tomando naturalmente por original a cadenciada toadilha, em marretadas de admiração vislumbrava agora nas insondáveis cavernas cerebrais do Alvarez tubérculos autênticos de génio. Porêm já êste, num lume de vaidade, colhendo presto a papelada:
--O meu amigo perdoará... mas ocasiões destas não se podem perder. _La muchacha con seguridad_ espera-me. Está impaciente... _Hay que aprovechar, por Dios!_
E, arredando brusco a mesa, partiu de abalada, pequenino e torcido sob a aba descomunal do _panamá_, como um chaparro anémico.
Desapontado, o Silveira quedou-se uns segundos sentado ainda e imóvel, na sua atitude de irremediável lamecha, o busto abatido, as mãos pendendo tristes entre os joelhos. Depois, tendo enviado um derradeiro olhar de desconfortado apetite sôbre a espalda esquiva da linda argentina inabordável, ergueu-se e partiu tambêm, sacudidamente. Mal tinha dado a volta para estibordo, quando viu que a êle se dirigia o seu afável comensal, Euclides Pereira, ladeado por dois graves e idosos senhores, que deviam ser ingleses, a avaliar pelos cómicos desmanes em que êles buscavam amávelmente contrafazer a sua imperturbável e habitual tesura. O joven brasileiro apresentou:--_The Right Honorable the Earl of Horrowby_--_The Captain John Stayton_. Este segundo tartamudeou umas curtas frases guturais, que o Silveira não percebeu, lardeadas de profusas reverências; e o tenente Euclides explicou então que vinham pedir-lhe a honra de consentir em fazer parte do grande _Sports and Entertainment Committee_, e ao mesmo tempo convidá-lo a assistir à reùnião preparatória, que devia realizar-se, aquele dia mesmo, no salão de 1.^a--_the Social Hall_,--ás 9 p. m. Erguido e dobrado numa atitude de nobre aquiescência, o Silveira agradeceu, no íntimo envaidecido. E como que sentindo-se crescer, importante, alegre, seguiu com afectada indolência direito ao conde Améglio, que de longe observára e compreendera a scena, e por isso o acolhia agora entre atencioso e mordaz, num risinho de conformidade patusca.--Êle tinha adivinhado... muito bem! muito bem! Fizeram o que deviam fazer, era de esperar.--E todo em aprovativas mesuras:
--Sim senhor! muitos parabens.
--_Very, praiseworthy_,--completou _Mrs._ Edith, com o seu cândido sorriso. Mas, encolhendo, modesto, os ombros, o Silveira:
--Uma simples amabilidade. Nem eu esperava. Que valor pode isto ter?
--Ah, pois então não tem! Êles bem sabem a quem escolhem...--acentuou, lisonjeiro, o conde, com ar convicto; e maliceiramente rematou:--Olhe, a mim não me convidaram êles.
--Mas, é que o devem convidar!--corrigiu com amável intimativa o Silveira; e, num generoso assomo de importância:--Se o conde quere, logo à noite lembro o seu nome.
--Oh, não, não... por amor de Deus! Essas honras, aqui, não trazem senão incómodos e maçadas. Para o efeito, sou da plebe, prefiro que me considerem um anónimo, um zero. Não, não... Muito obrigado!
Trocaram depois uma meia dúzia de frases banais sôbre a monotonia da vida de bordo, a extensão fatigante da viagem, a vulgaridade chocante dos passageiros, a má comida, o calor, o belo tempo que fazia. O conde tinha no regaço um livro copioso,--_L'Argentine telle qu'elle est_, de Paulo Walle,--cuja leitura recomendou ao seu amigo; mas a êste interessava-o mais a silhueta ateniense, o abandôno repousado e lânguido da irlandesa,--sôbre a _armchair_, frente à luz, estendida longamente, com os pèsitos brancos traçados fóra, no ar, deixando a divina modelação da perna a descoberto bastante acima do artêlho, com uma cadência suave e tranqùila na ondulação rítmica do seio, os braços em ansa, as mãos inertes em concha sob a nuca, e os grandes olhos de veludo mirando vago, ao longe, reflectindo não sei que molhado encanto, da ardósia fluida das águas, e parecendo seguir o vôo dalguma quimérica visão na claridade material do espaço.
O toque para o _lunch_ veio cortar brusco êste primeiro ensaio de _flirt_, com o qual a alma oblíqua do conde não parecia aliás preocupar-se... Em baixo, à mesa, a conversação arrastou-se monótona, cortada e dispersa, como se cada um daqueles cinco fortuìtos comensais trouxesse agora por distintas e opostas coisas dividida a atenção e solicitado o espírito. Apenas, com familiar insistência, se falou dos próximos festejos, sendo o Silveira e o tenente Euclides felicitados cordialmente por fazerem parte do grande _Committee_ directivo; e tambêm o abstruso Mackenna se desatou num panegirismo entusiasta daquela aparatosa francesa cuja identificação moral e social trazia todos a bordo intrigados, graças à mirabolância equívoca das _toilettes_, e à suporífera mansidão e à consciência não menos letárgica do presumido marido.--Helena d'Ellery se chamava ela, já conseguira saber... mas, jurava! ainda havia de saber-lhe tambêm práticamente a biografia.--O flácido marquês di Mafiori teve um risinho enigmático, imperceptível; ao passo que, na sua libidinosa querença, o outro:
--É deliciosa! Tem o _chic_, o aperitivo acre do escândalo. _Hay que gustarla!!_
E na gulosa antecipação dêsse defeso prazer sonhado atacava furiosamente o pires das azeitonas.
A interminável sucessão da tarde arrastou-a o Silveira enfastiadamente, em grande parte pelo braço solícito do tenente Euclides, que não se cansava de o apresentar às numerosas famílias suas compatriotas. E assim andaram deambulando amávelmente de grupo para grupo, sem que o Silveira conseguisse dominar a impaciência e vencer o tédio. As jovens brasileiritas, algumas bem interessantes, com as suas meigas expansões e a sua vivacidade ingénua não logravam entretanto cativar-lhe o espírito, enleado teimosamente naquele obsessivo empenho de se aproximar da argentina; os homens, êsses sem maior atenção, mal trocadas as primeiras saùdações, logo reatavam o interesseiro diálogo interrompido, não falavam senão em cotações da borracha e do café, perseguiam miragens de fortunas fabulosas, desfiavam cálculos que davam vertigens, denunciavam burlas que pediam galés, antecipavam quebras iminentes, todos ávidamente engrenados no travamento egoista e brutal dos negócios, a que durante tôda a sua vida o Silveira, por temperamento e por educação, se mantivera sempre altivamente alheio. Nada disto o satisfazia, nada o interessava, nem por momentos o prendia sequer. Então, num dos seus vagos e atoados giros de bordo, atingiu o Silveira o têrmo da coberta, à prôa, mesmo sôbre o amontoamento heteroclito e sórdido dos seus vizinhos da _cabine_, em baixo, aquela pobre gente da 3.^a classe. No trecho luzidío e nu do convés que a projecção do grande tôldo _gris_ deixava a descoberto, êle viu que vários bigarrados e mansos grupos subiam e desciam ao acaso, num constante vaivêm, pelo sujo rasgão duma espécie de negra fossa, a um canto, e vinham em cima amadornar-se, plácidos todos e delidos como um sol de outono, todos na mesma calma resignada e humilde, apagados, doces, tranqùilos. Os homens, pelo geral, em camisola e arremangados, a cabeça nua, alguns descalços, estremavam-se segundo as afinidades de raça, e fumavam, assobiavam, rilhavam fruta, falavam tímida, espaçadamente, como que narcotizados por aquele embalo monótono da vida que, durante dias e dias, havia de baloiçá-los entre a água e o céu. Muitos, num confiado abandôno animal, dormiam. As mulheres, acocoradas, remendavam-se, preparavam tisanas, amamentavam os filhitos de colo ou catavam os mais crescidos. Numa clareira de escasso prazer, ao centro, e de roda do mesmo incansável e folgazão _harmonium_, passava numa tropeada cantante um círculo folião, dançando,--cujas atitudes pagãs uma loira e delgada _touriste_ ia esquissando a correr no seu _carnet_, deliciadamente. E o Silveira fazia a aproximação mental desta suave chusma humana, na sua conformidade evangélica, na sua inconsciência fatalista, na sua plácida singeleza e passiva sujeição ao destino, com os gestos duros, a pupila metalizada, a frase breve e a sôfrega ardência dos seus insatisfeitos companheiros de 1.^a... e achava aqueles mais felizes.
Tocava o sol o ocaso, e o Silveira como que via agora, de roda de si, a uma outra luz, os homens e as coisas, cujos contornos se debuxavam numa agonia de tôda a sua vida exterior, acendidos em tons violentos num esfumaçado fundo de tristeza. Encarou numa instintiva interrogação o céu e surpreendeu, no seu desdobramento esfusiante, êsse maravilhoso e deslumbrante scenário cuja amplidão magnificente tanto lhe haviam encarecido.--Era com efeito uma imensa, uma transcendente e apoteótica sarabanda de luz, que mais que aos olhos lhe falava à alma, e que em parte nenhuma como ali, em pleno oceano, podia abranger-se íntegra na sua avassaladora majestade, na sua incomparável beleza, tomando totalmente meio céu, descendo suavemente do frio azul mineral do zénite a um loiro cálido de paixão, para depois, à raíz do mar, inflamar-se em _sanguíneas_ vigorosas, esbrasear-se em línguas de incêndio. Na difusão ofuscante desta auréola de sonho, as _walkirias_ fantásticas de nuvens, encapeladas cêrca do horizonte, debruadas por aquela gama infinita de côres, facetadas nas mais atormentadas e imprevistas formas do relêvo, tinham movimento, tomavam volume, intenção, vida, alma, carácter, improvisavam grupos que eram símbolos, formavam cruas oposições, saltavam em rondas caprichosas; e por fim tôda essa manante claridade sideral despenhava-se, como um Niagara de oiro, macia, translúcida, impecável, sôbre a imensa alfombra rútila das águas. Aí, na linha molhada do horizonte, o mar era fogo líquido, e nesta enorme brasa, crespa e fluída, a granada quáse extinta do sol estrelava-se ainda para o alto num imenso leque de violeta e oiro, que a algodoada capela das nuvens contornava, e cujas últimas trepidações vinham, crepitantes e dispersas, morrer pelas silhuetas errantes, pelas escaiolas claras, pelas arestas vivas do navio arfando... ao passo que já, pelo diáfano e desbotado azul da metade oposta do céu, da penumbra vaga do oriente, o plácido véu da noite vinha subindo.--Era tôda uma revelação esta soberba e inimaginável orquestração aérea de aspectos, de formas e de tintas; convertia num absurdo a impassibilidade tradicional do céu, fazia-nos crêr na clássica sublimidade da vida olímpica dos deuses, dava-nos como que a sensação viva do Infinito.
Seguia o Silveira desta hora doce e imensa a magia incomparável, quando sentiu um toque familiar no ombro, que o fez estremecer. Era o pomposo Norberto Mackenna, que com um gesto alto e desdenhoso:
--Então, que faz aqui assim, tam só, meu caro?... Admirando o pôr do sol, não é verdade?
--É lindo!
--_Ya lo creo_.
--É maravilhoso!
Mas, num rebarbativo freio a êste entusiasmo ingénuo, o joven chileno:
--Sim, é bonito, é... mórmente para quem o contempla pela primeira vez. Mas não nos podemos ficar por aqui!--E ante a muda interrogação do Silveira, com infatuado ar, esclarecia:--Ora! Nas minhas primeiras viagens, fartei-me de fixar colisões de côres como estas; mas não passavam de cópias servís, hoje não lhes atribuo importância nenhuma.--Plantava-se com intimativo vigor diante do Silveira, que começava a imaginá-lo maluco.--Porque isto de pintura, meu caro amigo, tem que progredir, como tudo o mais; tem que radicalmente mudar de processos, entende-me?... Os valores éticos e estéticos actuais são uma lástima... adstritos como ainda andam à passividade idiota e servil de gastas formas milenárias. Temos que fazer mais do que ficar-nos a objectivar interminavelmente as vélhas concepções convencionais da beleza e do amor. _Hay que poner patas arriba_ a tôdas essas fórmulas mesquinhas. Oh, seguramente Picasso, Boccioni, Metzinger, Matisse, estão na razão! Há que derribar por completo, que arrancar pela raíz tôda essa floresta vazia e pedante do Passado. Pois se nós temos de roda de nós, flagrante, inexplorada, imensa, uma nova maneira de criar e de sentir... Temos que renovar ao mesmo tempo o instrumento e a música.--E movendo desordenado a cabeça, os nervosos dedos arranhando inspiradamente o espaço, a grenha revôlta ao vento:--Há que fixar o movimento, a velocidade, a conquista do espaço, o delírio da carreira, a embriaguez do vôo, as palpitações do éter e as vibrações anímicas, todo êste travamento volátil e febril da vida, tôdas as grandes conquistas arrancadas últimamente pelo génio humano à Natureza inerte e hostil... Não lhe parece?
--Sim, acho que sim...--aventurou maquinalmente o Silveira, que o escutava indiferente, sem perceber nada, como quem ouve chover.
Entretanto, diante do seu olhar deslumbrado e absorto, e como um eterno protesto à vacuìdade insolente daquelas palavras, continuava a desenrolar-se a beleza perenal dessa agonia de luz dulcíssima, salpicando de brilhos fugazes a capela rasteira das nuvens, que como que se abriam agora em magnólias, hortênsias, lótos, orquídeas e outras flores maravilhosas, semelhando um imenso fogo de artifício imobilizado, no seu fulvo esplendor e no seu rasgo alado.
Breves horas depois, no _Social Hall_, a prefixada reùnião do _Committee_ directivo de _sports_ e festas decorreu serena e rápidamente. Para ganhar tempo e facilitar trabalho, o secretário leu um programa de diversões já préviamente elaborado, o qual foi aprovado sem discrepância. Procedendo-se em seguida à distribuìção das respectivas funções pelos membros do _Committee_, João da Silveira veio a saber, com verdadeiro regosijo, que não lhe competia mais do que o encargo de fazer entre os seus compatriotas de bordo a _quête_ voluntária para as despesas.--E que não se aceitavam donativos superiores a uma libra.--Por outro lado, a tarefa era-lhe um tanto ou quanto fastidiosa. De portugueses, a bordo, o Silveira não se dava conta de mais que alguns, poucos, pequenos proprietários e comerciantes, seguramente republiqueiros... bastava vê-los. Não lhe era nada agradável tratar com essa ordem de gente. Mas, em suma, por uma vez e como eram poucos, a coisa resultava fácil, afinal. Era um alívio!
Daí a pouco, sôbre uma das mesitas do _smoking-room_, iniciava êle o seu trabalho, passando ao papel os nomes daqueles que já conhecia, quando súbito se lhe interpõe arreliativamente à luz a figura abundosa e afável do dr. Contreras.--Não sabia se vinha _molestarlo_...--Tinha um risinho solícito, de pretendente, ao explicar:--Êle estava cêrca, ali assim, vendo jogar, quando deu conta dêle.--E apontava uma mesa de _brigde_, em que eram parceiros o Mafiori, o Mackenna, um inglês engelhado e esguio como um arenque sêco, e aquele misterioso e derrancado acólito de _M._^{me} d'Ellery, a qual, complacente, se lhe sentava ao lado, de perna traçada e fumando, num à vontade petulante. O Contreras continuou:--Estava vendo jogar, por ver... Não que fôsse _aficionado_. _Más bien le gustaba_ tratar com as pessoas de verdadeira distinção. Oh, sem favor nenhum! Por isso tomára aquele atrevimento.
E levemente incrédulo, dobrando-se para o Silveira, com o olhar astuto:
--_Es usted republicano_?
O Silveira teve um gesto solene de protesto. E servilmente o outro:
--Ora! via-se logo... Podia lá lêr por semelhante cartilha _un caballero_ tam distinto! Eu, que sou eu, p'r'aqui um pobre _come-meajas_, e com republicanos tambêm nunca quis nada. _No parto buenas migas con ellos_. Gente sem modos, sem educação... Nem a rèpública, meu caro sr., é para nós.--Dogmáticamente confirmava, arregalando os olhos:--Veja o que ela durou em Espanha!--E, com dulcerosa expressão, batendo a espalda do Silveira:--Pois, meu caro amigo, faço votos para que êsse grande dia da restauração lhes venha breve.
O Silveira poisára a pena e erguera uns grandes olhos de esperança para o generoso interlocutor, seguro senhor agora da sua grata simpatia, e que com abandôno familiar, sentando-se:
--Diga-me, meu amigo... êle a rèpública portuguesa sempre suprimiu as condecorações?
--Suprimiu tudo!
--_Es lástima_...--comentou, de pálpebra murcha, o Contreras; e depois duma pausa, coçando a barba, tímidamente:--Eu muito gostava de ter uma condecoração portuguesa!
--Sim? Pois deixe estar, que quando a coisa volte...
--_De seguro_, promete?
--Alcanço-lhe uma... a Conceição, por exemplo. Palavra!
--Ah, que agradecido eu lhe ficarei!--lamuriou o Contreras, enternecido, de mãos erguidas.--_En cambio_ tambêm prometo fazer-lhe _un regalo, un regalo precioso_...
Achegou-se e com afável intimativa, muito em segrêdo:--Dou-lhe uma das carabinas apreendidas aos monarquistas portugueses, de que me fez presente _el alcalde_ de Vigo, grande amigo meu... É uma carabina autêntica de Toledo, como aquelas que os jornais disseram que o govêrno espanhol havia vendido para o Paraguay...--Aqui ria grossamente, mostrando a rala devastação dos dentes:--Para o Paraguay, hein... Não foi má _broma_ essa!
E outra vez sério, e com um encarecimento hipócrita, premindo o pulso ao Silveira:
--Uma preciosidade, uma verdadeira peça de museu... Era do Paiva Couceiro.
III
Na manhã seguinte, ao _lunch_, já ao lado de cada talher, no comedor, havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado _of games and sports_ para durante a viagem. A primeira sessão,--jogos sôbre a tolda,--realizar-se-ia já nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira havia visto, logo de manhã, um grande quadro negro posto a prumo no _Social Hall_, o qual era destinado à inscrição geral dos jogadores, e que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias exóticas, hieroglifando nomes bárbaros. Agora, no comedor, o Silveira demorava com particular agrado a atenção sôbre a beleza daquela composição tipográfica feita a bordo, e no íntimo rendia o seu mais admirativo preito à celeridade e à limpeza como tudo ali assim caminhava.
A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente Euclides o mirava com uma expressão singular, entre alviçareira e irónica, alegremente. E como a insistência maliciosa dêste prazenteiro olhar se prolongasse, levemente intrigado êle então aventurou:
--Como o nosso Euclides está hoje contente!
O brasileirito fez uma pausa de importância, e depois olhando-o fito, com um cocegante ar de mistério:
--Tenho uma grande novidade a dar-lhe!
--Coisa bôa?
--Bem agradável, creio, lhe deve ser...
--Homem, diga lá! desembuche,--comandou, já tambêm interessado, o Contreras dando um murro na mesa.
Porêm, numa suave negativa de cabeça, o tenente Euclides:
--Nada! O meu amigo perdoará... mas é assunto só p'r'os dois. Não pode ser...
O Silveira, razoávelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreção, levou a mão ao peito, fazendo luzir as unhas. Porêm, a tudo resistiu a alviçareira e enigmática expressão do brasileiro, que se manteve impenetrável.
Por fim, quando em cima, no salão, o Silveira, devorado de impaciência, voltou a interpelá-lo, o bom Euclides aclarou:
--Não sabe você?... Já sei quem é o nosso misterioso argentino!
--De-veras!?... Falou com êle?
--Sim! falei...
--E com as filhas?
--Tanto, não. Mas poderá você fazê-lo... Está aplanado o caminho.
--Então? então?...
E ante os olhos interrogativamente abertos e a bôca espectante do Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe então, por entre cautas miradas em tôrno, espaçadamente,--que se tratava, não dum argentino de nascença, mas dum vélho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, há trinta anos estabelecido no formoso país Del Plata, para onde viera, moço ainda, exercer a advocacía, e onde fôra cumulativamente jornalista e pedagogo, sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande proprietário no norte e homem de fortuna.
--Como diabo soube você tantas coisas?--exclamou, maravilhado, o Silveira, sacudindo a cabeça numa comoção de espanto.
--Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,--o Euclides aclarou singelamente.
--E que santo fez êsse milagre?
--Milagre nenhum... É que o homem é um grande filólogo, pelos modos; conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivação scientífica das línguas. Quere obter certas indicações prosódicas e sintáxicas sôbre o português. Uma madureza como outra qualquer.
E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sôbre brasas, o Silveira:
--E depois? e depois?...
Que, depois,--continuou, aprazivelmente irónico, o brasileiro,--depois, a pretexto de êle falar português, aquele celebrão, rompendo com a sua engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai então êle, para se descartar da estopada e simultâneamente fazer um serviço a um amigo, escusára-se, alegando a própria incompetência, e inculcára-o a êle, Silveira, como um chavão na matéria.
--O quê!?--bradou êste, num salto de pavor, mas no íntimo radiante.
--Assim mesmo!--confirmou jubilosamente o amigo.--A estas horas você é considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...--E levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:--Agora, veja lá como se porta. Olhe que eu disse que você era um grande professor.
--Quere não que a fez fresca!--lamuriou, atarantado, o Silveira, rascando a testa.--Indicações prosódicas, sintáxicas... sei lá o que isso é! Estou bem aviado!
--Ande, vamos!
Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salão, frente a uma mesa, sentado gravemente. No seu invariável traje negro, e gordote, rosado, o sulco devastador das múltiplas rugas cortando em fundas ranhuras a descaída oval do rosto totalmente escanhoado, com o seu ar didáctico e tranqùilo êle parecia desfiar coisas transcendentes a dois desconhecidos, igualmente vélhos, que num religioso êxtase o escutavam.
Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber urbanamente os recêm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximação feliz no seu primeiro apêrto de mão ao Silveira. E, depois de todos mútuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar doutoral, num francês correctíssimo:
--Eu estava expondo a êstes srs. a minha teoria sôbre a morfologia secular das línguas. É a química do pensamento. É uma coisa evidente, racional, matemática, infalível. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar a sua axiomática divulgação pelo mundo... As línguas não são mais do que puros agregados... atómicos, por assim dizer. Creiam nisto... É das relativas combinações e reacções dos elementos radicais e fonéticos dumas e outras que deriva a seriação fatal do seu parcelamento.
--Mas, como se explica então a formação caprichosa, arbitrária, de tantos idiomas e dialectos?--aventurou, com timidez, um dos vélhos ouvintes.