Amor Crioulo vida argentina

Chapter 11

Chapter 113,573 wordsPublic domain

--Alguma coisa se fez já por lá... Porêm a divulgação de benefícios dêstes deve estender-se e apregoar-se bem por todo o mundo. Havia que trazê-la a estas improvisadas organizações sociais da América.--Esfregava as mãos de contente:--Vou acabar com a perniciosa oligarquia, com a daninha praga dêsses falsos «peritos de arte», verdadeiros criminosos, que por tôdas as grandes cidades enxameiam e manobram impunemente! E, aqui em Buenos-Aires, conto limpar as galerias particulares de todos os falsos mamarrachos que uma cabotinagem sem escrúpulos tem sabido impingir-lhes, a pêso de oiro, como obras primas. Vai ver! vai ver!

--Uma tarefa benemérita...

--E lucrativa, pode dizer sem escrúpulos.

E os negros olhos ladinos do conde tinham a metalizada expressão duma voraz confiança, ao atribuir-se por êste modo, com o mais audaz desplante, o primado da invenção e o exclusivo da aplicação dum processo que, ao tempo, estava sendo praticado com êxito notável por Laurie nos Museus inglêses e por Thionville nas Pinacotécas da Bélgica e França.

Por fim o Silveira anunciou que ia retirar-se, desapontado galã, ante o fracasso formal da sua visita. E solícitamente o conde:

--Então já?...

--São horas.

--Bem, mas volta àmanhã, não é assim? Queremos muito vê-lo aqui.

--_Without fault, to-morrow_,--instou numa sublinha amável a condessa.

--Teremos já então a casa um pouco em ordem e as télas tôdas à vista,--tornou afável o marido; e persuasivamente, quáse ao ouvido, batendo-lhe no ombro:--Tenho aí um pequeno Boucher e um Bastien Lepage que lhe devem convir... Há-de gostar.

O Silveira sentiu frio na espinha e tomou pronto o chapéu, para despedir-se. Crescia-lhe agora na alma, contra a gananciosa estratégia dêste charlatão sem igual, um vivo movimento hostil, de tédio e de repulsa. Pensou vagamente em não voltar... Porêm quando, ao receber as ordens da condessa, sentiu nos lábios a carícia do veludo tépido daquela mão pequenina, todos os seus apetites ribaldos espertaram e o reganharam num instante. Rejubilou, aqueceu... e saíu, leve e ufano, todo já no fantasioso encanto das delícias da tarde seguinte.

Era uma quinta-feira, dia habitual de _carreras_. Um passeio ao Hipódromo estava indicado. Para poder obsequiosamente acompanhar o amigo, o Azeredo obtivera permissão de faltar nessa tarde ao escritório. À hora própria, tendo antes apalavrado um _taxis_, seguiram alegremente para Palermo os dois, e em breve se incorporavam e deliam na grossa e luzida _queue_ interminável, de peões de tôdas as classes e matizes, de veículos de todos os preços, de meios de condução de tôda a espécie, que, naquele desapoderado côrso à favorita diversão _bonaerense_, de tôda a parte afluiam e acudiam avassaladoramente, bolsando gente a monte do estribo plebeu dos _tramways_, atirando de golpe as portinholas dos _wagons_ na via-férrea, fazendo pomposamente buzinar e rodar a sua opulência pelo brunido asfalto das avenidas.

Considerava o Silveira com estranheza tam nutrida e animada concorrência a um dia de semana, um dia de trabalho. O Azeredo explicou-lhe:--que todo o mundo ali jogava, moços e vélhos, pobres e ricos, enfermos e sãos, mortos e vivos... as mulheres e as crianças. Era a tintineira geral. Quem não podia dar-se ao luxo de vir a Palermo, fazia obra pelos palpites alviçareiros das gazetas. É que o jôgo, a alicantina, a exploração, a fraude, o interêsse, a indústria da burla e o recurso ao azar, eram o vício, a paixão, o móbil dominante, o despótico nervo propulsor da vida da grande cidade. Os que não apostavam nas carreiras especulavam em terras, jogavam nas loterias ou na Bôlsa. E ainda havia os que tudo isto sabiam muito bem fazer, ao mesmo tempo. Da coisa mais inocente nos surdia um _estafador_, das mesmas pedras da calçada nos tomava de assalto, a cada passo, um ladrão ou um agiota.--E abrindo depreciativamente os braços, rematou:

--Uma grande banca ao ar livre, uma batota ao abrigo das leis, é o que é tudo isto.

--E tu?...--indagou o Silveira, num despreocupado sorriso.

--Ah, eu das corridas gosto. Bem vês... sou de cavalaria. Aos domingos sou infalível.

Cruzavam ao tempo a aparatosa _grille_ de bronze, da entrada, e penetravam no largo e luminoso desafôgo do _stand_, que, com as suas luxuosas tribunas, rústicos palanques, pequeninos rondós, _pelouses_ e minaretes, recordou ao Silveira Longchamps, porêm mais pobre de paìsagem e com menos perspectiva. E, de roda, em pintalgados grupos sôbre a escovada areia sôltamente ondeando e farandunando, a mesma concorrência habitual a êstes logares, em tôdas as grandes cidades; os homens, grandes, fortes, serenos, trajando com severa elegância, o tipo do espanhol com vontade, no inteiro domínio de si mesmos; as mulheres, desgarraditas e leves, numa harmonia de conjunto impecável aquatintadas finamente, a airosa silhueta cingida com meticuloso escrúpulo ao córte dos figurinos parisienses, mas sem afectação, numa _tenue_ de bom-tom, num _virtuosismo_ ponderado e honesto, a que faltava aqui a nota _criarde_ das _demi-mondaines_ lançando o estouvado pregão das últimas extravagâncias.

Era um pouco tarde. Já os primeiros números do Programa haviam passado, e estava-se num intervalo. Havia um grosso embate mundano junto aos vários _guichets_ dos côbros e vendas. Cortava a suavidade pacífica do ar o zangarreio áspero, burlão, de dois aeroplanos. Cêrca do recinto da pesagem, um rijo mocetão trigueiro, desbarbado, gordote,--de gôrra, _veston_ de presilha e polainas,--ao defrontar com o Azeredo exclamou familiarmente:

--Ó amigo Azeredo, _como le va_?

--Bem, _gracias_! meu caro Jorge. E _Usted_?--acudiu, com um cordeal apêrto de mão, o interpelado. E seguidamente, apontando ao lado o Silveira:--Permite-me que lhe apresente o meu querido compatriota e amigo João da Silveira?--E logo para êste, com insinuante expressão, completava:--O sr. Jorge Saavedra, argentino, cavalheiro muito distinto, um dos meus melhores amigos.

--_Ah, tanto gusto_...--mastigou entretanto Jorge, numa sublinha indiferente àquele _shakehands_ banal a um desconhecido. Mas, tomado de súbita simpatia ao encarar melhor a figura aberta e varonil do Silveira, tornou com interêsse:--E há muito que se encontra em Buenos-Aires?

--Recêm-chegado apenas... há dias.

--E que impressões tem do meu país? Agrada-lhe?

--Enormemente! Uma linda cidade e um povo cultíssimo. Deve ser encantadora aqui a vida.

O Saavedra sorriu, num jubiloso estremecimento de vaidade. Enquanto, tocando-lhe na espalda, o Azeredo:

--E os seus favoritos hoje?... Agora, no _handicap_?

--Não corre nenhum produto de marca... _ché_, cá dos meus. Não me interessa.

--Bem, e a seguir, no clássico _Montevideo_?

--Oh, bem fácil... A vitória seguramente vai ser de _Packoy_.

--Tambêm vou por êle, sim. Linda estampa, elasticidade, nervos, magnífico sangue...

--E montado por Arturi. Não há que duvidar! Dá três quilos de vantagem; é porque está bem seguro da vitória.

Caminhavam agora de manso os três, marginando a pista e sem maior interêsse pela corrida, pronta e fácilmente acamaradados. Jorge Saavedra desfazia-se, a um e outro lado, galanteador, afável, em rebuscados cumprimentos, protectoras miradas e acenos abundantes. Os olhos espertos do Silveira perdiam-se nas côres berrantes dos _jockeys_, na vivacidade marulhenta do recinto, na perturbadora abundância de deliciosas figuras femininas. O Azeredo rejubilava, irrequieto, vivo, sempre aos saltinhos; e com familiar confiança tornou para o Saavedra:

--Diga-me, amigo Jorge, e para o clássico _Chevalier_ que aposta fez?

--Isso nem se pergunta! Vou por _Canora_.

--Como _Canora_!? É vontade de perder _plata_... Eu aposto por _Chaica_.

--_Chaica?_...--atalhou por sua vez o Saavedra, parando, com um rir trocista.--Só por _broma_, _vamos_... _Es una cabuleadora_.

--É filha de _Pearl Rivel_!--redarguiu com intimativa o Azeredo, formalizado.--Ora essa! Cumpridora a mais não poder ser. A sua primeira prova foi a primeira vitória. Não se lembra? não viu que _performance_ mais distinta?... No tréno desta manhã sei eu que fez os 700^m em 41''.

--Não importa! não importa!--objectou Jorge, reatando a andar, implicativamente.--_Canora_ é filha de _Old Man_ e procede do _haras San Jacinto_, é bom não esquecer. É voluntariosa, por vezes, tem um jôgo irregular, é certo. Oh, mas não há aí uma competidora com _más clase_ e melhor estampa!

--No domingo perdeu.

--Por meia cabeça, sómente.

--Pois hoje perderá por cabeça e meia.

--_Ya lo veremos_,--pontualizou o Saavedra com arrogância. E de repente, esperto e firme, agitando imperioso o braço:--O _Montevideo_, agora! Atenção! Se _levantan las cintas_... A partida! a partida!

Os seis pôtros da escolhida _équipe_ para o clássico _Montevideo_ haviam largado, com efeito, a tôda a rédea, imponderáveis, distensos, o pescoço em flecha, disparada a garupa, os jarretes flamejantes fazendo voar a terra. Com simultâneo gáudio do Saavedra e do Azeredo, _Packoy_ iniciou galhardamente a direcção do movimento e nesse posto de honra se aguentou e cumpriu, durante os primeiros 600^{m}; porêm depois, de tranco a tranco marcando cada vez mais curto, inexplicávelmente, foi-se deixando levar de vencida por forma que, ao desembocarem na grande recta final, o seu distanciamento era já sensível. Entretanto, _Grey-Eyes_, um enxuto e ágil potrito castanho que se estreava nesta corrida, atacando por fóra, ganhava o posto dianteiro, que manteve até final, vitorioso _leader_, ao passo que _Packoy_ apenas em quarto logar alcançou a méta.

O Azeredo barafustava e erguia os punhos cerrados, em ganas contra o _jockey_ duma arremetida justiceira, furioso, saltitando. Enquanto, numa concordante explosão de cólera, o Saavedra:

--Por culpa daquele _imbécil_ de Arturi! Sempre com a mania de conter as montadas, a reservar-lhes o maior esfôrço, para efeitos teatrais, no momento decisivo. E depois dá destas _planchas_! Iam tam bem... O que êle precisava!

E golpeou desapontado com o chicote a sébe florida da vedação, deslocando-se em largas e violentas passadas, o ôlho minaz, as narinas aflantes.

Trouxe-lhe uma compensadora desforra a corrida seguinte, que resultou um verdadeiro _match_ entre _Chaica_ e _Canora_, a sua ardente favorita, a qual por mais de meio corpo atingiu primeiro o disco. Porêm desta vez Jorge, delicado e comedido, não querendo ferir os machucados brios do Azeredo como prático do _turf_, celebrou com moderado entusiasmo o seu triunfo.

Faltavam ainda duas corridas; porêm o Silveira de relógio na mão, tomado dum vago embaraço, arriscou--que não podia demorar-se. O Azeredo, que estava ao facto do compromisso galante por êle tomado na véspera, desculpou-o. Mas, sinceramente penalizado, o Saavedra, dando preguiçoso a mão a êste fulminante captador da sua simpatia:

--Retira já?... _Qué lastima!_

--Eu é que sinto imenso ver-me forçado a privar-me, assim de repente, de tam amável companhia. Mas... o Azeredo sabe...

--É certo, é... Precisa deixar-nos--confirmou pronto o amigo; e súbito com um jubiloso relâmpago na pupila insinuante:--Mas eu tenho uma idéa, amigos! Podemos comer hoje os três juntos. É uma compensação.--Premiu afávelmente o braço de Jorge:--_Tiene Usted compromiso_?

--Não... para hoje, não...

--Óptimo! Considere-se então convidado, hein?

--_Convenido_.

--Às 8, no _Petit Salon_.--E com vivacidade, para o Silveira:--Tu espera-me no hotel. Vou-te buscar.

Saùdando ligeiramente, o Silveira partiu logo. Pouco depois das 5 horas estava em casa dos Di Paoli, tendo antes comprado, na passagem por Callao, um fino ramo de _muguet_, a flor predilecta da condessa. Fez retinir fortemente o botão eléctrico. Ia decidido a «atirar-se de vez», a arriscar um resoluto golpe de audácia que pronto lhe assegurasse o triunfo definitivo.--E que auspiciosos prenúncios para o seu intento! _Mrs._ Edith estava só, e um verdadeiro apetite, arranjada lindamente. Pela abundância cálida do cabelo uns toques déstros de ferro haviam passado, ondeando-o ao de leve; não menos déstras pinceladas de _kohl_ haviam engrossado a linha sensual dos cílios, haviam como que incendido num voluptuoso fogo latente a macerada sombra das olheiras; e daquela plástica impecável os movimentos rítmicos podiam íntegros surpreender-se e adivinhar-se, pelas indiscretas lisuras e os denunciadores refegos do precioso _kimono_ de sêda _grenat_ que os cingia apenas, sôltamente, deixando por inteiro a nu os antebraços e a alvura do colo deslumbrante, que nas suas linhas de contacto com a sêda adquiria reflexos duma rosada e fluida transparência, como se fôra carne feita de pérolas moídas.

Foi um verdadeiro _coup de foudre_ para o Silveira a inopinada fortuna desta situação e o supernal encanto desta figura. Beijou a mão da condessa e entregou-lhe o ramo, tremendo ligeiramente, sem palavra ferir, a língua sêca e os lábios frios. Ela correspondeu deixando fugaz entrever, num sorriso discreto, a rociada frescura dos dentitos brancos. Agradeceu o mimo da lembrança em carinhosas palavras, para a rasa insuficiência linguista do Silveira arreliadoramente intraduzíveis. A seguir, muito naturalmente, prendeu sôbre o coração dois dêsses cachos de minúsculas caçoletas perfumadas, e sem perturbações nem pressas, o olhar vago e repousado, sempre tranqùila, foi acomodar os restantes com atento esmero numa enfusita de vélha faiança, que trouxe da alcova.--Veio ao tempo a _mucama_, trazendo numa bandeja o chá e dois pratitos mais, um com _sandwiches_, outro com bolos secos, sofrivelmente sédiços. Dispôs em silêncio o serviço sôbre o pano coçado da mesa e rodou num instante.

Na mente escandecida do Silveira o desejo, o ardor e a fúria erótica subiam de ponto. A sua incorrigível fatuìdade, os numerosos e fáceis triunfos que ilustravam a sua larga fôlha de conquistador, debruavam-lhe das falaciosas côres dum prisma demasiado optimista a singularidade algo problemática da situação; faziam-lhe tomar por claros propósitos de sedução, por um convite formal ao galanteio, o que não passava talvez dum ardiloso laço feminino. Pelo momento, a condessa convidára-o simplesmente a sentar-se e servia-lhe o chá, com adorável intimidade, era certo, num abandôno insinuante, avançando para êle o braço nu, enquanto as amplas prégas do _kimono_, dobrado à frente, desnudavam por igual, em perturbadores relances, a rósea maravilha do colo erguido em suaves ondas de pecado. E tentava explicar-lhe:--O conde não estava... não poderia talvez vir senão tarde.--Quando o Silveira tal chegou a compreender, sentiu nas orelhas um calor de evidência, e na noite ardente das pupilas relampeou-lhe um cântico de vitória... Mas aqui o seu grande embaraço! Queria mostrar-se um galã à altura, dominador seguro dêste lance de favor; urgia que iniciasse verbalmente o seu ataque; porêm como?... se êstes soberbões ingleses faziam gala em não manejar outra língua senão a sua! Como em nenhum idioma os dois podiam claramente entender-se, as suas abortadas tentativas de diálogo resultavam assim um desbarato de palavras, confuso e estéril, um titubeio divertido e por vezes cómico, um atabalhoado duelo de absurdos, desfechando sempre na mesma burlesca e formal impotência, cortado de suspensões, sublinhado a risadas. Havia que suprir a deficiência da frase pela abundância e a vivacidade do gesto, muitas vezes. E lascarinamente o Silveira aproveitava para desbordar-se em atrevidas manobras digitais, para arriscar sorrateiros toques sugestivos e ensaiar, como filhas do acaso, aproximações lascivas,--que _Mrs._ Edith acolhia entretanto com inalterável singeleza, como que sem dar-se conta, desprevenidamente, abotoada numa cega inconsciência infantil e numa frialdade desesperante.

Esta atitude inverosímil da condessa desconcertava o Silveira, punha-o doido de despeito, de raiva e de desejo.--Que demónio! Voltava a esbarrar com a mesma diva impassível, a mesma criatura calma, desentendida e ingénua do começo da viagem... Vão lá entender mulheres! Essa deliciosa, essa picante doidelas dos dias de Entrudo escapava-lhe outra vez!--E no desnorteado furor que o aquecia, êle já descia a processos de mau gôsto, cometia imprudências, roçava-a ombro com ombro, apertava-lhe o pulso, tocava-lhe o pé debaixo da mesa.--Então, súbitamente, e como que obedecendo a algum convencionado sinal, fez a sua inesperada aparição na salinha a dona da casa, Lady Cowper, sobraçando um paquetito.--Alguns dos trabalhos das suas discípulas, que ela vinha obsequiosamente mostrar ao recêm-vindo.--O Silveira teve ganas de lhe morder. Ela era uma quarentona repulsiva e obêsa, vestida de amarelo, pequena, ruiva, de olhos claros, marcada por abundantes sarapintas de bistre na face enlagostada. Mesureira, bajulando, adiantou-se a saùdar, com o seu sorriso verde de criatura falhada, e logo a sapuda concha das mãos sardentas a semear pela mesa uma parada de miúdas bugigangas. Eram rebuscadas miniaturitas, medalhas e iluminuras banais, camafeus, embrechados, pirogravuras e esmaltes, de péssimo desenho, duma execução vidriosa e dura como o aspecto paleolítico da professora. Esta porêm, importante e de pé, o ventre contra a mesa, não despegava de encarecer essas efémeras obritas de _virtuosismo_ barato, mostrando-as com ufania, uma por uma.--Que visse bem... aquele finíssimo esmalte _Luís XV_... êsse delicioso retratinho com moldura _Império_... _uma liseuse_ para um livrinho de Horas... esta preciosa moldura gótica em cobre rebatido. E aqui... e agora... e isto mais. Verdadeiras peças de arte, havia de convir. O que não admirava, feitas como eram tôdas por meninas da primeira sociedade.--Exprimia-se num mau castelhano, horrivelmente gutural, ora aspirado, ora cortante, como golpes de machado rasgando lenha. E passava sem cessar a aborrecida miuçalha às mãos do Silveira, que no propósito inocente de correr breve com a importuna, tomava fulo cada peça e logo a arrumava, após um exame sacudido, sumário, quáse agressivo.

Baldo estrategema, porêm, porquanto aquela empatadora inexorável tomava agora familiarmente assento ao lado dêle, e numa astuciosa derivante, erguendo a esborifada cabeça e passeando com admiração as pupilas deliquescentes pela sala:

--Soberba colecção! não haja dúvida. Um verdadeiro museu. Fazia a minha fortuna... Já reparou bem, sr. Silveira?--E num propósito de baixa adulação, com intimativa, alongando o braço:--E que fino, que lindo o retrato da senhora condessa! Que não está favorecida...

Só agora o Silveira notou que, com efeito, uma aparatosa fileira de télas, em ricas molduras doiradas, remoçava e fazia viver dos brilhos da sua cantante policromia a tristura pelintra das paredes. A um canto havia, contrastando deplorávelmente, pela realização e pela factura, com todo êsse broslamento sábio de figuras, de planos e de tintas, um perfil a óleo da condessa.

Como já fazia escuro, _Mrs._ Edith dirigiu-se ao prendedor eléctrico, a soltar a luz; no momento justo em que o marido entrava e vivaracho, alegre, atirando o chapéu, seguiu direito ao Silveira, a apertar-lhe a mão. E logo, dando-se conta do ponto onde curiosa a sua atenção incidia:

--Aquilo é um modesto ensaio meu. Não vale nada.

--O modêlo não podia ser melhor...

O conde baixou a cabeça e dobrou-se, num grato desvanecimento.

--É que eu pinto tambêm um pouco, não sabia?... Tôdas as belas manifestações da arte teem em mim o mais insignificante dos seus cultores.

A seguir, desatou-se em prolixas e sabujonas desculpas por ter vindo assim em _retard_, faltando, bem a seu pezar, a um compromisso para êle tam apreciável. E esfregando as mãos com ruído:

--Mas estou contente! Parece-me que tenho já local para a exposição... e de graça. O salão dum compatriota meu, que é fotógrafo, na _calle_ Viamonte,--a fotografia mais elegante, mais _smart_, mais _select_ de Buenos-Aires.

Lady Cowper, sentindo agora a sua presença dispensável, havia deslizado ignoradamente. Entretanto o Améglio, com o olhar vivo e matreiro, em presunçosas atitudes tomando a sala tôda:

--E então, agora, vê bem como são preciosas as minhas télas! Que grande lição estética eu venho trazer a esta gente, que colecção rara, que magnífico conjunto!--Depois, cabotino, insinuante, travando confiado o braço do Silveira e pondo-o na frente dum pequeno _estudo_ de paìsagem, onde uma figurita banal de aldeã se esboçava, perdida numa _aleluia_ primaveril de papoilas e malmequeres:--Aqui tem o seu Bastien Lepage.

--O meu quê?...

--O quadrito, sim, que lhe destino. Uma pequena maravilha, como vê... Note como ali assim a figura poisa singelamente e sem _ficelles_ de destaque, tocada simplesmente, com o mesmo valor de todos os mais acessórios do quadro. Era, como sabe, a característica dominante dêste grande mestre naturalista.--Encarecia sugestivo a expressão:--Uma tentação, não é?...--E suasivo, assentando-lhe a mão sôbre o ombro:--Que me diz?

Cabisbaixo e mudo, vergado ao pêso do fulmíneo ataque, o Silveira interrogou numa mirada suplicante _Mrs._ Edith, cujos olhos doces esboçaram uma solicitação de anuência, irresistível... E êle então, pávido e submisso:

--Bem... mas por quanto?

--Oh, meu caro amigo! Isso é uma questão puramente secundária. Entre nós, já vê... Qualquer coisa... Nem vale a pena falar... Se as coisas me correrem bem, terei até muito prazer em lhe fazer presente dêle.

--Não, mas eu é que não quero...

--Depois! depois!

Súbito, numa bem marcada simulação de desinteresse, o conde sentou-se ao piano, e sôltamente:

--Quere ouvir uma valsa que improvisei esta manhã? Vou tambêm dedicar-lha.

E, com um ar boémio impagável, bamboando o busto, os olhos em branco e a cabeça sôbre a nuca, fazia gemer numa batida monótona de compassos triviais as cordas desafinadas.

Nos nervos em sobressalto do Silveira corria o mesmo frio arrepio da véspera, agora mais áspero, mais persistente... subsistindo ainda e vibratilizando-o, minutos depois, já rua fóra, junto com o exaspêro íntimo pela sua passividade, a sua indecisão, o seu acobardamento estúpido ante aquele descarado assalto à integridade da sua algibeira.

Numa vergonha instintiva, absteve-se de contar o humilhante episódio ao Azeredo, que pouco antes das 8 veio demandá-lo ao hotel, conforme se combinára. Saíram logo depois, a pé, a tomar a _calle_ Esmeralda, e por esta se internaram até ao ponto onde uns mocitos de libré encarnada lidavam à porta dum grande barracão, murado de espelhos.

--É aqui, meu vélho. Espera um instante.

Dizendo, o Azeredo entrou ligeiro e atento, a buscar se acaso o Saavedra já estaria, e a marcar uma mesa; enquanto cá fóra o Silveira seguia alheadamente o taquinar miudito das _muchachas_ que entravam para o _cinema_ defronte.

O Saavedra apareceu por fim, às 8 e meia.--Vinha um pouco em atraso... mas era muito bôa hora, _verdad_?--Acolhido pelo festivo aplauso dos dois amigos, e num momento estavam todos à mesa. Jorge vestia agora um _jaqué_ negro irrepreensível, fechando por um só botão e extremamente cintado, colete de bandas brancas, folgado e muito aberto, uma linda pérola a prender o nó esguio da gravata, calça raiada de fantasia e bota de polimento. Foi êle o investido das graves funções da escolha do _menu_.--_Petits canapés_ de _caviar_ para _hors d'oeuvre_, uma rica _croûte au pot_, filetes de linguado com môlho de ostras, depois uma _entrada_, espargos, e por fim um prato crioulo, o coireáceo _churrasco_, especialidade da casa.--A questão das bebidas foi árdua, pouco menos de insolúvel. O Silveira lembrou tímidamente o _Colares_, que não constava da lista, não havia; então Jorge patrióticamente insistiu que provassem _Trapiche_: porêm o Azeredo opôs-se, com um depreciativo distender do lábio, e optou-se afinal por um qualquer _Borgonha_ de duvidosa procedência.

Jorge iniciou a comida com apetite, e agitava-se petulante, ufano, folgazão, todo ainda no vibrante estímulo das emoções hípicas da tarde.