Chapter 19
Por única resposta, ela teve um breve sorriso de êxtase a encrespar-lhe os lábios, e logo, còrando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira tornou:
--Que bôa idéa tiveste! Mas que fazes aí assim? porque não entras?
Sem articular palavra, sem se mover, Luísa manteve a mesma atitude retraída e humilde.
--Anda!--carinhoso e afável o Silveira insistiu.--Não queres comer?... não vens dançar?
Luísa movia a cabeça negativamente, fechada sempre na mesma inércia contemplativa, sem romper o seu mutismo.
--P'ra que vieste então?
Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas pálpebras, e na cálida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:
--_Para verlo_...
O Silveira sorriu e num estremeção de vaidade, medíocremente sensível à tímida e incontida expansão da rapariga, insinuou a mão pelos ferros e acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.
E partiu a seguir, por que em cima, junto à residência, uma salva de morteiros anunciava o início do concurso coreográfico, e êle fazia parte do júri. Então a pintalgada e densa coluna das várias músicas e bailados que insofrida se achava a postos, começou montando a _ladeira_ suave do jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus méritos frente ao estrado posto a meio da galeria,--ante a mirada crítica de Maria Mercedes, tôda de branco,--e seguindo num grosso e infindável coleamento, apartados por castas, distintos pelas côres, opostos pelos ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia dionisíaca que era a encantadora revivescência de algum atrevido _fresco_ pagão, na espontânea impetuosidade e na vida instintiva do seu movimento afirmando a irmanação genésica do homem com a Natureza, das almas com as coisas. Foi primeiro o _tango_, êsse gracioso hino da lascívia, impregnado de malícia picaresca, uma dança de perdição feita de lânguidos requebros, a um tempo trágicos e sensuais, exprimindo líricamente a conjunção fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras _vidalitas_, acompanhadas a viola e tamboril, crónica leve e sugerente de façanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cómicas aventuras; a seguir, os _tristes_, lembrando os nossos _fados_, gemendo um ritmo atormentado e dolorido, quáse religioso, que dá a vaga sensação do mistério, da solidão, do infinito; as _jotas_ e _sevillanas_ no seu saracotear febricitante, a _tarantela_ no seu académico balanceio, o _trepák_ no seu simbolismo ingénuo; e o desenvôlto _gato_, o mesurado _pericón_; as _baturras_, _soleares_, _farandolas_, _chulas_, _fandangos_... e quantos mais.--Durante horas seguidas, assim na calma benéfica da noite, sob o jôrro delirante dos aplausos e na sua estúrdia ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou dançando tôda essa corda guizalhante de rústicas melopeias. E quando já os primeiros alvores da manhã clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua interminável cola sonora se via impetuosa e louçã, desparramada a rabejar pelos caminhos.
IX
Um escasso dia volvido apenas sôbre a festa, Belisário regressou à metrópole. Seguiu-o no intervalo de mais um dia o Silveira, cuja existência ali, depois do seu assinalado triunfo hípico, nas últimas semanas, decorrera tôda batida em alternâncias de cruel incerteza, assaltada de imprevistas dúvidas, cortada em antíteses absurdas, numa espectativa mortificante. As flutuações coquetas, incessantes, da sua «bôa amiga» Maria Mercedes, cujas típicas excelências tam vivamente haviam sacudido o seu temperamento de fogo e vincado o seu carácter mulherengo; êsse jôgo caprichoso e perverso entre a frialdade e a exaltação, entre o espanto e o desdêm, entre o enfado e o carinho, desconcertavam-no. Inelutávelmente, corrido de vaga humilhação, êle reconhecia em Belisário um primaz competidor. Por sôbre aquele aspecto derrancado e turvo, a despeito do podrido descalabro dêsse físico todo escórias e ruína, o Silveira, forte embora da sua virilidade radiosa e exuberante, achava-lhe superioridades: era déstro no diálogo, fino e leve, bem falante, brandia a ironia como um florete, vestia com mais elegância. Por isso a sua obrigada e constante freqùentação, ali, com êsse émulo temido, e frente a frente os dois do ídolo do seu comum cuidado, tornava-se-lhe uma coisa irritante, molesta, dolorosa, por vezes intolerável. Contudo, retirar antes dêle seria uma deserção, uma cobardia. Foi suportando... Logo porêm que o afastamento voluntário do rival arredou a emergência dessa hipótese deprimente, o Silveira abalou tambêm, na sua incontida ânsia de emancipar-se duma situação por demais incómoda, violenta, e, perante a pungente ampliação do seu despeito... porventura ridicula.
Tendo chegado a Buenos-Aires ao entardecer, acolheu-se logo ao hotel, jantou e nessa noite não saíu. Apreensivo e triste, sentia uma grande necessidade de isolamento... e cedo se encerrou no quarto e abandonou-se à tortura voluptuosa das suas íntimas cogitações, cujas mórbidas volutas o surdo embalo dos vagos rumores da Avenida, em baixo, favorecia. Na manhã seguinte ergueu-se tarde. Aquele destemperado vibrar dos nervos impunha-lhe agora um preguiceiro e salutar repouso. Porêm, apenas terminado o almôço, picou-o um vivo apetite de expansão, de arejo, de movimento; precisava desabafar... queria falar, mexer-se, descompôr alguêm, ver caras conhecidas. Acendeu pronto o cigarro, tomou o chapéu e saíu logo, em demanda do amigo Azeredo, que mudára de pensão e residia agora ali perto do hotel, na _calle Libertad_, a não mais de quatro _cuadras_.--Era um pequeno prédio antigo, sem porteiro e sem ascensor. O Silveira teve que subir uma extensa escada de mármore, em caracól, quáse às escuras, e encontrou-se súbito num modesto e exíguo _hall_, pavimentado a baldosas negras e verdes, guarnecido por uma vélha mobília de vêrga, globos de vidro estanhado, missangas, _crochets_, enredadeiras e vasitos com plantas. Veio-lhe ao encontro o dono da casa, um aparatoso andaluz, de alentada envergadura, loiro e obêso, o _pijama_ e calça de riscado vestidos sumáriamente sôbre a pele, e os felpudos pés nus mal contidos nas babuchas.
--O sr. Azeredo ainda estava à mesa. _Quiere Usted pasar_?...
Acedendo curioso ao afável convite, o Silveira seguiu o solícito introdutor ao longo dum corredor tristonho e esguio, com anteparo de zinco sôbre o saguão, e ao cabo entrou no comedor, uma crepuscular peça oblonga, tomada quáse totalmente pela mesa, em tôrno da qual, havendo cessado de comer, os seus seis convivas, guardanapos depostos e arredadas as cadeiras, em amena chalra, num baralhamento pelintra, familiarmente se esqueciam. O Azeredo, mal que viu o amigo, ergueu-se de salto a abraçou-o efusivamente.
--Oh, João! meu grande vadio... Finalmente! Cuidei que te ficavas por lá...--E numa palmada cordeal sôbre o ombro, indicando a cadeira que, ao lado dêle, a _mucama_ havia pronto achegado:--Senta-te... Que magnífico que vens!
Em seguida, com aquele seu invariável ar salteiro e risonho, o Azeredo fez em globo a apresentação do amigo aos outros comensais, com uma sublinha especial, é de saber, perante a dona da casa, à direita da qual êle tinha o honroso privilégio de sentar-se,--e que era uma grossa e bem fornida vasca, quadrada, ruiva, de epiderme branda e leitosa, viúva havia ano e meio, e todavia agora ligada maritalmente ao andaluz... por conveniências domésticas. À direita do Azeredo sentava-se uma joven corista do _Avenida_, miudita, clara e franzina como um mimo de bazar, os olhos maquilhados fortemente, esborifado o cabelo, e na morbidez cansada da expressão saltando em contraste provocador o narizito petulante. O nariz era tambêm a única feição acentuadamente vincada, nessoutra vaga e estirada figura espectral que tinha logar à mesa em frente dêle, à esquerda da dona da casa,--um incompreendido violinista de café-concerto, a pele como pergaminho, os músculos como arame, rechupado, lívido, transparente. Mais à esquerda, havia um acomodatício e bronco pintor de taboletas. Finalmente, com depreciativo orgulho posta, e sentada como por demais, entre êstes dois últimos, aparecia uma gorda e casquilha quarentona, com o ar presunçoso e taful, pastosa, feia, arrogante, que era a mais insensata e hilariante personificação do burlesco; vestia uma curiosa bata ornitológica, tôda carregada de passamanarias, vidrilhos, contas e plumagens, bigarrada em côres de papagaio, em tons berrantes; a testa era rudimentar, e uns desastrados laivos de água oxigenada sarapintavam cómicamente a maranha abstrusa do cabelo pegajoso e sujo; pela fartura pendente do colo moreno havia por igual, às dedadas, a lambugem clara dos cosméticos; e à raíz da face opada rasgavam-se uns grandes olhos brilhantes mas apáticos, na sua vítrea imobilidade reflectindo uma fixidez obtusa de sáurio, uma credulidade estúpida.
O Silveira compreendeu num relance que esta presumida e grotesca marafona era naquele momento o centro burlão das atenções e o tema desopilante da conversa. Com efeito, não tardou que o amigo lhe não dissesse, apontando com solenidade a exibitiva carcassa em frente, numa irónica reverência:
--Chegas na melhor ocasião. Tenho o prazer e a honra de te apresentar a _señorita_ Calliope Cernadas, uma joven e distinta cantora, próxima debutante no _Colón_...--E com um patente ar zombeteiro, num gesto de solícito apoio aos circunstantes, acentuou:--Em plena primavera da vida, como vês... Vinte e cinco anos, _no mas_. Um flamante embrião de artista e um coração inabordável! Não é certo?...
De roda houve um bem simulado cabeceamento de convicta anuência, enquanto a embaída vítima trejeiteava desvanecidos requebros, em meio do côro hilariante da assistência. E para ela agora com a mesma urbana solenidade, o Azeredo, indicando o amigo:
--O meu amigo e patrício João da Silveira, solteiro, rico, poeta... O homem que lhe convêm... Um grande fidalgo e um grande enamorado.
No mais caricato arremêdo de êxtase, a enxundiosa Calliope revoluteava a apática inexpressão dos olhos, mordia o lenço, parodiava atitudes infantís e motêtes ingénuos. Entretanto, na sua apologética parlenda o Azeredo tornou:
--Uma voz de oiro!
--Dito por todos os mestres,--confirmou Calliope com fatuìdade.
--Cinco anos de Conservatório e dez de lições particulares.
A inocente visada teve um salto de despeito. E a seu lado o violinista, coçando deliciado a nuca, piscando um ôlho:
--Não se pode dizer um talento muito espontâneo...
Porêm, vagamente apiedado, o Silveira:
--Deve ter começado de muito criança.
--Era tudo fôrça da vocação...--aclarou o Azeredo, no mesmo tom escarninho:--Quando largou o _biberon_, já solfejava.
Em volta da mesa, agora, o riso estalou sem rebuço. E o avantajado andaluz, que acendera o cachimbo, fazia, mudo, sorridente e matreiro, o giro atento da casa.
Mas de repente o Azeredo, consultando o relógio, ergueu-se.--Eram horas de voltar ao escritório:--E saíu rápido, com o amigo, conduzindo-o familiarmente ao seu quarto singelo e claro, com varanda sôbre a rua. Ainda podiam quedar-se uns minutos. Acendeu o cigarro e sentou-se, na préga trocista dos lábios apagando-se-lhe as derradeiras vibrações por êsse jôgo desopilante com a _señorita_ Cernadas. O Silveira perguntou-lhe--que _bolha_ fôra aquela de mudar de pensão? E com ar enfadado, sucudindo os ombros, o Azeredo explicou:
--Aquilo lá era uma maçada, menino! Imagina: a tal viúva chilena dava-me uma sorte completa... e que rica mulher! impetuosa, louca, insaciável! Porêm o lamecha do caixeirola, perdidamente embeiçado por ela e sem sorte, tudo era voltar-se contra mim, dardejava-me olhares de desafio... um riso! fazia-me arremessos... E à sua arisca Dulcineia escrevia então umas cartas lacrimosas e tétricas, tresandando bafio romântico, nas quais havia desgrenhados apelos ao refúgio amargo da morte, e por entre cujos rábidos arrancos tremeluziam ameaças de vingança.
--Que te importava a ti?
--Não, mas é que ao mesmo tempo essa pobre rapariga _tanguista_, que era uma triste lambisgoia, dizia-se apaixonada por mim e daí seringava-me a todo o momento, metia-me bilhetinhos pelo buraco da fechadura, espiava-me, com scenas de ciúmes... Uma carraça, uma cataplasma, um tédio! Uma noite, comeu as cabeças tôdas duma caixa de fósforos e foi naquela casa um reboliço... vomitórios, fricções, prantos, desmaios... tivemos que levá-la à Assistência.
--És o terror das pensões baratas.
--De sorte que eu então, p'ra evitar uma dupla tragédia, tive um iluminado rasgo de prudente decisão e raspei-me. E aqui, estou bem. E uma casa _reinadía_... O diabo da patroa joga como uma danada nas carreiras, e de cada vez que ganha, é um deboche de _champagne_ com os hóspedes e as amigas.--E logo num tom de desafectada cordealidade, todo dobrado para o amigo:--E tu por lá, meu maganão?...
O Silveira desfiou regaladamente a narrativa entusiasta e louçã da sua breve estada no campo,--a imensidade lendária da _pampa_, a luz, a côr, a paìsagem, o inéditismo claro dos aspectos, a rude singeleza dos costumes. Espraiou-se em gratas referências ao hospitaleiro carinho dos Saavedras, enaltecendo de preferência, em enternecidas frases, essa doce e encantadora figura de D. Teresa, na sua aberta simplicidade, na sua bondade inverosímil.
Com um risinho misterioso, o Azeredo aventurou:
--Sim, sim... Ainda tu não sabes quanto ela é de boa!
--Então?...
--É uma sogra rara, única, paradoxal.
--Como assim?
--Sabes que ela tem uma filha casada, agora em Paris, a qual lhes deu já um netito, êsse _guapo muchacho_, o Eduardo, que é a exclusiva adoração do avô. Ora o pai do pequeno é um perdulário, um sem vergonha, um sensualão, um estroinaço impenitente. Pois esta D. Teresa, na sua louca dedicação pela filha, tem a santa ingenuidade de assegurar uma mesada ao genro só p'ra que êle, com as suas _calaveradas_, não dê desgostos à mulher.
--É bôa! Era uma sogra assim que me servia.
--Não haverá duas na terra.
A seguir, o Silveira, depois duma pausa,--e como quem tímidamente retarda o defrontar com uma dificuldade, ou voluptuosamente dilata a fruìção dum prazer,--referiu-se a Maria Mercedes, pastichou-lhe em tintas de vivo entusiasmo o deslumbramento da beleza física, apontou em vagas e trémulas linhas de incerteza a complicação desconcertante do seu perfil moral. E nesta empolgante análise retrospectiva, a despeito do tom deliberadamente ligeiro dos seus conceitos, a cada momento a comoção traía-o. Inadvertido e quente, descobria-se. Um sôpro de íntimo incêndio trazia-lhe a alma aos lábios, ao ensaiar a turbadora evocação dêsses formidáveis episódios, dessas horas atormentadas e profundas, relâmpagos de enlêvo, eternidades de dôr, delícias dum instante.
O Azeredo, dando-se grado a grado conta da situação, escutava-o em silêncio, num crescendo de apiedada estranheza, com aborrecimento, com quesília, com desgôsto. E por fim, tomando o chapéu para sair, com a bôca severa e os cílios graves, aconselhou:
--Tem-me conta com essa _gaja_... Começa por te derreter os miolos e acaba por te fundir a algibeira.
--É rica.
--Não importa. A esta gente aqui está-lhes na massa do sangue: _estafarem_ o seu e o alheio.
Voltaram naturalmente a juntar-se naquela tarde os dois amigos. Jantaram na _Rôtisserie Sporstman_, e foram ao teatro _San Martin_, desemborrar um pouco os nervos na contemplação da mímica petulante e lúbrica da Pastora Império. No dia seguinte, esperto e ligeiro, deu-se pressa o Silveira em ir fazer o giro matinal de Palermo, onde já sob a claridade molhada do ar, na renovação da temporada elegante, um cordão de deliciosas silhuetas dandinava pela orla escovada das _pelouses_, e a envernizada frescura do asfalto se emplumava do trotar garboso das amazonas. Sentia-se bem... Reganhava-o o sugestivo encanto da vida ampla e fácil da cidade. Naquele doce ambiente de agrados e belezas o seu estimulado ser tinha um aprumo salutar... a vontade tomava raízes, a sua galharda juventude frondejava em ímpetos, sentia o pensamento inerte, embevecida a alma, o coração cativo.--Buenos-Aires, bem se dizia... era o Paris da América, seguramente!--Vinha-lhe o dulceroso apetite de quedar-se esquecidamente ali, nesse adorável ninho da felicidade, essa esplendorosa sucursal do Paraíso, deslumbrante e imensa caravançara onde à compita, vinha estrelar-se o escol das civilizações, onde émulos se davam cita os génios de tôdas as raças, o melhor dos progressos, das grandes conquistas morais e materiais de todo o mundo... ali, o privilegiado solar da fortuna, da abundância e da harmonia, a terra das mulheres de lindas bôcas, de rostos de linhas puras e suaves, tendidas com nobreza.
Duma das vezes, ao desembocar na _Avenida das Palmeiras_, cêrca do lago, pareceu-lhe distinguir na sua frente, entre o pintalgado baralhamento da quádrupla fita de veículos, uma figura sua conhecida. Era com efeito o grosso e ponderado Mafiori, que descia dum aparatoso _Peugeot_, e mal que reconheceu o Silveira, veio logo adonde a êle, importante mas afável, a oferecer-lhe as duas mãos e a perguntar-lhe--como ia. Cortês e solícito por igual, pediu-lhe tambêm o Silveira informações dos seus negócios. O marquês estava remoçado, parecia feliz. Os olhos flácidos tinham mais brilho, a vasta e epilada testa desanuviára, e tôda a face rosada e redonda florescia, erguida pela saúde ou dilatada pelo prazer. Às interessadas perguntas do amigo, êle sorriu.--Bem! muito bem!--E com a sua fidalga e resignada bonomia aclarou, encolhendo os ombros,--que aquela forçada abdicação dos seus fóros nobiliárquicos trouxéra-lhe sorte, afinal. Estava fazendo bastante negócio. Fizera uma bôa venda aos Spantuzzi, outra aos Ribolto, estava alcatifando de novo a casa tôda dos Arriola,--um palácio!--e tinha uma grande encomenda para o _Jockey-Club_.
E sempre com dignidade, uma ligeira sublinha de irónico desdêm a encrespar-lhe os lábios:
--A esta hora, já as venerandas ossadas dos meus maiores hão-de haver estremecido, várias vezes, de indignado horror, nos seus ricos mausoléus lavrados. Uma indignação de mau gôsto, no fim de contas... Porque outra coisa não há a fazer nesta terra, que com todo o seu exibitivo pedantismo não passa duma mercearia colossal. Tudo mais ou menos se negoceia aqui: é uma questão de rótulo. O segrêdo está na arte de embair o freguês a encarecer a fazenda.
Depois, num gesto de paternal incitamento:
--Porque não faz o mesmo, meu amigo...?
Súbito, como na onda vaga da multidão descortinasse algo que o interessava, despediu-se de improviso, embrulhando banais desculpas e rematando amável:
--Eu continuo no _Plaza_. Venha um dia almoçar comigo.
E êle que segue dissimuladamente na peugada duma mulher grande e loira, de idade à primeira vista inclassificável, artista lírica em disponibilidade ou _demi-mondaine_ em decadência.
Certo foi que a prática significação daquele seu conselho calou suasiva e funda no ânimo inconsistente do Silveira.--Seria realmente uma coisa acertada, sensata, oportuna, tentar um negóciosito. Porque não?... Já várias vezes êle o havia pensado: fazer como tôda a gente. Êle trouxéra consigo uns contitos de réis, p'r'ó que désse e viésse... e porque não procurar engrossá-los? de preferência a desbaratá-los p'r'aí estúpidamente, em aventuras banais com mulheres ou jogando à tôa na roleta e nas carreiras?... E, ainda, mais a dura preocupação dos interêsses monetários poderia ser quiçá um derivativo salutar, e ter a virtude de pelo seu áureo deslumbramento dissipar moles inclinações piégas e furtá-lo a exaltações perigosas, como essa agora da diabólica _Miquêtas_... Vá feito! Era o caminho a seguir.
Desta forma, o Silveira, sensível ao contágio do mercantilismo ambiente, perdido, como tantos outros, na embriagadora miragem dum engrandecimento rápido e retumbante, nos dias subseqùentes dava-se com afinco à leitura dos anúncios comerciais dos diários, concorria aos leilões, era um assíduo freqùentador das _vitrines_ dos corretores, onde em taboletas relumbrantes de emissões de títulos, vendas de lotes de terras e quejandas alicantinas, se acenava aos incautos com fortunas fabulosas. A intervalos, as venusinas predilecções do seu carácter reganhavam o natural ascendente, e êle então pensava em visitar os Wimeyer, que contudo ainda não haviam regressado do campo. Queria tambêm voltar a ver os Améglio; porêm aquela cavilosa duplicidade de _Mrs._ Edith irritava-o... Era porêm evidente que, por momentos, a branca crôsta da sua alma metalizava-se. Já jogava em fundos e entrára com capital para a fundação duma _Sociedade Internacional de Seguros_. Êle era o primeiro a fazer troça de si mesmo, desconhecia-se... e com familiar abandôno comentava, perante o Azeredo:
--Tem graça! eu tam influido agora com negócios... coisa que não é nada o meu feitio.
E meio incrédulo, o amigo:
--Não te dura muito!
Contudo, o Azeredo, vagamente scéptico mas no fundo de acôrdo, entendia que sim, que fazia muito bem! porêm tinha que precaver-se e ter muito ôlho contra essa imensa praga de _estafadores_ e meliantes... Ao mais pintado êles faziam o _conto do vigario_, a cada instante! Por isso, que não tratasse senão com gente bem conhecida. Havia de apresentá-lo no _Club Progresso_, onde teria ocasião de relacionar-se com importantes financeiros e industriais, com grandes e autênticos _terratenientes_, com fazendeiros honestos e firmas garantidas.
Entretanto, tôdas as manhãs, com uma pontualidade de amanuense, o endurecido Silveira subia a _Avenida de Mayo_ para ir ver as cotações da Bôlsa e em seguida fazer, por _San Martin e Reconquista_, o interessado giro do bairro clássico dos negócios, dando-se a acariciadora ilusão de ser já um grande capitalista ou proprietário. E ao mesmo tempo alguêm havia que, com solícita antecedência e uma pontualidade igual, em face mesmo do seu hotel, da esquina oposta da Avenida, em plena rua, aguardava em suspenso a sua aparição e espiava afincadamente a realização quotidiana dêste acto banal da sua vida exterior.--Uma simples e adorável rapariga do campo, verdadeiro diamante em bruto, miudita, morena, bem calçada mas vestindo pobremente, com o ar um pouco estranho, desageitada, esquiva, em cabelo. Tinha férvidamente posta a vida, o apetite, o desejo, na enternecida fixidez dos grandes olhos negros, incansavelmente apontados ao portão espelhento do hotel; e, fechada no exclusivismo da sua mordente inquirição, como que buscava anular-se para tudo o mais, tímida e pequena ante o roce brutal da multidão, furtando-se aos galanteios, repelindo, assustada e arisca, as propostas equívocas dos que passavam. Depois, quando a aprumada figura do Silveira assomava à porta e saía, passeio fóra, a caminhar distraídamente, a sua encantadora e ignorada espia vibrava ao imperceptível estímulo dum inefável júbilo interior e seguia-lhe humilde na peugada, durante uma ou duas _cuadras_, paralelamente; e por fim, quando se perdia ao longe, na atropelada onda do movimento, aquele desprevenido alvo do seu cuidado, ela por seu turno, à primeira esquina, dobrava e desaparecia tambêm num relance.
Mais de uma semana, com inalterável precisão, dia por dia, se prolongou e repetiu êste jôgo inocente para o inadvertido ânimo do Silveira absolutamente despercebido. Té que, duma vez, como êle tivesse que dirigir-se à _calle_ Vitória, apenas saíu do hotel cortou direito a Avenida e veio assim a cruzar-se, quáse ombro com ombro, com a interessante figurita anónima que o espiava, e que na sua deliciada confusão, ao primeiro instante, queria evitá-lo, eliminar-se, fugir... Impossível deixar de notá-la. E logo súbito, numa expansão de grata surprêsa, reconhecendo-a:
--Ó Luísa! tu aqui?...
Tolhida numa vergonha, a gentil rapariga torceu as mãos, baixou os olhos, enquanto a frescura virginal da face tôda se conflagrava em tintas de incêndio.
Abrindo acolhedor os braços, o Silveira interrogou:
--Então? deixaste a _chacra_ onde trabalhavas?
--_No me pagaban_.
--E teu irmão?
--_Me pegaba_.