Ambições: Romance

Part 18

Chapter 183,960 wordsPublic domain

Antonio de Mello e Josephina sentiam-se remoçar aguardando o primeiro neto, como outrora tinham esperado com alvoroço a vinda do primeiro filho. A velha Engracia descrevia ás amigas o enxoval que esperava o seu menino e não se continha sem mostrar cada peça de roupa que das artisticas mãos da mãe e da viscondessa sahia, como modelo de outros mais, que a Aurora Cunha fazia executar no asylo.

Maria Helena contava as horas e os dias e em cada noite que se despedia não deixava de recommendar—que havendo qualquer coisa a fossem prevenir.

Uma madrugada, emfim, Isabella queixou-se mais. João, nervoso, correra ao quarto da mãe, que lhe dizia em modo de consolação:—coitadinha, soffria, soffria muito, mas então!? Tivesse paciencia, quem lhes dera que soffresse muito mais, que era para se despachar depressa.

Pobre João! elle queria sorrir da prática phylosophia da mãe, queria convencer-se da justeza das suas observações, mas custava-lhe tanto ver Bella muito pallida, silenciosa, encostando-se aos moveis a cada assalto das dôres, arrumando o enxoval na cestinha forrada de seda azul—pois se seria um rapaz, todos sabiam!...—sorrindo-lhe com resignação e coragem, entre dois gemidos abafados.

Elle mexia em tudo, arrumava tambem, pensava em muitas coisas, excitado, atordoando-se um pouco, dando ordens, e pretendendo ser o que tinha mais sangue frio para pensar em todas as coisas; para o provar repetia mil vezes que fossem chamar a _comadre_, e que não se esquecessem tambem de ir ao palacio prevenir Maria Helena, e a casa do dr. Ramalho, isto já quando todos estavam em casa e rodeavam a doente.

Emquanto ao tio, lembrou Bella que o não prevenissem e encarregassem o abbade de o levar para longe n’alguma visita ás propriedades que adquirira e que andava melhorando.

Soffreu ella muito todo o dia; João já desanimava, perdia a energia, pareciam-lhe eternas aquellas horas, e, disfarçadamente, a cada gemido de Bella, limpava uma lagrima silenciosa que lhe vinha aos olhos.

Só mais tarde já quando no horizonte aclarava o céo de uma rosea aurora primaveril, é que; n’uma convulsão de dôres e de gritos, a criança nasceu.

Josephina chorava de alegria recebendo o embrulho precioso que a parteira lhe pusera nos braços, indo palavrosa e desembaraçada tratar da mãe, que já sorridente e feliz perguntava—se era rapaz.

Todos fallavam a um tempo, em voz baixa, havia risos felizes olhando João, que não queria crêr que fosse um menino—nem já lhe importava, nem mesmo que morresse, o que queria era a mãe com vida, a mulher que amava com todos os transportes de amante, que o sentimento paternal não podia extinguir e tão sómente completar.

—Viviam ambos, felizmente, e que engraçado que era o gorducho, e tão feiosinho com a carita inchada de recemnascido, mas tão engraçado aos seus olhos, e tão amado tambem!

O restabelecimento foi rapido, e com a saude voltou a Bella a sua energia e bom humor. A criancita crescia a olhos vistos, querido e amimado por todos, só lhe chegando aos braços na hora marcada para mamar. Mas então o seu orgulho de mãe satisfazia-se bem com a alegria animal do pequenino glotão, que era bem seu, duas vezes seu, pelo sangue rubro de que o alimentara em seu seio e pelo branco leite correndo dos seus peitos como fonte de vida, de alegria e de amôr.

No meio da satisfação geral sómente D. Genoveva soffria da doença incuravel que trazia a filha em sobresalto e da ferida que o seu orgulho sentira com o escandalo dado pelo visconde, aggravado a seus olhos pela noticia que lera nos jornaes de que um grande leilão liquidaria em breve o palacio de Lisboa recheado de magnificencia e preciosidades, um verdadeiro museu de arte e mobiliario, como se não reuniria tão cedo outro na capital.

Sentia-se ferida na sua vaidade vendo o nome do genro, que era o seu proprio como tia, lançado assim á curiosidade publica, baralhado na confusão da sociedade como o de qualquer bricabraquista interesseiro ou pretencioso. Achava que a viscondessa se devia oppôr a tal venda, e era baldado o esforço do velho abbade para lhe fazer comprehender as vantagens que da presente situação advinham á filha, senhora emfim de viver ao seu gosto na serenidade de uma existencia sem obrigações, que intimamente despresava.

Muito agarrada aos velhos codigos nobiliarchicos, á boa senhora era custosa a conformação com essa maneira simples de ver as coisas, que se lhe antolhava por demais despresadora das leis da sociedade a que pertenciam.

A seu ver não devia Maria Helena ter sahido de sua casa, do seu mundo, não deveria ter despresado os parentes e amigos que em Lisboa lhe fariam uma côrte, de lamentos, anathematisando o procedimento do Visconde.

Custava-lhe realmente a comprehender que se preferisse a solidão d’aquelle grande palacio ao convivio das relações mundanas. Não attingia o motivo que levara a filha a, mesmo alli, cortar relações com toda a gente que mais ou menos a distrahiriam. Dir-se-hia que era ella a criminosa, ella a que tinha motivos para se envergonhar e fugir.

Depois essa maneira de fazer bem educando os filhos do povo para serem tanto ou mais do que os nobres, não lhe quadrava.

—Decididamente já não comprehendia nada do mundo, nem a gente nova se parecia com a velha—concluia pegando no _crochet de_ lã grossa com que se entretinha a fabricar saias e casacos para as criancitas pobres, na convicção intima de que era assim que se praticava o _bem_; distribuir esmolas a uns e a outros conforme o capricho e a sympathia de cada qual, sem livros e sem escolas... Escolas para que?! Só se era para os criados se julgarem mais senhores do que os proprios patrões... A seus olhos, o mundo tinha-se voltado do avesso; se até o velho abbade passava sem dizer missa e respondêra com o despreso ás accusações que da camara ecclesiastica lhe tinham mandado!...

Valia-lhe o dr. Pinto, a irmã mais nova do abbade e as Cunhas para lhe fazerem a partidinha do whist e lhe irem contando os casos da villa; era o que a distrahia um pouco depois das rezas obrigatorias e da leitura, feita pela dama de companhia, de toda a grinalda romantica do principio do seculo passado.

Com a aproximação do inverno seguinte a sua saude resentira-se-lhe e muitos dias havia já em que a filha a não podia deixar. Habituada áquelle affecto sempre prompto e tocante, acostumara-se tambem a vê-la sacrificada sem um murmurio e acceitava como obrigatorio o que só o amor lhe offerecia.

N’um d’esses dias, em que, por Maria Helena não sahir, Bella a fôra visitar, viu com surpreza, á sahida, que uma carroagem parava ao portão e um homem se apeava, fechando-a logo cuidadosamente. Ia passar sem procurar conhecer o visitante, mas sabendo que a amiga não tinha segredos para ella e presentindo desgosto ou incommodo que a sua interferencia podia talvez evitar, resolveu dirigir-se ao desconhecido.

Sem saber porquê, pensou no Visconde e lembrou-se que seria porventura estrangeiro rico seduzido pelas maravilhas de arte expostas no catalogo do leilão, que preferisse comprar a propriedade em globo e para isso necessitasse a assignatura da viscondessa.

Tudo isto lhe atravessou o cerebro apenas no tempo preciso para se lhe dirigir perguntando o que desejava.

Muita habituada a conhecer a sociedade a que pertence qualquer individuo pelo exame rapido de toda a sua pessoa, Bella constatou no olhar em que o envolveu por completo que nada faltava ao trajo, consagrado pelo figurino britannico, de um homem rico em viagem.

Não sabendo muito bem em que lingua devia fallar a um homem que o cosmopolitismo parecia ter marcado fórtemente tirando-lhe a distincção de qualquer nacionalidade, perguntou em francez o que desejava.

Elle parou, cumprimentando. Era um homem de que se não poderia bem precisar a idade porque, se o busto se endireitava n’uma arrogancia de juventude, o cabello e o bigode já grisalhos davam-lhe uma apparencia de velhice precoce.

A pelle de um amarello verdoso denunciava longos annos de vida nos tropicos, as pregas mal difarçadas junto aos olhos, de uma intelligente viveza, accusavam uma longinqua mocidade mal aproveitada em vigilias e prazeres ou esgotadoramente trabalhosa. A bocca, onde fortes dentes ainda brilhavam, tirava ao rosto toda a expressão de bondade, franzida n’um rictus de ironia.

—«V. Exc.ᵃ poder-me-ha dizer se a sr.ᵃ Viscondessa está?—respondeu no mais correcto portuguez, acompanhando a phrase do seu riso escarninho, como quem esperava gosar do espanto da interlocutora.

Mas Bella pensou:—bom, já sei que é brazileiro que deixou a patria e com ella o _soutaque_ da pronuncia e que vive cá pela Europa muito ao seu gosto. Conheço o typo geral, tão poucos existem, por cá! Principalmente em Paris, que é para todo o legitimo brazileiro o resumo das perfeições humanas, a terra promettida onde vão terminar todos os seus sonhos de ambição.—E respondeu sem se desconcertar:

—«A sr.ᵃ Viscondessa tem a mãe tão perigosamente enferma, que me parece inutil qualquer pedido de attenção. Mas se não é caso urgente, V. Ex.ᵃ esperará...

Reprimindo sob o seu eterno sorriso um gesto de impaciencia, respondeu:

—«Perdão, o caso não admitte a menor de longa.

—«Então, asseguro a V. Ex.ᵃ que minha prima não tem segredos para mim e pode confiar-me a sua pretensão. N’este momento é inteiramente impossivel obter d’ella uma audiencia.

—«Em todo o caso, repito, o que tenho a dizer-lhe não admitte delongas...

—Entraremos, pois, porque me parece que o mysterio se liga á urgencia e V. Ex.ᵃ me confiará a sua missão, subindo eu depois a communicar-lha. É o unico remedio que vejo.

—«Effectivamente...—respondeu curvando-se—não ha grande inconveniencia em dar contas a uma amiga da sr.ᵃ Viscondessa da minha espinhosa e mysteriosa missão.

Isabella baixou a cabeça e passando á frente fê-lo subir alguns degraus e entrar na sala, de que fechou cautelosamente a porta. Sentou-se junto a uma meza e indicou-lhe uma cadeira a que elle preferiu encostar-se, ficando de pé.

Tudo isto tinha sido feito com tanta serenidade e gentileza natural, tão sem sombra de pretenção ou vaidade, que o estrangeiro, evidentemente apreciador e habituado a julgar os mais raros exemplares da graça feminina, não poude deixar de manifestar no sorriso o encanto que o subjugava.

—«V. Ex.ᵃ dirá...—começou Bella para terminar o silencio.

—«Não sei bem como principiar, pois é estranho, em verdade, o motivo que me traz...—disse um pouco embaraçado.

—«Em todo o caso...—sublinhou com ironia.

—«Sim, em todo o caso o tempo urge e eu não posso deixar de dizer a V. Ex.ᵃ o que vinha pedir á dona da casa. Em primeiro logar, minha senhora, é da mais rudimentar cortezia dizer-lhe o meu nome. Chamo-me Pedro de Albuquerque. Isto decerto nada lhe diz porque estes grandes appellidos andam em todas as caras cá no nosso paiz...

—«Ah! V. Ex.ᵃ é portuguez?

—«Não e sim. Sou realmente portuguez de origem, e brasileiro de adopção. Mas como qualquer dos dois paizes me agrada menos do que Paris, foi lá que fixei residencia. E foi lá tambem que conheci ha alguns mezes uma pessoa, um homem que... por certo ainda deve interessar vivamente a amiga de V. Ex.ᵃ

—«Não me parece que exista hoje algum homem em Paris que disperte interesse a minha prima—respondeu ella friamente.

—«Um homem que foi, que é ainda, porque no nosso bello paiz não ha a lei redemptora do divorcio, o seu proprio marido—continuou sem deixar o tom de ironia que lhe era habitual.

—«A minha amiga dispensa bem a liberdade conferida pela lei, sentindo-se moralmente divorciada desse homem.

—«E no emtanto, veja V. Ex.ᵃ o que são as coisas! Eu venho exactamente trazer esse homem moribundo e pedir para elle a piedade da esposa—respondeu imperturbavel.

Bella levantou-se firme, crescida de orgulho e indignação.

—«Nunca lha pedirá, senhor.

—«Pelo amor de Deus, não me obrigue a ser indelicado, insistindo...

—Não! É um abuso, uma violencia. Ha um homem que atraiçôa vilmente sua mulher, que a despreza, sendo-lhe inferior, que a sujeita a todas as vergonhas e que por fim lhe atira com o nome á lama das ruas com o descaramento de um bandido que deixa no cofre, donde roubou os valores, o seu cartão de visita...

—«Minha senhora, mas esse homem está hoje morto e o desgraçado que lhe trago não tem de familia mais ninguem, alem da esposa. É justo que junto a ella se acôlha...

—«Justo porquê? Esse homem deixou de ter familia desde que foi o proprio a despreza-la; com que direito a procura agora?!

—«V Ex.ᵃ não me deixou explicar, não é elle que pede, somos nós, os seus amigos, ou antes os seus companheiros—emendou a um gesto de Bella—que resolvemos tira-lo de Paris onde não poderia viver entregue a criados...

—«Ha muitas casas de saude onde vantajosamente o poderiam internar.

—«Oh, mas seria escandaloso, um homem com o nome d’elle, tendo familia, patria, fortuna...

—«Oh o rico sentimentalismo masculino! Tudo o que elle fez, então, não destruiu aos olhos de V. Ex.ᵃˢ essas raizes que prendem um caracter leal e honesto?...—gargalhou com nervosa ironia.

—«Não seria bem feito, mas é tão vulgar...

—«Será, mas na minha opinião familia já a não tem porque a despresou e insultou. Patria já não a merece. Fortuna gastou-a com as suas leviandades. Portanto, nenhum direito assiste aos seus amigos de vir exigir da esposa um novo e doloroso sacrificio.

—«Mas, tenha V. Ex.ᵃ embora razão, moralmente fallando, o que é certo é que tambem se pode chamar uma crueldade o morrer no abandono o marido tendo a esposa fortuna...

—«Não sei o que a minha amiga faria se fosse chamada aqui, creio que seria bastante generosa para se sacrificar mais uma vez. Sou eu, comprehende V. Ex.ᵃ, eu que não quero, que não consinto que ella saiba esta traição que lhe querem fazer á sua generosidade, á nobreza do seu caracter—respondeu com violencia.

—«Perdão, minha senhora, mas sou eu que não desisto. Não sahirei d’aqui sem obter a resposta da propria dona da casa. Não posso reconhecer em V. Ex.ᵃ o direito de me expulsar—replicou, já alterado tambem, sentindo no embate de vontades crescer-lhe as violencias de um caracter energico.

—«Fallo-lhe em nome da justiça, senhor! Sei muito bem que os que vivem n’essa brilhante e desvairada vida de prazeres e divertimentos, conhecem d’esta palavra só o que dizem os codigos. Mas acima d’elles ha uma ideia superior, um criterio mais justo a que não creio que o seu espirito se tenha já fechado completamente. Milhares de homens e mulheres honestas e trabalhadoras morrem por dia de miseria e de abandono, longe da patria, escarnecidos pelo destino, abandonados de todos e de tudo. E ninguem corre ansiado a protegê-los, a leva-los nos braços cuidadosamente para os ir depôr na sua patria, para lhes ir deitar a cabeça moribunda no seio das familias. E ha um homem como este, que não teve virtude nenhuma, que não fez senão mal com o seu egoismo, de quem a propria intelligencia foi na sociedade um elemento corruptor, que da vida usufriu todos os gosos, e não ha lagrimas que não repuxem aos olhos, nem lenços de fina seda que não abafem gemidos! O que o senhor e os seus amigos querem fazer, impondo á mulher esse marido, que a villipendiou é, no meu criterio, uma infamia. Oppor-me, é o meu dever.

—«Minha senhora, V. Ex.ᵃ abusa do seu sexo...

—«Pode responder como quizer, porque eu despreso tambem as conveniencias que obrigam um homem a calar uma resposta altiva a uma mulher e o deixam babujar insultos sob forma de galanteios á primeira que passa, queira ou não ouvi-los.

Subjugado, vencido, o brazileiro respondeu conciliador:

—«E, no entanto, elle está lá em baixo moribundo, não contando ser recebido porque não tem já bem a noção do que se passa, mas em todo o caso devendo ser attendido.

—«E lá em cima está uma senhora, uma velhinha que era sua tia e foi-lhe mãe, na orphandade, que é a mãe de sua mulher, e a quem não respeitou os annos nem a saude. Tambem um abalo moral a poderá matar.

—«Mas n’esse caso?!... O que quer V. Ex.ᵃ que se faça?

—«Que o levem.

—«É impossivel. Para onde o levariamos agora?

—«Em Lisboa ha casas de saude.

—«Não chegaria lá. É uma crueldade!—E alterando-se de novo, n’uma violencia de quem não esperava ser contrariado, continuou—hei-de fallar á sr.ᵃ Viscondessa, não sáio sem isso. Elle é ainda o seu marido, o dono legal d’esta casa.

—«Tem razão, senhor—disse por detraz d’elle a voz maguada de Maria Helena, a quem tinha chamado a attenção a carroagem estacionada á porta e Bella altercando na sala com um desconhecido, segundo lhe dissera a criada de quarto. Descendo em seguida podera ouvir parte da discussão e comprehender o sacrificio que o destino ainda lhe exigia.

A ultima phrase do brazileiro ferira-a no seu orgulho e fôra elle quem lhe dictara a interferencia immediata.

Adiantando-se até ao grupo surpreso que os dois formavam, repetiu ao estrangeiro, frizando com ironia a phrase:

—«Tem razão, senhor. Elle é ainda meu esposo, o dono legitimo d’esta casa, o senhor da minha vontade... Pode faze-lo entrar, que eu dou ordem para ser recebido como tal.

—«Ó Maria Helena!!...—gemeu a amiga abraçando-a, com as lagrimas a assomarem-lhe aos olhos.

—«Minha senhora!—curvou-se elle, tambem vencido pela emoção.

—«Deixa, Isabella, o sacrificio ainda não estava consumado.

—«Isabella?... V. Ex.ᵃ disse?—tornou atraz o brazileiro ferido por esse nome.

—«Isabella Burns, a minha unica amiga—repetiu a Viscondessa machinalmente.

—«Ó Isabella, como te não reconheci logo?!—rouquejou o desconhecido estendendo os braços n’uma supplica.

—«O senhor?! Porque?!...

E ante o olhar apavorado do homem que a fitava n’uma agonia, Bella deu um grito, reconhecendo-o tambem.

—«Meu pae?!...

—»Sim, sim—repetia estupidificado pela surpreza, recuando esverdeado e tragico, a bocca contorcida pela amargura, o cabello empastado, o bigode descahido n’uma lamentavel decadencia physica.

XX

—«Meu pae?!—perguntára Bella n’um grito que participava da angustia, da surpreza e da alegria. Um grito que dizia claramente o complicado drama psychologico que era n’ella a lembrança d’esse homem, muito amado no silencio do seu coração, que a sociedade lhe mandava despresar como criminoso e que a sua razão conseguira desculpar, ou mais, definir como um symbolo d’essa mesma sociedade.

Passado o primeiro instante de indecisão, e emquanto a Viscondessa, pouco attenta a esta scena, sahira a ordenar á instalação do doente e o seu cuidadoso transporte da carroagem, venceu em Bella o amor enthusiastico que em tempo lhe inspirára aquelle pae galante e pouco escrupuloso, e correndo para elle apertou-lhe calorosamente as mãos e offereceu aos seus beijos as faces molhadas de lagrimas.

—«Querida Bella, és ainda a minha filha, a mesma alma generosa, a caprichosa e louca phantasista que me adorava, o unico amôr da minha vida!...—Chorava em soluços de criança, o que lhe dava um aspecto de velhinho dôce.

—«Ainda bem que te encontro, papásinho, ainda bem!...

—«Estimas? Oh! mas então, talvez te não dissessem, naturalmente não sabes, o motivo porque te deixei?!...—inquiriu como criminoso obrigado a confessar as culpas com a certeza de ser condemnado.

—«Disseram, sei tudo... Nesse particular não me têm poupado... respondeu com amargura.

—«Pobre filha! E não me despresas, não me tens amaldiçoado mil vezes?

—«Não; antes muitas vezes te tenho lamentado.

—«E tinhas razão, que eu não fui o que quizeram dizer. Verdade seja que tambem nunca fui dos mais infelizes.—Agora que tinha a certeza da benevolencia, voltava ao riso e á ironia, de que fizera habito.—O que me magoava era estar longe de ti e saber que te arrancariam da alma o affecto que me tinhas.

—«Isso não; em casa nunca se fallou de tal.

—«O tio Burns fez de conta que eu tinha morrido...

—«Pouco mais ou menos.

—«E tu não me esqueceste, nem deixaste de me querer?!

—«E porque é que me não escreveste, papá? Porque não quizeste saber mais de mim?

—«Primeiro, não poude... Quando sahi de Lisboa levava pouco dinheiro e pouca esperança... Tambem, tinha-me prevenido, se não encontrasse no Brazil as amizades com que contava para me tirarem de embaraços e ajudarem a recomeçar a vida, tinha o meu revolver com cinco tiros para o momento em que me sahisse da carteira a ultima nota de cinco mil réis. Sempre considerei essa somma a minima para dinheiro de algibeira. Depois, fui feliz, ganhei dinheiro, mudei de nome como quem muda a flôr que murchou na botoeira, e _fui feliz_—accentuou com sarcasmo.

—«É nunca mais pensaste em mim, não é verdade?

—«Pelo contrario, pensei sempre em ti, mas não sabia as tuas ideias e conhecia demasiadamente as do tio; tive medo de te alienar a sua protecção mais proveitosa em todos os sentidos do que a minha.

—«Como podeste estar tanto tempo sem saber de mim, sem me veres?!...

—«E no entanto tens sido tu o meu unico affecto verdadeiro no mundo. Mas, que queres, nasce-se affectivo como se nasce poeta. Os cuidados sentimentaes são a poesia do coração, e eu, minha queridinha, nunca passei de vil prosador. Este mesmo amôr que te consagro e é sentido como não tive outro na vida, creio bem que é ainda uma forma do meu egoismo. A vaidade do artista que se vê creador de uma obra perfeita, porque estás perfeita, sabes? Não te reconheceria, não! Cresceste pouco, vamos. Promettias tanto! quando te deixei eras uma mulherzinha. E estás gorda, forte—fallava nervosamente, passando com volubilidade da ternura quasi ingenua de um velho pae affectuoso, ao riso futil de um homem do mundo, dizendo banaes comprimentos a uma senhora, outrora conhecida criança.—Mas que casa tão escura! Não te vejo bem, vem aqui á janella.

A filha deixava-se conduzir docilmente, encantada tambem de rehaver esse pae que tanto amara e admirara na infancia e que tanto a fizera soffrer.

Caminharam para o largo vão da janella onde tres cadeiras cabiam a par e levantando o antigo reposteiro deixaram penetrar na sala o reflexo doirado do ultimo raio de sol poente, que foi movimentar as graciosas pastorinhas que n’um grupo de velho Saxe ensaiavam um alegre baile campestre.

As talhas de porcelana China de um brilhante vidrado côr de chocolate e phantastica floração, resaltaram do fundo pallido da parede donde se dependurava, em magnifico quadro, o corpo sangrento de homem, virando para o céo um olhos de angustiada esperança, emquanto o sangue corria rubro das feridas feitas pelas frechas que se dependuravam, ou espetavam ao acaso no corpo magro de martyr.

Em baixo, os criados com infinitas precauções arrancavam de entre as mantas de viagem e traziam em braços um corpo tão emagrecido e um rosto de tão mortal pallidez, que Bella recuou suffocando uma exclamação.

—«É o Visconde—respondeu o pae á sua muda pergunta.

—«Está morto?

—«Pouco lhe falta... Um cancro no estomago. Mataram no os ultimos dois mezes de Paris, gosados com o desespero de quem se vê arruinado e... abandonado.

—«E a Candida?!

—«Dize a _senhora viscondessa_, como por lá a apresentava.

—«E trouxeste-o á mulher, pae!—censurou gravemente.

—«Foi uma fortuna, para te encontrar...—gracejou com leviandade.

—«Porque o deixou ella, sabes?

—«Naturalmente porque o saberia arruinado physica e monetariamente. Suppomos, porque, orgulhoso como era, não se queixou a ninguem quando chegou de Luchon d’onde ella tinha partido com um principe russo, com tantos rublos e servos como cabellos brancos.

—«Que desgosto e que desillusão para a sua grande vaidade!...

—«Não os manifestou senão lançando-se em Paris á mais extenuante vida de deboche.

—«O que não posso é attingir o motivo porque, moribundo, o tiraram de lá.

—«Resolvemos isso, os amigos e compatriotas, para honra de todos nós. Foi uma fuga aos _reporters_. Querias que á sua morte tudo se dissesse e publicasse n’esses jornaes ávidos de escandalos, para a gargalhada d’esse Paris que tanto se diverte da vida como da morte? Demasiadas occasiões temos lá fóra para sermos fallados... malevolamente.

—«Levassem-no para Lisboa.

—«Não chegava lá. Aqui ficamos a meio caminho, alem de querermos evitar escandalos.

—«N’esta casa, aquelle homem!...