Ambições: Romance

Part 5

Chapter 53,863 wordsPublic domain

Pulso livre, claro—e a meia voz lá foram conversando até á sala d’entrada, onde, em volta d’uma grande meza, se reuniam os jogadores de _polis banque_. Aos lados, em mezitas pequenas, estavam os caturras do _voltarete_, do _whist_, do _boston_ ou do _sólo_.

Mal o conselheiro appareceu, quasi todos os logares do _polis_ se lhe offereceram amavelmente; logo elle, unctuoso, sempre risonho, com maciezas de voz e de phrase muito estudadas:

—Oh, meus amigos, por quem são! Eu fico bem de pé, não se encommodem... mas, ante o protesto geral, foi sentar-se á direita do banqueiro, o Motta tabellião, um bilioso de cabello e bigode pintado e lunetas brilhantes á força de as limpar nas circumstancias graves. Sómente a face se lhe distendia em riso de satisfação quando, como agora, as notas, as moedas de prata e as marcas d’osso que substituiam o cobre, se lhe amontoavam diante dos olhos avaros.

Vendo o Maximiano acceitar o logar da direita, estremeceu. Era uma honra, na verdade, mas tambem um perigo, porque ninguem como elle, acostumado ao grande jogo de Lisboa e Cascaes, para abafar uma banca logo á primeira. O baralho tremeu-lhe entre os dedos ao dar cartas ao visinho.

Mas o conselheiro não jogou e um sorrisinho de alivio veio desfranzir-lhe os beiços e mostrar os dentes apodrecidos. Já fallava, já ria dos _pontos_ que iam perdendo pequenas paradas, e pagava sem regatear ás senhoras.

—«Jógo!—disse do outro lado da meza a mulher do Maximiano, que estendia sobre o panno verde as mãos cheias d’anneis de brilhantes.

—«O sr. conselheiro não jóga no jogo da sr.ᵃ D. Maria Adelaide? perguntou o Motta, cortez.

—«Eu tópo—insistiu ella seccamente—tire carta.

O banqueiro mordeu os beiços despeitado e começou a puxar as cartas, vagaroso, muito molle, como se lhe estivessem colladas aos dedos.

—«Perdi, quanto é?—disse atirando o seu jogo á meza e olhando com simulada indifferença para as mãos lampejantes que se entretinha a revirar para mostrar o brilho dos anneis.

—«São vinte e cinco mil réis, fóra estes miudos que não vale a pena contar.

O tabellião fazia de generoso, não cabendo na pelle de regosijo.

—«Conte tudo—ordenou orgulhosamente, para mostrar á pelintrice provinciana como se joga no _grande mundo_.

A não ser o conselheiro, que conversava com a maior naturalidade para as outras mezas, todos os que estavam a meza do _polis_ e os que de pé jogavam de fóra ou, meros _mirones_, simplesmente viam e commentavam, tinham seguido ansiosamente a partida arrojada da conselheira.—O Motta estava com uma sorte! Já não faltava senão dar mais uma vez; se passasse d’essa já não se desforravam com elle. Asneira tinha elle feito em retirar metade da banca logo no principio.

Pensavam todos o mesmo, invejosos, seguindo em silencio o movimento do baralho.

—«Falta a ultima, amigo Motta, e ahi é que a porca torce o rabo—disse o padre Mathias, de pé, com os tentos apertados na mão de mistura com cédulas já de ganho.

Quando o Maximiano tornou a receber cartas olhou-as indifferente, pô las em cima da meza diante de si e continuou meio voltado a conversar com o juiz.

O Motta, esperançado de que elle não jogasse, deu confiadamente o resto das cartas.

—«Oh, doutor—disse o conselheiro para o juiz, que, a cantarolar um estribilho muito da sua cabeça desafinada, ia já a voltar para outro lado—você não joga?

—«Não senhor! O jogo é uma ladroeira.

—«Parece-lhe?

—«Pois pudéra! Então parece-lhe bem que alli aquelle senhor ganhasse vinte e cinco mil reis a sua esposa d’um instante para o outro?

—«O dinheiro fez-se para girar, meu caro. Quer que todos façam tulha de libras como o senhor?

—«Eu, sim!? Sou um _pobretana_.

—«Todos os honestos dizem o mesmo. Devia jogar para enriquecer. Eu gosto do jogo porque é a imagem da vida. Os pacatos, os que seguem sómente o caminho trilhado por outras pessoas mais experientes, esses não arruinam os banqueiros nem perdem as casas, quando muito perdem... a linha. Os que são capazes de arrojar uma fortuna sobre uma carta, são tambem capazes de tudo arriscar para chegar onde a ambição lhes pôz os olhos...

—«Jóga, senhor Conselheiro?—perguntou, officioso, o tabellião.

—«Tópo.

E a carta voltada fez-lhe passar para a mão todo o dinheiro que estava sendo a cubiça dos outros.

O Motta, a pretexto de cansaço, levantou-se a tomar ar. Estava desesperado.

Com o seu eterno sorriso de bonhomia, começava o Maximiano a contar o dinheiro para pôr na banca, quando a filha entrou pelo braço do Vilhegas, dizendo com a sua vózinha aguda atirada com petulancia:

—«Oh papá, não imagina como o sr. Vilhegas e eu nos entendemos bem! Sabe historias deliciosas e lindos versos para a guitarra.—Chegando ao pé da meza e mudando de tom:—O papá é que faz banca? Hade ser _vacca_, sim?—E para o Emygdio, torcendo-se risonha: aposto que tambem não sabe o que é fazer uma _vacca_?

—«Ah, isso sei por experiencia... de perder. Muitas vezes em Coimbra me pediram dinheiro para ellas.

—«E não ganhou nunca?

—«Creio que não, porque nunca mo deram.—Respondeu já senhor de si, vaidoso por se ver recebido com tanta expansão pela filha do grande politico, cujo lendario talento era ainda ponto de fé, até para os adversarios.

—«Parece incrivel que não saiba jogo algum. _Je ne crois pas!_

—«É tão completa a minha ignorancia que até me parece que serei incapaz de vir a aprender.

—«Nem o _bluff_?

—«Esse menos do que nenhum, nem mesmo sei o que é.

—«_C’est incroyable!_ É um jogo d’enganos; só pelas cartas serem differentes já tem graça. Pode ganhar-se sem ter jogo nenhum, é questão de finura. Olhe, o papá ganha sempre e com jogos ordinarissimos. Engana toda a gente.

—«Realmente sou um grande ignorante. Preciso aprender algum d’esses jogos, já não digo todos...

—«Deveras? Então eu ensino-o...

—«Pois desde já prometto ser o mais submisso dos discipulos.

—«A sério?

—«Muito a sério.

—«Oh, mas é delicioso!... Aprenderá comigo todos os jogos, sim!?...

—«Todos que V. Ex.ᵃ souber.

—«Mas se eu sei todos! Vamos já hoje começar a lição?

—«Com todo o gosto.

—«Mas... por qual? Oh papá, o que heide ensinar primeiro?

—«O burro, que é o que tu sabes melhor.

Toda a sala riu da graça do conselheiro.

—«Bom, lá está o Papá a fazer troça... Imagina que eu não sei jogo nenhum porque não tenho a prática que o Papá tem?!... Ora espere, venha cá,—e correu ao fundo onde estava uma pequena meza de pé de gallo.—Oh sr. Motta, dê me cá esses castiçaes.—O Móttasinho, que ia a entrar, correu a executar a ordem.—Accenda-os, faça favor. _Merci._ Agora os marcadores, as cartas do _bézigue_, bom! Sente-se aqui, sr. Vilhegas, vou ensinar-lhe um jogo engraçadissimo, por ser só de duas pessoas—um verdadeiro _tête à tête_.

—«Um encanto, principalmente quando uma d’ellas é V. Ex.ᵃ.

—«_Comme vous êtes aimable, merci bien._

—«Não digo mais de que V. Ex.ᵃ merece.

—Sabe uma coisa? Eu gosto mais que me tratem por Mademoiselle Hortense. É assim que todos me tratam e eu estou tão habituada a fallar francez desde o collegio, que ás vezes dou ordens aos criados e só quando os vejo olhar para mim com caras de parvos, é que percebo que elles não comprehenderam porque fallei francez. É quasi a minha lingua...

—«Pois se Mademoiselle deseja, fallaremos tambem em francez.

—«Pois falla?

—«Alguma coisa.

—«Oh, mas o que me espanta é que sendo um homem tão educado e intelligente possa viver n’uma terra da provincia como esta. Viver toda a vida n’uma aldeia, oh que horror!—e deitava a cabeça para traz n’um gesto verdadeiramente de horrorizada.

—«Vamos ao nosso jogo?—desviou a conversa o Emygdio, vendo que todos o observavam e que no dia seguinte os proprios partidarios invejosos espalhariam pela terra o acolhimento que elle tivera em casa do chefe da opposição.

—«_C’est vrai. J’avais oublié! Ma pauvre tête!_ Repare bem, pega-se na primeira dama e no primeiro rei que nos veem á mão e faz-se um casamento.

—«O que se chama aqui um casamento?

—«É apresentar os dois juntos, é uma especie de casamento civil...

—«Que é lá isso, que é lá isso, perguntou da roda do _polis_ o padre cura.—Já fallam em casamento, sem me ouvirem em confissão?!...—e riu da graçola, a que o Móttasinho achou muito chiste.

—«Não são d’esses casamentos—respondeu com imperturbavel serenidade mademoiselle Hortense—são casamentos sem padres. Duram apenas o tempo da partida e dispensam bençãos papaes. Casamentos _nouveau style_. É um jogo delicioso, não acha mr. Vilhegas?

—«Divino, minha senhora!...

VII

Primeiro do que ninguem tinha o dr. José Ramalho chegado á estação para esperar os viscondes, que vinham no ultimo comboio.

Mal se começavam a reunir os empregados, bocejantes, e os guardas tinham apenas accendido os candieiros de petroleo, com as torcidas em bicos fumarentos, que mal alumiavam a sala de espera.

—«Uma bôa estafa este comboio das onze da noite!

—«E hoje então que a Viscondessa hade trazer _pr’a-hi_ um _rôr_ de bagagens!

—«Ficam _p’rá manhã_.

—«Isso ficam ellas!... O chefe, _antão_... Se fosse _cô oitros_, não digo menos, mas _cô estes_ é todo _politicas_...—Conversavam dois carregadores, encostados á hombreira da porta, na espera ociosa e enfastiada que precede a hora da tabella, cortada a espaços pelo resoar da campainha electrica que nos sobresalta alegremente como voz amiga que já nos falla dos que esperâmos, dizendo-nos a sua aproximação.

O doutor estava, contra o costume, n’uma disposição de espirito arrelienta, nervoso, maldisposto, com vontade de implicar e dizer mal.

Aproveitando a liberdade que o seu logar de medico da companhia lhe dava, levantou o balcão e pela casa das bagagens atravessou para a gare, que estava ainda em profunda treva.

—«Então o que é isto!? Hoje não accendem as luzes?—perguntou mal humorado aos homens que o tinham seguido.

—«Ainda não deu a partida, senhor doutor.

—«Ora adeus! Accendam isso que são horas—commandou energico, emquanto os outros, vencidos, iam de má vontade buscar um caixote para chegar aos candieiros.

Começou de passear para acalmar os nervos, e de momento a momento parava, olhava o mostrador de duas faces do relogio da estação, puxava da algibeira o seu _remontoir_, e confrontava-os, achando sempre que ambos deviam estar atrazados.

Chegava a Viscondessa, causa unica e involuntaria d’aquella agitação... Para que negá-lo? Era um sonho de muitos annos, a porção incorporea e ingenua do seu sentir, o ideal que lhe tornava supportavel a vida trabalhosa, solteira de affectos. Julgavam-no egoista, solteirão incorrigivel, todo avesso a phantasias amorosas, e afinal... Desde muito novo que esbarrára n’aquelle sonhar impossiveis que lhe fechára olhos e coração a qualquer outro sentimento.

Nunca sentira necessidade de confessar-lhe, nem a si proprio, mesmo, quanto havia de profundo amôr no interesse que ella lhe inspirava.

Para quê, afinal? Era tão feliz na doçura tépida e confiante d’aquella amizade fraternal, que nem mesmo queria averiguar o que de vulgar e humano ella continha.

Para que perturbar esse enlevo com a materialisação d’um sonho, que na realidade não passaria d’uma vulgar intriga?

Depois, a Viscondessa era d’uma honestidade tão simples e consciente, e com tanta graça e tanta nobreza sustentada, que nem a sombra de uma suspeita impura ousaria roçar-lhe pela alma. E era ainda por isso que mais a estimava, que a adorava, quasi—porque era adoração o que sentia ao vê-la tão serena e tão bôa, tão intellectual e distincta! Tinha vontade de ajoelhar, silencioso, resignado, e até feliz na passividade do extasi.

Elle, que era um tanto rude na franqueza do dizer, achava, para as suas intimas conversas de bons amigos, phrases d’uma tão carinhosa ternura como só as sabe ter um coração de mãe.

Tão pouco humano, tão desinteressado era aquelle affecto, que não sentia pelo Visconde a mais leve repulsão. Se não eram amigos, como era natural que o não fossem, sendo tão fundamentalmente dispares, era-lhe todavia dedicado bastante para o auxiliar politicamente, e para lhe ser até agradavel a sua intima convivencia. Invejava-lhe um pouco, talvez,—criancices de amoroso—a delicadeza do seu perfil aristocratico, a maneira requintada de vestir, a simplicidade suprema com que punha o alfinete de perola na gravata de setim preto, collocava uma flôr na botoeira, guiava um carro ou fallava sobre arte.

Amá-lo-ia a Viscondessa por essas miudas preoccupações que tornam certos homens tão queridos á maioria das mulheres?

Mas o Visconde não era sómente isso, e decerto a mulher, cujo espirito adquirira com a convivencia vibratilidades d’artista, amava muito esse homem, _dilletante_ na politica como na arte, colleccionador por moda, um pouco litterato e um pouco _sportsman_; sempre distincto, invejado e imitado.

Casados por paixão, era evidente que se amariam como no principio. E era tão natural—pensava por vezes o doutor—primos chegados, a mesma educação e tradição de familia, fortunas eguaes, não tendo uma recordação que pelos dois não fosse partilhada, deviam amar-se e ser felizes como pareciam, como toda a gente queria, apezar da delicada reserva com que se abordavam.

Pensava incoherentemente todas essas coisas, percorrendo em largas passadas regulares o restricto espaço da plataforma onde chegava a luz. Toda a tensão de nervos se lhe conhecia no mordiscar febril do charuto e no franzir da testa a cada momento.

Assim se conservava ainda, quando a _gare_ foi invadida pelas pessôas importantes da terra, que vinham, como elle, esperar os viscondes. O Braga, azafamado, empurrando todos, grosseirão e bruto, n’uma grande preoccupação de ser sempre o primeiro. O Neves, o Domingos, as meninas Souzas e as Costas, com vestidos d’um exagero que pretendiam ser a moda, olhando-se invejosas por cada fita ou flor a mais que qualquer d’ellas pozesse.

Até as sr.ᵃˢ Rebellos, com chapéos de repolhudas flores vermelhas atados ás velhas caras rugosas, que o pó d’arroz tentava amaciar; o juiz, arrastando a perna gottosa encostado ao chapéo de chuva e á bengala, tencionando já pedir desculpa pela falta da mulher, motivada por doença, diria, mas em verdade porque não quizera alugar carro, e assim, a meias com o delegado, o dr. Pinto e o escrivão sahia-lhe mais barato. Não, que era preciso fazer economias, desde que os emolumentos do crime se iam pela agua abaixo e era uma raridade um bom inventario...

Depois, ainda, os partidarios certos do visconde e aquelles que não sabiam ainda para onde se virar.

O doutor, que estava sempre disposto a aturar aquella gente com a inestancavel paciencia de medico e de politico, não poude n’essa noite vê-los sem que o espirito se lhe confrangesse n’uma repulsão instinctiva, que o fez affastar para a sombra, propositadamente, com vontade de criticar, de ter alguem com quem podesse fallar, alguem de muita confiança que o desculpasse sem tentar comprehender aquelle estado de espirito, que torna os homens, mais do que as mulheres, intractaveis em questões de amôr.

Quando por fim o João appareceu, foi-lhe ao encontro, de mão estendida, sem se importar com os outros.

—«Já cá estava, e eu fui por sua casa para o trazer no carro—disse-lhe logo o João.

—«Obrigado pela lembrança; não tinha que fazer, vim a pé por ahi abaixo. Se soubesse que tinha tão bôa companhia, esperava, decerto. Mas o agradecimento é o mesmo.

—«Não tem nada a agradecer, o favor era para mim. A mamã pediu-me para acompanhar a Candida e como o _tête-à-tête_ me não é agradavel ia procurar o meu amigo para o trazer comnosco.

—«E vieram juntos? Desculpa a curiosidade.

—«Vim a governar, e ella dentro. Espere... Venha cá,—levados naturalmente por egual desejo de solidão, tinham-se refugiado na sombra, e d’ahi vira o João chegar o Vilhegas junto da Candida, que se endireitava soberba, em plena luz—repare com que intimidade elles se fallam!... E ainda o doutor diz que não ha nada! Dava tudo por os ouvir!...—Agitadissimo apertava o braço do medico, como se quizesse com a poderosa tensão do seu espirito aprehender as palavras que os outros a distancia trocavam.

A Candida, ainda de preto,—que teimava em usar porque descobrira que lhe adelgaçava o busto cheio, e lhe fazia sobresahir o brancomate da pelle e o castanho loiro dos cabellos,—estava formosissima.

Alta, silenciosa e grave entre a multidão remexida das pequenas provincianas, com um grande chapéo de rendas e plumas todo preto a completar a _toilette_ muito leve e custosamente simples, e com o seu glorioso ar de desdem, ella era na verdade a soberba materia que avassalla as almas.

O Emygdio curvou-se rendido.

—«Onde esteve hontem?—murmurou incisiva, irritante, tratando-o propositadamente por senhor.

—«Hontem, hontem...

—«Não se canse a procurar mentiras. Sei que foi a casa do Maximiano. Fallou com M.ᵉˡˡᵉ Hortense?...—frisou, ironica.

—«Quem t’o disse?

—«Que te importa? Sei que foste; se lá voltas acabarei com tudo.

—«Mas isso é um desproposito; fui lá, é verdade, mas só vi o Conselheiro, juro-te!—tentava convencer, afflicto, temendo que n’um d’esses ataques de ciumes ella o compromettesse escandalosa e irremediavelmente.

Perdê-la, quasi o não incommodava já. Era formosa na verdade, mas d’uma exigencia tão absorvente que ha muito o desgostára, a elle que não era um artista que pozesse na belleza a aspiração suprema da sua idiosyncrasia.

Desde a morte da Pillar que tentava fugir-lhe, mas, sem um pretexto que o desculpasse, agarrara-se agora áquelle da vinda do João e á necessidade de por isso espaçar as visitas para fugir um pouco áquella pressão esmagadora.

A sua intelligencia inferiorisada pela ambição obscurecia-se por completo n’um pavor de tortura, quando assim a via imperiosa e enygmatica, fascinando-o apezar de tudo.

—«O que dizes?—perguntou com ironia, olhando-o d’alto.

—«Decerto não irei sempre, mas...

—«Ah!... Oh sr. Braga—chamou ella o velho, que a contemplava embasbacado havia momentos, coisa que lhe não escapára—quer acompanhar-me até junto de meu primo?

—«Oh, minha senhora!—gaguejou o ricaço, offerecendo presuroso o braço onde ella mal tocou com a ponta dos dedos enluvados.

Com a sua grossa mão vermelhuça puxou-lhe o braço para cima e não soube senão dizer com uma ternura bruta:

—«Que felicidade, que felicidade!...

—«O quê, sr. Braga, acha felicidade que eu lhe peça um favor?

—«Se acho! Dava contos de réis para que fosse toda a vida assim!—córado até ao extremo violaceo da apoplexia, esforçava-se por dizer alguma coisa que podesse agradar áquella mulher, que havia uns tempos, desde que o Padre Mathias na botica velha dissera aquellas coisas, lhe andava a pôr doida a cabeça; que d’antes só as cifras enchiam.

—«Tanto dinheiro por uma coisa tão insignificante e tão natural!... Não valia a pena, sr. Braga!—respondeu meiga, com uma voz quebrada que acabou de atordoar o homem.

—«Lá isso valia, até tudo o que tenho! E olhe que é _p’ra_ mais de duzentos contos—regougou o animal.

—«E vive aqui!...

Um apito prolongado do comboio ao longe terminou as conversas, na mesma curiosidade de todos que aguardavam os Viscondes, trazidos por desencontrados desejos e interesses.

—«Como viria vestida a Viscondessa?—perguntavam as mulheres.

—«Como os receberia o Visconde—a si mesmos perguntavam os homens que na politica punham a sua ambição.

A machina avançava, cuspindo brazas, offegante, deixando fugir a força com o vapor que se lhe ennovelava em cabelleira. As lanternas vermelha e amarella furavam a noite como dois olhos de monstro phantastico que avançava esbaforido, chocando-se em traquinada de molas e correntes.

Na plataforma todos se agitavam, adiantando-se, querendo ser vistos primeiro. O chefe empertigou-se com a bandeirinha verde na mão, obrigando com o seu gesto imperioso a retirar os mais atrevidos. Atraz da machina seguiram os wagons carregados de saccos fedorentos de guano para as terras, depois as bagagens, a terceira classe com soldados e maltezes que vinham das ceifas do Alemtejo, estremunhados, espreguiçando-se ás janellas... E o comboio, que mal se arrastava já sob a pressão dos travões, parou por fim n’um choque que se prolongou até ás ultimas carruagens.

O wagon-leito ficou um pouco acima e todos correram açodados a cumprimentar o Visconde, que se apeou logo, esbelto ainda, mesmo bonito homem apezar dos cabellos que iam branqueando na aproximação dos quarenta. Mal puzera pé em terra e logo os vigorosos braços do Domingos o apertavam n’uma expansão perdoavel a um partidario tão intransigente.

O Visconde deixava-se abraçar por todos, tendo uma palavra para cada um, sorrisonho e amavel, apezar d’uma vaga sombra de cansaço, sustentando com distincção o difficil papel de politico acclamado pelo seu burgo.

Logo a seguir appareceu a Viscondessa, á portinhola, vestida de azul escuro, gravata de seda branca, chapéo que uma simples fita enfeitava, sorrindo bondosa, recebendo com egual deferencia todos os cumprimentos. Só quando o dr. Ramalho e o João conseguiram aproximar-se é que a sua physionomia muito movel se abriu n’um lampejo de sincero contentamento.

Acceitando as mãos que ambos lhe offereceram saltou para o chão, dizendo n’um sorriso de intimidade que raro prodigalisava:

—«Já me tardavam!... Como tem passado, doutor?... Como está tua mãe, João?

—«Como a prima pode imaginar!...

—«Sim, faço ideia! Se ámanhã a mamã não estiver muito fatigada irei abraçar a minha pobre Josephina.

—«Como é bôa e como lho agradeço—murmurou o João commovido.

—«A sr.ᵃ D. Genoveva fez bem a jornada?—interrogou o medico cuidadoso.

—«É muito longa, deixa-a fatigada por uns dias, mas apezar d’isso não está mal. Para se não incommodar com cumprimentos, pedi-lhe que ficasse na carruagem com a D. Luzia até nós retirarmos.

—«Foi bem pensado. É preciso a maior cautella com aquelles nervos—respondeu o dr. Ramalho.

—«Nervos?!... Emfim, pode ser!... Mas venham cá; vem cá, João, que te quero apresentar uma pessôa que muito estimo.

—«E que eu não conheço?—«Nem eu tambem?—inquiriram os dois a um tempo.

—«O doutor conhece, tu é que não—e voltando-se chamou para dentro da carruagem—«oh Bella!»

—«Estava a procurar a minha malinha na confusão das vossas malas, malinhas, embrulhos, cabazes... Sei lá o que para ahi vem!—veio dizendo, ao mesmo tempo que saltava da carruagem, uma delicada figura de mulher, vestida de flanella branca riscada de azul, chapéo remador de palha branca, collarinho e gravata, e no bolso do casaco o lenço de linho fito, n’um geito um tanto masculino.

—«Oh meu caro doutor, como está, como tem passado desde o inverno?!...—dirigiu-se ao medico, n’uma grande expansão de amizade, a que elle correspondia affectuoso.

—«Minha filha—sorriu a Viscondessa—guarda para logo os teus comprimentos ao doutor, que já é conhecido velho, agora deixa-me apresentar-te o meu primo João de Mello.

—«Escusas de dizer mais, conheço-o perfeitamente—respondeu séria, estendendo-lhe a mão, para um _shake-hands_, á ingleza, e dizendo com uma naturalidade encantadora.—A Maria Helena descreveu-mo de tal maneira que o reconheceria em qualquer parte.

—«Se tu o conheces—acudiu a Viscondessa, rindo—não te conhece elle, que não teve quem, tão bem como eu, te descrevesse. É preciso apresentar-te:—Isabella Burns, a minha maior e melhor amiga.

—«_Certainly_—terminou rindo Isabella.

—«Podemos partir—veio dizer o Visconde.

—«Quando quizeres.

—«Entrega a relação das bagagens ao Bernardo. Como o comboio não passa hoje d’aqui, não haverá confusão.

—«Pois sim.—Abrindo a carteira de coiro da Russia onde brilhava o oiro do monogramma e a corôa, tirou um papel que entregou ao administrador, curvado para receber as ordens e comprimentar Sua Ex.ᵃ:—Veio o _coupé_ para minha mãe?

—«Sim, sr.ᵃ Viscondessa.

—«Tenha cautella, Bernardo, olhe se os cavallos estão folgados que vão muito depressa...

—«V. Ex.ᵃ pode confiar em mim.

—«Bem sei, tenho toda a confiança no seu juizo, mas por isso mesmo não quero que entregue esta obrigação a ninguem.

—«V. Ex.ᵃ pode ir descançada.

—«Bem, bem—e voltou ainda á carruagem, a fazer as mesmas recommendações.