Amor Crioulo vida argentina

Chapter 20

Chapter 203,530 wordsPublic domain

--Pobrezita! bem digo eu...--bondadoso o Silveira tornou; e com apiedado interêsse, a seguir:--Fugiste então e vieste p'ra Buenos-Aires governar a vida?

Numa tácita aquiescência, muda e indecisa, Luísa sorria vagamente.

--E gostas?--indagou o Silveira, muito afável; e como a sua linda desconhecida abanasse afirmativamente a cabeça, com o vago sorriso de há um momento aquecido agora por uma adorável expressão convicta:--E porquê?

Luísa teve uns segundos de comovido silêncio e por fim, dobrando humilde o busto, com as abatidas pálpebras seguindo, em baixo, o movimento dos pés, que em taramelados giros raspavam trémulos na orla do passeio, murmurou:

--_Porque aqui estoy mas cerca de Usted_...

Pelos arrepiados nervos do Silveira uma branda emoção correu, mixto fundente de orgulho e de prazer, de fatuidade e de ternura. Sentiu-se quebrado, preso... Atingiu-o em cheio na alma a ingénua confissão, a doçura sentimental da rapariga. Naquela tarde havia uma reùnião de acionistas da tal _Sociedade Internacional de Seguros_, e êle ia agora à _calle_ Vitória para ter uma conferência prévia com um dos membros da Comissão Directiva, pois sobravam razões para desconfiar que semelhante _Sociedade_ não passava duma audaz mistificação, duma burla descaradíssima, na qual êle via já infelizmente a arder o seu rico dinheiro! Porêm, num pronto, a aparição de Luísa, ante a inefável magia daquelas palavritas de oiro, vencido pela singela eloqùência duma confissão tam espontânea e tam formal, tôda a sua grande preocupação financeira,--uma preocupação de enxêrto,--se lhe varreu do sentido... Ao mesmo tempo, numa tristeza de instinto, fitava com demora a sua passiva interlocutora, olhava-a bem, considerava a sua rudeza inata, o exotismo da sua figura, a miséria do seu arranjo... e sentia-se vèxado; via-se que não podia decentemente quedar-se ali assim muito tempo, às claras, nesse comprometedor _tête-à-tête_ num logar tam público, nem tampouco acompanhar com ela. Mas tambêm,--que demónio!--esquivar-se agora e deixá-la, retribuir êsse infantil abandono com a indiferença, seria a maior das ingratidões, uma desumanidade, uma cobardia. Por isso êle, de repente, cedendo a um cavalheiresco impulso interior e todo dobrado para Luísa, olhando-a com carinho:

--Já almoçaste? queres comer?

Por seu turno, Luísa, sem ousar encará-lo, as mãos juntas erguidas aos lábios e confrangendo o busto, tartamudeou uns monossílabos de embaraço. E o Silveira então, adivinhando-a, tomou-lhe do braço, e com afectuosa decisão, familiarmente:

--Anda daí!

Internou-se com ela em Vitória, mandou-a seguir rua abaixo, na sua frente, um pouco a distância, em direcção ao Congresso; e aí dobraram rápido para Entre Rios, onde entraram num _bar-restaurant_ de ínfima classe, velhacouto barato de _menesterosos_, rufiões, cocheiros, _chauffeurs_, caixeiros sem patrão e _redobloneros_ sem clientela.

Abancaram os dois a uma das mesas mais interiores, numa discreta penumbra, e, à aproximação solícita do moço, dobrado em interrogativa atitude depois de haver passado maquinalmente o guardanato sôbre a tábua encardida, o Silveira insistiu com a suave morenita p'ra que dissesse--o que queria tomar. E ela, numa deliciosa hesitação, com a face incendida e os olhos húmidos, sem acabar de ageitar-se na cadeira, não atinava igualmente com o que havia de escolher.--Não queria comer. Passára-lhe a vontade...--Contudo, após uma laboriosa inquirição pela hipertrófica lista dos ágapes em giro, decidiu-se afinal por um chocolate _liviano_ e _sandwiches_. Êle pediu um _Bilz_. E com familiar naturalidade, num singelo abandôno, algareira, feliz, Luísa foi então contando:--Ela não andava por'li assim tam perdida como o seu _querido nenito_ imaginava. Já estivera por duas outras vezes em Buenos-Aires; a última, quando foi do centenário. Tinha mesmo aqui uma irmã... E que lá no campo moíam-na com trabalho e ainda em cima não lhe pagavam. Guilherme, o irmão, era um desalmado, um bruto. Ela arrastava assim uma vida de negra, era certo... mas, em suma, como não sabia o que era mundo e não alcançava a mais, ia-se conformando... A vélha adivinha de Castelli lá dizia: que cada um nasce com o seu destino já talhado. Que lhe havia de fazer?... Porêm que depois, de repente, nessa terrível tarde que afinal se volveu p'ra ela numa aurora, ao vê-lo surgir tam milagrosamente e salvá-la, sentiu que se lhe abrira qualquer coisa dentro da alma! como ela não sabia explicar... via e abrangia agora as coisas por uma outra forma, compreendia como podia _quererse_ a alguêm... e que a sua verdadeira existência começara naquele momento, que não mais poderia quedar-se ali onde a querida imagem do seu rico protector, lhe aparecia a todo o momento, infiltrada de saùdade, reclamando-a com império.

Premindo-lhe a mão com doçura, o Silveira interrogou:

--Mas que te importa a ti?...

E ela, num profundo acento, gravemente:

--_Nada mas me importa en el mundo!_

A seguir, por entre as freqùentes olhadas oblíquas da freguesia equívoca do _bar_, intrigada pelo estranho _accouplement_ daquele rico _mozalbete_ com uma tam ordinária _piba_, Luísa continuou desfiando,--que, resolvida a partir, fôra a socorrer-se com aquela santa senhora, D. Teresa, a qual lhe deu algum dinheiro e uma carta de recomendação para êsse _gran comercio de imagenes_ que havia na _calle_ Suipacha, onde a admitiram como caixeira. Tinha graça! todo o dia agora a lidar com santos, ela que nunca se havia confessado nem comungado na sua vida.

--Conféssas-te agora a mim.

--_Es que el señor es mi santo preferido. El señor y San Antonio_.

--Mas então, estando aí empregada, como é que?...

--_A las once salgo á almorzar. Y yo iba en una carrera y luego me ponia en acecho, ya sabe, frente mismo á su hotel. Por suerte algunas veces mi amor tardaba en salir... Y yo entonces, despues de verlo y seguido un rato, como ya no tenia tiempo, volvia apurada á la tienda, sin comer_.

--Que disparate!

--_Es la cosa mas natural... Y no se me importa: soy de poco comer_.

--E aqui onde vives?

--_En la calle Tucumán, en una pensión muy cómoda e barata, dirijida por una espécie de monjas, que ese buen santero de Suipacha me indicó. La casa es solo para señoras y señoritas. Tengo un lindo cuarto, con el piso encerado y la camita blanca. Tratan muy bien à la gente. Pero tiene una cosa fastidiosa: no se permitem visitas y despues de las nueve de la noche ya nadie puede salir_.

--Se precisares de alguma coisa...

E com crescente animação Luísa, num progressivo abandôno de todo o seu ser confiado e vibrante:

--_Preciso, si... preciso verlo, oirlo, tenerlo algunos momentos cerca de mi, asi, bien cerquita! Sus ojos me llenan el corazon de sol, su simple presencia me infunde valor. Preciso tanto de ella como del aire y de la luz, para vivir... e con ella me contento, toda vez que no puedo aspirar á su cariño. Lejos de Usted es como yo ya no podria vivir! Porque ahora es una cosa tan diferente... Si el señor vise como yo, allá afuera, vivia solita y triste, sin afectos, sin amparo, sin una pisca de alegria!... Por eso necesito que se me convierta en un dulce y leal amigo de siempre, mi generoso protector dun instante. Que cargosa le voy a ser!... No se acuerda el señor de aquella noche en que la siniestra lechuza nos seguia todo el camino?... Nos ligó en la vida y en la muerte. Es la suerte ya vê... Y yo confio en ella y á ella me entrego, y estoy contenta. Porque decia mi abuelita, que Dios tenga en su gloria, que cuando la felicidad se pone delante de nosotros á abrirnos un camino, es como la desgracia,--es por mucho tiempo_.

Vagamente apreensivo, num frio e convencional sorriso, o Silveira murmurou:

--Bem, está bem...

Luísa agora mudára de expressão, e com adorável infantilidade, tristemente, olhando-se com desprêzo:

--_Lo peor es que yo, verdaderamente, en esta facha, me averguenzo... si, reconozco, tengo que confessar que no soy digna de Usted!_--Mas logo, numa coqueteria ingénua, recobrando-se:--_Ah! pero tambien yo sé vestirme como las señoritas de la ciudad. Y tengo com qué, gracias al Señor!_

--Não tens um chapéu?

--_Como no! Y una linda blusa de seda, pollera con pliegues y cordon de oro_.--Atirava com decisão o guardanapo:--_Vá a ver!_

O Silveira expandiu-se num claro riso, entre trocista e incrédulo; e após uma pausa, voltando a afagar-lhe com carinho a mão sôbre a mesa, suavemente:

--Mas, dize-me: então, sério, sério, não te lembra o campo?

--_Que me voy a acordar?_

--Não deixaste por lá nenhuma inclinação? não tens saùdades?

--_Inclinación?... Acaso sé lo que es eso!_

--Era natural...

--_Nadie! nadie!_--E com um sincero calor, beijando os dois indicadores postos em cruz:--_Juro! por esta... Yo naci sin una flor en el alma. Yo andaba por ahi como una pelota lanzada al acaso, sin paradero, sin hogar, sin destino. Quien hacia caso de mi_?...--Depois, comovidamente, com os antebraços ao alto, as mãos postas em súplica e as pupilas ardentes num amoroso enlêvo despedidas ao busto atónito do Silveira:--_Ahora, si! es que yo creo haber finalmente encontrado mi familia, mi mundo... ahora es que yo compreendo la razón y el fin de mi vida. Que feliz soy! Cuanto le debo!_

Súbito, como no seu enlevado giro os alarmados olhos de Luísa se fixassem no grande mostrador circular do relógio da sala, a timorata rapariga estremeceu, e como quem desperta dum sonho:

--_Ah! pero que tarde es!... Que disculpa voy á dar en la tienda, valgame Dios?_--E pondo-se de salto em pé, apressurada, inquieta:--_Disculpe-me, si?... Es forzoso. Voy á tomar el tranvia_.

Arredou a cadeira de golpe, e enquanto o Silveira pagava, sem uma palavra de despedida mais, sem um agradecimento banal, sem mesmo esperar por êle, partiu precipitadamente.

O Silveira ficou ainda, uns minutos, como avergado ao pêso dum inconfessável cuidado. Acendeu um cigarro, saíu morosamente... e longamente depois, penseroso, inerte, foi subindo a pé a praça do Congresso.--Em que viria aquilo a dar?... ia vagamente contrariado, porque sentia que demasiado o preocupava aquele trivial episódio _callejero_. Increpava-se da sua debilidade. O saboroso desenlace desta aventura picante seduzia-o, fazia-lhe negaças ao desejo; mas simultâneamente, perante a turbadora ameaça do contubernal convívio com essa criatura delicada e simples, o seu epicúrio egoísmo revoltava-se. E como quem padece dum mal secreto, como se premeditasse algum delituoso plano ou houvesse cometido alguma acção indigna, guardou-se de contar qualquer coisa ao Azeredo.

Curioso foi que à hora habitual, na manhã seguinte,--e embora não houvessem feito nenhum acôrdo prévio,--lá estavam os dois outra vez cada um no seu posto; dando-se até o caso singular de ser o Silveira quem apareceu primeiro. Pronto êle havia baixado ao salãosinho de leitura do hotel e daí, sem mesmo pensar em almoçar, recostado com indolência num _fauteuil_, junto à janela, seguia espiando em disfarce a aparição, na esquina defronte, da sua linda e suave companheira.--Nada tinham combinado, mas de seguro que ela havia de vir!--E, forte nesta acariciadora evidência, a curtos intervalos êle não despegava de apontar os olhos codiciosos ao outro lado da rua. Muito não tardou que a sua femieira impaciência não fôsse satisfeita. E então, mal que o insofrido galã viu em frente, debuxar-se no torvelinho vago da multidão a fina silhueta apetecida, ergueu-se, tomou o chapéu, correu à porta... num momento estava junto dela.--Vinha outra, com efeito, naquela manhã, conforme anunciára. Já parecia alguêm... Cómicamente travestida em _señorita_, trajava uma singela blusa em _soyau_ crême, decotada, com largo cabeção à Tudor, segundo a moda; uma saia negra em sino, muito curta, com sobre-saia _plissée_, da mesma côr; bota de pelica e verniz, e meia branca; ao colo um ténue fio de oiro; na cabeça um barato chapéusito _panier_, de palha castanha, rebatido sôbre os olhos e atrás em sôlta curva erguido sôbre a mòlhada luzidía do cabelo, pregado à nuca; e umas luvas triviais de algodão branco, pospontadas de negro, sujeitavam a rústica aspereza das mãos, donde pendia uma bolsinha de sêda.

Entalada nesta convencional, e para ela quáse inédita, indumenta urbana, Luísa aparecia desfigurada. Era uma autocaricatura. Era como uma estiolada flor trazida do campo. Na sua improvisada encadernação havia o que quere que fôsse de contrafeito e exótico, que a desfavorecia. Ela mesmo não se sentia à vontade... os movimentos eram hirtos, a expressão estranha, não sabia que fazer dos braços. Estava adorável de embaraço e de ridículo. Mas a tudo sobrelevava sem esfôrço o contôrno picante da sua figura, e dessa contrafacção irrisória zombava triunfal a sua mocidade recendente, a sua palidez fresca de flor, a sua graça nativa, a sua confiança ingénua, o seu viço exuberante.

Saùdaram-se por um cordeal apêrto de mão, e de roda dela o Silveira tudo era mirá-la de gôsto e aplaudi-la, complacente e risonho festejando-a por aquele milagre de metamorfose tam sedutora como imprevista. Achava-a encantadora. Porque de todo aquele ingénuo esfôrço ressaltava a exclusiva, a ardente preocupação de interessá-lo; todo êsse preparo coquete era um discreto convite, um desafio evidente, que o enardecia... Do mesmo passo, a confusa e tímida criança, no íntimo lisonjeada, pedia mimadamente--_que no le hiciese burla_...-e trejeiteava umas infantís e humildes expressões que, eram a demanda subtil do seu agrado.

Contudo o Silveira encontrou-a triste. Mantinha-se inconcebivelmeute perplexa, muda, cabisbaixa. O que quere que fôsse de penoso e molesto lhe ensombrava a expressão, lhe pesava nos lábios e abatia o vôo sonhador das pálpebras. Interrogou-a com insistente carinho e ela sempre no mesmo silêncio embaraçoso e difícil; té que por fim, por muito instada, balbuciou a custo:--que ao entrar na loja, na véspera, como chegasse uma hora mais tarde, não quiserem saber de razões nem desculpas. Pagaram-lhe e despediram-na.

Tomado dum indominável frio egoísta, o Silveira exclamou:

--E agora?...

--_Ahora que sé yo?_--murmurou Luísa mansamente; e na sua resignação fatalista, encolhendo os ombros:--_Busco otra casa_.

Insensivelmente haviam retomado a andar, rua abaixo, agora já sem esquivanças, sem hesitações nem dúvidas, mano a mano, como dois iguais, como dois bons amigos. Mas seguiam sem palavra ferir, silenciosos e graves, a par um do outro e distanciados pela interposição dêsse arreliador problema económico, filosofando em comum sôbre a dura incerteza do futuro. Porêm, súbito, um outro problema bem mais grave formularam as exigências fisiológicas do Silveira,--a necessidade de almoçar. E êste era de solução imperativa, imediata. Fez sinal ao primeiro _taxi_ fechado que passou, empurrou para dentro a rapariga e, de mão à portinhola e pé no estribo, ordenou ao _chauffeur_ que tomasse em direcção ao arrabalde, aí para Flores ou Olivos, e que aterrasse nalgum pequeno _restaurant_, aceado e cómodo, onde pudesse almoçar-se bem e a bom recato.

E nesse acomodatício bucolismo de fóra de portas foi onde gozaram o seu primeiro idílio,--breves, fugazes horas de paz e de enlêvo, vividas ao acalentador abrigo dos muros dum exíguo _patio_ colgado de trepadeiras, em cujas sombras transparentes os raios do sol vinham quebrar-se, dançando, como sarabandas de beijos, como boquitas de oiro. Gradualmente aquecendo, o Silveira, profissional emérito nas práticas da sedução, envolvia-a em cariciosas espírulas de encantamento e de sonho, acenava-lhe com promessas, espertava-lhe desejos, insinuava-lhe desvarios, dizia-lhe coisas audazes e perversas que a deslumbrada criança recolhia inteiras, num embevecimento ingénuo, com os grandes e lindos olhos muito abertos, que pareciam escutar. Depois Luísa tambêm, no progressivo alento da confiança e pelo eflúvio excitante da comida, tornava-se ligeira, expansiva, fácil, tagarela, e com a sua vozita límpida e vibrátil, titilando como uma luz ao vento, fazia o enternecido relato do seu passado, da sua vida de desamparo e miséria... e como agora sempre o seu pensamento rodava incessante em volta do seu rico amor... desnudava as mais íntimas prégas do seu sentir, punha da mais comovedora evidência a intacta virgindade da sua carne e a nívea pureza da sua alma. Ao cabo, no regresso, quando dentro do auto os dois outra vez, êle cingiu-lhe a cintura, puxou-a a si, beijou-a sôfregamente... e ela abandonava-se, poisando-lhe em delíquio a cabeça contra o peito, encolhidita, humilde, gozando o prazer inefável de sentir-se pequena junto ao homem que adorava.

Nos dias subseqùentes, é de saber, a embriagadora scena a repetir-se. Um e outro tinham o dia todo por seu: nem ela nutria agora maior empenho em buscar nova colocação, nem tampouco êle se interessava demasiado pelos negócios. Narcotizava-os a tirania mole do instinto, embalava-os, adormecia-os uma preguiceira onda de prazer. E assim, numa despótica e mútua sedução, dias pós dias, foram indominávelmente consumindo o tempo e pelo seu amoroso exclusivismo enchendo as horas, num delicioso deambular de acaso, alheios ao mundo, perdidos pelas tascas dos bairros suburbanos, delidos nas orvalhadas sombras do Tigre, extraviados na quietude vaga e balsâmica do campo. E êste delicioso parêntesis de sonho engrinaldava-o Luísa com um chancear cristalino e alegre, intervalado de carícias tam espontâneas e tam ardentes, que o inflamado Silveira não sabia por vezes a que sobreùmanas fôrças socorrer-se para enfrear a violência do desejo. Eram as consabidas étapas duma capitulação moral, gostosa, inevitável, em que a alucinada criança ia deixando a pedaços o pudor,--essa epiderme da alma,--como antes, pelo campo, a fímbria da rústica saia esgarçada nas balsas dos caminhos.

Debalde prudencialmente o Azeredo, já ao tempo conhecedor da situação, buscava conter e dissuadir o amigo. Fazia-lhe ver, dêsse resvalo inobre em que se obstinava, as responsabilidades, os contras, os alçapões, os tédios... porventura os perigos.--Que precisão tinha êle? com tanta mulher por'í e noutras condições, e mais educadas, mais lindas, melhores, seguramente!--A nada porêm cedia a libidinosa querença do Silveira. Se êle a princípio hesitára, agora, mercê da garra mansa do convívio, o domínio, o gôzo, a plena posse de Luísa tornára-se para êle uma idéa obsidiante. Pressentia-lhe o aroma e o sabor dos frutos silvestres. Como um cacho ruivo de medronhos, embebedava-o o apetite acirrante de mais esta aventura, tanto na sua tradição como do seu agrado. Por fim, lógicamente, amaram-se na cumplicidade mercenária duma _casa amueblada_. E logo nessa noite o Silveira, quando a sós, no hotel, com a reflexiva calma do seu leito, sentiu correr-lhe a espinha um frio de vaga e presága angústia. Inexplicavelmente, e uma vez dissipado agora, com a posse, o encanto, o devassado mistério dessa criatura confiada e simples, uma sorte de áspero cuidado espancava-lhe o sono... remordia-o um amargo e apiedado sentimento, para êle desconhecido. Tinha supersticiosas apreensões e vinha-lhe uma tristeza. Quereria retrogradar, increpava-se, arrependia-se... No desfecho tam plausível e tam humano dêsse vulgar lance de amor, a sua consciência em alarme futurava qualquer coisa encaminhada a fazer sangrar a sua alma e a pesar no seu destino.

X

Mais ou menos o mesmo severo aspecto revestiram, no dia seguinte e quando inteirado do sucedido, os repreensivos comentários do Azeredo, que duramente increpou o amigo.--Afinal havia caído na mesma estupidez de sempre! E p'ra quê, no fim de contas?... Porque não soubera reprimir-se, atalhar o mal a tempo, furtar-se, desertar, reagir? E que tivesse vergonha! pois aquela premeditada violência era sempre no fundo uma acção indigna.

Depois, com uma doçura amável a cantar-lhe na expressão, sensatamente ponderava:

--Sim, porque essa pobre rapariga agora não te larga... tens que ampará-la no novo caminho que lhe fizeste. Pendura-se-te da vontade, enrosca-se-te ao desejo. E é bem feito! E vai tu, com o teu bom génio, com êsse feitio brando e sensualão, deixas-te gradualmente prender, apiédas-te, habituas-te, condescendes... e acabarás por descer a essa equívoca situação tam do agrado de todo o bom português: a mancebia.

--Não é mulher p'r'a mim,

--P'r'os homens fracos e lascivos como tu, tôdas as mulheres estão à altura.--E num gesto nobre e viril, sacudindo os ombros:--Porque não fazes como eu?... Tentações dessas prefiro que venham adonde a mim. Fica-se sempre bem... Foi o meu caso com a chilena. O verdadeiro prazer deve ter asas, ser leve como uma pena e fácil como os frutos maduros. Até por uma questão de egoísmo. Pois tu não vês? que diabo!... perante a epicúrea gula dos nossos sentidos, o convidativo saber da mulher feita vale mais que o espanto semsabor da virgindade.

Confundido e vèxado, o Silveira concedia--que sim... o seu amigo tinha razão. São destas coisas que acontecem. Já tinha que ser...--Mas logo, com desdenhosa arrogância, recobrando-se:--O que não valia a pena era dar ao caso maior importância. O que melhormente agora ali o interessava era ganhar _plata_. O mais, queria lá saber!--Aproveitando jubiloso a derivante, logo o Azeredo lhe disse que ainda na véspera, no _Club Progresso_, o comendador Niatello com todo o interêsse lhe perguntára por êle.

--Tem estranhado a tua ausência e com razão. Nunca mais apareceste!

O Silveira prometeu que iria naquela noite sem falta. E com efeito, cêrca das 10 horas, aí entravam os dois a portada banal do _Club_, na _Avenida de Mayo_. Transporta a modesta escalinata, em mármore branco e mosaico, e atravessado em cima um esguio vestíbulo envidraçado, cortaram logo para o primeiro salão, à direita, uma grande e bem esquadrada peça participando do simultâneo carácter de centro de conversação, _fumoir_, biblioteca e sala de leitura. O teto, alto e distante, era todo artezonado em bastos e simétricos caixotões de estuque lavrado, com abundância de oiros e relêvos; pelo amplo lençol das paredes, forradas duma espécie de brocado verde, de lã, com filetitos de oiro, penduravam-se aparatosas taboletas emoldurando recompensas industriais, oleografias, espelhos, a lista impressa dos sócios e o plano policromo da cidade; em baixo, sôbre o envernizado _parquet_, havia uma mesa enorme, pejada de jornais e revistas, e disseminavam-se em profusão as cadeiras, poltronas, sofás, _causeuses_ e _fauteuils_ de tôda a espécie, obrigado refúgio à modorrenta inércia dum avultado número de assistentes, dos quais alguns, raros, em traje de _soirée_ ou _smoking_, porêm a maior parte encadernados no comodismo plebeu do jaquetão, e todos com arrastado vagar discorrendo sôbre triviais casos mundanos ou tricas vulgares de negócios.