Amor Crioulo vida argentina

Chapter 13

Chapter 133,718 wordsPublic domain

--Uns quinze anos, nada menos! _Una barbaridad_. Felizmente, já não é do meu tempo... Mas êste santo movimento emancipador, aqui, foi a brava seqùência do célebre _pronunciamiento_ de Dolores, cinco dias antes. Tenho-o ouvido contar a papá centos de vezes. Diz êle que êste comovente episódio é dos que mais nos engrandecem, mais nos honram... e que deve ser magnificado como o precursor imortal dos dias gloriosos de Caseros.--E com progressivo e varonil entusiasmo:--Pelos modos, os revolucionários vieram por'í acima capitaneados por Castelli e concentrados primeiro em Dolores, o berço humilde dêste movimento redentor, como lhe disse. E havia um entusiasmo doido! tinha-se o triunfo como certo, contava-se com que as fôrças do temido caudilho Granada se passassem aos revoltosos, esperava-se o refôrço prestigioso de Lavalle,--que sei eu?... A gente de Rosas saltou-lhes ao encontro, mas cá os bravos do sul repeliram-na, apesar de constituir a vanguarda inimiga a famosa cavalaria de Catriel, uma indiada temível! Quando de repente... não sei bem como aquilo foi, parece que houve traição dum capitão... O certo é que, seguros já os revolucionários da vitória, de repente as coisas mudam, a gente de Rosas encurrála-os contra a lagôa, êles resistem, e um a um vão caíndo, raros tendo escapado à morte. Uma coisa bela!--Agora Jorge fremia de raiva, e indignadamente:--Pois, a seguir, êsses brutais vencedores, dignos servos do tirano, todo o dia levaram chacinando, degolando, lanceando a torto e a direito, por essas ruas. Inocentes, vélhos, mulheres, crianças, tudo a eito! Uma vertigem de canibais, macabra, horrível... E foi como ficou assegurado por catorze anos mais o domínio feroz do ditador!

Mas o automóvel deixára a calçada e breve reganhava o campo, internando-se, salteiro e ofegante, no majestoso encanto da solidão, investindo com o desconhecido. Pela carreteira mole e insegura, no seu rodar silencioso, aventurosamente se ia deixando envolver e perder-se no problema insondável da imensidade. Porque à sua ilharga e na sua frente, alargando, crescendo, agrandando sempre, inexorável, monótono, desdobrava agora a sua toalha de fertilidade inexgotável o maior celeiro do mundo,--inestimável manancial de produção e tesouro de abundância em que os nativos firmam a sua imprevidência, os colonos a sua esperança, os mercadores a sua codícia e os milionários a sua riqueza. Começava o desdobramento da interminável _steppe_ argentina, a lendária _pampa_, essa famosa e imensa planura verde, dum verde característico e próprio, um verde que à fôrça de carregado e sombrio, é quáse azul; assim como, ao alto, o azul da abóbada celeste, a poder de claridade e leveza, é quáse branco; assim como, na sua fecundade palpitante, é quáse negro o sulco rasgado na crôsta húmida da terra. E não há suspensões, córtes, paragens, não há derivação nem termo, nesta avassaladora invasão do Infinito. Por essa divina manhã de outono e sôbre a suave pradaria sem fim, paira a carícia inefável duma poesia dulcíssima... e da luz a diáfana pureza esbate e aparta em cristalinas nuanças a tonalidade cambiante das coisas; aqui, em rústicos e tenros _bouquets_, as floritas púrpura da luzerna; logo, o verde gordo dos pastos, mosqueado da manchita grisácea ou bistre dos mansos gados, ruminando; mais alêm, definido pela lacrimosa fita dos _sauces_, o colear rumorejante e claro das ribeiras; ou a nódoa triste dos currais, dos _ranchos_, das _taperas_, dos celeiros; ou a imobilizada ondulação das dunas de areia, com a epiderme rugosa e árida estriada pelo vento; ou ainda a ponta lívida das míseras e frágeis _carpas_ dos colonos, grupadas como as tendas dos _beduinos_ no deserto. De raro em raro, sôbre a esmagadora rasoira da solidão virgulando ténues e mal perceptíveis, como infusórios, as _cuadrillas_ minúsculas de peões cingem-se à terra e incessantes moirejam, como formigas,--uns colhendo o milho em sacos, outros acamando o rastolho, outros, mais previdentes, já rastreando, arando... E sôbre a gleba recêm-revôlta, nos ávidos mamilos dessa fresca terra virgem, a bênção gloriosa do sol, como querendo antecipar-se à fecunda labuta do homem, cái e entorna-se, palhetada, coruscante, em pródigas sementeiras de oiro.

No último limite da percepção visual, tam ao largo como pode alcançar a nossa vista cansada e extática, o esmalte pálido do céu e a linha fôsca do horizonte tocam-se, mas não se confundem. São dois antagonismos, são dois infinitos, duas grandes interrogações, tangentes mas opostas, raiando e barrando a tôda a volta a imensidade do espaço, como os dois batentes da incorruptível porta do Mistério. Ao mesmo tempo acontece que, na chata uniformidade dêste solo raso e sombrio, os mínimos acidentes topográficos, os contornos mais insignificantes, um ligeiro médano, uma leve saliência, qualquer ínfimo relêvo, como se projectam inteiros na despejada tela do horizonte, e pela sua mesma raridade, ganham assim valor, crescem, avolumam, assumem dimensões gigantes, e alçam-se e aprumam-se bruscamente, caprichosos, enormes, como solitários ilhéus no berço cavo das ondas. Tal imponente e vago mamelão que ao longe nos aparecia como um punhado ciclópico de rochedos, à medida como depois, fazendo caminho, dêle nos acercamos, vai apequenando, minguando, a aproximação desbasta-o, come-o a realidade, as suas linhas reduzem-se... a termos que, quando lhe passamos perto, temos que verificar por fim, desencantados e tristes, que essa miragem hiperbólica da solidão não era mais que uma modesta mêda de palha ou de feno, uma casota humilde, um pôço, um _hangar_ ou um monte de estrume. Por igual, o ligeiro arcaboiço em ferro das bombas elevadoras de água, com o seu aéreo penacho rodiziando ao vento, figura-se-nos a maciça evocação dalguma lôbrega tôrre feudal, rasgada em seteiras, cingida em barbacãs, coroada de ameias. Há pequenas _estancias_ que parecem cidades, toiças de mato que parecem florestas, simples lomas que parecem montanhas. E por vezes, sôbre o esfumado pedestal dalguma dessas perdidas cumieiras distantes, vinca-se e agranda súbito, monstruosa e negra na claridade sideral do ambiente, qualquer coisa como a mégalítica renovação de algum lendário animal sagrado, e que não é mais entretanto do que a pacífica silhueta dum cavalo ou dum toiro imóvel e sonhador na muda passividade do deserto.

O silêncio é vasto, esmagador e solene como um crépe de olvido, como uma mortalha de sombra... apenas de longe em longe picada pela microscópica nota estrilante, encarnada ou azul, de algum raro saiote feminino. Nesta melancólica extensão sem fim, ténues nuvens grisáceas se desenrolam por vezes e vão correndo... é o penacho arquejante duma locomotiva, é a poeira erguida por uma tropeada abundante de vacas ou de cavalos; mas tudo isto sempre fugaz, miudito e distante, como imponderável, sem importância e sem ruído. E sôbre o domínio infinito da solidão paira um fundo imanente de tristeza. Há tímidos lamentos pelo ar, e os sulcos abertos pelo arado são como as crêspas vibrações duma resignada angústia, duma dôr enfreada e humilde... que é a dôr da própria terra. Porque esta é a terra maravilhosa das bárbaras lendas _gauchas_, terra de promissão, de paz e amor; terra de humildade e de sacrifício, a terra fatalista, a terra paciente, a terra mártir,--retalhada primeiro pelo aço dos conquistadores, que, empapada de sangue indígena, havia de mais tarde florir na assoberbante iniquidade dos latifúndios; hoje com não menos avassaladora impudência assolada e batida em tôdas as direcções e sentidos, pisoteada pela bota surramposa de tôda a sorte de colonos, violada pela torpe especulação material de tôdas as raças.

A pródiga, a inexgotável, a doce e lendária _pampa_...

Um momento veio em que, à direita e muito ao largo, sôbre uma ligeira ondulação como que assoprada na frialdade jacente da planura eterna, começou a definir-se, a crescer e a afirmar-se potente, na claridade vítrea do céu, uma ampla construção, tarraca e singela, hospitaleira a sorrir entre o arvoredo.

E logo Jorge, convidativo e alegre, alongando o braço:

--Lá está a nossa casa. Pronto vamos chegar. Bem situada, não acha?... Alcança-se a grandes distâncias. E ademais é fácil de reconhecer, por aquele grosso penacho verde-negro que se lhe ergue um pouco à frente, não vê?

--Sim... Distingo perfeitamente.

--É um vélho _ombú_, não sei quantas vezes secular... um dos raros exemplares que por'í ainda restam desses abomináveis veteranos do deserto.

O Silveira aprumava-se e movia-se a cada instante, buscando concretar impressões, progressivamente interessado; enquanto ao lado dele, Jorge, preguiceiro, indolente, com a sua ligeira ponta de fatuìdade, ia explicando:

--E, sabe o meu amigo? há muito que vamos já caminhando por terras nossas. Tudo isto em volta. Ao redor de seis mil hectares. Não é nada... Mas, em suma, p'ra passatempo chega bem.--E regaladamente, estirando-se mais, tirando o chapéu e com a mão suave acamando o cabelo negro e corredío:--Papá poderia já ter alargado a propriedade, mas não quere. Está contente com o que tem. É que êstes campos p'ra cria de gado são o que há de melhor, porque dão magnífica luzerna; e são igualmente imelhoráveis para tôda a casta de produção agrícola. Tambêm, por isso, reservâmos apenas uma terça parte para nós, e o mais anda tudo p'r'aí assim repartido por essa malta de _gringos_. O pior é que nem todos são pontuais na renda, há que ser-se duro com êles. Porêm dão vida a estas redondezas e precisamos dos seus braços no fim de contas. Formam uma família já bem numerosa... e por vezes bem incómoda.

Com efeito, para onde quere que o Silveira alongasse, cativado, a vista, invariávelmente ia encontrar, aquecendo o ambiente e salpicando de pitoresco o espaço, a nota viva, rude, impressiva, da utilitária obra do homem: a um lado, sempre a mesma basta e complicada rêde das vedações de arame a dividir os _potreros_ travadas e geométricas como os alvéolos duma colmeia, disciplinados cárceres ao ar livre por onde os contemplativos rebanhos arrastam mansamente a sua vida vegetativa e incerta; ao outro, por igual a mesma intensiva e estreita parcelação da terra, aqui riscada em hortas, vicejando em pomares, vergada ao pêso das colheitas, ali eriçada ainda do rastolho, ou já limpa, revolvida, fresca e fumante, esperando as sementeiras novas. E por tôda a parte tambêm, ao acaso semeadas e dispersas, como tubérculos, rugosas e negras como concreções de _tophus_ bretoejando na uniformidade epidérmica daquele sólo gordo e húmido, destacam as casotas sumárias dos colonos, míseras choças de barro amassado com palha e feno, tendo cavado na frente um pequeno pôço e à ilharga o inseparável forno,--redondo êste, enorme, dominador, como um zimbório, muito liso e claro.

Atingiam agora os dois amigos a gradaria singela de ferro que circunscrevia um tôsco e reduzido esbôço de jardim, frente à almejada _estancia_. Então o Silveira pôde notar de relance: esta era um grande edifício quadrangular, de modesta elevação e linhas simples, apenas um andar sôbre o térreo, e tudo em alvenaria escaiolada a côr de ervilha. Numerosas portas, tôdas de córte igual, ofereciam acesso ao andar térreo, à altura de cuja cornija uma espécie de farta cobertura de _hangar_, em zinco ondulado, avançava e corria a tôda a volta, protectoramente tendida sôbre o amplo _pasillo_, ladrilhado a mosaico e vindo à sua frente apoiar-se em colunas. Depois, transposto o largo portão do jardim, francamente aberto, e dados alguns passos mais, Jorge e o seu hóspede deixavam a espaldas a atormentada silhueta do vélho _ombú_; e agora, já junto à casa, a projecção aérea do _hangar_ mascarava-lhes a visão do andar superior, e tinham ali ao seu alcance, em baixo, transposto apenas um degrau, o piso sombreado e confortável daquela espécie de garrida galeria andaluza, adornada por vélhos lampiões de cobre, enrediças, gaiolas de canários, faianças com plantas, cadeiras de _hamaca_ e mesitas de vêrga.

Pai Saavedra estava com o _mayordomo_, no seu escritório,--informou o _mucamo_ que acudiu solícito à entrada dos recêm-vindos. Era a primeira casa à direita do vestíbulo. Jorge pediu vénia por um momento ao amigo e entrou. O tempo suficiente para o Silveira, continuando o seu sucinto exame, notar a ática singeleza e o escrupuloso aceio do pequenino átrio, luminoso, arejado, o brunido soalho em pedra mosqueado de miuditos arabescos, e do estuque cinzento das paredes pendendo em simétrico arranjo cabides, petrechos de caça e armas gentílicas. A face oposta à entrada era tomada tôda por um grande vitral colorido, ocasionalmente aberto, e desvendando assim o risonho _patio_ que no seu interior os sossegados muros da rústica habitação enquadravam ciosamente,--apenas com uma furtada aberta, ao fundo, para a vaga imensidão do campo. Devia ser a cozinha a casa que aí, interrompido o circuìto, formava ângulo, porque à sua porta uma mulher estava pelando aves, sôbre um balseiro fumegante. E não longe, junto ao pôço de gancho e roldana, um peão, arremangado e de lenço ao pescoço, brunia metais de arreios, com um balde entre os joelhos.

Mas já Jorge voltava, risonho, ligeiro, no momento justo em que tambêm o _mucamo_ e um outro peão entravam do jardim, conduzindo as malas.

--Papá está só e morto por vê-lo, amigo. _Pase! pase!_

E daí a instantes o Silveira colhia o efusivo apêrto de mão dum bom vélho afável, rosado, pequenino, que com uma voz enternecida e confiada lhe dava as bôas vindas.

--Imenso gôsto em conhecê-lo... Que honra, que prazer nos dá! Que bem que fez em vir!

--O prazer, o encanto é todo meu. Estou imensamente reconhecido...

--Como, reconhecido?... Qual! _Qué esperanza_... Pelo contrário, a nossa gratidão é que é infinita p'ra todos quantos teem a complacente bondade de vir alegrar esta nossa solidão aqui. E quanto ao meu amigo, já sabe... recomendado por Jorge, considere-se da família.

--Isso é dos livros!--exclamou Jorge jovialmente, num aprovativo acêno da cabeça.

E o pai com a mais desafectada naturalidade para o Silveira, simples, insinuante:

--Perdoe-me se o fiz esperar... _Este_... estava aqui caturrando com o meu _mayordomo_. Coisas fastidiosas por vezes, mas inevitáveis... coisas práticas. Contas atrasadas que p'r'aí andam... E àmanhã é dia de abater gado.

--É cá p'r'o consumo da _estancia_,--acudiu obsequioso Jorge, interrompendo.--Dois dias por semana.

--É certo,--mansamente o pai confirmou.--Um serviço corriqueiro, trivial. Pois êstes _capatazes_ são uns _atorrantes_ e vingam-se, sempre que podem, da sua condição subalterna, sacrificando, p'ra nos fazerem dano, os melhores exemplares, ou então mandando abater rêses nocivas, enfêrmas. O demónio! Há que andar sempre em cima dêles. _Mucho ojo!_

--E um bom _rebenque_, não seria pior...--completou Jorge, ameaçador, com um gesto expressivo.

Calmo porêm e bonachão, o pai corrigiu suavemente:

--Cala-te! Não digas barbaridades.--Depois, amável e voltado para o Silveira, derivando:--Bem, mas isto não são coisas p'r'o nosso querido hóspede. Vamos ao que lhe interessa. A minha senhora não sei se está... minha filha Célia tampouco. Queria apresentá-lo... Porque,--e num mimalheiro sorriso, indicando Jorge--com êste _gran bribón_ mais, somos aqui tôda a família.

E carinhosamente Jorge, abraçando o pai sôbre os ombros, com uma liberdade e uma irreverência chocantes para os rígidos preconceitos educacionais dum europeu como o Silveira, ripostou:

--_Qué rico tipo!_

Os miuditos olhos garços do bom vélho molharam-se de ternura; e outra vez voltado para o hóspede, com a mesma acolhedora expressão, bondadoso, aberto:

--Em suma, daqui a um momento juntamo-nos todos à mesa. Vai ver: pouco e ruim... mas sabemos ser amigos, de todo o coração e co'a melhor vontade.

O vélho Saavedra dizia estas coisas com uma familiaridade calorosa e espontânea, com uma simpleza tocante. Era uma figura interessante e invulgar. Vestia todo de negro, tinha um ralo bigodito em escôva, a barbicha grisalha, aparada e têsa por igual, contornava-lhe a face de orelha a orelha, e à volta do imaculado colarinho sem goma enrodilhava-se um farto lenço de setim, como há sessenta anos, negro por igual e retido à frente por um nó com duas pontas. Dois fundos vincos entre os cilios, a clara testa repregada e vibrátil, o cránio mal guarnecido de longas e sedosas cãs, amplo e redondo, denunciavam o homem de pensamento e de sonho, um recto entendimento alumiado por uma ingénua alma. Flagrante espelho desta, os seus pequeninos olhos húmidos, dum verde atenuado e translúcido, eram fontes de doçura, palpitavam duma mobilidade inquieta, mantinham ainda essa fácil emotividade que é o apanágio das crianças. Vibrava pronto, ao sensitivo rodeio das impressões. Os seus lábios eram ungidos de bondade, e tinha o gesto acanhado e infantil das criaturas que menosprezam o mundo, que evitam o convívio social e deliberadamente se mantêem esquivas ao atrito deletério dos homens e das coisas.--Assim entrevisto na meia-tinta austera daquela casa mobilada parcamente, êste doce e pequenino vélho aparecia aos deliciados olhos do Silveira como uma encantadora quimera, um absurdo, uma anómala figura perdida... como algum anacrónico painel já lambido da _patine_ veneranda do passado. Era o vivo e adorável _pendant_ dêsse outro óleo de franco e rude batalhador que êle agora descobria sôbre a maciça secretária de roble, tomando a parede.

Então Jorge, que lhe surpreendeu o movimento, adiantou-se a explicar:

--É meu bisavô, o criador desta _estancia_.

--Um andaluz inteligente e trabalhador,--acudiu o pai quáse ao mesmo tempo,--mas pobre como Job, que veio p'r'aí assim sem um centavo.

--Felizmente, vejo,--o Silveira julgou oportuno observar,--aqui a fortuna sorriu-lhe.

--Ah, não há dúvida... e êle bem o merecia,--acudiu com desvanecimento o vélho. Depois, espontâneo sempre e afável:--Mas enquanto se não almoça, venha vendo a nossa casa.--Abriu a pequena porta à direita, e, tendo antes feito passar o Silveira:--Aqui tem... _este_... a nossa biblioteca.

Um severo e discreto compartimento, recebendo luz apenas do _hangar_ exterior e totalmente vestido em volta por uma alta cinta de estantes de carvalho, em cujas prateleiras bambas um milhar de sonolentos volumes se alinhava gravemente. Do escasso trecho de parede sôbre uma das portas pendia uma litografia detestável de Domingo Sarmiento. Sôbre a estirada mesa de leitura havia desparramadas algumas pequenas estantes de dobradiça e um grande e aparatoso tinteiro, coroado por um Napoleão de bronze com um termómetro no tórax e um relógio no ventre.

Entretanto o bom vélho, complacente e palreiro:

--Não passa dum gabinete de leitura modesto, uma tentativa, um esbôço, um ensaio, como vê... Mas há aí de tudo um pouco: filosofia, literatura, jurisprudência, viagens. O agradável e o útil. E as melhores _Revistas_ e alguns livros portuguezes. De sorte que, já sabe, quando esteja aborrecido de nós ou lhe apeteça isolar-se, é êste o cantinho que lhe convêm. Os livros é que nunca nos pregam _lata_; a gente larga-os sem cerimónia, quando muito bem quere. E ainda são os nossos melhores amigos.

Mas aqui Jorge interveio, e com vivacidade:

--Papá, lembra-te de que o nosso hóspede há-de querer lavar-se, mudar de roupa...

--Ah, sim... _este_... perdão! Vamos então levá-lo ao seu quarto. Fica-lhe aqui já, no seguimento para o interior. Aí à direita é o meu arquivo.

Abriu outra porta, à esquerda, e entrou com os dois amigos numa ampla peça, fresca e clara, tendida de cassas e _cretonnes_ e mobilada a pinho de Flandres, com duas janelas abrindo para o campo e, fronteira, uma porta sôbre o _patio_ interior.

--Veja se lhe agrada.

--Oh, sr. Saavedra...

--Tem que se contentar, melhor não lhe podemos oferecer. Mas, veja... comunicação directa com a biblioteca, e ali a seguir, _toilette_, banho e mais serviço. Creio que aqui assim na _planta baja_ sempre fica mais em liberdade e mais cómodo. Mesmo nós no _piso alto_, que dispõe de menos espaço, não temos senão os quartos da família. Quere dizer, há uma única excepção: os aposentos dessa endiabrada _Miquêtas_... que, a bem dizer, família é tambêm.--E batendo com as mãos em concha e sorrindo, na lisonjeira evocação duma pessoa querida:--É o benjamin da casa. O que ela faz... o que aquilo diz, imagina e inventa! Um vivo demónio!

E logo Jorge no mesmo admirativo tom para o Silveira:

--É a prima Maria Mercedes. Não lhe dizia eu?...

Pouco depois do meio-dia, a grande sineta do pátio tangia para o almôço. Tendo acabado de ajustar a gravata e enfiar os anéis, e dada uma última casquilha mirada ao espelho, o Silveira abriu a porta do seu quarto e transpôs compassadamente os geométricos canteiros, debruados de buxo e salpicados de japoneiras, _aucubas_, _pitcarnias_, cravos, rosas e malmequeres, seguindo diagonalmente em direcção ao pôço, a cortar caminho para atingir o comedor, que lhe ficava no recanto em frente, a entestar com a cozinha. Dentro estavam já Toríbio Saavedra e a mulher, que recebeu o Silveira carinhosamente.--Era uma grande senhora adiposa e obêsa, um monolito ambulante, o crasso busto sumido na montanha enxundiosa dos quadris, os braços maciços e curtos, as mãos como palmoiras. Tinha uns longos lábios froixos, a face pendente, e o assetinado fulgor dos olhos castanhos perdia-se afogado na papugem abundante das olheiras. Tôda de negro, como o marido, com o volumoso espaldão dos ombros resguardado por uma capota ligeira de veludo. O seu ar era repousado e lânguido como o das criaturas que se sentem instaladas na vida cómodamente, sem alternativas, angústias, apetites, preocupações nem ódios. O seu aspecto desprendido e plácido apenas estava desmentido por um antitético resíduo de vélhos e irredutíveis coquetismos no colar de grossas pérolas que em vão tentava remoçar-lhe as pelhancosas estrias do pescoço, bem como na origem, claramente industrial, do loiro inalterável do cabelo.

Tomou ela a cabeceira da mesa, ao passo que, cerimonioso e lento, o Silveira entendeu dever manter-se a distância, apoiando maquinalmente as mãos sôbre o espaldar da cadeira que aí lhe correspondia, como no íntimo desígnio de quedar-se ali. Mas súbito, sorridente e num piedoso alarme, a dona da casa:

--Ah, não, não meu caro sr.... aí não! Êsse é o logar da _Miquêtas_. Conservamos-lho sempre... como se ela esteja. Queira tomar assento aqui.

E indicou-lhe o logar de honra, à sua direita, que o Silveira acudiu a ocupar, pressurosamente. Entrou neste momento, do pátio, Célia,--uma joven de aspecto bisonho e triste, o busto dobrado, os olhos baixos, flácida, delgada, ictérica. Vestia blusa branca e uma singela saia de côr indecisa, e da mesma indecisa e mortiça côr tinha a epiderme, os olhos, os lábios e o cabelo, lambido como um penteado de colegial e repuxado à nuca. Quando lhe apresentaram o Silveira, dobrou-se mais, baixando as pálpebras, cortejou a distância, sem lhe estender a mão e sentou-se logo à esquerda da mãe diante dêle.

Entretanto pai Saavedra vinha tomar logar ao lado do hóspede, e desdobrando o guardanapo com ímpeto, alegre, menineiro:

--Vamos a isto, que são horas!

Uma criadita começou servindo carnes frias; e para o Silveira, muito atenta, D. Teresa:

--Não lhe podemos aqui oferecer grandes mimos culinários... tem que desculpar... porêm um bom _puchero_, isso sim! como certamente não come na cidade.

Imediatamente o vélho Saavedra lhe pedia para avançar o copo, e vertia nêle com afectuosa solenidade um vélho Jerez «como não havia de encontrar muito». Só de casa tinha quarenta anos. E de passo explanou-se falando sôbre as apregoadas excelências e virtudes do Madeira--que êle apenas conhecia vagamente... um vinho de reputação mundial e ali na Argentina quáse desconhecido.

--Ah, é um vinho precioso, divino!--exclamou o Silveira com orgulho, dealbando os olhos.--P'ra mim é superior ao Jerez... ao mesmo Pôrto. É mais aromático, mais gordo, mais suave.