Ambições: Romance

Part 2

Chapter 23,959 wordsPublic domain

Nada parecida com a Pillar, que fôra sempre d’uma graciosidade fina de intellectual; alta apenas para ser elegante; magra, sem o aspecto quebradiço dos doentes; d’uma pallidez moreno-perola: era em tudo o contraste da prima.

Criadas juntas, mas desemelhantes, tanto physica como moralmente, tinham-se feito mulheres e seguiam os seus gostos e inclinações, que os paes da Pillar não contrariavam na filha, que adoravam, e menos ainda na sobrinha orphã e pobre, que a bondade d’elles agasalhára e criára como egual aos seus.

Antonio de Mello, o pae da Pillar, fôra uma criança ainda para o Brazil, chamado por um tio que, como elle, partira havia muitos annos, deixando com lagrimas d’amarga saudade os amigos e companheiros de jogos e romarias, o seu rebanho, a terra amada, que era a sua patria.

Voltára annos depois—quando a morte do tio lhe déra liberdade para liquidar a fortuna—um pouco abatido pela nostalgia, mas ainda vigoroso de corpo e são d’alma, como fôra. Um bom coração de rapaz que adormecêra na trabalheira mercantil, acordando já quando os outros, os que passam a mocidade em folgança, se sentem sem energia para amar sã e nobremente.

Como viera bastante rico e tinha uma finura natural, de temperamento delicado, na maneira de apresentar-se, conseguiu captar as boas graças d’um velho fidalgo da terra, que tinha ao tempo uma filha para casar. Tinha a filha, o velho original, e uma pequena mas solida fortuna ajuizadamente administrada, e uma e outra, as paixões dos ultimos annos, elle queria entregar em mãos de homem capaz de asestimar.

—«Emquanto a fidalguia—dizia a quem fallava na humildade do nascimento do Antonio de Mello—era coisa de que nunca lográra comer...

Era bonita a joven Josephina, bonita e sadia de corpo e d’alma, como quem fôra criada nas serras e com a natureza aprendêra a bondade natural e humana dos fortes.

Mal que a viu alegre e moça, como arbustosinho agreste que em seu tempo proprio se reveste de perfumadas flores, sem complicações de tracto, nem agasalhos de estufa, amou a Antonio de Mello apaixonadamente. Doía-lhe no entanto recebê-la acompanhada d’um valioso dote, elle que a amava com a simplicidade primitiva d’uma alma e d’um corpo que se dão em troca de outro corpo e de outra alma por egual amante.

O homem que sahira do povo mais humilde, que arrastára uma vida trabalhosa luctando pela fortuna, encontrava ainda, no seu coração de trinta e oito annos, um crepitar de paixão e um desinteresse verdadeiramente juvenis.

Confessára-lho; e tão simples, tão honestamente, que a rapariga o ficára amando toda a vida.

Foram felizes como o podem ser dois espiritos que se ligam sem se absorver, que se estimam e comprehendem, desculpando-se mutuamente.

Com a felicidade inesperada do coração, Antonio de Mello tornára-se alegre, quasi criança; era a phantasia alada que doira a existencia e que um bom casal não pode dispensar, sob pena de cahir na realidade banal que mata o amôr.

Josephina, a boa e resignada alma, com a sua maneira serena e pacificante de encarar a vida, trazia áquella felicidade um não sei quê de intimamente religioso, que infundia respeito ainda aos mais familiares.

D’essa união tão completa nasceram dois filhos. Primeiro, o João, que fôra sempre uma bella e forte criança de boas côres e moderada phantasia, como a mãe. Alegre, prompto a defender os mais fracos, o seu espirito não se perdia nas nebulosidades dos sonhos, que atormentam as crianças precocemente, doentiamente emotivas.

Oito annos depois, quando o pequeno já bocejava sobre os livros das primeiras letras, nasceu a Pillar, de uma finura, de uma graça de estatueta. O irmãosito adorava-a e ria perdidamente, quando a via nos braços da mãe procurando o seio como um animalsinho voraz, e de farta deixá-lo depois e adormecer como um anjo. Mal entrava em casa, lá ia elle, pé ante pé, se a criança estava a dormir no bercinho, afogada em rendas e cambraias, contemplá-la com um affecto que mais parecia d’uma pequena mamã. E já quando maiorsinha, João servia-lhe de protector e amigo, de promotor de todos os festejos e brincadeiras que distrahissem a irmã. E assim, ella criou-se sob o affecto carinhoso dos que a rodeavam, como avesita fragil que um nada pode matar.

Talvez mesmo por isso, desde pequenina que os nervos lhe vibravam intensamente todas as alegrias e tristezas da alma. Intelligente e com uma grande vivacidade, a imaginação, como a do pae, viajava sempre pelos caprichosos trilhos do ideal. Não sendo positivamente bella, as suas feições eram tão finamente desenhadas, que o perfil esbatido em sombra sob a cabelleira revolta fazia-lhe uma verdadeira cabeça de modelo. Depois, quando fallava e ria, os olhos castanhos irradiavam um tal fulgor de intelligencia que, incondicionalmente, a diziam bonita.

Um dia, quando ella era ainda muito criança, o pae levára-a, e ao João, a uma quinta arredada onde deixava viver um irmão, que viera encontrar na miseria, apezar do muito que do Brazil lhe mandára. Um mandrião, um vicioso, que para alli ia morrendo aos encontrões da mulher e dos filhos que o não estimavam. Só o irmão não se esquecia do desgraçado, visitando-o amiúdadamente e dando-lhe tudo que elle necessitava.

Quando n’essa tarde chegaram á quinta encontraram a familia em gritaria confusa, porque o homem, n’um phrenesi de bebedo, cahira do patamar da escada de pedra e o sangue sahia-lhe ás golphadas pela bocca.

Assim morreu, sem dar mais accordo de si, apezar de todos os remedios ordenados pelo medico, que o irmão mandára buscar immediatamente.

A Pillar sentiu uma impressão tão forte, que os seus frageis nervos de precoce e feminil sentir conservaram eternamente a lembrança de aquella espantosa scena. Chorou muito, abraçada á primita, a Candida, que era a mais nova dos filhos do morto, mas apezar d’isso tres annos mais velha do que ella.

D’uma friesa quasi hostil, a pequena torcia na bocca a ponta do bibe de riscado, contemplando, com admiração inconsciente de pequena selvagem, o vestido bordado, d’alvura deslumbrante, que a Pillar trazia com a indifferença do habito.

Não querendo prolongar o espectaculo doloroso, que o acaso dera ás crianças, Antonio de Mello quiz mandá-las na carruagem, emquanto elle ficava até ao fim, mas a filha, muito enthusiasta e affectiva, é que já não quiz partir sem levar a prima.

E foi desde essa hora amargurada que as duas ficaram inseparaveis—mais do que duas amigas, irmãs.

Os sobrinhos, empregados; a cunhada e uma filha mais velha partiram para a terra, deixando-lhe naturalmente, sem quasi o agradecer, o cuidado da pequena Candida, que era um estorvo para todos, sendo na verdade «_formosa de mais para pobre_», como dizia a mãe.

Ficaram juntas, dormindo no mesmo quarto, tendo os mesmos professores e criados, os mesmos brinquedos e alegrias.

Diziam-nas as melhores amigas, apezar da profunda desemelhança dos caracteres; mas se da parte da Pillar havia sinceridade no affecto, o mesmo não succedia á Candida, que invejava a prima por tudo em que lhe era inferior.

A vaidade enchera-lhe a alma d’ambições e ruins invejas e a belleza physica não correspondia ao desenvolvimento das faculdades intellectuaes.

D’uma passividade infermiça para tudo quanto não fosse o seu prazer, desde criança que o tempo que a prima levava a lêr e a estudar o passava ella a contemplar-se ao espelho, a ataviar-se, ou a entregar-se a pensamentos de que ninguem podéra nunca conhecer o fito.

Orgulhosa, d’uma susceptibilidade irritante, filha d’esse mesmo orgulho que a dilacerava, supportava mal a posição que a sorte lhe destinára.

Se os primos e os tios a tratavam com a confiança que dá a amizade, ella lia nas suas maneiras sómente o dó. Soffria porque os criados, que adoravam os filhos dos patrões, tinham sorrisos e ápartes de despreso pelos seus modos de rainha de emprestimo; soffria porque a Pillar tinha a graça e o espirito, que traz a intelligencia cultivada; mas soffria principalmente e desesperadoramente pela falta de fortuna que a punha n’aquella dependencia.

E calava-se, comprimindo sob a frialdade do sorriso um fundo de entranhadas cobiças. Incapaz de procurar a independencia pelo trabalho, incapaz mesmo de considerá-lo uma coisa possivel para naturezas excepcionaes como a si mesma se considerava, ia continuando a receber tudo d’aquelles que no seu intimo odiava, por isso mesmo que tudo lhes devia.

Não tendo sido nunca uma criança ingenua, porque o convivio d’uma familia em que o pae era bebedo e a mãe e os irmãos mal educados lhe tinha feito muito cedo conhecer da vida tudo quanto ella tem de inferior e baixo; foi muito precoce no desejo de agradar e no convencimento de que só um marido rico lhe daria a superioridade que ambicionava sobre todas, a do luxo e dos faceis triumphos que o dinheiro traz a uma mulher bella.

Por isso, ainda de vestidos curtos e tranças cahidas, começára a olhar para o João, já então um rapaz que entrava na vida com todo o enthusiasmo dos vinte annos.

Mas elle, ou porque realmente não gostasse da prima, ou porque a achasse criança, ou talvez por ter a cabeça cheia d’outros sonhos, o que é certo é que a tratava com mais indiferença do que affecto.

A Candida soffria com isso, tanto mais que os rapazes ricos não abundavam por alli e aos pobres não queria dar nem sequer a sombra d’uma esperança; consentia-lhes apenas que a admirassem, de longe...

A Pillar, é que parecia querer fazer-lhe esquecer, á força de bondades e delicadezas, a desegualdade das suas fortunas. Enchia a prima de presentes, queria-a sempre egualmente bem vestida, e muitas vezes puzera de parte joias de valor para não maguar a amiga. E dizia-lhe ingenuamente, não vendo que irritava uma ferida que o despeito fizera:—que seria o seu maior prazer vê-la casada com o irmão.

—«Porque razão não gostam vocês um do outro? Seria tão bom sermos irmãs a valer!...

—«Não é preciso, querida! Pois não somos nós irmãs pela amizade?...—respondia-lhe a Candida sorridente e beijando-a.

Como Antonio de Mello era muito bom para a familia, os parentes, ainda os mais arredados, vinham sollicitar-lhe os maiores e mais abusivos favores. Foi assim que o pequeno Emygdio, companheiro de João em instrucção primaria, se valêra d’um affastado parentesco para pedir o seu auxilio e continuar a estudar.

Conhecendo-lhe sagacidade e uma grande e tenaz vontade de subir, sympathisou com o rapaz e mandou-o para o collegio onde o filho fazia os preparatorios na mais alegre despreoccupações.

Quando vinham a férias, João apresentava o companheiro como modelo dos estudantes, não lhe regateando elogios, apesar de lhe não seguir o exemplo.

Macambuzio como um aldeão espantado, humilde, mal vestido, não despertava senão despreso á Candida. Emquanto a prima o tratava com a affabilidade que merece o companheiro e amigo d’um irmão, ella olhava-o desdenhosa, com o despreso com que tratava os inferiores em posição, vingando-se n’elles da sua propria inferioridade.

Mas o Emygdio não ligava importancia a tal coisa; tinha, como ella, um só desejo, um unico horizonte se abria á sua pesada imaginativa de ambicioso vulgar—_subir_, ser _alguem_. Para isso estudava, que não para saber. Agarrara-se aos livros com a persistencia estreita e contumaz d’um homem que por aquelle caminho intentou trepar para o futuro de gosos e de vaidades satisfeitas de que a pobresa e a humildade de posição o tinham affastado até ahi. Com os olhos fitos na futura grandeza pouco se lhe dava com as humilhações da hora presente.

Assim, que lhe importava o despreso da Candida, tão rica como elle? O que o tentava, o que o fazia rojar-se no pó para um dia se poder erguer triumphante, era o dote da Pillar.

Teimosamente, com a paciencia d’um colleccionador, sem descançar nem se desviar do seu fim, começára, desde os primeiros annos de intimidade com João, um cerco muito habil á meiga criatura que lhe levaria a posição e a fortuna almejadas.

Ella que primeiro o estimára como a um bom rapaz, companheiro do irmão e a quem este fazia os mais rasgados elogios, que o admirára depois pela fama de talento que a applicação persistente ás aulas lhe trouxe, n’um paiz em que os rapazes geralmente pouca energia de vontade dispensam ao estudo, começára por fim a enlear-se na rede invisivel que elle lhe tecêra e ia armando, com a sua calculada timidez de caracter probo, mal encobrindo um irresistivel affecto, que a ingenua acreditou muito puro.

Amou-o então, sinceramente, cegamente, com tudo quanto na sua alma havia de enthusiastico e nobre.

Era tão feliz na embriaguez d’aquelle primeiro amôr, que desabrochava n’um esbanjamento de força e perfume como na primavera as flores nascem e crescem espontaneamente, que não soube occultar de ninguem o absorvente anseio em que toda a sua pessoa se prendia.

Os paes, sabedores do desejo da filha, annuiram logo ao casamento—para quando o Vilhegas acabasse a formatura em medicina e ella completasse os vinte e um annos.

Porque não? Se a filha o amava tanto, e elle parecia tão bom, tão sincero, tão intelligente; porque razão se opporiam?

—Ser pobre não era motivo para recusas, pois que a pequena tinha, graças a Deus, o bastante para os dois...—dizia o pae satisfeito por ver na escolha da filha uma sinceridade e desinteresse que toda lhe transmittira com o seu sangue salubre de generoso plebeu.

De maneira que a Pillar passára do desejo á realidade, n’um deslumbramento de sonho, que a tornava a mais ditosa das mulheres.

A alegria radiosa d’um grande amôr que se julga correspondido e não tem preoccupação que lhe empane o fulgor, fazia d’ella a noiva mais adoravel que um homem de espirito e de coração poderia desejar. O Emygdio mostrava-se d’uma correcção e d’um enthusiasmo, que talvez fossem sinceros, no seu papel de noivo feliz e enamorado.

Porque, se era verdade que intimamente não sentia a paixão que aparentava, tambem lhe não era indifferente a rapariga, que alem de rica e bem educada tinha a intelligencia e a graça que conveem á mulher d’um grande politico, que ambicionava vir a ser.

Não sentia por ella impetos de paixão, como ainda os não sentira por outra qualquer. A ambição de subir, aspiração exclusivista e absorvente, parecia ter-lhe embotado toda a affectividade do seu ser.

III

«Porquê?—perguntára o Emygdio. Porque razão os despresava a Pillar, ella que os tinha amado tão ardentemente, que fundira a amizade pela prima e o amôr pelo noivo em tão intima communhão, que não sabia bem como destrinçar qual occupava maior e melhor logar em sua alma?!...

Presentia que os seus sonhos de grandeza desabavam, que toda a sua ambição de subir baqueava ante aquelle estupido amôr que o enlouquecêra. Amar a Candida—que loucura!... Como fôra que isso se lhe mettêra em cabeça? Como se deixára vencer pelo capricho d’uma rapariga leviana, enlear ingenuamente n’uma intriga perigosa, quando se julgava superior a bagatellas de sentimento?!...

—«Oh que estupido—que estupido e que fraco!—dizia a meia voz, levando os punhos á fronte na ansia de arrancar do cerebro aquella ideia mortificante.

Dava-se uma situação d’estas quando já se via formado, quando apenas esperava que a noiva completasse os vinte e um annos para encetar a vida de prazeres que de criança vinha ambicionando com tão feroz egoismo! Quando o triumpho lhe estava assegurado é que esbarrára n’esse escolho imprevisto—a paixão por uma rapariga pobre.

Que ironia da sorte! E não poder fugir ao imperio que a belleza material da Candida exercia despoticamente sobre o seu organismo, mortificava-o, por deprimente para o seu orgulho de forte. Elle, que unicamente amára o seu sonho de grandeza, vergára todo inteiro ao primeiro olhar em que essa soberba mulher o envolvêra.

Soffria no cachoar de paixões, em que se sentia tão outro; escravo d’um sentimento imprevisto, quem fôra sempre tão senhor dos seus desejos, quem soubera guiar os seus mais insignificantes actos com a pericia e sangue frio d’um habil _sportman_ guiando os cavallos de fina raça por entre o turbilhão da multidão que se acotovella. Parecia-lhe uma illusão da sua cabeça enfebrecida; nem comprehendia como isso lhe viera só agora, tendo conhecido a Candida desde pequena.

Não comprehendia, mas o problema era de facil solução. Criados juntos, era verdade, mas affastados moralmente como se os separassem milhares de leguas, tinham-se visto sem se vêr, empolgados um e outro pelos seus aureos devaneios.

Quando o João partira para a Belgica, n’um subito desejo de sérios estudos, sem ter manifestado á prima a mais leve sombra sequer de amoroso interesse, teve ella uma decepção fundissima. O seu orgulho de mulher bonita fê-la sentir, como um insulto, a indifferença d’um homem que tinha desejado conquistar. Julgou-se victima de injustificavel perseguição do destino e o seu fundo invejoso de egoista azedou se mais ainda.

Despresára o Emygdio, achára o vulgar e desageitado; quando a prima lhe confessára o seu amôr, tivera mesmo um mordente risinho de troça, mas agora que o via com uma posição bastante para a tirar da dependencia que a torturava, embora para viver modestamente, começára a notar que não era de todo feio aquelle solido rapaz de hombros largos, cabeça loira e rosto imberbe e rosado, agora, desde que ganhava dinheiro, sempre enfiado em collarinhos da ultima moda e gravatas espectaculosas. Convenceu-se de que o casamento da Pillar seria mais uma injustiça revoltante. Era um medico, afinal! Não teria sido melhor ter pensado antes n’elle do que no João?...

Desde que esta ideia se lhe fixára na cabeça, foi d’uma provocante e tenaz amabilidade, dando-se um ar quasi ingenuo de fraternal carinho, a que o rapaz não soube resistir. Conhecia pouco a vida para se poder esquivar ao dominio d’uma formosa mulher que ia ao seu encontro, o requestava quasi.

Conquistado, julgou-se conquistador—o que o envaideceu e lhe fez perder o sangue frio.

—«Talvez fosse ella quem lh’o dissesse—pensava o rapaz passeando inquieto pelo quarto onde se encontrára com a Candida.

Mas não fôra. Não estimava por certo a prima, odiava a mais do que a estimava, mas tinha habilidade bastante para não comprometter o presente sem ter a certeza do futuro. Ora a certeza de que o Emygdio se resolvesse a desmanchar o auspicioso casamento que tinha contractado, para a tomar como esposa, não a tinha; porque, se em conversas de amôr o achava de uma eloquencia de que até o julgára incapaz, logo que se tratasse de interesses e de futuro encontrava-o d’uma frialdade e d’um mutismo muito para desconfiar. Se não era d’uma intelligencia excepcional, era bastante fina para comprehender até onde chegava o dominio exercido sobre os seus adoradores—o que de resto não é prova de talento, antes de preoccupação mesquinha de quem se occupa sómente com a sua pessoa e funda as mais caras esperanças no agrado dos outros.

Não fôra pois ella, mas um simples acaso que tudo revelára á Pillar.

Uma noite já fria do ultimo outomno, acordára altas horas, muito contra o costume dos seus bons somnos de saudavel e feliz. Voltara-se na cama, aconchegando a roupa, enterrando mais a cabeça na almofada macia, mas uma pallida claridade que vinha do quarto de vestir sobresaltou-a pelo inesperado. Abriu muito os olhos para se convencer de que não sonhava, sentou-se na cama e chamou a prima. Como lhe não respondesse, chamou mais alto, n’uma voz entrecortada de sobresalto, e só ouviu o bater do proprio coração de encontro ás paredes do peito.

Não sabendo como explicar somno tão pesado em quem de ordinario pouco dormia, saltou ao chão e foi á cama acordá-la. A cama estava vazia.

Não poderia explicar o que pensou, porque ha momentos em que o instincto, de ordinario emudecido pelas conveniencias, pela educação e pelo sentimento, se insurge, apodera-se de todo o nosso ser animal, impelle-nos com a força bruta da natureza que se vinga, para a frente, para a verdade, para o abysmo muitas vezes...

Correu ao quarto de vestir e viu que a claridade que tanto a intrigára era a do luar que entrava a jorros por essa mesma porta de vidros a que o Emygdio ora se encostava, e era sahida para o jardim.

Um ligeiro sussurrar de vozes veio morrer ao seu ouvido sobreexcitado.

Estaria a Candida no jardim? E com quem?

Perguntava a si mesma, sem poder adivinhar a resposta... Talvez que n’esse rapido instante de incerteza ella presentisse o derruir de todos os sonhos de ventura, architectados com tão amoroso enthusiasmo, talvez...

Abriu a porta de vidros mal encostada, com a cautella, o susto de quem pratica o primeiro crime, e, de subito, encostou-se á hombreira para não cahir, e alli ficou por instantes, trémula, tiritante, como assombrada.

Viu-os de costas, affastarem-se enlaçados; ouviu a voz, que sempre aos seus ouvidos tinha chegado como symbolo do amôr e da verdade, murmurar blandicias aos ouvidos de outra mulher; toda a vida se lhe concentrou nos olhos e nos ouvidos, que n’esse esforço de vontade adquiriram uma acuidade suprema.

Conhecia-os bem; a imagem d’elle, principalmente, estava gravada tão funda na sua retina de apaixonada, que o reconheceria logo, ainda mesmo que o som das suas vozes não lhe viesse bater no ouvido como enxadadas de coveiro que lhe estivesse abrindo a cova sob os olhos apavorados.

A decepção foi d’uma surpresa tão triturante, tão esmagadora, que para alli se ficou como empedrada, encostando-se á parede branca de cal, como ella immovel e livida. Envolta em luar, a cabeça descahida, a bocca entreaberta n’um estorcer de angustioso espasmo, apenas vestida pela camisa fluctuante que só lhe descobria os pés nús, as mãos finas e a cabeça que a surpresa desvairava—era a verdadeira encarnação do desespero.

Voltavam; já as vozes se aproximavam, n’um murmurio que se confundia com o tremor das folhas emurchecidas que se desprendiam das arvores que o outomno amarellecêra e com o cahir da agua nos tanques.

A Pillar estremeceu; voltar para traz, esconder-se, fugir, foi o pensamento que a assaltou, logo seguido de outro, de muitos outros, d’um tumultuar de desejos desencontrados, que a deixavam indecisa, esbogalhando os olhos para a mancha empastada das arvores onde os dois se escondiam.

A noite muito clara, n’uma cheia de luar, estava fria, d’essa algidez penetrante que dá a proximidade das montanhas coroadas de neve.

Um estremecimento prolongado e doloroso lhe sacudiu o corpo. O sangue batia-lhe na cabeça e punha-lhe nos ouvidos uma zoeira de atordoamento, cascalhavam os dentes uns contra os outros, todo o seu fragil organismo se debatia n’uma crise de nervos assustadora.

Teve medo de morrer alli, e sob o esforço, pela pressão violenta da propria dôr, conseguiu entrar e fechar a porta como a encontrára, e depois, aos solavancos, desequilibrando-se, esbarrando nos moveis, chegou á cama onde se metteu mais por habito do que pelo claro juizo do que fazia.

Quando a Candida recolheu já não estava em estado de a sentir; e ella, nada ouvindo de anormal, julgou que mais uma vez a aventura passaria despercebida.

De manhã a febre era intensa e o delirio hallucinado. O dr. Ramalho e o Vilhegas, chamados a pressa, olharam se preoccupados, n’uma clara demonstração de desânimo. Ambos os pulmões estavam atacados e a pleuresia manifestava-se com a violencia d’aquellas de que só um prodigio póde salvar a doente.

Salvaram-na com effeito, á força de cuidados e desvelos; como que a arrancaram á morte, n’uma lucta braço a braço travada.

O Vilhegas foi o mais cuidadoso enfermeiro, não se deitando, não comendo senão de pé ao canto d’uma meza, alli mesmo no quarto de vestir.

A Candida, presentindo que a doença era mortal, teve um momento de orgulhoso triumpho, mas calára-se, fingindo esquecer o Emygdio, affectando um enorme interesse pela doente. Não queria escutar os tios que a mandavam repousar e despresava os conselhos que a velha Engracia lhe dava, n’um modo arreliento de desconfiança.

—«Não, minha tia, não me obrigue a desobedecer-lhe—porque eu não deixo a Pillar, dizia, abraçando a pobre mãe lavada em lagrimas de reconhecimento.