Chapter 21
Junto a uma janela abancava, com três sócios mais, o comendador Niatello, um quinquagenário reforçado e grande, de queixo querençoso, de olhos ladinos, saltando com dominador relêvo da abaçanada flacidez da larga face curtida e negrusca, inteiramente escanhoada. Mal que êle descortinou os dois amigos, logo de chamá-los de longe com protectores acenos familiares, afectuosamente. E à sua aproximação ergueu-se e adiantou-se a acolhê-los, numa solícita cortesia, convidando-os logo a tomar _asiento_ e apresentando-os sorridente aos três companheiros.--Todos vélhos. Vicente Alvear, descendente duma antiga família colonial e herdeiro duma grossa fortuna, era ainda uma bela figura marcial, com a sôlta elegância de movimentos que nos dá uma vida fácil. Recêm-chegára da Europa, dizia as coisas mais triviais com solene entono, tinha um certo _aplomb_ fidalgo, e o seu rosto liso, afável e atraente iluminava-se da espelhada abundância e frescura do bigode e cabelo, totalmente brancos. Não assim José Piétronero, que desbarbado, esguio, pequenino, era a mais completa e flagrante realização dum dêstes grilhetas eternos do trabalho, vestindo pobremente, com a arisca silhueta repregada sôbre si mesma, os olhitos cavilosos, a face rechupada e o chinó grisalho, recurvo o dorso como um cifrão, as mãos crispadas como garras. Finalmente, Pedro Urquiza era o mais galhardo e mocetão dos três. Grosso, moreno, gordote, a cara opada e macia, o cabelo lustrado de óleos, as mãos moles e brunidas, era bem um tipo de puro e contumás _porteño_, no córte arrogante do busto, no desempêno viril dos gestos, na linha imperativa da bôca, entre voraz e insolente, na dura expressão do olhar, entre altaneiro e cínico. Trajava com afectação, de calça excessivamente curta, polainas, grande pérola na gravata e um cravo branco no olhal do jaquetão cintado.
Foi êle quem imediatamente reatou conversa. Fazia a apologética enumeração das fabulosas riquezas naturais do país, postas agora a claro: os jazigos petrolíferos de Comodoro Rivadavia, as hulheiras de Chubut, os incontáveis tesouros em minério da cordilheira. Tanta maravilha por'í assim a explorar! tanta coisa misteriosa, ignorada, inédita, imprevista! No mundo não havia melhor.
--Parece-lhe então que todo êsse sul da Rèpública?...--indagou ingénuamente Vicente Alvear, avançando o busto com interêsse...
--É o nosso futuro Potosi, não há dúvida! Bem vê, o norte para a exploração intensiva é ainda demasiado selvagem, o centro está dando o mais que pode dar... de sorte que é para essas caudais de abundância do sul que deve de preferência voltar-se a nossa atenção e canalizar-se o nosso dinheiro.
--Parece que essa obra do carvão de Chubut _es un cuento_,--mascou o cauto Piétronero com frieza, fransindo desconfiado os olhos e apertando os braços.
--Como, _un cuento_!?
--Sim... eu li algures a opinião do engenheiro Rivoretto, um informe oficial, que diz que são jazigos demasiado recentes.
--Pelo contrário,--acudiu o Alvear com entusiasmo,--na Europa corre que é um carvão que pode competir com o melhor de Cardiff.
--Poderá... daqui a mil anos.
--Tudo isso são abomináveis maquinações e intrigas de tanto invejoso, tanto malfadado empatador que p'r'aí abunda!--contestou indignado Pedro Urquiza. E com persuadente intimativa:--Não tenham dúvida: o valor das hulheiras de Chubut, mas o valor actual, imediato, é enorme. Depois, há ainda os mananciais do Neuquem, há tôda essa imensa e feraz Patagónia...--E num ardor de patriótica exaltação, pondo-se em pé, com os lábios imperiosos, com uns olhos de vidente:--Ah, creiam, meus amigos! por tudo, até pela raça, é no sul que repousa o engrandecimento, é do sul que há-de avassaladoramente romper e impôr-se o grande futuro da Rèpública. E o dever de todos nós é, desde já! não só acompanhar, mas estimular êsse portentoso fenómeno natural com as nossas melhores reservas de actividade, de inteligência e de numerário.--Rodeou o grupo em duas passadas nervosas, e por fim, abatendo a mão sôbre o engerido ombro do Piétronero:--Você que diz?
Este teve um instintivo estremecimento, e naquele gesto tam seu, de como quem defende a algibeira, encolhendo os braços todo dobrado:
--Eu não sou ambicioso... não digo nada.
--Duvida? tem receio?
--Não sei, não sei... Aquilo que tenho custou-me tanto a ajuntar!...
--Não diga isso! Um homem como você, dos do bom tempo, quando inesperadamente se acordava rico... Um felizão, que apanhou fortunas de mão beijada...
--Sim... porêm o meu amigo não atenta agora, com as reviravoltas da crise, em quantos títulos eu tenho comprometidos... não toma em conta a imensidade de terrenos que eu comprei a 30 pesos o hectare, e que neste momento não valem 5... Ninguêm mos quere!
--São injustificadas apreensões. Lá virá seu tempo.
--Virtualmente estou pobre.
Uma girândola de incrédulos risos acolheu êste lamento hipócrita. E a seguir num generoso arranque de confiança, o Alvear:
--Pois eu cá, não! eu estou meio tentado. O dinheiro que os meus me legaram, p'ra que o quero eu? senão p'ra pô-lo ao serviço do meu país, ajudando-o e engrandecendo-me?... Que essas novas empresas consigam do govêrno, pelo menos, o apoio moral, e o meu capital disponível estará com elas.
--Bravo! meu nobre amigo. Muito bem!--exclamou com festiva arrogância o grosso Urquiza, dobrado com esfôrço, sobre a espalda do amigo. E logo para o Silveira, que, sentado ao lado, seguia num vago deslumbramento o giro tintinabulante do diálogo:--E que diz a isto o nosso simpático estrangeiro?
Aqui interveio o ladino comendador, até então silencioso, e que com dulcerosa expressão, envolvendo protector o Silveira na chispa traficante do olhar, astutamente:
--Ah, o meu joven amigo não precisa aventurar-se tam longe p'ra fazer fortuna. Tem um pouco mais perto, já sabe... os meus terrenos da província de Cordoba. Não é verdade?
Maquinalmente, o Silveira sorriu; enquanto o Azeredo fransia a testa com desgôsto, o negrusco aliciador continuava:
--Pode ali fazer uma rica exploração agrícola em larga escala. É o mais simples e o mais seguro.
--Eu gosto muito do campo.
--Aí tem! Que melhor oportunidade que a que eu lhe ofereço agora? E olhe que poucos lotes me restam já... Um terreno privilegiado, não imagina! Ainda não viu a exposição dos produtos dessa minha terra, aqui em Florida?... Faz o assombro de tôda a gente. Vá ver, vá... e eu tenho a antecipada certeza que de lá o meu amigo correrá ao meu escritório.
--Haveria logar para tudo...--magnânimo o Urquiza aventurou.
--Nada! nada! _Qué esperanza_... Creia, amigo Silveira, nenhum negócio como êste meu. Garanto-lhe que, em dois anos, tem o valor do seu capital quintuplicado. Quere ver?
E, dizendo, o acobreado Niatello sacava duma pasta e desdobrava aparatosamente sôbre a mesa uma grande planta policróma, enquanto de roda os três vélhos cambiavam entre si um imperceptível olhar escarninho, e o Azeredo impaciente beliscava o braço ao Silveira.
--Bem! vou ao meu assalto de florete,--anunciou, num sêco gesto de despedida, o Urquiza. E para o Silveira, com especial predilecção:--Tive imenso prazer em conhecê-lo, pode crêr... _Calle_ Lavalle, 1391, inteiramente ao seu dispôr. E fóra disso, pelas tardes, encontra-me sempre invariávelmente fazendo a _calle_ Florida, no _Jockey Club_ ou aí pela livraria _Mendeski_, pelo _Wictomb_, à porta do _Lacloche_ ou no _Rumplmeyer_.
Seguiu, breve e altaneiro, para o interior da casa, tomando-lhe o exemplo, a poucos minutos passados, Vicente Alvear e o Piétronero, que deixaram o comendador a desdobrar à vontade a sua estratégia de sedução perante os dois portugueses. Assentou êle em pêso a negra mão convincente sôbre uma larga fôlha de papel-tela, onde tentadoramente se estrelava uma grande mancha trapezoidal, escaqueada por um labirinto de pequeninos rectângulos, brancos, amarelos, azúis e verdes, que uma floresta de traços negros definia, e carimbados a algarismos vermelhos. A toalha esfíngica da fortuna.
--Isto aqui é o melhor que pode haver, notem os srs. bem! Província de Cordoba, departamento de Iulumba. Dôze horas de ferro-carril; é um passeio. O lote que eu lhe ofereço é êste, o n.^o 13, um número de sorte, um verdadeiro _regalo_. Veja: são cêrca de oito mil hectares, terrenos absolutamente virgens, a dois passos da linha férrea, abundantes carreteiras, e em condições topográficas excepcionalmente favoráveis, entre a montanha e o rio.
--Há-de ser caro...
--Quê, caro? objectou com a mais teatral isenção o comendador.--O meu amigo não me conhece... De tanta soma de terras aqui vendidas já eu tirei um lucro bastante compensador; de sorte que agora êste resto,--que não é um refugo, senão um mimo,--ceder-lho hei por nada, quáse de graça.
--E como é que tanta preciosidade--arriscou com impertinência o Azeredo,--se conservou até agora assim baldia, estéril, ignorada, inútil?
--E um fenómeno vulgar em tôda esta imensidade.
--Bem, mas em todo o caso este meu amigo, sem ver, sem se informar melhor... não pode assim de golpe comprometer-se...
--E porque não vão lá primeiro, certificar-se? Eu até estimo.
--Desnecessário!--atalhou, num rasgo de quente decisão, o Silveira.--Está posta de parte, por descabida entre nós, a questão de confiança.--Depois a meia voz, para o Azeredo:--Talvez convenha, hein?--E na hipnose ingénua do oiro, erguendo-se:--Olhe, meu caro comendador, eu não resolvo nada de pronto; no entanto peço-lhe que me reserve o lote, que me dê um prazo.
--Só sendo muito curto, já vê...
--Eu àmanhã sem falta vou ver a sua exposição, e em seguida, em qualquer hipótese, passarei pelo seu escritório.
E com um efusivo apêrto de mão despediu-se e afastou-se, com o Azeredo, enquanto o comendador dobrava e guardava, num jubiloso vagar, o seu trapaceiro _dossier_, com a segurança ardilosa do triunfo a bailar-lhe no olhar astuto.
Não muitos metros andados na direcção dos bilhares, chamou a atenção dos dois amigos, quáse travando-lhes o passo, um grupo atónito e compacto que em extátíca suspensão escutava o verbo suasivo e ardente dum invisível charlatão, sob o domínio empolgante da sua embaìdora parlenda desdobrando cifras e barafustando enganos.
--É um assunto que eu pensei maduramente, meus senhores!--pregoava êle na sua ardorosa invocação, convictamente.--É uma grande empresa, um negócio estupendo!
Cá de fóra e de longe, o Silveira não podia distinguir a figura do industrioso perorador; mas pareceu-lhe reconhecer aquela voz sacudida e vibrante, de timbre metálico, saltando no silêncio espectante de em tôrno como um jôrro de moedas batidas sôbre o balcão. Ergueu-se então em bicos de pés... e, com efeito! era o seu abortivo Ramón Alvarez quem com tam compenetrada fúria encarecia as maravilhas dalgum inédito elixir da sua lavra. E que de repente, ao vê-lo:
--Oh, meu caro Silveira! Que feliz, que providencial acaso! Quanto estimo! _Pase_, _pase_, venha ouvir... Como chega a propósito!
E tam pronto fez praça ao amigo, logo êle, para não perder o calor sugestivo do momento, rompeu clamoroso outra vez:
--Trata-se nem mais nem menos que da construção dum grande, um alado, um colossal e gigantesco pára-sol sôbre tôda a praça de Mayo.
Os paresiados rostos dos circunstantes fulguraram num rasgo de admiração alarve. E êle, impudente, imperturbável:
--Os senhores compreendem bem a minha idéa, o meu fim essencial: oferecer um pouco de comodidade ao grosso publico, furtar às inclemências do calor e ao rigor das intempéries tôda a imensa aluvião humana que de sol a sol febrilmente circula e se agita nessa túmida aorta da cidade. Mas de passo eu quero reùnir ao útil o agradável, quero adornar de atractivos, rodear de fartas e lindas diversões, essa benéfica estância de repouso. Será um ponto de reùnião forçado, uma obrigada estação de prazer, _chic_, estética, elegante. Haverá por exemplo ali assim, logo em baixo, tôda a sorte de _tiendas_, _restaurants_, bazares, _garages_ de automóveis, que sei eu?... Depois, em cima, envolvendo o grande suporte central, e suspenso, teremos um vasto salão de concertos; dos extremos de cada vareta, ao largo de tôda essa perifería, eu farei igualmente suspender quantidade de teatrinhos, cinemas, _bars_, estufas, e por fim, no afusado remate do vértice, rendado e fino como uma agulha de catedral, erguer-se há um lindo _belvedére_ e flutuará um balão cativo.
--Encantador, grandioso, realmente!
--É uma idéa bem americana!
--Parecer-lhes há estranha, à primeira vista...--ponderou o grotesco Alvarez, sorridente, pendulando a fenomenal cabeça com modestia.--E no entanto nada de mais exequível, de mais oportuno, de mais simples, de mais a propósito.
Mas por entre o côro basbaque dos aplausos algumas birrentas dúvidas surdiam.
--Acho um plano em demasia arrojado.
--Impraticável talvez...
--Como, impraticável?--de salto o Alvarez acudiu, com o frio cobalto dos olhos súbito incendido.--Ao contrário, hoje, com o ferro e o cimento, é tudo quanto há de mais fácil.
--A mim parece-me a renovação da cómica façanha do _homem das botas_... com a diferença que esta não custou dinheiro,--disse em surdina para o Silveira o Azeredo.
--E a forma prática de o realizar?--interpelou um ouvinte mais rebelde.
--A municipalidade consentirá? Já obteve a concessão do exclusivo?
--Ainda não... porêm tenho a promessa formal do _édecan_ da Presidência.--Um crédulo cabeceamento de aplauso acolheu esta animadora notícia.--O lucro vai ser imediato, enorme, colossal!--tornou dogmático o Alvarez; e após uma ardilosa pausa, abrindo familiar os braços, singelamente:--Agora o que há, é que estas coisas, sem dinheiro, sem muito capital... Eu só não posso... Pensei numa sociedade por acções, de cem pesos, cobráveis em duas prestações. Está ao alcance de tôdas as bolsas. Uma coisa de nada! Aqueles dos srs. que me queiram acompanhar...
Entretanto, nas fôlhas do providencial _carnet_ que um solícito _corredor_ ia fazendo adrede circular pela assistência, choviam abundantes as adesões e as rubricas dos subscritores. O Silveira inscreveu-se com cem acções, levado na rútila asa dos seus sonhos de fortuna.
Na manhã seguinte, tomado de plutonómica impaciência, êle aí ia visitar, em _calle_ Florida, o tam apregoado mostruário agrícola do comendador. A distância de mais de meia _cuadra_, já êle distinguiu um grosso grupo de mirones, na sua curiosa inquirição colados com avidez à montra, tomando o passeio e daí alastrando ainda em arrelienta cauda pela rua. Tanta soma de interêsse foi para o hipnotizado Silveira mais um estímulo. Estugou o passo, e, breve, a poder de firmeza e de decisão, pedindo vénia, acotovelando, rompendo, atropelando, logrou alcançar o posto de exame desejado.--Um perfeito deslumbramento! Distribuida com arte e colmando superabundante a vidreira, havia a mais tentadora profusão de bulbos, de sementes, de frutos, leguminosas e gramíneas de toda a sorte e tudo sôltamente luxuriando em côres sadías e brunidas, em túmidas e aveludadas curvas, em farturas reçumantes, escarolados cofres da abundância, gordos, frescos, viçosos, grandes como êle nunca vira igual! Alguns eram duma corpulência descomunal, verdadeiros prodígios da Natureza.
Havia ali batatas grandes como melões, melões que pareciam abóboras, abóboras que eram como as tôrres da Senhora dos Remédios ou do Bom Jesus, na sua terra. Seguramente, na última exposição promovida pelo Vilarinho de S. Romão no Palácio de Cristal, e que tam falada foi, não aparecera nada capaz de se comparar com isto. Era uma possança paradisíaca que metia positivamente num chinelo os afamados feijões e as couves de S. Cosme, os pêssegos do Varosa ou os calombros de Lamego. Que portentosa produção e que privilegiada terra!
Nem todos pareciam, entretanto, manter esta corrente ingénua de sentir, no heterogéneo grupo da assistência. Um que outro dito mordaz passava dissimulado ou esfusiava escarninho; alguns rodavam num propósito manifesto de troça, assobiando; e mesmo junto à orelha do indignado Silveira, alguêm houve que, fransindo o nariz, com implicativo acento exclamou:
--Hum! A mim parece-me isto um _conto do vigário_.
O Silveira sentiu ganas de contraditar a blasfémia; e sobranceiro a êste deletério contágio, como um decisivo gesto do seu protesto pessoal a tanta soma de imbecilidade e ingratidão, súbitamente, deixou por seu turno a vidreira e seguiu na pressurosa demanda do comendador,--não fôsse algum mais diligente e esperto antecipar-se-lhe!--e adquiriu para si o famoso lote n.^o 13. Oito mil hectares de terra virgem, a dez pesos o hectare. Um ovo por um rial. Um negócio de mão cheia.
Descontado êste dinheiro, mais o capital que arriscára na _Sociedade Internacional de Seguros_, e o custo das cem acções, do dia anterior, não lhe restava já do seu parco património, feitas bem as contas, mais do que com que viver, e bem escassamente, quando muito, por um ano... Oh, mas que importava isso, se dentro em poucos meses, seguramente, êle dos seus esplêndidos negócios ia colhêr rios de dinheiro!--Bem bom! bem bom!--dizia-se, esfregando as mãos, sorridente.--É um dito êste bem certo: que há males que veem por bem... Afinal, em bôa hora viera. Ia _fazer a América_, veriam! Ainda havia de mandar depois as brôas ao Afonso Costa. E que esmagadora lição êle infligia à Laurita!
Arrastado na falaz miragem dêste sonho magnificente, tôda a tarde o Silveira levou, desocupado e frívolo, em prazenteiros _flirts_ pela cidade. Começára o delicioso mês de maio, o opulento batedor da _season_, arrepiado dos primeiros frios e com as suas plácidas manhãs envôltas vagamente, como por uma peliça cara, nas peroladas franjas da neblina. Apetecia o confôrto caseiro e lembrava, gratamente, o sôpro morno dos _calentadores_, o efusivo calor das recepções mundanas, o tépido e sensual ambiente das veladas, dos concertos, dos bailes, dos teatros. Haviam-se inaugurado já os selectos _tés_ dominicais do Plaza, e os aristocráticos cartazes com o _elenco_ do _Colón_ tenorinavam líricas tentações pelas esquinas. Ao longo da Avenida de Mayo, limpa já de ruturas, porêm ciscada a trechos pela chuva outoniça da folhagem dos seus plátanos, várias brigadas de obreiros lidavam regulamentarmente, desdobrando tubagens, firmando plintos, marchetando escudos, aprumando postes, bandeiras, mastaréus, pendurando sanefas de lumes e articulando pórticos de ripado, para as próximas iluminações das festas da Independência. E tornavam a aparecer as equipagens de preço, e pelas ourivezarias e casas de modas cruzavam, em vagarosa importância, as grandes figuras conhecidas. Era _la gente bien_ da grande cidade que, de novo, condescendia em mostrar-se, era um novo ciclo da sua ostentosa vida social a definir-se. Opulências, brilhos, vertigens, intrigas, caprichos, loucuras, traições, amores... Era a lampejante renovação de mais um dêsses embriagadores remolinhos de fortuna, de engano e de prazer em que o aturdido Silveira estava disposto agora a deixar-se envolver, pronta e avassaladoramente.
Ora, justo no dia seguinte, primeira terça-feira do mês, os Wimeyer recebiam. Às 6 da tarde, lá estava pontualmente o Silveira à portita discreta e esguia dêsse modesto rés-do-chão da _calle_ Paraguay. Desta vez a criada, sem hesitar, abriu logo o batente da porta envidraçada, dando afável o passo ao visitante, que se encontrou num escuro e enfadonho _hall_, de teto envidraçado, onde êle poisou o chapéu e a bengala, passando logo, à esquerda, ao salãosinho da frente, que dava para a rua. Aí, sôbre um coçado sofá, no logar de cerimónia, espapavam-se duas assaz ponderáveis matronas, amplas e obêsas, de negro, com muitos bandós e pérolas, atendidas solícitamente pela dona da casa. E não havia mais senão, um pouco à parte, junto ao piano fechado prudencialmente, duas raparigas vestidas de claro, ambas dum córte igual, em pé e com o exíguo ventre em abandôno à frente, os ombros ladeiros,--cuja frívola atenção Irene e Dolores buscavam maquinalmente prender, mostrando-lhes num convencional agrado um jornal de modas, que as duas delambidas olhavam como por demais, de pálpebras froixas, o longo narizito afilando enjoado no rosto impertinente.
Fez naturalmente sensação a imprevista entrada do Silveira, cortando assim de improviso a sorna frialdade do pequeno círculo feminino. D. Catalina festejou-o muito, dando-lhe com marcada alegria as bôas-vindas, e logo, com o seu ar repousado e lânguido de sempre, apresentando-o às duas bisarmais amigas. A seguir, o Silveira dirigiu-se a cortejar o apartado grupo das quatro jovens, que lhe acenavam com sorrisos; e então, ao defrontar-se com Irene, estremeceu e sentiu que lhe banhava a espinha um frio de estranheza. Olhava, olhava e não queria crêr... Estava mais alta, mais dura e mais forte, engrossára deplorávelmente. Parecia-lhe outra, desagradava-lhe, desconhecia-a... Já D. Catalina o chamava afectuosamente, ageitando-lhe cadeira a seu lado, e o desencantado Silveira não conseguia confortar-se do seu desgôsto nem repôr-se do seu espanto. Sofria a mais amarga e dolorosa decepção! Que era feito então dessa alada e fugidía figura de há dois meses antes? que lance cruel do azar ou que tirania estúpida de raça lhe haviam assim desfeito o encanto ideal dessa visão bemdita, durante a viagem?... Êle estava a ver! perdera a sua linha fidalga, aquele soberbo ar de _palmeira imperial_, na sua aérea esbeltez, na sua altívola frescura... Tinha agora uns ombros quadrados e roliços, um pulso de cavador, uma anca rotundamente animal, espatinados os seios, a pele ardída, as feições empastadas e sob o queixo fazia refêgos. Como fôra aquilo, em tam pouco tempo?!
Entretanto, D. Catalina, sem poder dar-se conta desta arreliadora surprêsa do Silveira, carinhosamente interpelava-o:--Como tinha êle passado durante todo aquele tempo? E Buenos-Aires que lhe parecia?--Impaciente e distraído, o Silveira arrastava quaisquer vagas banalidades. E logo mui dulcerosa a mãe Wimeyer:--Que êles é que nunca poderiam esquecer tam bom amigo. Falavam nêle todos os dias... E que haviam recêm-chegado. Dolores estivera com o pai em Salta. Irene, não! essa era mais _regalona_, acompanhára a mãe no Tigre.
--Nunca o vimos por lá...--aqui acudiu naturalmente Irene.--Todos os dias à espera!
Com o ar humilde e contrito, quáse vèxado, o Silveira balbuciou--que, com efeito, confessava o seu pecado... mas nunca tinha ido ao Tigre.
--Como!? E ainda o diz?--reprimendou, a fazer de agastada, a doutoral mãe de Irene.--Não podemos perdoar-lhe semelhante falta! A nossa melhor estância de verão... Nem a Suíça... Dito por todos!
--O Tigre é lindo!--acudiu com ênfase uma das paparretas de junto do piano, aproximando-se.
--A minha filha deu-se muito bem por lá...--tornou D. Catalina.--Erguia-se muito cedo, todo o dia ao ar livre... pescava, montava a cavalo, remava muito. Não vê como lhe fez bem?
Neste preciso momento, Irene aproximava-se do Silveira e vinha oferecer-lhe uma chávena de chá, còrando ligeiramente, com a sua habitual singeleza. E posta assim, natural e simples, diante dêle, revelava numa irrecusável eloqùência êsse subito e passivo avatar burguês da sua figura.
Não era nada já a esquiva e patrícia silhueta ideal do _Almeria_; antes, entre tantos, um rebarbativo exemplar mais de fêmea prolífica e segura. Tomando enguiçado da bandejita a chávena, o Silveira não podia no íntimo perdoar-lhe... Os seus olhos agora repeliam-na, o seu coração repudiava-a. Perdera para êle todo o interêsse. Sentia-se roubado.
Contudo, atencioso e galante por instinto, dos lábios frios ia deixando, com importante pausa e um pouco à tôa, escapar seus lisonjeiros comentários sôbre a sociedade e a vida _porteña_, frisando a tempo a sua impressão e déstramente sublinhando de admirativas frases o tiroteio vago de perguntas com que o pequeno círculo feminino o assediava,--tôdas agora em interessado grupo rodeando-o, e as raparigas já com desabusada familiaridade depois que souberam que êle não era casado.