Chapter 2
Com o brasileiro seguiu o Silveira, no ascensor, ao salão da 1.^a classe, pronto irmanados os dois nesta instintiva aproximação em que os prendiam identidades seculares de língua e de raça. Em cima, o recinto estava pleno da mais variada gente, e havia o confiante abandôno familiar dos estômagos contentes. Ás curiosas, inquirições do Silveira mal podia o tenente Euclides, tam hóspede ali como êle, cabalmente responder, limitando-se quáse a informá-lo sôbre o que sabia das famílias suas compatriotas. E é que estas não só abundavam ali, como tambêm, com a sua vivacidade despretenciosa e a sua bonachona loqùacidade, davam a nota dominante. Norte-americanos, e ingleses--êles e elas,--mal avançavam, um instante, pelas portas laterais, as cabeças arrogantes e logo partiam, por um momento desviados na sua desportiva tarefa de fazer indefinidamente o circuìto do barco, em largas e sólidas passadas. Havia chilridos, cantos, vôos, jogos inocentes de crianças; implicativos _snobs_ que continuavam a imperturbável leitura trazida, sem intervalo, do comedor, forrados agora na apática moleza dum _fauteuil_, cruzando as pernas; e ao lado duma aparatosa francesa, de cabelo duvidosamente loiro e traje não menos equívoco, um derrancado vélho sonoleava.
Mas o Silveira, que se dirigia a Buenos-Aires, buscava de preferência exemplares argentinos; queria verificar ali, em documentos vivos, flagrantes, se lhes assentava bem essa fama de galhardia, de distinção, de urbanidade e opulência, da beleza soberana nas mulheres e de enfatuado _estiramiento_ nos homens, que fazia do nome argentino o giro dominador pelo mundo.
--De argentinos, aqui a bordo...--informou, circunvagando em tôrno a vista, o Euclides, hesitante,--não é esta a época... Não dou conta senão duma família.
E apontava-lhe, em cauteloso grupo à parte, num dos tôpos do salão, um homem grosso e grisalho, todo de negro, a face totalmente escanhoada, com uma senhora idosa, vestida de negro tambêm, muitos anéis e colar de pérolas, sentada em meio das duas filhas. Poisavam singelamente, sem estudo, sem afectação, o ar abstracto, numa atitude natural de abandôno tranqùilo. As duas senhoritas principalmente parecia quererem delir-se numa suave atmosfera de simplicidade e renúncia que era a antítese formal de todo o propósito de exibição galante: contudo havia na sua linha geral, sobretudo duma delas, um não sei quê de espiritual selecção, de fino, de subtil, de espontâneamente belo e vagamente alado, que começava por fixar com agrado a atenção e gradualmente nos trazia à alma um superior encanto.
Seguia interessadamente o Silveira, por entre as volutas quiméricas do fumo do charuto, o exame desta esquiva e singular figura, quando, todo sorridente e afável, se aproximou dêle o marquês: «que perdoasse, se acaso o vinha molestar... mas queria apresentar-lhe um compatriota assaz distinto, fidalgo tambêm, como êle... não tanto... e como êle arruìnado». Amávelmente o Silveira acedeu, e daí a instantes sentia o efusivo apêrto de mão do conde Améglio di Paoli, espécie de emérito charlatão internacional, vivo, matreiro, na larga face a inalterável palidez dos cínicos, farta cabeleira negra, a mirada penetrante e fugaz, os gestos abundantes. «Duros golpes da fortuna,--dizia,--o haviam constrangido a demandar a América para ver se conseguia colocar aí meia dúzia das melhores telas da sua esplêndida galeria. Telas dos séculos XV a XVIII. Ricos pedaços da sua alma! Um sacrifício enorme... Não tivéra a coragem de o consumar na Europa, onde o extraordinário valor das suas colecções era aliás bem conhecido». Exprimia-se com abundância teatral de efeito, num atropêlo de frases mortificadas exteriorisando como que o pejo da sua precária situação; e tudo era desatar-se em atenções e lisonjas perante êsse «grande aristocrata português» em que a sua cabotina codícia farejava erradamente uma vítima. Luzia no _smoking_ uma roseta vermelha e branca. Porêm, o Silveira achava-o plebeu, mórmente posto em confronto com o divino perfil, de Madona, da irlandesa que se lhe sentava ao lado. Era sua mulher. Num dado momento, a querer captar a confiança do Silveira, apresentou-a; depois, sempre nas suas prolixas aclarações e deferências, ia atropelando: «que levava aí assim... havia de ver! um pequeno mostruário de obras tôdas de mestres, que eram puras maravilhas. Vendê-las-ia mesmo perdendo, que remédio!... E que, em Itália, êle era assim um como que avaliador oficial de objectos de arte, pois fôra o inventor dum engenhoso processo de constatar a autenticidade dum quadro por meio da microfotografia. O único infalível! Não sabia?... Era um método ignorado, exclusivo seu, porêm a um tam nobre senhor,--batendo-lhe amigávelmente no ombro, epilogava,--não teria dúvida nenhuma em o fazer comparte do segrêdo».
O Silveira escutava-o numa indiferença cortês, distraídamente; enquanto o melhor da sua atenção se fundia com deslumbrada ternura na figura adorável da irlandesa, que lhe agradava enormemente, com o seu ar repousado e cândido, a linha puríssima das feições, o arranjo ático do cabelo castanho, o busto sóbriamente redondo, o gesto singelo e nobre. Daí que, nos breves claros de repouso que lhe consentia a chalra interesseira do marido, êle fez perante a diva o ensaio de algumas amabilidades discretas... deplorávelmente perdidas,--logo êle desolado verificou,--porque esta deliciosa filha de Erin não falava nem compreendia senão a língua do seu país natal, de que o nosso desapontado galã não percebia patavina.
Quando, pelas 11 horas, desceu à _cabine_, o Silveira trazia vivo e palpitante no cérebro o baralhamento policromo e difuso de tôdas aquelas figuras, tôda essa efémera _kermesse_ de notas de acaso, na aparência desconexas e de cujas cruas tintas, bruscas oposições e antitéticas formas, reçumava contudo um encanto especial, uma clara e singular harmonia. Enquanto se despia, êle notou que ali assim fóra, à sua ilharga, no triângulo aberto da prôa, havia tambêm alegria. Ali, a noite era quási total. Uma única pêra eléctrica, com reflector, esclarecia apenas o limitado espaço ao seu alcance, e a maior porção do recinto ficava sob o domínio impreciso de vagas sombras dançando sôbre montes de andrajos. No aplastamento próprio desta hora de repouso e sob o mesmo invariável tôldo negro, os grupos, sórdidos, compactos, alargavam-se e faziam monte sôbre rolos de cordas, sôbre as bagagens, sôbre mantas vélhas, troixas, sacos, sôbre esteiras; e a escassez da luz erguia em deformações de pesadelo, emprestava monstruosas ampliações de horror a êsse caprichoso arranjo de cansaço e de miséria. Mas havia ainda muita gente desperta; mesmo encostados à _cabine_ do Silveira, dois rústicos italianos faziam pausadamente o interesseiro cálculo de quanto poderiam vir a forrar, em cada mês, dos seus hipotéticos salários; um francês, mais longe, trauteava _couplets_ canalhas; e tôda a sorte de vozes, de idiomas, de murmúrios, gritos, expansões, risadas que eram lamentos, suspiros que eram bocejos, tôda a gama fruste da animalidade, tôdas as brutas explosões do instinto, se entrechocavam e faziam côro nesta exótica Babel flutuante, grosso concêrto bárbaro que afogava o marulho manso das águas e que ainda o sôpro galhofeiro dum _harmonium_ vinha cobrir, a espaços, com a sua toada _chillona_.
Acomodado já o Silveira entre os lençóis, pareceu-lhe distinguir o quebrado dedilhar duma guitarra, acompanhado duns acordes de violão... Apurou o ouvido, não havia dúvida... aí voltam êles, trinaditos, leves, como quem está afinando, êsses sons tam seus familiares, tam seus queridos. E agora são já os prelúdios dengues do _fado_, um _fado_ choradinho e autêntico como só a alma portuguesa, enamorada e fatalista, é capaz de bem sentir. Daí a momentos, em bom português, alguêm cantou:
_Das barbas do Afonso Costa Mandei fazer um pincel Para escovar as botinas Do querido D. Manuel._
O Silveira saltou no leito, radiante, e ergueu meio busto, à espera de mais, ávidamente. Já não se sentia tam só. A ironia gaiata daquela trova fê-lo estremecer de vindicadora alegria. Esta descoberta inesperada espancava-lhe o sono, aclarava-lhe a alma. Oh, a justiceira voz do povo! O desdobramento do mote devia ser impagável. Vamos a ver que mais viría...
O ignorado trovador cantou ainda outras duas quadras, porêm já sem interêsse para o Silveira, porque gemiam lamechas trivialidades de amor. No entanto, o grato alvorôço daquela primeira impressão ficou. «Não era só êle...» comprazia-se em repetir no íntimo, vivamente sensibilizado por êste traço imprevisto de afinidade moral com gentes de condição tam abaixo da sua. Tinha ali assim, tam perto, analogias de sentir e fêveras de ódio como as dêle, e a súbita descoberta desta conformidade palpitante trazia-lhe confôrto. Inimigos tambêm do novo regímen... dando-lhe costas, maldizendo-o como êle. E mais eram do povo, pudéra!... do povo, sim... êsse pobre e sempre ingénuo povo português, de cuja hipócrita adulação os rèpublicanos haviam feito plataforma essencial de propaganda, e que depois do triunfo estavam agora burlando iníquamente. Ah, mas êles lhes diriam! Brava gente! E tinha-os ali seus visinhos... «Havia que conhecê-los, vê-los de perto. Bem...»
E adormeceu contente.
II
O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefável sensação de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as viagens em nós despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num alviçareiro estímulo interior. De tudo quanto o rodeava crescia para êle o interêsse. Livre, pelo momento, de preocupações sôbre o futuro e assediado por todo um mundo de sons, aspectos, côres, idéas e coisas novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma dilatava-se-lhe num voluptuoso apaziguamento sem têrmo, como essa lisa toalha imensa de mar, sem perfídias e sem cóleras.
A corneta chamara para o primeiro almôço. Fóra, pelo espaço, havia sol, havia luz, e o tépido acariciamento da brisa casava-se numa euritmía perfeita com o manso ronronar das águas. Neste plácido ambiente de espuma e oiro, as silhuetas saltavam nítidas, as tonalidades ganhavam valor, sentia-se mais amigo e mais próximo, mais potente, mais cálido, mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar extasiado do Silveira, todo o bigarrado movimento de bordo se esmaltava de tintas de relêvo, de cânticos pagãos, de brados genésicos, de inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixões fôssem mais fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Saíndo, na direcção do refeitório, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrança dos seus ignorados, dos seus humildes correligionários da passada noite, e ia a demandá-los, com piedosa atenção, através a gradeada porta da masmorra que ali assim perto os mantinha a distância, quando uma outra solicitação mais empolgadora e mais instante lhe rompeu da alma em alvorôço: a imagem fugidía e alada da joven argentina, entrevista tambêm na véspera, no salão. Mas, por azar,--debalde o Silveira esperou!--nem ela nem ninguêm da família baixou a comer.
Não havia então remédio senão confiar do acaso o providencial milagre de a ver aparecer.--Mas quando? mas aonde?...--E aí sóbe êle de golpe no ascensor e vem atravessar o salão e faz o giro afanoso do barco, mirando em tôdas as direcções, perquirindo os bizarros grupos distribuidos preguiceiramente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupação essencial, o resto marcava zero para êle, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber. Acotovelava insensível os arremangados homens do _sport_, cortava indiferente as interesseiras chalras de grossos burgueses, vestidos de fustão branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente, às louvaminheiras investidas do dr. Contreras, em termos de passar por malcriado; e por um triz não préga de bôrco sôbre o convés com uma barafustante paqueta baíana, magra, pequenina, ictérica, que comandava a poder de gritos e truanescas evoluções uma chusma de pequerruchos.
Por fim, essa adorável argentina ei-la que aí vem agora avançando... Vem só. Era alta, esguia, frágil e avançava leve e aérea, como um reflexo de si mesma, lembrando no porte e na frescura um dêsses longos, finos e erectos fustes da _palmeira imperial_, com o vértice perenalmente verde. Seguia breve e alheadamente, com uma simplicidade não isenta de nobreza, e foi sentar-se junto da mãe, uma repousada e aparatosa senhora que nos parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela segurança de tranqùila contemplação que emfim conseguia, já não abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que fôsse notado, entregar-se a esta viva e desbordante análise que a sua alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia à excitação misteriosa que dentro de nós faz chispar o maravilhoso reflexo interior da simpatia.--Era curiosa, enternecedoramente curiosa, com efeito, esta linda desconhecida. Aparentava 20 anos, não mais. Farto cabelo castanho, _mousseux_, sem brilho, descendo em bandós singelos a juntar-se sôbre a nuca; pequenina testa espiritual, em triângulo; os olhos castanhos tambêm, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lançadas sôltamente; o nariz projectado direito e um pouco longo, toda a face alongada por igual, perfil grego, traçado num como que afinamento idealista e ingénuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos, muito iguais, e a bôca breve, os lábios finos mas expressivos, resumindo o que porventura havia de vida e de paixão nesta criatura reservada e tímida. Nenhuma espécie de atavios: nem espartilho, nem jóias. Apenas na base do pescoço, ático e longo como um mármore da Jónia, um colar de corais napolitanos. As suas mãos, de dedos brancos e finos como longos estames, e mais claras que o tom _mate_ do rosto, eram o prolongamento lógico de tôda a figura, lembrando os tenros rebentos duma árvore de sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se-lhe no vago, enquanto na filigrana húmida dos lábios perpassava um frémito breve de emoção.
Na alma ardente do Silveira rompêra agora o desejo veemente, irreprimível, de mutuar impressões com a linda desconhecida.--Mas como consegui-lo, como chegar adonde a ela?...--considerava com afinco, instalando-se-lhe na frente, numa atitude de estudado abandôno, os cotovelos sôbre a amurada.--Tinha que haver uma apresentação, manobra táctica reconhecidamente difícil para o investimento cortês duma família como aquela, que êle não via comunicar-se com ninguêm, que ninguêm saùdava e que a ninguêm retinha, mantida mui deliberadamente no seu desprendido círculo de isolamento e indiferença. Assim, uma aproximação em condições favoráveis, segundo as regras do bom-tom, não era empresa vulgar.--O Silveira, de lábio pregado, reconhecia-o, e esta descoroçoadora evidência, longe de o desalentar, mais o enardecia.--Havia que buscar...--Numa fêvera crescente de impaciência, planizava estratagemas, ideava hipóteses, amontoava projectos, que, mal esboçados ainda, todos logo fracassavam. Então, em alternâncias de dulcíssima pausa, como um bálsamo, o áspero aguilhão do seu cuidado amolecia na contemplação deliciada e atenta dêsse baluarte suave de isenção e de virtude. Mas logo, mais despótica, mais tenaz, a sua amoruda obsessão voltava, por cada um destes venusinos exames trazida a um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatava a vontade e lhe acendia o desejo.
Um momento veio então em que o Silveira notou que, um pouco mais ao largo, à ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um joven glabro e calvo, com o engerido busto dobrado sôbre uma destas pequeninas mesas portáteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lápis seguiam numa carreira febril, dir-se-ia ao atropêlo cálido da improvisação, enchendo fôlhas sobre fôlhas sôltas, que a aba loira dum grande _panamá_ protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propósito exibitivo e grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e imobilizava-se, como que colhido em pausas de transcendente laboração interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lápis erguido digitalmente sôbre o lábio sibilino. Depois, num ímpeto criador, um estremeção simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, êle recomeçava inflamadamente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao Silveira que, numa destas estases de espiritual concepção, o biltre encarára particularmente a adorável argentina, a criatura esfíngica do seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambiára com ela um qualquer familiar sinal de inteligência.--Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz até à insolência... Bem, mas então, nesse caso... havia que conhecê-lo a êle tambêm!--E forte nesta idéa, feliz por êste relâmpago de aproximação salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de espaço a espaço aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso traço iniciai à sua fortuna.--Era uma figura abortiva e grotesca, assim tortuoso, magrote, pequenino, com o seu bigodito loiro, raso à raíz dos lábios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, com a cabeça tôda em tortumelos, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal, aparada caricaturalmente em ponta, num dêsses estiramentos cucurbitáceos peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoço sôbre a ladeira débil dos ombros mais acentuava o desliamento quebradiço e vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sôbre êste pescoço estriado, sôbre estas mãos nodosas, sôbre esta cabeça paradoxal que parecia recêm-saída dum cataclismo, não havia a epiderme rugosa e áspera que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penujosa e clara duma pele de efébo, _mate_, adoçando os contornos, com transparências de aguarela e velaturas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente; a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava súbito a uma rubefacção herpetizada e adusta no revestimento crassoso das desertas grimpas do cránio luzidío.
Vestia um jaquetão negro de lustrina, colete e calça de flanella créme, sapatos brancos, peúgas rôxas, a camisa mole _ajourée_, e a farta gravata de sêda negra caída e sôlta num desmanchado laço de artista. Um mixto de pedantismo e inconsciência, de garridice e desmazêlo. Propunha-se o Silveira abordá-lo, quando um pequeno incidente surgiu, a cortar-lhe o propósito e colocá-lo num passo difícil... Era o conde Améglio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o «grande fidalgo português e seu não menor amigo», logo de acercar-se-lhe, expansivo, sorridente, num afectuoso desbarato de gestos e mimadas atenções, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mão, familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas, ofertas, lembranças, solicitudes.--Que fazia ali assim? porque não vinha com êles?...--A adorável irlandesa, numa sublinha cativante, sorria tambêm. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de súbito posto à prova na duplicidade egoísta dos seus instintos. Gaguejava de embaraço, não acertava com uma posição, as palavras não lhe acudiam. Tomava-o uma espécie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se assim entaliscado estúpidamente entre essas duas solicitações, qual delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar, por fazer-se admitir ao convívio da linda americana, cuja linha patrícia e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual _Mrs._ Edith, cujas bôas graças não queria perder, mas junto da qual tambêm não lhe convinha fazer demasiado ostentiva parada de atenções, neste momento. Defendia-se por monossílabos, numa grande instabilidade de movimentos, còrando como um colegial e mirando de escape, numa idiota solicitação de escusa, a bela argentina, que nem dava por êle. Por fim, ante a insistência pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo que breve iria, a estibórdo, ter com êles; e tornou a còrar mais forte quando o conde, já longe e ao dobrar a esquina do _deck_, se voltou num gesto afável, acenando-lhe convidativo com a cabeça.
Daí a instantes, liberto do arreliativo pesadelo, acercou-se dissimulado do incansável rabiscador, o qual, no momento justo, arredára, num desvio brusco do antebraço, a grande aba do _panamá_ protector de sôbre as tiritas de papel, que logo desparramaram ao acaso, como arvéloas, pelo espaço. E logo tambêm o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solícito, baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolhê-las.
--_Un millón de gracias, caballero_.
--De nada...--obtemperou, amável, o Silveira; e com discreta atenção:--São produções inéditas?
--_Apuntes del natural_,--tornou singelamente o outro, sempre em espanhol,--esquissos, impressos, simples notas do momento, fugazes como êste instante de vida em que voamos.
--Deve ser interessante.
--Não vale nada...--derivou o iluminado anotador, num gesto desprendido.--Um modo inofensivo de matar o tempo.
Convidou o Silveira a sentar-se e acercavase-lhe, solícito, insinuante.--Sem dúvida era português? Pelo modo, pelo acento, via-se logo... Muito folgava! Êle era andaluz. Um pouco periodista e um pouco homem de negócios.--Impingia-lhe o seu cartão de visita, impresso em tipo gasto e vulgar, modestamente.--Ramón Alvarez, _tout court_.--Mas, sôbre a caligrafia tôrpe dos caracteres, um empenachado elmo luzia heráldicamente, mais tôrpe ainda.--Êle era duma família da mais antiga linhagem, família de cronistas, de poetas, de galans... e tivera sempre um grande fraco pelas letras. Tinha dois livros em preparação, uma novela e um poema épo-histórico, e tambêm um drama prestes a ser pôsto em scena pela Maria Guerreiro.--Oh, os intelectuais!--exclamou o incompreendido escriba, desarticulando o busto, rolando os olhos em êxtase e, num bravo arranque de entusiasmo, atirando a enormidade paradoxal da cabeça sôbre a nuca.--São a flor por excelência, a suprema exaltação da terra!--Infelizmente, êle vivia... viviam os dois, que lhe perdoasse se tomava a liberdade de o dizer... mas lá como cá... viviam numa peste de países de analfabetos, onde por via de regra os pensadores, os génios, os grandes eleitos do talento e do saber, morriam de fome. De sorte que, assim, havia que ser-se ao mesmo tempo um pouco prático.--Que remédio!--com enfado soberano rematou. E iludia o seu prosaico mistér de caixeiro viajante num vago eufemismo, dizendo «que vinha à Argentina estudar o país».
--E conhece argentinos?--logo o Silveira indagou com calor.
D. Ramón meneou negativamente a cabeça.
--Alguma das famílias que vão aqui a bordo?
--Tampouco.
--Nem aquelas senhoras, ali assim, à nossa direita?
Essas menos do que nenhuma. Alvarez não conhecia nem tinha ganas de conhecer.--Muito cheias de prosápia. _No le gustaba_.--E franzia o nariz com displicência. Na irritação do desapontamento, o Silveira é que teve ganas de lhe bater... Entretanto, na sua abundosa loquela, o Alvarez insistia que nunca podéra aturar gente pretenciosa. Ele queria-se com gente alegre, comunicativa, franca, _sencilla_, gente à moda do seu país, da sua terra... com pessoas que nos põem à vontade, no fraternal empenho de nos fazerem sentir que são nossos iguais, em vez de parecer que nos querem impôr uma humilhante adoração.--Olhe! como aquilo.
E apontava, de olhar incendido, uma linda morenita, mui viva e coquetona, tôda de branco, que justo lhes passava na frente. Ia ladeada por dois outros tenros amorinhos, e as três realizavam o mais delicioso grupo etrusco, assim caminhando rítmicamente, sôltas e leves, as cintas enlaçadas, os bustos dançando, o cabelo ao vento.
--_Què monada!_ Aquilo, sim... Veja! Veja!