Amor Crioulo vida argentina

Chapter 10

Chapter 103,588 wordsPublic domain

Bem disposto e ávido por continuar o seu interessante exame objectivo da cidade, o Silveira no dia seguinte ergueu-se cedo e desceu pronto a rua. Andadas não mais de três _cuadras_, ei-lo de novo na Praça do Congresso. Dez horas da manhã. Fazia um dêstes claros, suaves e incomparáveis dias de outono de Buenos-Aires, em que do céu alto e límpido, de pura safíra desce uma luz de oiro vélho a acariciar tranqùilamente as coisas. Os raros relvados do centro da praça, com a sua rociada lanugem verde, formavam apetitosos ninhos, e a airosa cúpula do Parlamento, ao fundo, cortava-se na frescura opalína do ar em figuras de aguarela.--Mas agora o Silveira notou que logo ao primeiro ângulo do vasto recinto, à sua esquerda,--junto á base duma estátua que era a consagração ornitológica dalguma grada personagem, de matacões e labita, desta as abas dançantes brigando simbólicamente com as asas duma águia,--um joven de lunetas e gravata branca, desbarbado como um _clergyman_, trepado a um banco, acenava e arengava com entusiasmo a um hipotético auditório que não vinha.

Atraídos pelo colchete dos seus dedos suplicantes e pelos seus brados convictos, acodem primeiro alguns rotos _canillitas_, vendedores de jornais; vários cocheiros e _chauffeurs_ em repouso vão depois até êle preguiçosamente arrastando-se; véem ainda, estimulados por êste comovedor desbarato de eloqùência no vácuo, os poucos desocupados que pelos bancos próximos amadornavam a sua indolência. Curioso e atento, o Silveira acercou-se tambêm.--Discreteava sobre política êste improvisado apóstolo da rua. Falava em civismo, em liberdade, em igualdade, em consciência, no sagrado exercício do sufrágio, nas inauferíveis regalías do povo. Figurava enfáticamente o concurso às urnas como a «benéfica corrente arterial» da vida colectiva, como a maior conquista e o mais grato dever moderno. A sua persuasiva parlenda rola sempre sôbre a mesma idéa, torturadamente exibida num laborioso acrobatismo de logares-comuns; dir-se-ia que êle prolonga deliberadamente o seu exórdio, a dar tempo a que a assembleia cresça. Agora há já mulheres tambêm entre os ouvintes. E o glabro orador então aquece, afervora no entusiasmo. Imagina-se compreendido e ala-se em conceitos galantes, em primores de frases, desbrida-se em raptos de baixa lisonja sôbre as reivindicações feministas e a sublime missão social da mulher. Gesticula como um energúmeno, os desmanes da inspiração e o tom da voz sobem de ponto, já com jupitereanas fulminações contra os abusos de caudilhismo, a influência despótica da riqueza e a corrupção sistemática dos «grandes satrapas» do poder,--inofensivas objurgações abrangidas entretanto pela alçada coerciva da polícia.--Porêm o Silveira acha êste mandado charlatão político menos interessante que os seus pitorescos competidores _callejeros_, os barafustantes pregoeiros de pomadas e elixires maravilhosos. E o assunto não o prende maiormente. Afasta-se com tédio.

Segue então percorrendo a pé a esplêndida rua Callao, num regalado vagar, saborosamente. Fareja com libidinoso apetite as morenas crioulitas que passam, em cabelo; esmiuça com a vista maravilhada e cativa tôda essa opulenta sucessão de _magasins_ elegantes, luzidas _étalages_, soberbos hoteis e palácios sumptuosos. Mas eis que, ao desembocar na praça Rodriguez Peña,--oh! fastidiosa surprêsa!--_mutatis mutandis_, ele aí vem encontrar repetida a mesma scena de há pouco. Igualmente aqui um veemente e fogoso orador bólsa sôbre um auditório escasso e mesclado, por igual, a mesma encomendada torrente de diatribes e proclamas. Com a diferença que êste é trigueiro e barbado, de aspecto façanhudo, tem um _taxiauto_ por pedestal, e à sua ilharga flameja com triunfante arrogância uma bandeira partidária. O pior foi que numa das mais impetuosas fugas da sua inflamada homília, um polícia aproxima-se, intervêm, exige-lhe a apresentação da licença; o interpelado titubeia, estaca, empalidece, busca em vão um papel salvador nas algibeiras... e por fim lança mão resoluta ao leme do _auto_, vôa e desaparece, entre os bonachões aplausos e as casquinadas trocistas dos assistentes.

O Silveira lembrou-se então de ter lido, ou lhe terem dito, que naquele momento a luta eleitoral _battait son plein_ na grande capital _porteña_. Estava-se em pleno período eleiçoeiro, para a renovação parcial de senadores e deputados. Os socialistas, na impetuosidade juvenil da sua formação, tinham perante os vélhos partidos arreganhos nunca vistos. Êstes respondiam com uma animação e um calor igual. Daí a encarniçada vivacidade da luta, e a dispersiva abundância de tôdas essas arrebatadas prédicas de moral política, cuja copiosa fúria palreira o Silveira ligou naturalmente à profusão berrante de cartazes com muitos pontos de exclamação, e de anodínas efígies de bons burgueses, aspirantes a pais da pátria, que êle via por tôda a parte colados às paredes,--sôbre todos batendo o _record_ da flamância e do réclame o busto implicante dum já maduro candidato a senador, de grande flor na lapela, no redondo carão sensual uns olhitos muito vivos e o grisalho bigode erguido.

Assim se explicava essa divertida e basta erupção de relâmpagos de civismo, por conta própria ou encomenda alheia, um pouco à maneira inglesa. Porêm nada disto podia maiormente interessar quem, como o Silveira, se expatriára de vontade, muito de indústria para furtar-se ao galimatías político e não mais ser parte nem presenciar, sequer, as sujas dissenções e as chinfrineiras brigas em que se esfacelava a sua querida terra. Tambêm, pelo momento, êle começava a sentir que já conhecia demasiado, para um hóspede de horas, como êle, os aspectos exteriores, o ambiente vulgar e comum de Buenos-Aires.--Isto só não lhe bastava, não era nada. Queria ir mais alêm...--Mordia-o o desejo veemente, picava-o o apetite agudo de transpôr essas portitas de sacristia, de franquear essa freirática barreira de inexoráveis persianas com que êle esbarrava por tôda a parte, tendidas herméticamente; queria, em suma, desvendar um pouco o pensamento, a alma da encantadora grande cidade que êle escolhera para refúgio, surpreendê-la nos castos mistérios do _hogar_, conhecer-lhe as características morais, penetrar-lhe a vida íntima,--o que êle de antemão sabia, pelo Azeredo, «ser algo difícil».

Entretanto nessa tarde, para aproveitar o tempo, e, como bom táctico do galanteio, para não perder o contacto com as áticas perfeições e as claras promessas de _Mrs._ Edith, decidiu ir de visita aos Di Paoli. Tinha-os ali assim cêrca do hotel, na mesma Praça do Congresso. Uma modesta pensão que lhes haviam agenciado, em casa duma «distinta camarada de arte»,--explicára-lhe o conde pomposamente. Era um simples rés-do-chão, como tôdas as antigas casas de Buenos-Aires, com a porta e a seguir duas janelas. No humbral da porta havia um singelo _placard_ de metal brunido, onde em negros caractéres se lia: _Lady Cowpel, miniaturista_. Entrava-se, subiam-se três pequenos degraus, e passada uma estreita porta envidraçada, tinha-se o invariável e minúsculo vestíbulo, estiradamente continuado por um álgido corredor descoberto, que uma longa fieira de discretas portas flanqueava, e que era alto, fechado ao fundo por uma esguia charola de dois andares.--Uma mocita de touca e avental branco acudiu à entrada do Silveira, a inquirir:

--_Qué desea, señor?_

Os Améglio haviam tomado o primeiro compartimento, logo à direita,--o melhor da casa,--correspondente às duas únicas janelas dando sôbre a rua. A esperta _mucamita_ adiantou-se e foi golpear à porta, melindrosamente blindada de persianas fixas de madeira, como tôdas as mais. O mesmo conde veio abrir; e logo com expansiva alegria, ao dar com os olhos no amigo:

--Ah, o meu caro Silveira! Que bela surpresa!--Abriu convidativo a tôda a largura o batente da porta:--Entre, entre... queira entrar.

O Silveira hesitou, ao ver o conde em mangas de camisa, e do mesmo passo surpreendendo num relance a atravancada desordem do aposento.

--Venho talvez incomodar...

--Quê! Incomodar?... De modo nenhum. Pelo contrário! Entre... Fez muito bem!--E para o interior, num altear imperativo da voz, anunciou afávelmente:--Edith! o snr. João da Silveira.

O recêm-vindo arriscou então alguns tímidos passos no baralhado pejamento do recinto. Era uma vasta peça, alta e triste, forrada a papel vulgar, esfarpado a trechos e comido junto ao teto por eczemas de humidade. Sôbre a lisura de bistre do soalho encerado, arrastavam-se um pouco por tôda a parte as maletas, as caixas de chapéus, os sacos de viagem, e havia pulverulências lineares de terra e lixo definindo geométricamente o bôjo de grossos caixotes de pinho, intactos uns e outros já eventrados, com as desprendidas tampas postas ao alto e eriçadas de grandes prégos, hostís e recurvos como garras.

Em meio da sala o conde, sempre convidativo e afável, e depois de haver cerrado a porta, apressou-se a explicar:

--Não repare neste desarranjo, meu amigo. Eu estava desenfardando e arrumando p'r'aí assim de qualquer forma os meus ricos quadros. Parece que não sofreram com a viagem.

--E são muitos?

--Ao contrário. Mas valem pela qualidade. Um tesouro!--E num convencional arrebite de vaidade:--Oh, que deslumbrante exposição eu vou fazer aqui!

Passou a mão nervosa pelas negras ondas do cabelo, moveu o tórax numa leve opressão de cansaço, e mesureiro, abundante, sempre inalterávelmente pálido, apontou desvanecido ao irracional exame do Silveira a atramochada distribuìção das suas telas, umas já penduradas, outras ainda provisóriamente postas de espalda contra o rodapé surramposo da parede. E tambêm junto a esta um petisito obreiro, arremangado e trepado a um escadós de tesoura, como que aguardava ordens, inexpressivo, imóvel, de braços pendentes e o pesado martelo da mão suspenso.

O Silveira julgou oportuno convidar polidamente:

--Bem, mas porque não continua?... Eu não quero que façam cerimónia comigo.

--Cerimónia, nenhuma. É muito amável... É que estou um pouco cansado,--obtemperou naturalmente o conde, enfiando o seu leve jaquetão cinzento. Fez um sinal ao mocito da escada, que desceu e saíu em seguida; e tranqùilamente, sentando-se, acendendo um cigarro:--Temos muito tempo.

Neste momento abria-se uma espécie de envidraçada porta de alcova, no mais escuso recanto da casa, e por ela fazia a sua apetecida aparição essa sonhada delícia de _Mrs._ Edith, singelamente vestida,--uma saia corrida de fina sarja negra, blusa branca de _liberty_,--e o mesmo liso penteado em bandós à Cléo, o mesmo divino perfil de Madona, o mesmo ar repousado e ingénuo, a mesma ateniense modelação das formas. Avançou sorridente ao Silveira, saùdaram-se familiarmente, como dois bons amigos. Logo ela recolheu pronto a mão, perturbada e esquiva ao beijo demasiado expressivo do seu admirador; e tudo era depois circunvagar, perante êle, os confrangidos olhos pela sala, e enconchar e alargar e mover com vivacidade os braços, em adoráveis gestos de escusa.

O marido solícitamente interveio:--que o seu nobre amigo já sabia... desculpava tudo. E para o Silveira continuou, desabusado e simples, aclarando:

--Obtivémos por muito favor esta pequena instalação, que está longe de ser decente... e muito mais longe de ser barata. Imagine: esta sala e dois pequenos quartos, interiores, escuros, nada mais... quinhentos pesos por mês. E a sêco. Uma barbaridade! Temos que ir comer ao _restaurant_ Santini, que nos fica a cinco _cuadras_, na _calle_ Paraná.--Aqui a condessa fêz notar com repulsivo enfado, que, demais, tôdas as manhãs a laboriosa preparação dos banhos e abluções «era uma tragédia». E no mesmo tom o Améglio confirmava:--Uma roubalheira! uma maçada! Conheço Londres, Viena, Berlim, S. Petersburgo... pois, senhores, já vejo que não há como Buenos-Aires para fundir dinheiro!

--Não é nada tranqùilizador êsse anúncio para mim.

--Aqui o pretexto para tam alta renda é que as peças estão mobiladas. Mobiladas!--comentou o conde, com uma desdenhosa mirada em tôrno, encolhendo os ombros.--Mas de que maneira!

Não se recomendava com efeito o mercenário recheio da vélha sala nem pelo confôrto nem pelo aceio. De reposteiros, cortinas ou alfombras, não havia vestígio. Ao meio da principal parede, um aparatoso e ratado grande contador japonês, ainda com preciosas incrustações de laca e marfim, mal amparava a poder de cunhas e remendos a sua ruina claudicante. Havia mais uma meia dúzia de desparelhadas cadeiras, tamboretes e _fauteuils_, com o estôfo esfiampado e sujo; uma _étagère_ banal com conchas e búzios, um piano; e ao centro uma mesa redonda, coberta por um coçado e lustroso pano franjado, de lanujem verde, agora ciscado abominávelmente de pequenas ferramentas.

Com um novo lastimoso dar de ombros, tornou o conde para o Silveira:

--Nem uma chávena de chá lhe podemos oferecer!

--_To morrow_...--acudiu a mulher com adorável carinho.

E muito solícito o conde, interpretando:

--Àmanhan... Oh, àmanhã, certamente, com o maior prazer!--E obsequiosamente lembrava:--O que podemos agora é preparar-lhe um _punch_. Vai feito?

O Silveira recusou delicadamente.--Por modo nenhum! bastava-lhe gozar a sua amável companhia.--_Mrs._ Edith ofereceu-lhe _bonbons_, atalhando assim gentilmente o previsto fluxo de consabidas frases lisonjeiras que de seguro ia seguir-se. E levemente ruborizado, o Silveira, a derivar, com os lábios melados da guloseima e do desejo:

--Diga-me, conde... e a sua exposição onde a vai fazer?

--Ainda não sei... Sei apenas, isso sim! que vou _épater_ tôda esta gente--rematou com a mais segura ufania, atirando fóra o cigarro, os olhos muito brilhantes.

E posto súbito em pé, tomando com decisão o braço ao amigo:

--Isto é um mostruário de puras maravilhas. Veja, veja... venha ver! Comecemos por o que está já aqui assim à vista. Aqui tem mesmo na sua frente um Hobbena, o maior paisagista holandês depois de Ruysdaelf; a seguir, um Corot, o grande psicólogo da paisagem; e agora em figura, note! um dêsses graves e aristocráticos retratos de Gainsboroug, que se pagam hoje a peso de oiro; outro, do seu émulo e contemporâneo Reynolds; ali, um belo estudo de Salomon Konink; mais alêm, vá anotando sempre! uma cabeça de Ticiano, de quem o Tintoreto dizia «que pintava com carne moída». E por último,--plantava-se com intimativa diante do Silveira boquiaberto,--por último, nada menos que um Velasquez! um genuino Velasquez, ouviu?... o maior, o mais assombroso pintor de todos os tempos.--A seguir, indicando pelo soalho os caixotes intactos:--Fóra o que está ainda p'r'aí assim...--E sempre na mesma teatral fatuìdade, dando um giro triunfante pela sala:--Não lhe dizia eu!?... É realmente uma dôr de alma ter de desfazer-me de coisas tam raras e tam belas... oh, mas ao menos encontro lenitivo na idéa de que o meu sacrifício há de dar brado! e de que ficará memorável na grata lembrança dêstes bons _porteños_ a maravilhosa selecção de obras-primas cuja aquisição eu venho facilitar-lhes... um relicário de Arte como êles não viram nunca, como não teem nada que nem de longe se pareça sequér!

_Mrs._ Edith, que depois de cautelosa inspecção acabára por sentar-se no menos avariado dos tamboretes, seguia esta flamante parada estética, sorrindo vagamente, numa complacência tranqùila. E do fundo do seu obtuso espanto o Silveira, para o marido:

--Devem ser telas muito caras?

--Seguramente.

--Próprias talvez melhor para Museus.

--Ah, não... aqui todavia há riquíssimas colecções particulares. Duas ou três, pelo menos. Eu estou bem _renseigné_... Sei como hei-de manobrar.--E ladinamente, piscando o ôlho:--A coisa é segura!

Perante tanta soma de glória e de fortuna, uma instintiva dúvida chispou na pétrea ignorância do Silveira, que aventurou tímidamente:

--E, perdoe o meu amigo, são bem autênticos?

Um claro riso triunfal aqueceu a cínica face do charlatão.

--Ora eis aí precisamente a garantia do meu êxito, a chave do meu segrêdo! É o caso daquela minha invenção... Eis o ponto onde eu queria chegar.

Convidou o amigo a sentar-se, sentou-se defronte, e sentencioso, pausado, dobrando à frente o busto, os cotovelos sôbre os joelhos:

--Oiça... O amigo sabe que tem sido sempre um problema difícil poder constatar-se com segurança a paternidade dum quadro, especialmente dos antigos, recorrendo apenas aos meios indutivos e dedutivos até agora em uso. Vamos a ver...--Contava pelos dedos.--A análise química das côres empregadas não basta: primeiro, porque os discípulos dos grandes mestres ficam usando, geralmente, as mesmas pastas e as mesmas tintas, o que já estabelece confusão; segundo, porque, alêm disso, as melhores ou piores condições de conservação duma tela, a humidade, o calor, as tropelias dos vários retocadores e técnicos, e mil outros malefícios, chegam muitas vezes a pô-la em estado de não ser possível emitir uma opinião segura sôbre a sua idade e procedência. Bem, mas poderá então recorrer-se, dir-me hão, ao exame e confronto do estilo, da maneira do artista. Ora aqui igualmente o bom critério falha, falto de apoio sério, porque não só, para cada artista, essas variantes no processo pictural se produzem de ordinário caprichosamente, senão que ainda, quantas vezes! os adeptos e os continuadores duma escola acabam por apaixonar-se pelas características de execução do chefe e vão até assimilá-las maravilhosamente. Aí tem o meu amigo Perugino e Rafael: dois temperamentos artísticos de bem diversa índole, não é certo? E contudo, comparados em algumas das suas melhores obras, parecem idênticos.

Contrariado e aborrecido por êste giro erudito do diálogo, o Silveira esboçou um gesto de impaciência e mandou uma implorativa mirada a _Mrs._ Edith, que folheava uma revista ilustrada, distraídamente. O conde prosseguiu:

--Há ainda a considerar os testemunhos da época, os chamados documentos históricos, dum grande auxílio, seguramente. Mas tambêm êstes só por si não bastam. Porque é por igual freqùente deparar-se uma ou outra tela atribuida a qualquer dos grandes mestres da pintura, sob cujo nome tal ou tal quadro foi inscrito nos Catálogos, e afinal vir a averiguar-se que êle para semelhante obra não contribuira mais do que com a idéa e déra a firma, tudo o mais tendo sido feito por algum dos seus discípulos. Olhe, aí tem: o famoso _Retrato do Rabbino_, durante muito atribuido a Rembrandt, porque em tudo correspondia à _maneira_ consagrada dêste genial pintor, hoje é catalogado como obra de Salomon Konink. E quantos exemplos mais!

Agora, sim, a condessa, condoída da mortificada expressão e a confrangida atitude do Silveira, tossicou, ergueu-se e veio de novo oferecer-lhe _bonbons_, piedosamente. Enquanto, palreiro e implacável, sempre sentado o marido:

--Esta deplorável deficiência de elementos de _contrôle_ dá como resultado que a gente percorre os principais Museus da Europa e aí vai encontrar, ainda hoje, muitas das suas melhores obras registadas e inscritas sobre designações deficientes ou imprecisas. A célebre _Visitação_ e a _Ressurreição_, do Museu de Berlim, ainda hoje se não sabe a que primacial pincel atribui-las. O mesmo acontece com duas _Madonas_, um _São Lourenço_, um quadro do _Gólgota_, um _Retrato de Guerreiro_ e vários outros, todos peças de subido valor, no Museu de Budapesth. O Catálogo contenta-se em nos dizer que são «da Escola italiana». E semelhantemente em todos os grandes museus do mundo. Pois bem! amigo Silveira...--acentuou com jubiloso orgulho, abaritonando a voz, aprumando o busto,--para preencher tam lamentáveis lacunas achei eu o processo! _Eureka!_ É a minha grande descoberta, a minha glória, o meu segrêdo. Todos cá virão ter... é infalível! E quere saber onde pela primeira vez ficou irrefragávelmente provada a eficácia, a importância, a utilidade mundial do meu invento?... Foi em Londres, na _National Gallery_. Conhece?... Há ali um grande quadro, _The Old Grey Hunter_, que andava catalogado como obra original de Paul Potter. Porêm, recentemente, o dr. Bredius formulára a êsse respeito dúvidas ponderosas, inclinando-se a atribuí-lo antes ao belga Verboeckoeven. Grande polémica nos jornais e revistas da especialidade, socorrendo-se cada um dos contendores às suas melhores razões e argumentos, numa renhida discussão sem fim... e sem resultado. Vai eu, que me achava então em Londres, aproveitei... a ocasião era formidável!... propus-lhe _crânement_ resolver a dificuldade, pôr a limpo a questão, aplicando o meu processo microfotográfico. Acolheram-me a princípio com um scepticismo incrédulo, mas acederam por fim. E sabe o que aconteceu?...--E arrebatadamente, erguendo-se, num fogoso ímpeto de vaidade:--Provou-se, mas provou-se por uma forma insofismável, entende? que o quadro fôra realmente executado por Potter... porêm Verboeckoeven pintára o cavalo.

No manso rosto complacente de _Mrs._ Edith, e ante a estupefacção alarve do Silveira, perpassou o comentário burlão dum sorriso. Enquanto doutoralmente o Améglio, em pé diante do amigo:

--Porque êste meu processo não só nos dá a segurança absoluta de saber se um quadro é antigo ou moderno, mas qual artista, moderno ou antigo, foi o seu autor.--Sacudiu a cabeça e ergueu as mãos com encarecimento.--O que então se nos revela é portentoso! Tenho aí provas... hei-de-lhe mostrar.--E agora modestamente, encolhendo os ombros:--E contudo é um processo bem simples e ao alcance de qualquer que tenha uma certa prática de fotografia.--Voltou a sentar-se, e com dogmatismo pedante, feita uma pausa de importância:--A questão é esta: cada artista, quando pinta, e considerado êste acto sob o ponto de vista puramente _mecânico_, poisa as tintas na tábua ou na tela _inconscientemente_, tem um toque digital invariável, traça inadvertidamente uma grafia peculiar, que as centenas de pontas do seu pincel vão de improviso riscando, numa impressiva obediência ao automatismo nervoso, e naturalmente rítmico, da sua mão. É um movimento irreflectido, instantâneo, um rasto imperceptível, que ao mesmo artista escapa, que o seu espírito não dirige, que o seu ôlho não alcança... e contudo ficará marcando por uma forma incontrovertida, eterna, insofismável, a genuína autenticidade da sua obra. Qualquer coisa,--entende?--como o reconhecimento duma assinatura por um perito calígrafo, visto que a pena pode considerar-se como um pincel de duas pontas. O certo é que os trabalhos de qualquer pintor,--quere sejam as tentativas indecisas da primeira mocidade, quere os documentos fortes da idade madura, quere ainda as já cançadas produções da sua última maneira,--quando submetidos à prova microfotográfica, e basta ampliá-la oito a dez vezes, revelam todos um traço, um toque, uma característica idêntica. Em cada uma dessas minúsculas análises se apura sempre, invariávelmente, que as sêdas do pincel, uma por uma, vão deixando um fino sulco, ora retilíneo, ora quebrado, ora curvo, ora mixto, afectando infinitas formas, porêm _idêntico_ sempre quando se trata do mesmo artista, e diverso se se comparam artistas diferentes.--E novamente posto em pé, sem pausa, sem piedade, no seu monopólio sem tréguas da enfriada atenção do Silveira, que debalde ensaiava um derivativo inocente da fugitiva contemplação da irlandesa:--Que me diz a isto, hein?

--Eu acho maravilhoso!--acudiu compenetradamente o Silveira, na sua ingénua credulidade; e erguendo-se tambêm:--Deve dar-lhe um dinheiral!

--Dinheiro e fama.

--Não precisava deixar a Europa. Tinha a sua fortuna feita.