Part 3
Não a deixava de facto, nem de dia nem de noite, como expiando a morte bemfeitora que lhe arredaria aquelle unico estorvo ao seu sonho supremo.
Mas a morte foi vencida d’esta vez.
Quando o dr. Ramalho e o Vilhegas participaram aos paes que o grande perigo passára, elles não souberam senão chorar, tão verdade é ser o grande contentamento quasi doloroso pela intensidade do sentir.
Começou a melhorar devagarinho, n’um ateamento de vida que vem aos poucos, preenchendo as lacunas da memoria; mas á proporção que a luz se fazia no cerebro abalado da doente, um desespero sem nome se lhe ia pintando no rosto. Os olhos tinham uma expressão de desvairamento quando se fixavam na prima e no Emygdio pelos quaes manifestára uma subita aversão, que parecia desolá-los. Só os consentia no quarto, quando de todo não encontrava pretexto para os affastar. A Candida, principalmente, causava-lhe uma irritação profunda, que roçava pela repugnancia.
Os nervos, n’aquelle organismo depauperado pela doença, tornaram-se senhores absolutos e d’uma susceptibilidade que lhe chamava lagrimas aos olhos a cada momento.
Infantil por vezes, muito tolerante para os paes e para a velha Engracia que a acompanhava sempre como pessoa da familia, que quasi já o era pela quantidade d’annos que servia a casa, deixava que a boa velha a entretivesse como em criança a contar historias, visto que o dr. Ramalho a prohibira de todo o trabalho intellectual—nada que a emocionasse!...
—«Conta lá, Engracia—dizia a sorrir vagamente, os olhos esquecidos a fixar qualquer coisa—conta aquella historia d’uma princeza que morreu d’amôr...
—«Ora, ora! Sempre a mesma não tem graça, menina! Agora hade ser a do «Bernal Francez».
—«Pois sim, a que tu quizeres...—No fim do _rimance_, que a velha entoava com modalidades de voz apropriadas:
—«Filhos que d’ella tiveres Ensina-lhe melhor que a mi. Que se não percam por homens, Como eu me perdi por ti...»
Ella sorria ainda, com o mesmo vago sorriso e o mesmo olhar fixo, enternecidos de tantissima tristeza...
IV
O dr. Ramalho—homem de trinta e oito annos, mais insinuante do que bello—fôra para alli logo ao sahir da Universidade, era a Pillar ainda uma criancita a quem beijava e contava contos. Vira-a crescer com o desvanecimento d’um pae ou irmão mais velho, não a considerando mulher senão quando ella lhe confessou, n’um impeto de franqueza, o seu enthusiastico amôr pelo Emygdio. Um d’estes amôres romanticos de rapariga, que sente um prazer morbido de sacrificada em offerecer ao homem, julgado infeliz, todas as alegrias e felicidades da terra. O dr. Ramalho tentára então tratá-la com ceremoniosas excellencias, o que a fazia rir perdidamente, terminando por lh’o prohibir.
É que a intimidade acarreta mais vezes affeições assim ternas e simples do que traz o amôr—paixão.
N’esta altura abriram-se as camaras e o dr. Ramalho, que era deputado, teve que sahir para Lisboa.
Á despedida animára os paes, dizendo lhes que, a pleuresia aguda estando vencida, ella ficava livre de perigo e bem entregue aos cuidados do collega; mas se sobreviesse qualquer imprevista recahida o chamassem logo. E terminava em confidencia—«o abalo physico foi tão forte e a fraqueza é tanta que ha muito a recear um desequilibrio nervoso, que temperamentos como o d’ella teem sempre mais ou menos latentes. Que era urgente uma radical mudança em toda a sua vida... Que apressassem o casamento. A realisação d’esse ardente desejo do seu coração havia de a curar.
Os paes concordaram de boa vontade em apressar o casamento; tudo quanto a filha desejasse elles fariam para a melhorar. Mas a doente sorrindo desdenhosa á proposta e olhando o Emygdio que a fitava ansiado e a Candida que se fingia desinteressada da conversa, respondeu que não tinha pressa, que havia muito tempo... queria que o João assistisse, queria melhorar de todo...
Desde esse dia é que o Vilhegas se mortificava a procurar o motivo d’aquella mudança da noiva, que lhe roubava assim a fortuna ambicionada quando elle já estava de mãos estendidas para a agarrar.
Redobrou de cuidados e de medicamentos, mas a Pillar, em vez de melhorar, de dia para dia se mostrava mais enfraquecida, mais desanimada e perto da morte. Quando os paes, cheios de dôr, fallavam em mandar vir o dr. Ramalho, ella oppunha-se, chorava, dizia que estava melhor, e que se elles o queriam chamar é porque a julgavam muito mal, em estado desesperado...
Sabia-se condemnada, e comprazia-se em ver o Vilhegas soffrer sósinho, na impossibilidade de a curar; e elle, vaidoso, preferia tambem ser o unico a tratá-la para assim ganhar o terreno que sentia esboroar-se-lhe sob os pés. Queria illudir-se, não vendo que a noiva tinha na face, quasi cadaverica, um sorriso torturado de quem tudo comprehendia; e morria vingada porque a sua morte era o castigo d’elle. Á Candida sabia bem que o não deixava; conhecia-o agora ambicioso e vulgar tal qual era, incapaz de se sacrificar por uma mulher ou por um interesse que não fosse exclusivamente seu.
Morria, a pobre, mais por ter visto morrer o seu ideal do que pela doença que lhe consumia o corpo.
Não lhes dizia nada, sentindo um mortal prazer em vê-los estorcer-se na incerteza e no pavor. Crueldade verdadeiramente humana e bem desculpavel a quem soffrera esse despedaçar de illusões em que corpo e alma se lhe caem esphacelados.
Tinha dias d’uma passividade dolorosa em que era impossivel, mesmo á propria mãe, arrancar-lhe uma palavra ou um gemido; outros em que fallava e ria, mas de tal maneira confrangida e amarga, que antes a preferiam nos dias de maior tristeza.
Tudo n’ella se transformára ou modificára. O proprio affecto pela mãe, que era d’antes mais respeitoso do que carinhoso, tornára-se n’um grande amôr apaixonado de quem se refugia, mortalmente ferido, no logar em que a acolhida é mais amoravel e certa. Queria-a ao seu lado, sem fazer nada, toda embebida a olhá-la, enchia-a de caricias, e atormentava a com as palavras de mais desconsolador desânimo.
—«Oh mãesinha,—dizia lhe um dia—se não fosse o João, pedia-te, e ao papá tambem, para morrerem commigo. Querias?!...
—«Oh meu anjo, mas tu não hasde morrer. Para que pensas n’essas tolices? Não vês o que diz o Vilhegas? A tua doença tem muito de nervoso, hade passar, verás!...
—«Pois é, eu sei... mas dize: gostarias de morrer commigo?
—«Oh se gostava! Que maior felicidade pode haver para uma pobre mãe?!... Não deixar n’este mundo egoista e mau os filhos do seu coração, não os vêr partir levando-lhes a alma?!...
—«Pensas como eu, somos bem irmãs no sentir! Se tivesse filhos... Oh! se tivesse um filho!...—os olhos enchiam-se-lhe de lagrimas, com uma grande magua de virgem que sente que todo o seu ser se revolta vendo-se privada injustamente da mais alta, nobre e bella das alegrias femininas, o orgulho de ser mãe.—Olha, se eu tivesse um filho havia de amá-lo assim.
Ficava-se horas esquecidas deitada sobre os joelhos da mãe, não podendo sentir nem o barulho d’um relogio sem gritar que lhe espetavam alfinetes no cerebro. De dia para dia peorava e a irritabilidade nervosa augmentava a ponto de a pôr a cada instante em crises de soluços e lagrimas que lhe avermelhavam a bocca com o sangue que os pulmões não comportavam já.
Emygdio, desanimado scientificamente, queria conservar a todo o custo uma illudidora esperança; d’essa esperança sem base que está no intimo de todos os seres humanos, inferiores ou superiores, eternas crianças que somos, só fortes á custa de raciocinio e vontade consciente e educada.
Mas n’essa manhã desconsoladora de inverno, vira-a tão desmudada e cadaverica, que desanimára de todo. A correr se dirigira ao telegrapho para chamar o dr. Ramalho e para alli voltára logo e alli se conservava na espectativa do grande desastre.
Os paes encaravam-se espavoridos, sem manifestação de sentimento, porque a dôr quando assim forte é como anesthesico para o espirito que se concentra no ultimo reducto da esperança, no impossivel, no milagre...
A noite cahia com a lentidão pastosa das tardes de chuva, que se afogam em lama silenciosamente. Os criados, em bicos de pés, accendiam as luzes indispensaveis para o serviço, trocando phrases a meia voz em que a palavra morte se repetia já como um dobre de sinos, e soluços abafados se suffocavam. Por toda a casa pesava o mesmo silencio funebre que se presentia cheio de gritos prestes a explodir...
O Emygdio, junto da janella, olhava inconsciente a sombra rapida que crescia no jardim, as arvores encharcadas pingando no chão já empoçado, as hastes despidas de folhagem enlaçando n’uma alliança macabra aquellas que o inverno não pode desnudar nas suas furias loucas. Como era differente o aspecto do jardim, n’essa amorosa noite de outomno, a ultima em que estivera com a Candida, aquella em que a Pillar adoecêra!...
Do quarto da doente vinha um murmurio de vozes, que se differençavam. Todas as vezes que a da Pillar, um pouco rouca, já estortorosa, se ouvia, elle enterrava as unhas nas palmas das mãos, n’um desespero de vencido.
Ella soluçava n’esse momento, deitando os braços ao pescoço da mãe como se quizesse agarrar-se ainda á vida que lhe fugia:
—«Soffro, soffro muito!... Vão chamar o papá! Quero ver o João... Tenho medo, mãe, tenho medo!...
—«Medo de quê, filhinha? Estou eu aqui, não vês?...—respondia-lhe estrangulando os soluços a triste mãe.
—«Não sei!... Tenho medo de tudo!... Queria morrer sem ver chegar a morte!...
—«Não hasde morrer, meu anjo! Deus terá piedade de nós!...
Hallucinada, reerguendo-se da cama, respondeu arquejante:
—«Não lh’o peças, ouviste? Podia attender-te, e eu não quero viver, não quero!...
Vendo a angustia da mãe cahiu em si, e rouquejou um soluço de perdão.
—«A Candida?—inquiriu n’um cicio, d’ahi a momentos.
—«Está lá dentro. Tráta-la tão mal, que a pobre menina não se cança de chorar.
—«É da doença,... Trato mal todos, a ti tambem.
—«Não digas isso.
—«Trato, bem sei... Mas tudo vae mudar em breve... Serei tão bôa... Vae chamá-la, que venha, que pode vir... Não lhe farei mal...—Tão amarga ironia resumbravam estas palavras que mais pareciam o riso funebre d’uma caveira.
A Candida entrou sob a gelida impressão de quem entra como réo avergado á culpa, n’um tribunal em que a consciencia é juiz inilludivel e implacavel.
Presentia que o momento solemne das explicações chegára inappelavelmente e não podia avaliar o resultado final d’aquella entrevista que a podia atirar para a miseria mais desoladora, a dos incapazes para o trabalho.
A doente entreabriu os olhos, acenou á mãe e á Engracia para sahirem, e ficou só com a prima. Fixou-a em silencio, com os grandes olhos pasmados dos moribundos, vendo-a estorcer-se n’um supplicio sem ousar avançar nem recuar, querendo fugir á suggestão d’aquelle olhar que a condemnava mais do que a sentença d’um juiz.
—«Vem...—murmurou por fim a inferma.
Deu dois passos cambaleando e foi cahir de joelhos junto do leito onde a Pillar arquejava, levantando-se n’um esforço supremo de vontade, fincando o cotovello direito nas almofadas.
Vendo-a tão proxima de si, teve um instinctivo movimento de repulsa, mas, vencendo-se logo, poude agarrar-lhe o pulso com tudo quanto lhe restava de vida:
—«Mataste-me, lembra-te d’isto... Sei tudo!... Vi tudo!
N’um arranco tragico, gaguejava palavras entrecortadas, que nada diziam, nada do que ella queria talvez dizer. N’um esforço prodigioso de energia, empurrou a prima, sentou-se na cama, e estendeu os braços no vacuo; logo a seguir retezou-se toda, cahindo sobre a ruma d’almofadas que lhe tinham feito supportavel a cama.
O aspecto da pobresita era terrificante, olhos escancarados como se procurassem a luz que lhes fugia, a camisa desabotoada descobrindo as claviculas descarnadas, a bocca augmentada pela emaciação contrahida n’um rictus doloroso, e a pelle a que a luz da lamparina dava um tom azulado enrugada como velho pergaminho. Os braços descahiram-lhe ao longo do corpo e as pequenas mãos transparentes arrepanhavam a roupa...
A Candida levantou os olhos que baixára para fugir á obcessão d’aquelle olhar condemnatorio, e a impressão de horror foi tal que d’um salto se pôz á porta, clamando pelo Emygdio, que vira no quarto proximo.
—«Perdidos, perdidos—murmurou n’uma voz que o terror fazia trémula e soluçante como se um frio intenso a sacudisse.—Diz que a matámos, sabe tudo... vae dizer aos paes!...
O rapaz recuou tambem aterrorisado, até á porta, poz-se a considerar o pequeno volume que o corpo, que fôra uma tão harmonica conjugação de linhas graceis, reduzido á miseria d’um esqueleto sem fórma, fazia sob a cobertura.
Rodeada de luxo e mimos, cheia de esperança e de alegria, intelligente, boa, educada; um pequeno nada bastára para a matar—uma traição tão grosseira e vil, que n’esse instante duvidava até que a tivessem praticado...
Matára-a, bem certo que a matára, com o seu procedimento d’uma maldade e estupidez revoltante e com a covardia de não querer ver o mal quando talvez fosse ainda tempo de o remediar...
Tudo quanto na sua alma havia ainda de honesto estremecia de pavor e remorso; depois todos os seus sonhos de grandeza se evolavam n’uma debandada de desânimo: Tanto sacrificio pela Candida... se valia a pena! Olhou a, pareceu-lhe como nunca formosa, d’uma imponente formosura dramatica de Magdalena de Rubens, mas como nunca tambem a ideia de não a esposar se apresentou nitida no seu cerebro.
Foi ella quem primeiro readquiriu todo o seu sangue frio, abeirou-se da cama para tocar na mão que a prima conservava fóra do leito, na esperança talvez de a sentir enregelada pela morte, incapaz de se levantar para a apontar como traidora.
A moribunda, como se áquelle contacto fosse chamada á vida, abriu os olhos desmedidamente, que eram já como janellas rasgadas para o mysterio; conheceu os dois rostos lividos de medo que a fitavam, e sorriu, com um despreso tão fundo, tão vincado nas pregas d’essa ultima mascara de vida, que mais parecia petrificada.
Os dois recuaram espavoridos, apertando-se um contra o outro, procurando-se para se protegerem mutuamente d’esses olhos de moribunda que os fitavam, que os perseguiam como se quizessem levar para a terra a imagem dos assassinos, bem juntos no mesmo crime, bem apavorados e martyrisados por essa suprema vingança da morte.
Então, ao mesmo tempo que o corpo se lhe dobrava para traz e o queixo descahia já sem vida, soltou um gemido tão estortoroso, tão rouco e tão espantosamente exprobatorio, que a Candida fugiu a gritar, com a cabeça perdida, pondo em toda a casa o desespero que o respeito pela moribunda tinha contido até ahi.
O Emygdio foi cahir de joelhos junto da morta, e tentava fechar esses olhos que o endoideciam.
Mas as palpebras oppunham aos seus dedos trémulos uma resistencia fria de coisa morta. Carregava com força, brutalmente, com risco de estoirar as pupilas, mas quando levantava os dedos elles lá estavam envidraçados, n’um espanto tragico e vasio.
Era uma preoccupação independente da sua vontade, uma infantilidade quasi, parecia-lhe que se ficasse assim de olhos abertos toda a gente n’elles poderia ler o seu crime. Não ouvira tantas vezes contar, quando criança, que assim se vingavam as victimas dos seus algozes?!... E que extraordinaria vingança aquella! Conservar eternamente nas pupilas sem vida a imagem de quem lh’a tirára!...
Não era o medico, o homem de sciencia que alli estava, hesitante, enraivecido, todo em lagrimas; era um criminoso vulgar cheio de sustos e preconceitos.
V
O sol fôra inclemente em todo esse dia de julho.
Anoitecia, e, apezar d’isso, nem a mais leve viração se levantára consoladora a arrepiar, n’um trémulo de caricia, a folhagem das arvores, que tinham o banal aspecto de plantas de folha pintada a que o tempo e a poeira debotára a côr.
Na paysagem de serras e fraguedos, que o homem conseguiu cultivar e esplanar em sucalcos successivos, os restolhos punham manchas de oiro no verde sombrio de agreste vegetação; e o céo, d’um azul que o proprio calôr velára, tornára-se vermelho sanguineo, agora, que o sol desfallecia no poente.
Os jornaleiros recolhiam silenciosos aos casebres, sem riso ou cantiga que alliviasse penas, mortificados pela trabalheira rude das ceifas e malhas sob a rudeza d’um sol impiedoso. Nem as raparigas na fonte gargalhavam, como de costume, emquanto a agua, correndo muito lenta e diminuida, lhes enchia os cantaros de barro.
Só muito ao longe, pelas quebradas da serra, resoavam os chocalhos dos rebanhos indo para o pasto e a flauta do pastor a guiá-los até á madrugada,—que depois a calma aperta e os pobres animaes, de agoniados, nem podem comer. Mais longe ainda, o chiar rangente dos carros de bois, como um longo gemido angustioso... Dir-se-hia que todas as coisas soffriam do calor asphyxiante e cahiam n’uma invencivel preguiça de viver.
É pequeno o verão nas montanhas—alguns dias de julho e agosto, quando muito os primeiros de setembro—mas esses são pezados, infernalmente longos e ardentes, sem nenhuma compensação e consolo de leve aragem pelas tardinhas. Em casa abafa-se, não ha sombra que resista á subida do thermometro quando o mercurio chega á linha do Senegal, n’um escarneo a paizes temperados. Na rua, noite alta mesmo, não se sente nenhum allivio; da terra sóbe uma baforada quente de fornalha, que afflige.
Abafa-se... mas é moda ir-se em julho para lá, não obstante ser infinitamente mais agradavel um canto de praia—onde o mar põe levezas de ar salino e um frescôr de permanente banho de espumas, as gaivotas veem á babugem da agua gritar as sonoras alegrias das coisas simples e humanas, e os olhos navegam longe, com a amplidão suggestiva das azas e das velas.
E passam na cidade,—n’aquelle afadigamento de distracções e afazeres, que chegam a ser monotonos á força de repetidos—os que obedecem á moda por preguiça intellectual de pensar e querer, os dias criadores de primavera—quando os caminhos lá das serras se alcatifam de musgos velludosos, as arvores se cobrem de flôres e verduras tenras, e as nascentes correm mais abundantes e limpidas da rocha viva; quando as andorinhas se acasalam e toda a natureza canta o grande hymno magnifico da vida é que a montanha se torna acolhedora e falla ás almas, como uma bôa e amorosa mãe.
Mas... não está decretado pelo habito dos que dão a nota de elegancia em todos os actos da vida ainda os mais intimos e graves, e por isso a villa estava radiante com os seus hospedes de verão.
João de Mello atravessou melancholico e vagaroso o largo da Fonte e dirigiu-se á botica velha, onde o sr. Domingos José da Silva se debatia contra o calor e distillava suor em mangas de camisa, como se tivesse sobre as costas pezada armadura medieva. Soprava em bochechas de affrontado, limpava a cara ao tabaqueiro de ramagens, escancarava os braços como a arejálos, e cahia esfalfado n’uma cadeira para se levantar incontinente como se tivesse por assento um brazeiro inquisitorial em vez de innocente palhinha.
—«Oh meu querido sr. João de Mello—berrou descompassado, mal viu assomar á porta a figura melancholica do rapaz—quanto folgo, quanto folgo de o ver! Cuidámos que não queria nada _cô a gente_.
Abraçou-o expansivo e correu dentro a chamar o filho para accender as luzes. Estava radiante com a visita do feliz herdeiro de quinhentos contos, a melhor casa da comarca em dinheirinho de contado e bôas terras livres, sem fallar nos fóros que se recebiam sem conto pelo S. Miguel de cada anno. Era bôa, talvez mais extensa em propriedades, a casa do Visconde, mas a politica como as demandas e o jogo onde entram fazem largo rombo... Estas e outras considerações expunha elle á mana Joaquina, sentados á fresca, sob a parreira do quintal.
—«Muito bôas noites, sr. Domingos; eu venho...—tentou dizer o João.
—«Espere, espere que já o attendo. Deixe-me cá chamar a mana _qu’ella_ está morta por o ver! _Inda honte_ tinhamos fallado, ora a graça! Ó _Jêquina_!...—gritou para cima, para o primeiro andar, e voltou logo a reprehender o filho porque a torcida mal cortada enegrecia a manga do candieiro de latão.
—«Nós cá sabiamos que chegou na segunda feira. Não se pode fazer moeda falsa, tudo se cá sabe...—Estrondosa gargalhada completava a phrase. E depois, sem interrupção—disseram que ninguem lhe punha a vista em cima, _qu’anda_ assim como amalucado, macambuzio... Então que vem a ser, _soidades, soidades_, hein?!...
—«Olha o sr. Joãosinho, o meu _Janequinho_!—entrou dizendo e arrastando a sua perna trôpega a sr.ᵃ Joaquina Ritta—uma sua criada, para os servir e louvar a Deus Nosso Senhor, continuava ella a dizer para se apresentar.
—«Vê lá que _home_ ahi tens, a fazer a gente velha!—dizia emphatico o boticario.
—«Pois está um _homezarrão_, está! Quem o conheceu e quem o vê! Faz uma pessôa velha, nem já se lembra da gente, nem das tardes que passava a cavallar no quintal com os rapazes?! Sempre era um diabrete! Mais traquinas inda não vi! A mana é que não, sempre foi um _peringalhinho_ que não prestava para nada. O que ella queria era sentar-se ao pé de mim a costurar ou a ler aquelle meu livro da _Felor de Maria_, do _Renhónhó_ e da _Cúrúja_. Não se lembra, ás vezes ao serão ao pé da brazeira? Um botãosinho d’aquelles tinha uma pausa na leitura _caté_ a gente chorava com as fallas do principe _Rodolpho_.
Os _Mysterios de Paris_, com suas gravuras baratas, e a cartilha do _Mestre Ignacio_ eram toda a bibliotheca da sr.ᵃ Joaquina Ritta. A muita leitura de romances e casos sentimentaes, parece que embota o coração, pois a bôa mulher possuia sómente aquella enredada historia que relia amiudadas vezes com a alma confrangida e os olhos distillando amargo pranto pela desgraçada Flor de Maria. Alli havia conhecimentos e tirava maximas para todos os casos da vida.
Já disse, não sei quem, que um só livro bem meditado é thezoiro inexgotavel.
—«Lembro me de tudo, lembro-me!... E com saudades, sr.ᵃ Joaquina, que só eu sei!... e os olhos de João velaram se de lagrimas.
—«Não falles n’essas coisas—reprehendeu o Domingos. Isto de mulheres estão sempre a dar _co’a_ lingua nos dentes.
—«Tens razão, tens, mano. É que sempre foi uma _disgracia_!... Nem me vai d’aqui, até se me dá um nó na _greganta_ quando penso n’aquella menina!... Mas tem razão, não fallêmos em coisas tristes. Ora diga-me, menino João, a mãesinha como vae, bôa, sim?
—«Vae indo, bôa não.
—«_Dês_ que la fui dar pesames que não a tornei a vêr. Nem tornou a sahir, aquillo teve um sentimento! _Tamem_, não houve na terra grande nem pequeno que não chorasse.
—«Lá tornas á mesma! As mulheres sempre são!...
—«É verdade, tem razão, esta minha cabeça! Olhe cá, menino, então gosta de lá estar _pr’os estrangeiros_?
—«Muito. São melhores terras do que as nossas, e a gente é mais bem educada. Olhe que não ha por lá muito quem não saiba ler nem escrever, como cá.
—«O quê? Mesmo os _travalhadores_ de enxada e as criadas de servir?
—«Mesmo esses. As criadas então, não ha nenhuma que não leia e escreva menos mal.
—«Ai, não sei que me lembra. Criadas tão _doutoras_ como as amas... Não _hadem_ prestar, não ha nada como as nossas terrinhas e cá a nossa gente.
—«Calla-te ahi! Aquillo nem é para _acomparar_! As mulheres não percebem nada cá no mundo. Em as tirando do canto da casa já nada lhes presta—sentenciou o boticario.
João, no meio d’aquelle turbilhão de palavras que lhe cahiam em cima como graniso, conseguiu dizer:
—«Isto hoje não é visita.
—«Ai não?! Ainda o diz, olha que ingrato!
—«Não era hoje, mas hade ser breve, sr.ᵃ Joaquina. Heide ir lá cima para o quintal e conversaremos como d’antes.
—«Ah! Cuidei que nos esquecia...
—«Não, eu vinha aqui á pharmacia para o sr. Domingos me fazer duas hostias de antipyrina?
—«Anti, anti, quê?!...—abria a bocca e os olhos de espanto, o boticario.
—«Antipyrina. Não tem cá? É remedio para a dôr de cabeça; não tem, não conhece?—volveu João impacientado.