Ambições: Romance

Part 16

Chapter 163,885 wordsPublic domain

Para cortar a conversa que lhe indispunha os nervos e como que os tornava cumplices no engano em que a amiga se ridicularisava, Isabella perguntou se não era a baroneza d’Amieira que entrára na frisa correspondente á sua. Tomando habilmente a deixa, o Visconde desviou a conversa scintillante de espirito, exuberante de risos, que, bem observados, se sentiriam falsos e contrafeitos.

De instante a instante os seus olhos interrogavam, manifestamente impaciente, o camarote fronteiro, fechado até ahi com uma persistencia desesperadora.

Eram quasi horas de começar o espectaculo quando a physionomia se lhe illuminou n’um jubilo illimitado ao vêr a Candida apparecer, como que surgindo de entre as rendas da capa de baile, triumphante de belleza, irisante de pedrarias, n’uma opulencia de trajar que attrahiu todos os olhares. Da plateia muitos cumprimentos e sorrisos a procuraram como votivo incenso que se eleva do pó até ao throno das divindades, n’uma offerta de idolatria.

E o Visconde d’Alvora dizia bem alto a um grupo de amigos, cofiando o bigode e empertigando-se na ponta dos pés,—que jurava aos deuses ser a mulher mais linda que em sua vida conhecêra! Isto depois de ter viajado por toda a Europa e ter chegado de Hespanha enjoado, positivamente, de ver caras bellas. Palavra de honra, meninos!...

A campainha electrica deu o signal de se levantar o panno, e os homens, excepcionalmente, apressaram-se a occupar o seu logar antes de começar o espectaculo, o que fez com que a tragica podesse logo ser ouvida desde a primeira scena. Desempenhava n’essa noite o papel de Magda, a mulher soberba de independencia e energia que a traição e a infamia do homem, em vez de quebrantar em baixesas de victimas, faz erguer n’um protesto de indignação.

A actriz, soberana da Arte, dominando em todos os países onde o capricho de artista a leva, sublime bohemia, que o mundo aclama exaltado, faz vivo, arquejante de interesse, esse typo symbolico da mulher de que a sociedade fez uma revoltada e que uma vez lançada fóra do ramerrão comesinho da existencia burguesa, impossivel se lhe torna a vida entre os seus, cujas ideias a amesquinham e irritam, que ella propria escandalisa com as suas palavras e modos, de pessoa que conhece dos preconceitos sociaes o bastante para avaliar a sua hypocrisia.

Quando a Duse (Magda, a grande cantora) entra já fatigada da lucta embóra coroada de loiros em que o dinheiro lhe não faz mingua, mas soffrendo da miseria affectiva em que se vê, como filha espúria de um mundo feito de harmonia e amôr, e vem recorrer á familia, como fonte inesgotavel de carinho, apenas encontra estranheza e hostilidade...

É então que a artista se revella extraordinaria de sentimento, flagrantissima de psychologia feminina, mais ainda do que nas scenas violentas de paixão, reconhecendo quanto differe da pequena irmã que na sua ingenuidade lhe mostra o que já fôra e nunca mais poderá ser, fatal sciencia do mal que uma vez adquirida não mais se pode esquecer nem limpar da memoria.

Magda pensa com horror no brutal egoismo do amante que, fugindo como covarde á responsabilidade do crime, o faz recahir esmagadoramente sobre os hombros mais fracos da mulher, que deixa de ser cumplice para se tornar victima.

A Duse, encarnada n’esse papel, deixa de ser uma pessôa que representa a ficção alheia para se mostrar ella mesma, elevada e transfigurada pelo proprio esforço e talento; tão depressa carinhosa e dôce, como mãe que encontra um filho perdido, junto da irmã, recebendo-lhe as confidencias, revivendo n’ella o seu passado de pureza e sentindo a devastadora mágua dos factos irremediaveis; logo, ironica e vaidosa da leviandade que escandalisa as burguezas puritanas que frequentam a casa dos paes; cheia de nobre dignidade quando recusa o marido que lhe impõe o abandono do proprio filho em respeito ao mundo; extraordinaria de paixão, quando responde com o seu despreso de mulher que só o talento, e um feliz acaso da natureza que lhe deu uma garganta privilegiada, salvaram da miseria e da vergonha de que tantas outras, por desajudadas, se não podem mais erguer. Que lhe importa uma sociedade á qual nada deve?!...

Mas não se tem impunemente uma generosa alma de mulher sequiosa de affectos simples, não se é uma ingenua de que a vida fez uma sincera revoltada; o grito de dôr e de remorso que lhe arranca a subita morte do pae é tão humano e desesperadamente sentido que se fica na duvida se é realmente para applaudir se para retirar respeitosamente, com a commoção propria de quem assiste a um drama de familia.

Logo no primeiro acto, que terminou com ruidosa manifestação, chamadas e applausos delirantes, o visconde sahiu com João, mas appareceu pouco depois, já só, no camarote da Candida, que o Braga prudentemente deixára, protestando urgentes negocios que o chamavam ao jardim d’inverno, a fallar com uns amigos.

Retirados para a penumbra do camarote, reconhecia-se, pelo gesticular phrenetico do visconde, que era de importancia a conversa em que elle punha todo o ardôr da paixão e em que ella o ouvia sem deixar de sorrir vagamente no seu sorriso incolor de imagem.

A baroneza d’Amieira vira Isabela e perguntára duvidosa a mr. William, que a comprimentava na passagem,—se realmente era ella, a querida criança?!...

Á sua affirmação retrucou expansiva que lhe reclamava a companhia até á frisa dos viscondes.—Ha quanto tempo não via a Bellasinha! E mesmo Maria Helena havia muito se não encontrava senão em casa, e ella ultimamente tinha tido outros deveres nas suas noites.

Á entrada d’elles na frisa, onde já estavam o João e o Dr. Ramalho, a conversa animou-se com a discussão da these debatida no drama, que a baronesa achava de grande exagero.—Casada, a Magda seria uma mulher recebida na sociedade, respeitada por todos; mais tarde pensaria no filho...

Bella contestava com indignação, exaltava-se mesmo e parecia-lhe até impossivel que a baronesa, sinceramente despresadora de preconceitos, ainda tivesse tão injustas ideias, applaudisse tal hypocrisia.

—«O que quer, minha querida!? Embora se sinta que é injusto, é mais commodo pensar como toda a gente... Para que serve discutir e protestar? Se o mundo é o que é e não o que devia ser!

—«Mas é dever nosso, dos que pensâmos conforme a razão e aspirâmos á justiça, protestar, luctar pelo futuro—respondeu-lhe João sinceramente.

—«Admiro estes seus sobrinhos, mr. William, são dois verdadeiros apostolos, cheios de fé e de energia.

—«Por isso hãode triumphar, verá.

—«Tambem já o conquistaram, já lhe insuflaram no ânimo o fogo sagrado da nova religião?

—«Parece... e aconselho-a, Baronesa, se tem amôr ao actual estado de coisas, a fugir d’estes terriveis evangelisadores; são perigosos exactamente porque são convictos, o que é raro.

—«Crê que se vença porque se tem fé, tio? Eu, não; se assim fosse não veriamos triumphando tantos cynicos que abraçam qualquer religião, como qualquer ideia que lhes convenha aos seus fins.

—«Esses não têm fé em coisa nenhuma. Triumpham, é certo, mas a sua obra desmorona-se rapidamente, como edificio construido sobre lama. Só a obra dos verdadeiros crentes, dos sinceros, é que pode resistir e fructificar. Crês que fosse a ambição, o orgulho e a mentira dos padres, que fizeram do christianismo uma religião? Não, foi a humildade, a sinceridade e a fé dos convictos... É por isso que creio no futuro da vossa empresa e aconselho a Baronesa a fugir se não quer tornar-se tambem uma convicta...

—«Pois vou-me já, tomo o seu conselho, meu caro. Nada, que não quero dar aos meus conhecimentos o espectaculo grotesco de fazer dançar nos meus salões os criados da lavoura nem de medir pela mesma bitola a moral da cosinheira e a da grande dama...

—«A Baronesa a fingir-se o que não é! Todos sabemos que não ha ninguem melhor para os seus inferiores—contradictou Maria Helena.

—«Tratá-los bem, trato, mas julgá-los meus eguaes, com direitos e deveres como nós, isso, filho, é muito grande inovação para uma velha como eu.

—«Mas não é isso, cada um no seu logar, mas crédor do nosso respeito, tão superior no seu officio como nós no nosso.

—«Sim, eu vejo que a razão está do vosso lado. Mas... eu afinal de contas ainda me não dei mal com o mundo como elle está.

—«Para que V. Ex.ᵃ tenha essa consoladora phylosophia, quantos terão soffrido miserias inconfessaveis, quantos terão amaldiçoado mil vezes a hora em que nasceram!

—«Ora, querida Bella, se fossemos todos a pensar assim, não estaria aqui ninguem dos que deram o seu dinheiro para vêr a Duse.

—«Porque não? Se nós viemos e podémos dar um preço exagerado, porque temos necessidades de espiritos educados e possuimos fortuna para realisar o nosso gosto, justo é que os que menos tem egualmente possam frequentar divertimentos mais baratos e mais em harmonia com os seus gostos e conhecimentos.

—«Ahi está em contradicção, logo não somos todos eguaes, vê?!

—«Jesus, que confusão! Não queremos todos eguaes, queremos todos felizes, o que é differente. Queria a minha amiga que eu, porque detesto os bailes, os passeios, os divertimentos em que ha muita gente, obrigasse os outros, que só assim se divertem, a tornarem-se anachoretas? Imagina que não ha muita gente, muitissima mesmo, que preferisse a uma recita da Duse uma corrida de toiros?!... Até aqui, entre muitos que vieram por luxo, porque é moda vir ao theatro por maior preço quando vem uma celebridade estrangeira...

—«E hade ser cara, porque se fôr pelos preços da casa já não tem o mesmo merecimento. Quando penso no Novelli a representar para as cadeiras, aqui mesmo, pelo centenario da India!—disse a viscondessa.

—«É verdade, até nós viemos cá sempre para protestar—respondeu Bella.

—«Além do prazer de ver representar como poucas vezes na vida se pode vêr!

—«Mas tudo isso não me chega a convencer de que seja o vosso o mais commodo caminho.

—«Isso não é, mas o melhor.

—«O que importa o bem dos outros, no fim de contas? Gente que está habituada a soffrer não lhe custa tanto. Melhor é contentar-se cada um com a sorte que tem.

—«Quando a má fôr para os outros...

—«Claro.—Ria desabusadamente—vejam alli a Candida se precisa pensar no trabalho ou na ignorancia dos pobres, na felicidade ou na infelicidade do proximo, para ser hoje a mulher mais linda de Lisboa. Não digo uma _profissional beauty_ porque a frase é importante demais para a nossa modestia e mesmo porque não tenho a mania de M.ᵐᵉ Vilhegas.

—«Ó Baronesa, mas de que serve ser-se bello sem mais nada?

—«Ora de que serve, mr. William, agrada aos outros. Repare n’ella, veja se no meio de tanta cara vulgar, de tanto rostosinho miúdo de chloroticas caiadas, não é um prazer para os olhos deparar com aquelle typo de perfeita belleza—repostou com leviandade.

—«É uma opinião de artista. Mas é tão fragil o reinado da belleza material—disse por fim o Ramalho, que até ahi se tinha conservado silencioso.

—«É certo, mas emquanto dura, a belleza é um merecimento como outro qualquer. Uma superioridade como a do talento ou a da bondade.

Respondeu a viscondessa, mas de modo tão singelo, que todos se entreolharam na dúvida, se seria uma illudida ou uma cynica. Só Isabella, que a conhecia bem, poderia affirmar a sua completa ignorancia de um facto que para ninguem já era mysterio. Ciumes, dôr pungente de coração offendido, sabia que os não teria, porque o amôr pelo marido lhe desapparecêra ha muito com o despreso que lhe inspirára a leviandade do seu caracter, mas esperava d’elle respeito bastante para a não inferiorisar em convivencias equivocas, para a não obrigar hypocritamente a ter relações que deprimiam a sua dignidade de mulher honesta.

Por isso Isabella, sentindo todo o amargôr da situação, soffria pela amiga tão intimamente que o resto do espectaculo o passou desattendida, apesar do interesse que a artista lhe despertava, a ella cuja alma finamente temperada se enlevava sempre na comprehensão de todas as grandes manifestações de arte, a ella que alheada de si mesma já seguira uma vez, como em extasis, o desenrolar d’esse mesmo drama, só grande pelos interpretes, quando o papel da mulher se subalternisava e quasi desapparecia, vendo Novelli, no papel do intransigente e rigido coronel, tomar toda a scena, encher de assombro todos os espiritos, com a verdade tragica da sua dôr e da sua morte.

Desattendida tambem passou o intervallo do segundo acto, que lhes trouxe á frisa innumeros conhecidos, fatigada de cumprimentos e conversas a que não ligava sentido, com os olhos a fugirem-lhe para a Candida que avultava em proporções quasi tragicas, nova lady Macbeth maculada pela mentira e pela traição, laivada pelo sangue das suas victimas, aquellas que mais acariciadoras achegava ao coração.

Quando entrou finalmente no quarto do Alliança teve a sensação de allivio que sente o dormente acordado do pesadello esmagador.

—«Estou cançada—dizia desapertando o vestido e cobrindo os hombros com uma capa para chegar á varanda, onde João fumava um resto de cigarro—estou fatigada de arte, de luzes, de barulho, de gente, sobre tudo de gente.

—«Ou isto ou o socego da nossa casa!—respondeu João, passando-lhe o braço pela cinta, fatigado tambem de impressões, aborrecido de mentiras e convencionalismos.

—«Que longe já estamos d’essa miseria—accrescentou ella, reclinando a cabeça no hombro do marido—parece que vivemos em outro mundo.

—«N’um mundo que tu criaste, no reino da felicidade pelo amôr e pelo bem, querida.

—«Tenho já tantas saudades da nossa casa, que parece que sahi ha muito de lá. E tu?

—«Tambem eu, muitas, da nossa casa, da nossa familia, das nossas flores, de todas as coisas que lá nos interessam, e sobre tudo da alegria e do descanço que têm os nossos espiritos, crentes na obra redemptora que encetámos e da qual chego a duvidar cá por fóra ouvindo o riso escarninho de todos estes egoistas epicurianos, ou sinceramente desilludidos, como a Maria Helena.

—«D’essa é que tenho pena... quem me déra podê-la levar para a nossa _republica_ de bons! O que terá feito o nosso velhinho agora assoberbado com todo o trabalho?

—«Coitado! O que terá andado do hospital para o asylo, do asylo para as obras!... Que fortuna foi obrigarem-no a sahir da igreja! É assim muito mais util á sociedade.

—«Não ha nada para certos caracteres se depurarem e redobrarem de energia como as injustas perseguições. Outros desanimam na lucta e ficam com a vontade quebrada, como a pobre Maria Helena.

—«Eu acho a na mesma, filha.

—«Não acho eu, desespera-me aquella indifferença resignada que até lhe fecha os olhos para o procedimento do marido com a Candida.

—«Que é infamissima, como sempre. Quanto mais a conheço mais se confirma para mim a opinião que formou d’ella a Engracia. Na sua ingenuidade de ignorante viu melhor do que nós todos. Quando lhe vejo o impudôr, afigura-se-me que a Pillar a aponta ao meu odio.

—«Odio, não; ao teu despreso, João.

—«Tivesse eu a _certeza_, querida, que não sei se teria coragem de _só despresar_. Quanto daria por essa certeza, quanto!

—«Não devias dar nada; a responsabilidade dos criminosos é tão limitada, que ninguem tem o direito da vingança.

—«Oh, minha querida, isso não é bom theoricamente, mas criminosos como a Candida, embora irresponsaveis, são um perigo social.

—«Mais do que ella são criminosos os Vilhegas ambiciosos e os viscondes no seu papel de fina hypocrisia. E mais do que elles todos é criminosa a sociedade que os acolhe e os cobre com a sua cumplicidade, que faz d’elles ornamento respeitavel da sua vida.

—«Tens razão, mas a morte da Pillar foi um repelão do destino, tão brutal, tão cruel, que ainda me faz ter ideias de vinganças, se penso que houve culpados!... A sangue frio concordo, a sua morte não será vingada porque ella mesma o não desejaria; de que serve esmagar uma vibora n’um campo juncado d’ellas? Exemplos nunca emendaram ninguem nem eu creio no arrependimento, sublime illusão de Christo. Cada um é filho do seu meio e da sua ascendencia, producto hibrido que só a educação e a remodelação da sociedade poderia orientar para o bem.

—«Jesus, lá vae o meu João ao extremo!...—respondeu Bella rindo mansamente á sua exaltação e afagando-o carinhosa—não vale desanimar, talvez de productos pouco contaminados d’esta floração pantanosa ainda alguma coisa se possa retirar para o novo campo saneado e moralisado.

—«Tudo isso para eu confessar que foi um acto de bôa politica acceitar bondosamente a collaboração da pequena Costa e das Sebastianas, não é verdade?

—«Coitadas, essas não fazem muito mal ao mundo. Mas o que me interessa sobre tudo é a pobre Maria Helena. O que dirá ella em sabendo das relações do marido com a Candida?

—«O que hade dizer? A situação na sociedade em que vivem, está tão vulgarisada que não lhe dará a minima importancia.

—«Não creio! É vulgar sim, tanto que nem chega a ser escandalo, mas é estupido para uma mulher honesta que tem invencivel repugnancia pela mentira reconhecer que tem vivido rodeada d’ellas. Pobre Maria Helena! Quando a vejo tão desgraçada, não sendo feliz nem fazendo feliz o marido, podendo-o ser tanto com quem a ama e... ia jura-lo, ella ama tambem!

—«O dr. Ramalho?

—«Sim. Se houvesse divorcio tudo se liquidava bem.

—«É um triste remedio.

—«Mas sempre era remedio, e assim é a condemnação irremediavel das mulheres honestas.

Calaram-se ambos olhando o céo scintillante d’estrellas, que um vento fresco limpára de nuvens. Pelo Chiado passavam apressados os retardatarios que tinham ido cear aos restaurantes. Raros garotos apregoavam ainda os jornaes da noite humidos de tinta e cheirando fortemente a papel impresso; um cautelleiro gritava n’uma melopeia triste:—é o 3:499, amanhã anda a roda! Quem se habilita?... É o 3:499. Quem quer ser rico sem trabalhar tem o 3:499, tres... mil... quatrocentos... e noventa e nove...—repetia na cantilena que todo o dia tinha gritado pela cidade, que arrastava pela noite fóra como um pungir de saudade e de vaga esperança...

Toda a psycologia dolorosa de um povo, vivendo de aventuras e de milagres, alli estava no pregão do cautelleiro, inconsciente do bem e do mal, cego como o destino que deu a sorte grande um dia a este povo corajoso e submisso para, após longos annos de baldões, seculos de aureas miserias, chegar á suprema inconsciencia de hoje.

—«Quem quer ser rico sem trabalhar?—isto é, quem quer viver para gosar de todos os luxos e commodidades, sem comprar com o seu labor o direito de possui-las?

Trabalhar, para quê?! Se foi a _sorte_ que nos guiou á conquista do mundo; se é a _sorte_, a cega roda da fortuna que girando sobre si mesma nos pode dar a fruíção dos gosos sem o cançaço do trabalho? Se é a sorte, o arbitrio, o empenho, que eleva os nullos aos primeiros logares, e se é na esperança d’ella ser favoravel uma vez, que todos, desde o operario que arranca á sua miseria os vintens para a cautella até aos ricos que põem nas despesas obrigatorias um bilhete da loteria grande, têm a vaga esperança de um dia a _sorte_ lhes ser favoravel!... A fatalidade, a sorte, o destino, são palavras de desânimo e resignação passiva, palavras que trazem impressas em si mesmas a porção de sangue mosarabe que por cá ficou...

A pouco e pouco toda a vida da cidade parou, suspensa por um pouco, emquanto não começavam os varredores o seu trabalho de forçados.

As estrellas punham tremores nervosos na impassibilidade do céo, uma aragem leve lembrava que a primavera ainda de todo não escorraçara o inverno... João e Bella sentiam-se tranquilisar, como que adormentados de espirito, longe do mundo que os irritava, muito alto sobre a cidade adormecida.

XVIII

Querida Isabella

Como se passaram quinze dias desde que me deixaste, não sei!... Sei apenas que te escrevo hoje num destes momentos de profundo quietismo que a vida nos traz após as maiores desgraças. Desgraças?!... que eu não posso bem chamar assim ao facto succedido hoje, com a mais _elegante_ simplicidade, e que, ao receberes esta, já não será novidade para vocês porque todos os jornaes fallam n’elle,—a fuga da Candida e do Duarte.

Qual o motivo que os levou a este escandalo, não sei, posso apenas dizer-te que ainda hontem estivemos em S. Carlos, que ella me beijou affectuosamente á despedida e que o Duarte me acompanhou a casa. Depois... partiram no expresso para Paris, ao que dizem.

Sinto-me enojada de tanta baixesa de caracter e de tanta hypocrisia! Enojada, e vexada tambem, um pouco, pelo papel ridiculo que me obrigaram a desempenhar em toda essa vergonhosa intriga. Nunca o Duarte tinha descido a impôr-me as suas amantes para amigas intimas—faltava-me essa vulgar consagração mundana!... É de morrer a rir, e a chorar.

Agora comprehendo tudo, os sorrisos que acolhiam os meus elogios á Candida, as phrases com dois sentidos da baroneza, as palavras trocadas a meia voz, até a tua má vontade para ella e a raiva do João, o vosso aborrecimento súbito e que tão poucos dias os conservou aqui, tudo eu comprehendo e tudo eu vejo agora!...

Tu sabes melhor do que ninguem o que tem sido a minha vida; conheces-me, pois tens a minha alma, palpitante de soffrimento, agasalhada no teu coração de verdadeira e unica amiga. É portanto escusado vir com rodeios. Demais isto é um facto consumado, uma coisa indiscutivel:—meu marido fugiu para França com _umadas minhas amigas intimas_. Eis a singela e fatal verdade.

E eu não encontro, Isabella, no fundo da minha alma, nada, absolutamente nada, que me faca soffrer d’este abandono. Orgulho, parece que já o não tenho! Offensa da mulher, que veio a minha casa, que me beijou, que era a primeira a dizer mal d’elle—quando eu nada me importava de procurar saber a sua vida intima—confesso-te, querida, que não chego a recebê-la. Despreso-a e lamento-a; desculpa-la-hia talvez, se fosse sincera no seu affecto; mas não é, não! Uma _coquette_ vulgar que vae seguindo o seu capricho ou—o que é peor—a sua ambição. Não me offendeu, porque eu vivo como estranha n’esta sociedade convencional. Conheço demasiadamente _este mundo_ para que me prenda nas suas redes de hypocrisias. Vim do conchêgo dulcissimo da minha familia patriarchal para este meio desmanchado e futil, que só me deu amarguras em paga do que lhe trouxe—o meu coração virginal, a minha alma ingenuamente enthusiasta, a minha mocidade ingenua.

Ninguem sentira como eu a vida assim vasia, assim desconsolada, assim inutil! Viver não é nenhum bem para mim, a morte tambem nada me diz... Que posso encontrar na cóva?—A eterna paz do não ser, o somno do esquecimento dos outros e de mim mesma...—Isso encontrei na vida. Nada me interessa, senão apparentemente, e a ninguem interesso senão a ti, oh minha dôce amiga, e á pobre velhinha que é minha mãe! Olha, o que eu não tenho podido soffrer com este escandalo, em que o meu nome será murmurado entre sorrisos escarninhos e lamentos falsos, como falso é tudo isto, tem ella soffrido, a desgraçadinha! Adoeceu de mágua e de surprehendida, porque não sabia as relações em que eu estava com o Duarte. Tu só, querida Bella, foste a minha confidente das horas amarguradas de lucta e revolta, tu só presenciaste e ungiste com o balsamo consolador da amizade as feridas sangrentas do meu coração; por isso, minha filha, só a ti sei confiar a minha alma em farrapos. Se eu podia ter dito á minha pobre mãe o inferno de soffrimentos em que vivi?!... Para ella soffrer mais ainda:—que o coração das mães soffre duplamente as amarguras dos filhos!

Foi isto unicamente o que hoje me affligiu. Se elle me tivesse dito que me queria deixar para ir com a minha _amiga_ eu, crê, ter-lhe-hia dito: