Amor Crioulo vida argentina

Chapter 17

Chapter 173,528 wordsPublic domain

A pouco de entrarem no salão, a linda e aparatosa viúva, sentindo-se o alvo comovente das atenções, com marcada complacência arrastou uns poucos passos lânguidos, teatralmente, poisando de importância; e logo de arrojar-se com indolência sôbre um _fauteuil_, e num ar mimalheiro e infantil, a cabeça froixa, os olhos vagos, achegando ao flanco as almofadas:

--Ai, mas que bem que eu me sinto aqui! entre pessoas sinceramente amigas, sem fingimentos, sem peias... e sem cuidados. Como eu vou poder descansar!

--Ah! ah! Mas descansar de quê?...--cascalhou Jorge familiarmente.

--Com a vida que levas...--ainda a irmã dêste comentou, sorrindo.

--O quê? vocês pensam que eu na cidade não faço nada?

--Claro! Uma perfeita _haragana_.

--Pois enganam-se! Às 7 da manhã já eu estou a pé.--E ante o sorriso incrédulo da assistência confirmou com ardor:--Palavra de honra! Apesar de ter confiança na _ama de llaves_, passo logo revista à casa tôda. Depois, às 8, vem a massagista; ás 9 a cabeleireira e a manicura; às 10 tenho o _desayuno_ e cuido um pouco da _nena_. A seguir, até ao almôço, encosto-me um pouco, isso sim... É uma grande regra de higiene: conserva o bom parecer e evita a magreza. Mas durante o resto do dia, naturalmente, depois, é o meu procurador, quantidade de coisas da beneficência e uma séca de voltas, compras e visitas. De sorte que assim à noite, quando acabo de comer, sinto-me fatigada... e aí pelas 10 ou 10 e meia, quáse invariávelmente, deito-me. Já vêem...

--Com efeito!--encareceu D. Teresa com agrado.

--Deito-me logo, é certo. Embora às vezes tenha convidados, que todavia ficam e me desculpam.--E na espontânea demanda do infalível testemunho da sua inocente afilhadita, que acabava de entrar, Maria Mercedes rematou:--Dorita, não é verdade?

A precoce e débil criança dobrou numa ponderosa afirmação a cabeça; e a seguir, abandonando a boneca sôbre uma cadeira, avançou vagarosamente a acercar-se da viúva, a cujo lado, tomando-lhe com ternura a mão, se enovelou, já com um ar composto e grave de pessoa adulta,--o seu rosto sério e os pequeninos olhos claros, muito abertos, revelando tôda a acuìdade mordente da atenção para apreender e quanto possível assimilar, no enunciado e na intenção, o desenho sinuoso do diálogo.

Entretanto, com burlona ironia tornou Jorge:

--Pois aqui, querida primita, já sabes... há tambêm que trabalhar.

--Pronto!--rompeu, saltando de ímpeto, a viúva.--Teem programa?

--Esperávamos por ti,--aclarou D. Teresa.

--O teu _veredictum_ é essencial,--completou pai Saavedra com ternura.

--Bem, pois vamos então a ver... Já pensaram em algo?

De roda abriu-se um claro de silêncio hesitante, e houve um tiroteio mudo de olhares de incerteza. Apenas Célia ousou então docemente insinuar:

--Há aí um assunto, de magna importância, quanto a mim... Porêm todos me _hacen burla_, _me pelean_, opõem-se...

E aquela esquiva e insípida figura desfiou com vivacidade crescente, perante a atenção tolerante da prima, tôda essa magoada história do seu desgôsto pelo industrialismo, a irreligiosidade, a chateza, a afrontosa materialidade pagã que pesava sôbre a _estancia_; e como era vivo, alado e ardente o seu desejo de ver por fim êste adorado ninho da família posto sob a invocação duma santa padroeira qualquer, ao místico abrigo tutelar da divindade. E ainda, por último, esboçou e enalteceu, como o seu único apoio, a poética idéa do Silveira.

--Ah, mas eu acho óptimo!--acudiu com palpitante animação Maria Mercedes, avançando o busto com graça e juntando e batendo as mãos, crêspos de decisão os lábios, os grandes olhos faiscando.--É certo, sim... Abundo no pensamento do sr. Silveira. Excelente, não há dúvida... Tens razão, Célia! Tens-me a teu lado.

Num perturbador lume de vaidade, logo o Silveira, dobrado em afável reverência:

--Sinto-me deveras ufano por essa sua espontânea conformidade de pensar, minha senhora.

--Ah, mas não vá desvanecer-se demasiado, meu caro amigo! A minha conformidade não é completa. Um ponto há em que eu peço licença para divergir...

--E então?

--É nessa coisa gasta e trivial de azulejos pelas paredes e retábulos pelas esquinas,--no seu expressivo fransir do nariz respondeu morosa a viúva:--Nada, nada... temos muito melhor!--E ante a suspensa atenção do pequeno grupo, sacudindo iluminada a cabeça, batendo com fôrça no joelho:--A santa imagem propiciatória dêste logar hemos de a colocar lá fóra, no jardim, debaixo do vélho _ombú_.

Um eloqùente alarme de protesto, um calafrio de indignado horror, acolheu a herética audácia da proposta.

--Ó _Miquêtas_, por favor!--censurou, a primeira, D. Tereza.

--Uma árvore condenada, ôca, podrida, inútil...--comentou o filho com asco.--Um símbolo de mau agoiro.

--Por isso mesmo!

--A que extremos o prurido da originalidade arrasta por vezes esta minha bôa sobrinha!--com o seu ar mais bonacheirão interveio, sorridente, D. Toríbio, e conciliadoramente:--_Este_... Pois tu não conheces o vélho adágio crioulo: _rancho con ombú acaba en tapera?_... Sabes muito bem que a _gauchada_ odeia, por tradição e por instinto, quantos raros exemplares por'í ainda acaso existem dêste torturado e solitário representante da nossa grande flora secular. Êles teem o _ombú_ por uma árvore presága, abominável, a cuja sombra sinistra parecem germinar e medrar a ruína, a desgraça e tantas vezes o crime.

--Uma crendice estúpida.

--Que em todo o caso existe. Quantas dessas vélhas árvores o nosso _paisano_ pode impunemente alcançar, sabes que as abate logo a machado.

--E fazem muito bem!--implicativo tornou Jorge.--Se é lenha que nem para o fogo lhes serve!

--Essa antiga sentinela do nosso jardim deve seguramente a vida ao seu resguardo,--continuou afávelmente D. Toríbio; e com suasiva mansidão para a sobrinha:--De sorte que... _este_... já vês, se nós vamos agora a pretender nobilitar, a deificar em certo modo, pela tua peregrina idéa, êsse precário foragido do deserto, muito possível é que então a bruta peonada dos arredores, conseqùente no seu ódio medular, seja capaz de, por extensão, tomar tambêm em aversão toda a _estancia_. Vê lá...

--Certo, certo...--cabecearam Célia e a mãe, num passivo assentimento.

Porêm, serena e insensível, sem se desconcertar, no mesmo convicto ardor teimou a viúva:

--Pelo contrário!... Essa pobre gente pensa mal? é vítima inconsciente de íniquos preconceitos e crendices absurdas? Pois o nosso dever é ensiná-los, educá-los, esclarecê-los... varrer-lhes o intelecto e aclarar-lhes a consciência.

--Estás bem aviada!

--Claro que sim! Temos a santa obrigação de abrir-lhes os olhos, de fazer-lhes bem sentir tôda a cega extensão da sua ignorância e o bárbaro desvio do seu êrro.

--Querem lá saber!

--Em vez de ser um tema de abominação, o vélho _ombú_ argentino merece bem ser antes um objecto de carinho. Há que reabilitar êsse veterano simpático do nosso campo, essa relíquia veneranda do passado, testemunha muda e inocente de tanto sucesso lendário...

--Eu logo vi...--atalhou Jorge com o seu incorrigível ar trocista.--Está sabido. Todos os _ombús_ são lendáríos.

--Quando não são históricos!--corrigiu pronto, com firme severidade, a viúva. E posta súbito em pé, sempre com a mesma incisiva veemência levando de vencida a já froixa resistência do auditório:--Ora imaginem! Improvisa-se uma peanha, em cima um nicho a carácter, instala-se dentro o santo ou a santa... e aí temos nós o pretexto para uma interessante festa nocturna. Verão o efeito. Cai aí tudo... vai ser lindo!

E como de roda todos, vagamente sorrindo, se fechassem num silêncio que era uma aquiescência, ela comandou com alegria:

--Bem! bem! está combinado. Daqui não há que sair. Amanhã veremos os detalhes...--E rematou com decisão, segura já do seu triunfo:--Meus caros amigos, não há tempo a perder! porque a minha demora aqui vai ser curta.

Uma aluvião de subitâneos protestos choveu da assistência, entre os quais era de notar a calorosa insistência do Silveira.--Que não! não podia ser! tinha por fôrça que demorar-se. Adorada por todos como ela era ali assim! O contrário seria uma crueldade, seria um crime. Nada! não a deixariam partir...--Mas a despeito de todo êste adulador incenso, a mimada viúva, com bem dissimulado desgôsto, aventurou--que, emfim, era forçoso... A estação ia adiantada, e ela tinha ainda forçosamente que visitar Córdoba, Montevideo, Bahia-Blanca, Mar del Plata.--E bruscamente, passando a recostar-se numa convidativa e ampla _dormeuse_, frente a uma janela aberta, e agitando a mão com angústia, queixou-se de que sentia imenso calor e tinha sêde... queria beber alguma coisa.

Logo de roda o pequeno círculo em solícito movimento. Dorita partiu a correr, a buscar um leque; Jorge improvisou uma ventarola de papel; pai Saavedra foi estabelecer corrente de ar, abrindo a porta, enquanto o Silveira abria tambêm mais a janela; e D. Teresa e a filha, açodadas e inquietas, batiam, acamavam o estôfo da _dormeuse_, ageitavam a cabeceira, arredavam as almofadas. Depois, mal o criado de mesa entrava, trazendo uma bandeja com refrescos, e já era a imediata presença da _niñera_ que a insatisfeita viúva imperiosamente reclamava, para que lhe trouxesse o seu _little Riddle_, que ela sôfregamente aninhou no colo, deliciada a coçar-lhe a nuca e a dar-lhe guloseimas.

Ainda a conversa se prolongou por um tempo mais, bordada sôbre coisas vazias de interêsse, a termos que por fim Maria Mercedes, erguendo-se e aconchegando a _écharpe_, pediu licença para retirar-se, com Dorita, dizendo agora que sentia frio. Todos obsequiosamente a acompanharam, ao longo do _patio_, té à porta da escada para o andar superior. E aí, na carinhosa cauda das despedidas, ela disse afectuosamente ao Silveira, estendendo o braço:

--Então, bons amigos, não é assim?

--E aliados!--confirmou êle, radiante, beijando aquela mão divina.

E, tôda a noite, êste autêntico produto da singela e bronca região duriense quáse não dormiu. A impressão vincada por Maria Mercedes no seu temperamento cálido, na sua apoucada inteligência, no seu impetuoso e límpido carácter, marcára fundo bastante para espancar-lhe o sono e atear numa viva espertina a arrastada sucessão das horas. Não o fascinára sómente o deslumbrador cortejo dos encantos físicos da recêm-vinda, mas tambêm, e de preferência, a linha sinuosa e complexa do seu perfil moral. Organismo rico de sangue e pobre de nervos, afeito às aventuras fáceis, esperto e fanfarrão batedor na caça dos simples amores campesinos, o impressivo desenho desta figura requintada e esfíngica desnorteava-o. Até àquele momento êle não lidára, mais ou menos, senão com mulheres dum córte definido, compreensíveis, sinceras, claras como o azul matutino do céu e a água cantante das ribeiras. Ainda agora aqueles seus dois últimos conhecimentos, durante a viagem,--a esquiva Irene dentro do seu espiritual alheamento, a provocante _Mrs._ Edith embiocada na sua sábia impostura,--mostraram contudo logo o que eram, foram sempre lisas, coerentes, lógicas consigo mesmas. Porêm Maria Mercedes, não! Era uma criatura embricada, enigmática, temível... estava a ver. Cheia de mimalhices, caprichos, alternâncias, brusquerias, entusiasmos, tédios. Um diabólico e indecifrável novelo, um problema estonteante. Queria investir com ela e tinha-lhe mêdo! Era um abismo de seduções e um torvelinho de mistério, que ora lhe inflamava o instinto ora lhe acobardava o desejo. E--coisa interessante, rara tambêm e para êle inexplicável,--a cada momento, a cortar suavemente a angustiosa dúvida do seu querer, nos mais agudos instantes desta sua obstinada devassa interior e pelo mais adorável dos contrastes, vinha e debuxava-se-lhe na vaga penumbra do aposento, sobrepondo-se à turbadora imagem da viúva, em claros benéficos de repouso, a figura mansa e rústica da sua confiada amiguita da antevéspera, Luísa, a linda morenita, na mesma apostura silenciosa e humilde, na mesma inércia contemplativa, na mesma frescura moral de clara fonte, iluminada de ternura ingénua... e na amaviosa concha do seu olhar, cheio de fogo latente, envolvendo-o, calmando-o, dominando-o... mercê dêsse irresistível poder das mulheres suaves e tristes, quando rogam mansamente.

Na rápida sucessão dos dias, depois, não perdia o nosso atolambado galã o mínimo ensejo em que acercar-se pudésse da viúva, a procurar tornar-se insinuante, familiar, prendê-la ao seu convívio. E buscava ardilosamente captar-lhe a atenção, na impossibilidade manifesta de lhe falar ao desejo. Ao mesmo tempo arriscava tôda a sorte de tímidas, de insidiosas inquirições sôbre o problema mordente do seu passado.--Uma mulher assim devia ter crónica!--A cada momento esboçava interrogações e bordava conjecturas sôbre os ignorados antecedentes, sem dúvida invulgares, daquela vida. Preocupava-o árdidamente o mistério desta estrangeira nascida tam longe dêle, e cuja existência,--estava-se a ver,--teria porventura sido demasiado vaga e errante para que êle jámais pudésse bem conhecê-la.

Algumas vezes D. Tereza veladamente lhe insinuára,--que a sua pobre _Miquêtas_ não fôra nada feliz com o casamento. O deslumbrado Silveira não queria crêr... Jorge, o seu confidente natural, discretamente e de pausa lhe ia tambêm relatando um que outro pormenor, avançando um detalhe, sublinhando uma anecdota; e, na crédula cegueira da sua admiração lamecha, cada nova revelação sempre o Silveira aproveitava para desatar-se em hiperbólicas fantasias, cuja asa de oiro logo o amigo prosaicamente lhe cortava, por um episódio trivial ou um comentário trocista. Foi assim que, uma tarde, sentados os dois naquele aconchegado rincão do _patio_, junto ao comedor,--e porque, incorrigível, o Silveira voltasse ao seu panegírico optimista sôbre as sublimadas perfeições dessa criatura de deslumbramento e de sonho, que merecia mais que um trono... um altar,--ainda uma vez com inflexível frialdade tornou a frisar-lhe o amigo:--que todavia ela não era, nem fôra nunca, feliz. E que poderia bem tê-lo sido... com as paixões loucas que inspirou, com os belos pretendentes que teve! Pelo desespêro uns levados ao suicídio, outros à loucura, outros à ruina. Ele já sabia. E que afinal...

--Afinal...--recalcou o Silveira com ardor,--sempre teria sabido escolher um marido digno dela. Se é que semelhante prodígio era possível!

--Que prodígio! Nada disso! Pelo contrário... Muito mais vélho... _camorrista_, devasso e jogador. Comparado com ela, um perfeito estafermo!

--Bem! mas ao menos morreu... Está livre dêle!

--Morreu... E por que forma?--balbuciou Jorge, fazendo uns olhos de piedade, com uma cáustica expressão de enfado. E por fim, ante a suspensa e mortificada atenção do amigo:--Em casa duma amante... duma apoplexia.

O Silveira fez-se pálido, corrido por um frio interior de nôjo e de revolta. Porêm Maria Mercedes, que passava na ocasião e aprendera esta pequena aresta de diálogo, acercou-se, mansa e familiar, dos dois amigos, e com uma adorável resignação, quáse infantilmente:

--Ah, mas por'mor de Deus! Meu caro amigo, não me lastime. Eu relativamente estimei... Poupou-me o desgôsto de o ver morrer.--E logo com desenfastiada naturalidade, derivando:--Mas dispensem-me, sim?... Vou escrever p'r'a capital, quero ainda aproveitar o correio de hoje. Vou mandar uma carta cheia de minuciosas instruções a êsse santeiro de _calle_ Suipacha, sabem?... É a encomendar-lhe uma grande imagem da nossa futura padroeira, a Senhora da Conceição. Escolhi bem, não lhes parece?... Ela é o santo símbolo da fecundidade e da pureza, e portanto o mais condizente escudo e o mais fiel espelho desta mansão exemplar da abundância e da virtude.

E, feita uma ligeira vénia, ei-la que retoma a andar, naquele seu estudado ademan de requebrada e ondeante majestade, a fugidía asa dum sorriso a encrespar-lhe os grandes olhos côr da noite e a adejar nos lábios nacarinos.

--Divinal mulher!--murmurou, posto em cómico êxtase, o Silveira.--Como diabo foi ela tomar um animal dêsses p'ra marido!?

--Sei lá!--redarguiu Jorge, num risinho scéptico.--Coisas de mulheres... Ela diz que foi por amor ao paradoxo e umas tantas _pavadas_ por êste teor. Mas não! quanto a mim, foi pura questão de vaidade. _Se le ha puesto entre cojas_ dominar, moralizar, regenerar êsse salafrário. _Pero se ha embromado_.

--Com o que nada perdeu, no fim de contas.

--Ah, não seguramente! Ao contrário, com mais êsse pequeno escândalo o seu nome não fez senão ganhar em fascinação, em poder, em comovido interêsse e mundanal prestígio.

Abroquelada na sua individualidade melindrosa e rebelde, Maria Mercedes nem a todos os preceitos se amoldava daquele salutar e primitivo viver da _estancia_. Não lhe importavam passeios, temia as caminhadas, envolvia no mesmo abandôno de fastidiento desdêm a barulhenta bisarma das instalações industriais e o manadio disperso da riqueza pecuária. Substancialmente, a rude movimentação, o giro áspero e forte da vida do campo, repugnavam-lhe. No seu temperamento subtilizado e mórbido essas cruas batidas de ar e de luz feriam reacções bruscas, violentas, quáse dolorosas. Despertava, erguia-se cedo; porêm de ordinário, antes do meio-dia, ninguêm conseguia vê-la fóra do quarto, sucedendo-lhe repetir amiúde «que de manhã não era mulher p'ra nada». Antes daquela hora apenas condescendia em sair dêsse inviolável reduto, quando muito, a _niñera_, a arejar o _Riddle_ e a passear Dorita. Maria Mercedes apenas uma vez acedeu a dar um passeio matinal, a cavalo, na companhia de Jorge e do Silveira. Mas baldadamente êste depois, em várias dulcerosas investidas, tentou persuadi-la a que lhe fizesse a fineza de repetir, e desta vez com êle só, o sacrifício... todo na saborida antevisão dum aventuroso idílio. Nada alcançou. Fôra uma façanha sem exemplo.

Pelas tardes, sim, era a bela viúva a primeira na actividade, no bom-humor, na alegria. Fazia largos e piedosos percursos, então de ordinário companheira inseparável e gostosa de D. Tereza no seu esmolátorio desporte pelas redondezas. E em seguida, às noites, no salão,--aonde sempre acudia uma ou outra família vizinha,--era ainda ela o prestigioso centro das atenções, o fulcro espiritual do diálogo, neste môrno e sossegado ambiente, sentindo-se na posse plena dos seus nervos e em todo o facetado fulgor do seu espírito.

Ao cabo duma semana, por uma nublada manhã, pesada e ardente, chegou Belisário Ruiz. Exceptuando por parte de Célia, teve sua consabida recepção de agrado. Maria Mercedes acolheu-o com afabilidade e festejava-o, judiava-o, apurava-o muito, mercê desta liberdade inocente que a intimidade nos traz e um largo conhecimento. De sua banda porêm o Silveira entristeceu e alarmou-se, por uma apreensiva retracção do instinto.--Ganharam então em colorido e interêsse as familiares tertúlias da noite, agora de ordinário bordadas sôbre assuntos mundanos, em que a desabusada _verve do recêm-vindo_, no seu arrastado ar _blasé_, intercalava amiúde a nota picaresca ou o comentário equívoco. Era sem fim o rol que, a propósito, este pândego contumaz se comprazia em desfiar, de casos escuros, anecdotas picantes e grotescas aventuras, fruto da própria experiência umas, outras colhidas naquele seu fácil e sôlto passo pela vida fóra. Então não raro aconteceu, quando o diálogo assumia um cariz algo _verde_, a meticulosa Célia erguer-se e sair, dissimuladamente. E uma noite pai Saavedra, bonachão alegre, no seu adorável espanto infantil, exclamou para Belisário, batendo galhofeiro os braços, os pequeninos olhos verdes húmidos de riso:

--Mas que coisas com que êste homem nos vem! _Chacotón_! Onde demónio vai você saber tudo isso?

--Aí teem!--acudiu com intimativa a viúva, súbito erguida da sua apostura indolente.--É o que se ganha com as viagens. Êste senhor tem viajado muito, como eu. Faz bem... O que a gente vê, ouve, sente, adivinha, ausculta e aprende!... São um grande e divertido ensinamento.--E num suspiro lânguido, recumbida e mole novamente:--Quem me déra ir já por'í fóra outra vez!

O Silveira esboçou um convicto e mudo assentimento; e carinhosamente D. Toríbio:

--Sempre viajar! sempre viajar! Nunca te fartas...

--Que querem? sou assim... É da baralhada essência do meu sangue. Imaginem; minha mãe era uruguaiana, minha avó italiana, meu avô alemão, meu bisavô norte-americano... Com uma ascendência assim, que outra coisa poderia eu ser senão uma incorrigível vagabunda?

--Deves ter amor à tua terra.

--A minha terra?... Sei lá qual é!

--Não digas isso!--acudiu a gorda e maciça D. Teresa, estremecendo e erguendo com horror as grossas palmoiras à tinta industrial do cabelo.

Porêm a viúva, quente, imperturbável:

--Ah, isso é que eu digo, minha querida tia! perdoa-me... Porque não há razão nenhuma, porque eu não sinto o menor movimento de alma, nem conheço qualquer forte fundamento exterior que me leve a prender-me ao torrão onde acidentalmente nasci.

--Deves querer mais do que tudo à tua pátria--severo reprimendou Jorge.

--Lá vem, lá vem o consagrado chavão! a linda e convencional mentira!--pronto a viúva contestou num alto desdêm burlão; e a seguir, fransindo o nariz, doutoralmente:--Isso de pátria é uma antiga invenção dos ambiciosos e dos déspotas, para por meio dela escravizarem ainda mais a récua desprezível dos humildes; para fazê-los pelo coração tributários dos seus domínios, e cegos no deslumbramento dessa patranha sublime, jungi-los e arrastá-los então irracionalmente, como máquinas, no carro devastador das suas conquistas, aos grandes actos de heroísmo colectivo e anónimo, à abnegação, à intrepidez, ao sacrifício, à morte. Sempre assim foi... Neste ponto a estratégia dos grandes mandões é invariável assim como a passiva estupidez dos que lhes obedecem é infinita.

--Estás-te excedendo, filha!--atalhou com sincera indignação D. Toríbio.--Nem pareces argentina!

--Não sei o que pareço, nem me importa! O que eu sei, o que eu sinto muito bem, é que a noção de pátria é uma concepção tacanha e absurda. Os mais, num blóco unânime, protestavam; e ela, com vivacidade persuadente:--Pois se a terra, na origem, na essência e no destino, é tôda igual! Então os senhores não vêem que tudo quanto há de perdurável e transcendente neste mundo, as grandes invenções, os grandes ideais, os grandes sentimentos, são de carácter universal? Pois não é certo, que para que uma obra da literatura ou da arte alcance a consagração eterna, ela há-de romper o âmbito estreito do regionalismo e alar-se à objetivação sintética de algum dos grandes movimentos comuns a tôda a humanidade?

--Diz muito bem, minha senhora!--apoiou com irónica veemência o pequenino e glabro Belisário.--A pátria de cada um é onde melhor se encontre e melhor possa governar a vida.--E logo, com um ar ligeiro e brincão, a desfazer a chocante heresia do conceito:--Eu cá, por temperamento e por inclinação... seria turco.