Ambições: Romance

Part 15

Chapter 153,888 wordsPublic domain

Foi preciso que Bella recebesse primeiro os comprimentos de Rosalina e lhe desse noticias circunstanciadas dos seus, que tinham ficado de saude e mandavam recados; que se desembaraçasse depois do chapéo e da grande capa de viagem e passasse ligeira os dedos pelos cabellos, a concertá-los, para responder ás perguntas insistentes da amiga.

—«Não imaginas como vinhamos alegres pela alegria que tu sentirias—dizia pouco depois.—Durante a viagem não fallámos n’outra coisa, o João e eu.

—«É verdade, e o João onde está?

—«Foi arranjar quarto no Alliança e mandar para lá as malas, emquanto eu vim dizer-te que tinhamos chegado. Quiz ir ajuda-lo, mas não consentiu porque entendeu que nós estavamos anciosas por nos abraçarmos. Era verdade, não era?

Voltou-se toda, pondo as mãos nos hombros da amiga.

—«Mas o que é isso, Bella?! Estás d’uma gordura espantosa!

Rindo muito, a outra sentou-se com a maneira pesada e desgraciosa da mulher gravida, e respondeu:

—«É verdade, _carrée_, como diria mademoiselle Hortense, d’uma gordura que nos enche de esperanças e de felicidade.

—«Oh Bella, e não me dizias nada?!

—«Isto era a maior surpreza projectada.

—«Como eu vou amar esse pequenino anjo que é teu, que é do João, que hade tambem ser um pouco meu, não é assim? E não dizeres nada! É capaz de lhe teres já feito enxoval sem eu ter pensado em coisa alguma. Quem o déra ver! de quanto tempo, para quando vem?

Sorria para a amiga, pegando-lhe na mão, enchendo-a de carinhos maternaes, approximando um tamborete para descançar os pés, voltando o _écran_ para lhe tirar o calor do rosto, perguntando coisas, fallando sempre na criancita que lhes viria encher a existencia, vibrando na approximação d’essa maternidade que a tornava quasi mãe, a ella que soffrera sempre da esterilidade que a deixara em irremediavel solidão, quando, por desilludida, o amôr do marido lhe desaparecera.

Bella sorria pacificamente, n’uma grande beatitude de felicidade intima; a voz tornara-se-lhe mais grave, pontoada de grandes silencios extaticos, por vezes irritada, outras, á menor contrariedade, chorando nervosamente por coisa nenhuma.

—«Isto—contava, risonha, á amiga—faz andar o João sempre em cuidados, e parece que mais me estima ainda pelo que eu soffro.

—«Mas soffres muito, muito? Porque mo não dizias? É preciso consultar algum medico.

—«Para quê? D’aqui a cinco mezes todos os encommodos serão passados...

—«Como és corajosa, bravo! não sentes então nenhum receio?

—«Para fallar com franqueza, lembra-me ás vezes que posso morrer e isso faz-me passar um calafrio pela espinha. Não me importaria morrer se fôsse infeliz, mas sinto-me tão amada, que na verdade seria estupida a morte. Demais tendo tanto desejo de ter filhos, que já me ia tardando esta gravidez, que me deixou mais de um anno na espectativa... Nem eu queria dizer o desgosto que tinha para não torturar o João!... Mas agora estou socegada; anima-me o pensamento de que ha tantas mulheres que têm filhos sem perigo, que é impossivel que a mim me não aconteça o mesmo. Quando vejo os pastores trazerem á tarde para casa os cabritinhos e cordeiritos, que as mães tiveram no campo entregues a si mesmas, sem trabalhos nem perigos... penso que nós não devemos ser menos protegidas pela sabia natureza. É uma coisa tão natural esta!...

—«Pois é, e tu has de ser muito feliz, verás. Dizem os medicos que a vida sedentaria e a má educação physica da mulher é que trazem todos os perigos á mãe dos nossos dias.

—«É verdade. Todos os tratadistas o dizem.

—«Já vês; então não ha perigo para ti, que tiveste uma educação physica bem dirigida e ainda hoje tens uma vida activa.

—«No fim de contas, é uma questão de sorte. Quantos animaes soffrem e morrem tambem!... No entanto, não vale a pena pensar n’isso, é uma pequena percentagem.

—«Ora, tu has de ser feliz, tenho a certeza. Quem me dera já ver o focinhito tontinho do nosso bébé! Eu que gosto tanto de crianças, como hei de amar esse que é nosso!... Acho-lhes tanta graça quando são pequeninos e fecham as mãosinhas em murro, e riem, e fazem caretas!...

—«Que estupida coisa não teres filhos! E tantas mulheres que os não desejam, que os aborrecem até. Vem-lhes como castigo.

—«Pobres d’elles!

—«A proposito, que interessante ha-de ser o desespero de m.ᵉˡˡᵉ Hortense quando perder a sua elegancia de fada!

—«Faço ideia!

—«Não os tornaste a vêr?

—«Só de longe, felizmente.

—«O Vilhegas está empregado?

—«Quem o poderia estar melhor?! Medico no hospital, especialista em doenças de senhoras, consultorio elegante na rua Nova do Carmo, deputado, lente, e dizem que o primeiro indigitado para ministro...

—«Tudo é possivel n’este paiz.

—«Elle é, incontestavelmente, intelligente.

—«Mas tambem, incontestavelmente, um vil, sem caracter nem escrupulos.

—«O que se diz por lá de politica e do Duarte?

—«Que não fazia caso dos amigos, que não respondia ás cartas de empenhos, e que, por esse motivo, se vão passar os ultimos _fieis_. Com o auxilio do _vosso rico primo_ da Fradosa aquillo ficou nas mãos dos maximianos, mas aggravado pelo fanatismo que o padre Mathias vae atiçando...

—«E o nosso abbade? Devia ser uma scena desoladora a da sahida da residencia!

—«Se te parece ha quarenta annos que alli viviam! Já a tinham como propriedade sua. A tia Joanna portou-se com heroicidade. O velho chorava de dôr e de alegria, levado em triumpho por toda aquella bôa gente do povo que chorava e gritava. As mulheres faziam uma bulha!... Se houvesse alli quem quizesse dirigi-las, parece-me que o cura havia de passar um mau bocado.

—«Já lá vi duas revoltas d’essas, interessantissimas, uma por causa do fisco, outra d’uns maninhos que queriam tirar ao povo,—sorriu a Viscondessa.

—«Mas o nosso bom abbade não queria violencias; coitado, elle que é todo paz!... A irmã mais nova é que esteve com os sentidos perdidos immenso tempo.

—«Parece impossivel como ha coragem para fazer uma intriga assim tão infame.

—«Pois ha, e lá vive satisfeito e poderoso o sr. abbade que tudo manda. A tal festa ao Coração de Jesus foi um verdadeiro desafio, as crianças da communhão todas de branco e fita azul á cinta, coroadas de rosas como senhoras de Lourdes, os missionarios gritando improperios... As damas de fitinha escarlate no peito... uma verdadeira revista de forças.

—«E o povo?

—«Deixou passar, indifferente e desinteressado.

—«Ah! este povo português que parece já não ter sangue que lhe suba ás faces com vergonha... E ainda vocês sonham com o futuro! Com este povo que só parece já viver pelo unico interesse material de existir e comer!...

—«Falta-lhe educação. Não desanimemos, que talvez alguma coisa se faça ainda. O que me consola, n’aquelle caso do da Fradosa, é que o Pedro ha de vingar a morte do tio e secundar a nossa obra... Por emquanto é segredo entre nós. É um bello caracter.

—«Basta que seja o que foi o tio, coitado, que bem infeliz foi! Dizes então que o Duarte deixa de ter partido?!...

—«Parece, quando o _Dómingos_ lhe fugiu!... O outro dia fez-se encontrado com o João e começou por lhe dizer que estava muito mal, passára toda a noite a _conspirar_ para ver se lhe passava a constipação.

—«É mesmo d’elle!

—«Mas sabes o que queria? Que empregassemos o filho _Dómingos_ Junior na pharmacia do nosso hospital, o tal que não fez _inzame_ porque se lhe tolheu a falla nas _gólas_.

—«E vocês?—perguntou em frouxos de riso.

—«Dissemos-lhe que não. Ficou desesperado e não ha mal que não diga de todos nós.

—«Agora que está senhor do bolo, ninguem lhe chega á importancia.

—«É verdade, o que é o Telles, sabes?

—«Inspector não sei de quê...

—«É espantoso!... Em todo o caso eu é que ganhei com tudo isso. Ficarei livre de uma vez para sempre dos influentes politicos?!... Poderei pensar na minha terra e na minha casa sem o pesadello que me amargurava o tempo que lá estava, o melhor do meu anno?!...

—«Não soffres então com o triumpho dos maximianos!...—perguntou-lhe Isabella por troça.

—«Oh filha, quanto lho desejava ha muito!

—«Pois nem elle, nem principalmente a mulher, pensam ter-te dado tanta satisfação.

—«Bem sei. Nem admiro que não comprehendam o meu sentir. Somos tão differentes! A politica, esta nauseante politica portuguêsa de empenhos e partidinhos, fez-se para gente com o seu feitio. Custava-me vêr o nome do Duarte baralhado no mesmo jogo. Prefiro vê-lo outra vez o _arbitro da elegancia_...

—«Um novo Petroneo d’este baixo imperio...—riu ainda Bella.

—«Sim, visto por um binoculo ás avessas, como tudo é por cá... Sabes que a Candida é tambem considerada a elegante maxima de Lisboa?! Tem feito successo. Se a visses este anno em Cintra, n’uma festa de caridade vendendo bilhetes na barraca da Belleza, estava realmente um deslumbramento, a verdadeira personificação do bello. O triumpho mais completo da materia sobre o espirito...

—«Na barraca da Belleza! Como então?!... Não me contaste isso.

—«Não me lembrou realmente. Era uma barraca que o Duarte dirigia e ornamentou consagrada ao amôr como supremo creador da belleza universal...

—«E a Candida é que estava n’essa barraca?...

—«Escolheram para lá as mais bonitas, mas era incontestavelmente ella a mais formosa.

—«E o que vendiam?

—«Objectos d’arte, flores...

—«Dás-te muito com ella?

—«Dou, afinal é uma bôa rapariga que só tem o defeito da vaidade, desculpavel um tanto em quem tem de que a ter...

—«Não me parece, mas emfim!... Visita-te amiudadas vezes?

—«Coitada, aproveita todos os momentos que lhe deixam livres, que não são muitos, para me acompanhar.

—«E tu... gostas muito d’ella?

—«Muito, não, este gostar d’alma que se sente comprehendida e comprehende, não. Mas gosto mais do que d’outras a quem dou o nome de amigas. É muito delicada, muito serviçal, muito meiga. Depois, é um encanto ve-la, está cada vez mais formosa. Aqui tens o seu ultimo retrato.

Tirou uma moldura de crystal de sobre um contador indio com incrustações de madreperola e mostrou uma linda photographia da Candida, largamente decotada, arrastando uma longa cauda de rainha.

—«É realmente bonita, mas uma formosura fria que me assusta—volveu Bella, entregando o retrato.

—«É porque a conheces mal. A mim succedeu-me o mesmo, sentia até uma especie de repulsão.

—«Emfim... eu cá estou para a ver e modificar as minhas opiniões.

—«É verdade, ainda não te perguntei nada lá de casa. Josephina como está? Ainda muito queixosa da morte da filha?

—«Sempre o mesmo. Estimam-me muitissimo e eu como que preencho o grande vacuo que a infeliz deixou no coração de todos. Mas a casa está tão cheia d’ella que eu mesma me desespero com tal morte.

—«E não a conheceste! Era uma criança encantadora, tudo quanto possas imaginar de mais gracioso e intellectual. A morte d’um filho deve ser para enlouquecer!

—«E deve!... Só eu pensar que me pode morrer o meu filho, e mais ainda não vive senão dentro em mim, parece-me que endoideço!...

—«Bem, mas não se deve agora fallar em coisas tristes, faz-te mal. Teu tio, já o viste?

—«Não. Imagina onde estará por este bello tempo dos cães beberem de pé?

—«Aonde?

—«Em Cintra! já para lá telegraphamos. Sabes que vive agora no hotel, aborrecido de se ver só em casa, enfastiado de aturar criados. Mobilou tres quartos e lá está com o velho Dick.

—«Confessou-me o outro dia que está realmente aborrecido de viver só e muito resolvido a fazer-te a vontade indo para a provincia... Offereci-lhe a nossa casa, agora deshabitada e... já me pareceu mais longe d’isso.

—«Quem me dera que assim fosse! Se te lá apanhasse a ti e a elle, era completamente feliz. Vive-se tão bem longe de tudo e de todos!...

—«Lá por mim, se não vou não é por falta de vontade. Agora dizem-me que o clima é mau para mamã... Não creio muito, mas não quero tomar a responsabilidade comprehendes.

—«Pois, na verdade, tua mãe é de lá, sempre lá se deu bem!... Coisas do mundo. E o Duarte como está?

—«Creio que bem, ainda hoje o não vi. Ao almoço não appareceu, mandando pedir desculpa por ter de sahir cedo.

—«Não sabes onde foi?

—«Não sei.

—«É-te indifferente isso?

—«Quasi...

—«Mas o que o retem tanto por fóra?

—«Talvez ainda a politica, talvez os negocios. Sabes que a sua ultima mania é o bric-á-brac?

—«Sempre foi um colleccionador intelligente.

—«Mas agora é negociante. Tem comprado coisas de um alto valor artistico, pequenas maravilhas de arte que nos suggerem toda a grandeza e magnificencia do nosso pais. É prodigioso o que havia e o que ainda existe por ahi!

—«Tem tudo cá em casa?

—«Pouco, o mais precioso e o indispensavel para decorar segundo as suas ideias de artista e de estudioso. Não me interesso como possuidora por essas riquezas que a maré do seu capricho e do seu dinheiro amontôa ou espalha. Doe-me a consciencia só de pensar que o melhor tem seu caminho para o estrangeiro—e nós sem um verdadeiro museu d’arte em Portugal!... Preferia que o Duarte não negociasse, comprasse só para si. Em todo o caso, antes isso do que a politica...

—«Estimas que deixasse a politica pelo bric-á-brac, mas aposto que não gostarias que a abandonasse por uma mulher...

A viscondessa sorriu com amarga ironia.

—«Por uma... meu marido!?... Creio que não conhece o singular nesse genero.

Bella teve um franzir de labios—que queria ser um sorriso—e um gesto de imperceptivel desânimo, emquanto a amiga continuou:

—«Bem sabes que vivemos de modo que não se comprehenderiam os ciumes. Exijo-lhe apenas a delicadeza de não me tornar ridicula e o dever de não amargurar os ultimos dias de minha mãe... Mas espera, nós aqui a conversar, a conversar, e afinal, isto devem ser horas de jantar. Olha, já oito! Como o tempo corre quando se está bem; querida Bella, que alegria me deste hoje! Estava n’um d’estes estagnamentos d’alma em que alegrias e tristezas passam pelo nosso espirito como gota d’agua correndo sem o molhar sobre um panno enxuto... Vieste sacudir-me d’este torpôr, fizeste-me um bem que nem tu sabes!

Ao tempo que se levantava para dar ordem de servirem o jantar, um ruido de vozes fê-la parar na espectativa e a porta, abrindo-se, fez-lhe soltar uma exclamação de alegria ao deparar com o dr. Ramalho.

—«Meu Deus, mas hoje então é o dia das surpresas agradaveis?—dizia comprimentando. E perguntava á amiga se sabia que o doutor estivesse tambem em Lisboa.

—«Viemos juntos.

—«Porque me não disseste?

—«Para ser surpresa completa. Espera, parece-me que oiço a voz do João.

—«Vamos que estou morta por o vêr.

Mas João não se fez esperar, appareceu á porta, sorridente, já de mão estendida para comprimentar a prima, que o abraçou n’uma grande ternura maternal.

—«Agora, para a mesa, que já é tarde para estomagos de viajantes—disse encaminhando-se para a casa de jantar.

—«E teu marido?

—«São oito e um quarto, não appareceu é porque janta fóra.

Os dois homens e Bella entreolharam-se e seguiram-na sem mais fallar no assumpto.

—«Amanhã é que teremos de jantar mais cedo—disse, quando já sentados á meza—para não perdermos nada da Duse. É claro que vão comnosco.

—«Oh filha, cá por mim e pelo João se não tiveres logar não te apoquentes. Eu já a vi em Milão, em Paris e em Madrid, conheço-a em todo o seu reportorio.

—«Mas não fazes sacrificio em vê-la, não?

—«Isso não, pelo contrario. É sempre um saboroso prazer ouvir uma grande artista.

—«Então iremos.

XVII

Quando os viscondes, com João e Bella, entraram na sua frisa no D. Amelia, a sala tinha o aspecto buliçoso e alegre das grandes noites de enchente. Já no vestibulo os homens quasi se esmurravam, apesar de apparencias de cortezia, junto do cubiculo do bengaleiro que não tinha mãos a medir para guardar abafos e bengalas.

Alguns, mais impacientes, não duvidavam empurrar as senhoras que aguardavam os maridos para entrar na sala, com o desplante que geralmente usam os homens quando o egoismo os mostra tal qual os tem feito seculos de supremacia social e que torna identicos em todas as classes os processos que usam para se desembaraçarem de importunos.

Toda essa multidão, partindo do vestibulo, se escoava pelas portas e corredores, apressando-se a occupar o seu logar antecipadamente obtido e acariciado como sonho que a fortuna realisára. O pittoresco e o brilho d’esses espectaculos, muito caros e de pouco interesse para o vulgo, accentuavam-se nas poucas noites em que a Duse se apresentava ao publico de Lisboa, ávido de se mostrar á altura da civilisação que lá fóra consagrára a grande actriz.

Não havia logares inferiores, de cima a baixo todos representavam um preço que não admittia a blusa do operario e o vestidinho domingueiro da costureira ou o côco dos pequenos burguezes, bem indifferentes de resto a acontecimentos artisticos, para os quaes lhes falta a educação esthetica.

As casacas pretas crusavam-se nos corredores do terceiro andar como nos do primeiro, e senhoras conhecidas na sociedade, que não tinham podido obter melhores logares, riam de se encontrarem nas varandas com artistas, principalmente litteratos novos, cujas bolsas lhes não abonavam mais commodo logar para satisfazer a necessidade intellectual de ouvir e vêr a genial artista, faziam uma festa picante, com sabôr a extravagancia, d’essa invasão elegante em todo o theatro.

A cada momento se abriam portas de camarotes, e mulheres meio-vestidas de gala, refulgentes de pedrarias, vinham encostar ao parapeito carmezim da balaustrada os braços enluvados. O ruído das conversas enchia a casa de um rumorejar de colmeia e os leques agitavam-se como azas palpitantes de loucas phalenas nocturnas que a luz atrae e queima. Sentia-se uma atmosphera quente de primavera que já floria os primeiros lilazes e enverdecia as arvores do passeio sem embargo da chuva que todo esse inverno se mostrara, com raros intervallos, irritante pela persistencia.

Os homens na plateia voltavam as costas ao proscenio, passavam em revista as espectadoras, punham o monoculo e acariciavam o bigode, sorrindo, satisfeitos, do mundo e de suas pessoas. Outros discutiam politica, liam os jornaes da tarde, ou amodorravam-se nas cadeiras ao lado das esposas.

Como nessa tarde fôra a primeira toirada da época, que terminára sob uma forte batega de agua, espessa como fumo, que n’um abrir e fechar d’olhos evacuára a praça, contavam-se incidentes picarescos da volta sob a chuva violenta que não admittia chapéos e cegava os que na lucta por americanos e carros tinham ficado vencidos, tendo de esperar em qualquer abrigo de porta ou resolver-se a aguentar o peso d’agua caminho de suas casas. Discutia-se Guerrita, que não estivera nas suas melhores tardes de _sorte_; fallava-se na Duse, que alguns já tinham visto lá fóra, que outros ardiam por vêr, dispostos a acharem extraordinaria essa notabilidade que uma fama universal precedia—Messias de uma arte nova, toda feita de verdade flagrante, commovendo com lagrimas e alegrando com risos copiados da sua maneira de sentir a vida, gritos arrancados ás suas proprias dôres, gestos usados nas scenas reaes em que a superioridade intellectual da artista apreende e estuda no corpo da mulher que a materia despoticamente reivindica.

Sarah, a sacerdotisa—magna, amada sobre todas, vinha aos labios dos fanaticos como um desafio á tragica italiana. Os que as conheciam, a ambas, discutiam apaixonadamente, ora dando a supremacia áquella que na sua voz cantada no ritmo da phrase, no choro contido a custo, consegue hypnotisar a multidão, vencer o bom senso que requer a verdade, subjugar os profanos e os descrentes até que o seu fragil corpo se estorça em gritos que arrepanham a alma, que a esfrangalham n’uma lancinante espectativa e lha atiram aos pés, frenetica de applausos, para se não dar em lagrimas e contorsões de hystería.

Outros desdenhavam a francêsa, vantajosamente apresentada a um povo que vive intellectualmente da França, copiador servil dos seus modelos, e aclamavam como a maior de todas, a mulher de verdade que a Duse se mostra, fazendo do palco uma escola de anatomia em que a sua alma escalpella com a precisão scientifica de um operador retalhando fibra a fibra o corpo que a doença ou a morte lhes trouxeram á mesa das operações.

Na frisa da direita, onde a Viscondessa e a amiga se sentavam entre os maridos, discutira-se arte, evocara-se nomes e situações em que os artistas favoritos se excediam a si proprios, e Bella lembrára Novelli, o artista que para ella, mais ainda do que a Duse, realisava o supremo ideal da arte moderna, a verdade, que é para os nossos espiritos fatigados de sentir e soffrer pela imaginativa o oasis onde nos comprazemos em descançar das orgias poeticas e romanticas de ha vinte annos.

Mas o Visconde não se sentia n’essa noite disposto a conversas que exigissem esforço de maior attenção, e a meia voz, n’uma visivel sobre-excitação de nervos que se mascarava em risos, notava figuras, recordava escandalosinhos que andavam na boca de todos, contava casos que faziam sorrir os companheiros, principalmente na descripção dos _raouts_ que esse inverno inaugurára o Maximiano e onde os jornaes do _high-life_ diziam encontrar-se quanto ha de mais selecto na _nossa_ melhor roda.

—«A _nossa_ é a d’elles, jornalistas—ria com soberano despreso—O que os faz enternecer é a abertura do bufete á meia noite e a possibilidade de um empregosinho disfarçado...

—«Temos então o Maximiano singrando com vento de feição no mar largo das grandezas?! Como a conselheira não exultará com a civilisação britannica das suas reuniões da moda!...—commentou João.

—«É plantio d’estaca, ainda está longe da floração...

—«É ridicula esta gente na sua mania imitadora!—disse, séria, a Viscondessa.—Nem o nosso meio, nem a educação, nem as fortunas, comportam essas festas inventadas pela aristocracia de Londres, que em divertimentos como em negocios não pode esbanjar tempo, e que n’um mesmo dia tem que assistir a muitas reuniões, sob pena de deserção.

—«Mas se o nosso feitio é de perpetuos imitadores, que se lhe hade fazer? Já nos não contentâmos em imitar a França, invadimos agora a nossa _perfida alliada_, que qualquer dia reclama por indemnisação e contribuição de guerra qualquer das nossas possessões... Com perdão de V. Ex.ᵃ, minha querida prima inglêsa!...

—«Só _meia inglesa_, meu caro Visconde, e não tiro d’isso motivo de orgulho superior ao de ser portuguêsa...

—«Pois nem todos dirão o mesmo, quantas pessoas desejariam ter uma costellasinha de qualquer país estrangeiro para maior lustre e chic dos seus nomes!...

—«Não vi ainda a Candida—reparou a Viscondessa.—Não virá?

—«Hade vir, mas tarde, com os ares de soberana que se arroga...

—«O camarote está vasio.

—«Mais uma razão. Se ella não viesse já o Braga o teria occupado, para não perder tudo. Não encontrando a quem o passar, o que não seria facil a estas horas, viria elle mesmo, para tirar o seu rico dinheiro a limpo.

—«Pobre homem! Vocês riem-se d’elle e afinal é um bom marido, que faz tudo que a mulher deseja.

—«Oh prima, essa opinião é a das meninas lá da terra, por isso se desesperam de o não ter conquistado—sorriu João á convicta lamentação da Viscondessa.

—«Nem com todas teria a mesma docilidade. A Candida é uma força viva que não convem alienar a quem se arrisca por caminhos de que só a politica conhece as encrusilhadas.

Esta, como todas as outras phrases do Visconde, sahira lhe cortante de ironia, tão amarga, por intencional, que João e Bella se entreolharam surpresos da revelação. O ciume escancarava aquella alma que o estudo e o habito tinham conseguido conter na reserva que a essas ligações exige a hypocrisia social.

Ingenuamente, a Viscondessa continuou:

—«Não acredito nada d’isso que dizem; para que fosse verdade o ministro da fazenda estar ao dispôr do Braga pelo interesse que a Candida lhe inspira, seria preciso que ella o animasse.

—«Sei lá, mulheres!...

—«Nem todas são o mesmo. Apesar de _coquette_, creio bem que a Candida é honesta.