Ambições: Romance

Part 14

Chapter 143,995 wordsPublic domain

Práticas que fazia aos domingos todas versavam sobre a conveniencia de se instruirem e trabalharem, que era assim que Deus queria o seu povo.—«Casa onde não ha pão todos ralham e ninguem tem razão—dizia na sua phrase chã, simples como a sua alma e facil de comprehender por todos os humildes que lhe frequentavam a igreja—ora vocês trabalhando e tendo saude têm que comer. Aos domingos, se se entretiverem a estudar um pouco, a lerem bons livros para não ficarem uns brutos como os animaes que os servem, se cultivarem as suas flores no quinxoso ou nos vasos da janella, que isso não é peccado nenhum, desamparam as tabernas e não se mettem em rixas e bulhas que não dão bom pão. Olhem vocês que o que Deus quer é a alegria e a felicidade de nós todos; deixai dizer quem préga o contrario...

Na sua santa inconsciencia, que bem preoccupava as irmãs, deixava que o cura se assenhoreasse a pouco e pouco das obrigações da parochia que traziam bem estar e lucro, que as outras as ia desempenhando sempre o velho. Era agora elle, o padre Mathias, quem dizia a missa das onze e esperava na sachristia a passagem das senhoras que se habituavam a encontra-lo alli para tratarem dos negocios espirituaes em que as entretinha. Era elle que as confessava e lhes insuflára o gosto pela devoção do mez de Maria, tão habilmente escolhida para esse dulcido mez de maio em que as rosas desabrocham perfumando a atmosphera, e os corações moços deliquiescem em ansias de consoladora ternura... Era quem lhes fazia as novenas e lhes levava as filhas á primeira communhão, em procissional theoria; era o indispensavel em tudo.

E gabava-se para o Telles:

—«Você verá quem vem para a festa do Sagrado Coração! É uma bomba que ha de estoirar ahi.

—«Quem é então?

—«Se lho disser fica sabendo mais do que eu...

—«Ora diga lá, ande, bem sabe que sou de confiança. É alguem que eu conheça?

—«É alguem que nos dá a certeza de nunca mais cá metterem o bico no concelho...

—«Ah!... É o André de Athayde?...

—«Adivinhou ou alguem lho disse. Apre! Tem custado, mas agora é que é definitivamente nossa a victoria.

—«O recenseamento já não estava mau...

—«Mas o grande caso ainda não é esse...

—«Então qual é?

—«Não digo; confio em você mas o seguro morreu de velho...

—«Olhe que isso até me offende! Sendo eu de confiança do Emygdio, que até me fará seu secretario particular logo que seja ministro, nem sei agora o que pensar dos seus segredos.

—«Vá lá, não se zangue. O caso é que não só vem o André Athayde com o Padre Sancho como trazem os dois missionarios que têm levantado toda essa provincia com a sua palavra temerosa!...

—«O que vejo é que você mudou de todo! Ha pouco mais de um anno que era todo liberalão e até tinha raiva a esse André da Fradosa por causa de ter causado a morte ao filho, com a beatice. Lembra-se?

—«Agora vejo as coisas melhor... O Pedro era um asno, quem no mandou fallar antes de tempo? Casasse primeiro que depois de senhor da fortuna da prima é que podia cantar...

—«Mas você era o primeiro que dizia que elle era uma joia, um caracter esplendido, e que foi o pae quem o matou com as más ideias reaccionarias.

—«Não se queria sugeitar, pois neste mundo quem quer ser independente de mais acontece-lhe assim. Diz que foi o pae que o matou, ora! Foram mas foi as pandegas lá de Paris.

—«Oh homem, já lhe ouvi dizer, e a muita gente mais, que o Pedro era até um rapaz honesto e sério, como dizem que é o sobrinho, que foi companheiro e amigo intimo do João de Mello...

—«Pois sim, era até honesto de mais porque chegava a ser parvo com as taes franquesas. E d’ahi, que mal lhe faziam os padres e as irmãsinhas lá em casa? Deixasse. Hãode ir para muito longe os taes meninos educados nas ideias modernas!

—«Oh Sr. Padre Mathias, olhe que parece que o voltaram de pernas para o ar. Parece até impossivel que um homem como você era se mudasse assim! Isto até me faz mal, creia. Tomára que o Vilhegas me arranjasse um logar lá por Lisbôa, porque aqui abafa-se. Hãode tornar esta terra inhabitavel. Eu, que me preso de ser liberal e tenho confiança que a sciencia e a instrucção hãode transformar o mundo, sinto-me manietado e impotente, com os nervos tangidos n’um sobresalto deante do reaccionarismo triumphante.

—«E você cuida que lá por Lisbôa não é o mesmo?... Está enganado, pergunte ao Vilhegas quem é que lá manda agora.

—«Mas a par d’isso ha muito quem se liberte, ha maneira mesmo de se reagir sem todavia ser um revoltado.

—«Pois sim, faça você versos, que eu cá trato da vida comforme calha. E deixa-me ir á prosa, que é como quem diz á vida, que a morte é certa. Preciso de encontrar sem falta aquelle velho tonto do abbade que sae de madrugada e só recolhe á noite. Hade ganhar muito em se metter com a ralé, deixe, assim como o Ramalho e a tal inglesa e o marido que querem fazer d’estes brutos gente livre!...

—«E porque não?

—«Você é _nephelibata_, oh Telles! Eu cá não o entendo. Pois se approva aquellas _lindas ideias_,—que lhes hãode dar na cabeça, verão!—vá com elles.

—«Olhe, sr. padre Mathias, a dizer a verdade, a minha sympathia intellectual têm-na toda. Não vou com elles porque sou amigo do Emygdio e tenho necessidade de subir, de ser mais alguma coisa do que simples boticario d’aldeia. Para isso têm cá o Domingos desde que você o passou, com a tropa toda, para o seu lado...

Torcia o bigode, ironico, emquanto o cura, para não responder, protestava pressa e ia dizendo entre dentes:

—«Pois sim, rala-te! Tem mais juiso do que tu com as tuas republicanices...

Foi a correr para apanhar o abade na igreja depois de recolher do enterro de uma pobre viuva, que deixava quatro filhos sem outro patrimonio mais do que o dia e a noite. Preferia fallar-lhe alli, de surpreza, antes do que em casa, onde os olhos de D. Joanna o obrigavam a morder-se n’uma impotencia de remordimento culposo.

Tão feliz que foi a tempo de o abordar já quando recolhia, tiradas as vestes cultuaes, e, de passagem, piedosamente, se ajoelhára nos degraus do altar mór.

Pedia-lhe o seu consentimento e concurso para que nova e mais luzida festa se fizesse ao Coração de Jesus, coincidindo com a communhão das meninas, que andava preparando...

—«Que sim,—respondera o velho, farto de ouvir reprimendas da irmã mais nova e de perceber os sustos em que vivia D. Joanna—que prestaria o seu concurso de bôa vontade. Como era servir a Deus, de qualquer maneira lhe agradava...

—«Mas, sr. abbade, é que nós tinhamos ideia de convidar os dois santos missionarios que têm levantado a sua voz auctorisada até na Sé, deante do sr. bispo, para virem fazer algumas práticas e preparar as crianças, e moralisar esse povo tão desenfreado...

Aqui deu um salto o velho abbade e, olhando o cura de alto a baixo, respondeu-lhe com uma voz vibrante, que o tornava respeitavel, apesar da sua estatura quasi a dobrar e da sua pobre batina no fio:

—«Mal me parece, sr. cura, que venham a esta terra, onde só ha ovelhas mansas, esses caçadores de terriveis lobos, para, em vez dos seus pastores naturaes, as conduzirem a melhor pastio. Se para missionarios têm vocação, para que preferem estas bôas terras onde todos adoram Nosso Senhor Jesus Christo e na sua lei vivem, e abandonam tanto infiel á negra ignorancia e idolatria?!...

—«Nós não temos nada com isso; prouvera a Deus que eguaes meritos me fizessem a mim tão admirado e estimado como elles.

—«Pois sim, mas esta gente é que não precisa de quem lhe faça práticas, antes lhe faz mingua quem lhe dê pão...

—«Sr. abbade, sr. abbade,—gritou o cura desvairadamente, vendo-se contrariado por quem até ahi lhe não tolhêra o passo.

—«O que é?—respondeu o velho com serena grandeza.

—«Veja o que faz, olhe que o sr. bispo approva a nossa ideia e elle saberá quem nos contraria.

—«O sr. bispo, como meu superior, póde affastar-me da minha igreja, mas não pode, emquanto eu estiver sentado n’aquella cadeira de parocho, obrigar-me a receber intrujões que só querem desvirtuar a palavra de Christo e conduzir o povo ao barbarismo. A isso não me obrigará elle, nem ninguem!...

—«Previno-o mais uma vez, sr. abbade!... Olhe que lá diz o dictado: «com teu amo não jogues as peras».

—«Podem tirar-me o pão, mas ninguem me obrigará a falsear a minha consciencia.

—«Aqui não ha consciencia, ha desobediencia,—gritou fóra de si.

—«Vá, sr. cura; demais sei eu o que o senhor é e o que pretende. Diga ao sr. bispo que estes braços trémulos de velho, cançados de se levantarem em supplicas ao Deus piedoso e bom que nos deixou o testamento do Evangelho, ainda terão forças para pegar na enxada e ganhar o pão honradamente para mim e para os meus.

—«Sr. abbade, não me cance a paciencia—rouquejou o cura, vendo o sachristão e o sineiro pararem assombrados á porta da sachristia.

—«Paciencia demais tenho eu tido, sr. cura, e já me basta de lhe ouvir as hypocrisias e fingimentos. Nunca por nunca, fique sabendo, emquanto eu fôr parocho d’esta terra, hãode ouvir os meus parochianos quem os desnorteie e afflija.

O padre Mathias sahiu a deitar lume pelos olhos—na expressão ingenua do sachristão—e n’essa mesma noite partiu aforradamente para Fradosa, a conferenciar com o fidalgo e com os missionarios seus hospedes.

Tres dias depois teve a resposta á sua justa objurgatoria, na noticia de que a missa lhe era tirada, ficando suspenso emquanto não respondesse ás accusações que lhe eram feitas:—de despresar o culto divino, tratar tão sómente do bem corporal, entravar com seus discursos e opposição toda a iniciativa dos bons catholicos para uma salutar propaganda religiosa... A seu tempo seria chamado para se defender.

—«Defender-me eu?—dizia, mal segurando a carta nas pallidas e vacillantes mãos—defender-me de quê, se de nenhum mal me accusa a consciencia?!...

—«Então que lhe dizia eu, mano?! Se o seu defeito é ser franco!...

—«Pois fui e não estou arrependido; tiram-me a igreja, tiram-me as obrigações, mas tenho as devoções...

—«E obrigações tambem, querido amigo,—disse Isabella que tinha entrado, chamada pela criada do abbade que n’um pulo a fôra prevenir d’aquella grande afflicção.

Abraçou os velhos soluçantes, tentando em vão conter as lagrimas que a pungitiva scena lhe repuxava aos olhos.

Por fortuna não tardou que João accorresse ao seu chamamento e, para maior consolo dos velhos, acompanhado pelos paes: Josephina, não querendo abandonar as amigas n’essa hora de provação; Antonio de Mello, muito grave, pesando bem as palavras da carta que o abbade lhe entregára.

—«Mas o que é isto—dizia João, animadoramente—ha aqui quem chore e esmoreça por ser perseguido em nome da hypocrisia e da ambição?!... Ora vamos, tia Joanna—desde criança que assim chamava a velhinha, que bem como sobrinho o amára sempre—isso nem me parece seu! O nosso abbade já o não é da parochia, melhor nos póde servir e ao povo que tanto ama. Tiram-lhe a igreja, tem a escola; tiram-lhe a missa, tem a communhão espiritual dos infelizes. Não acompanhará os mortos que vão para a vala, ajudará a bem morrer os que não tem que deixar em testamento...

—«Vamos, sr. padre Antonio,—ajudou Isabella—mais do que nunca o seu concurso nos é preciso, mais do que nunca é urgente que se dedique á nossa obra de redempção.

—«Nada de lagrimas, que felizmente não lhe tiram o pão. Procuravamos um director para o asylo, têmo-lo felizmente agora, e o melhor que podiamos esperar.

—«Não é a falta de dinheiro que nos mortifica, Joãosinho, é a desconsideração...

—«E vêr aquelle marôto tomar o logar do nosso irmão, como se já estivesse morto!—soluçou a outra irmã.

—«Deixe, mana, que isso não me magôa. Bemventurados os que soffrem perseguição pela justiça. E vamos mas é tratar de sahir d’esta casa, que desde hoje deixa de pertencer-me.

—«Ora até que emfim!—disse João, sorrindo—É preciso trabalharmos todos para hoje mesmo irem para nossa casa e deixarem a residencia para o _sr. cura_...

—«Não, prefiro que me alugue a primeira casa que se acabou no nosso bairro. Pois não sou eu agora um operario, um trabalhador, como aquelles a quem as destinamos?!

—«Concedido e approvado, e será a melhor festa de inauguração que podiamos sonhar!

—«Chega a ser symbolico—concordou Isabella gravemente—e hade dar-nos ventura, porque prova a justiça da nossa causa.

XVI

Ia o inverno quasi no fim, e, apesar de não estar frio, os ultimos dias tinham vindo tão chuvosos e tristes que a viscondessa se conservava junto do fogo n’um enregelamento d’alma tiritante de abandonada e tediosa.

O que lhe custára esse ultimo verão que passára, sacrificada, sem ir gosar os seus mezes de verdadeiras férias na casa de provincia em que tinha nascido e onde lhe andavam esparsas as melhores saudades da sua vida, diziam-no bem o empallidecimento das suas faces, o amortecimento dos seus bellos olhos de peninsular. A melancolia que a principio fôra uma ligeira sombra, como nuvem que se esgarça e dilue em céo puro, começava a avolumar-se, carregando-lhe a expressão e avelhentando-a quasi.

Era a impressão que teria quem lhe podesse vêr o ar mortiço, o quebramento de forças e de vontade que a tinha alli em frente do fogão,—um livro aberto, no regaço, os olhos presos na chamma que se avivava ou amortecia, seguindo caprichos de fórmas e phantasias de desenhos varios.

N’aquella hora triste que precede a noite, quando o céo enlividece com a ultima claridade de um dia que se arrastou pardacento e molle, e nas ruas encharcadas o gaz começa a reflectir-se em largas manchas espelhadas, os pregões n’um rouquejar de miseria atiram para a vida o ultimo soluço e os que passam açodados sob a chuva têm o ar de sombras que se esgueiram e desapparecem mysteriosamente na noite, a viscondessa sentia-se tão desoladamente só, tão abandonada de gosto e desejo que pouco mais tinha da vida além do brilho dos olhos, que conservava presos no faiscamento do brazido.

Cahira, havia mezes, n’uma d’essas tristezas vagas e sem causa aparente, que nenhum divertimento consegue afugentar e que já na medicina é tida como prognostico de doença que é das mais teimosas e caprichosas que atacam as almas e os cerebros rudemente experimentados pelo trabalho ou pelo soffrer.

É que a paixão de Bella e João, observada e sentida de perto, como se a sua alma lhe fôsse abrigo, levara-lhe todo um anno n’uma sobre-excitação, n’uma alegria que a volvera criança, que a fizera viver essa época unica da sua existencia em que amara, fôra amada e sonhara a vida um roseo sonho sem despertar, que julgou a realidade.

Ao lado da amiga, aconselhando-a, acompanhando-a e guiando-a em todo o complexo assumpto do enxoval, o seu espirito chegaria, talvez, a possuir-se da ideia de que era sua aquella felicidade.

Depois, com o casamento d’elles, a solidão fizera-se-lhe mais completa, a sua alma cahira mais fundo na indifferença d’uma existencia que não tinha um fim.

É certo que não abandonara o que chamava os seus deveres de mulher de sociedade, tendo camarote em S. Carlos, indo ás primeiras representações, frequentando as festas elegantes, dando o seu nome para todos os divertimentos de caridade, recebendo semanalmente n’umas reuniões intimas a que ia toda a Lisboa, ella que não tinha intimidade com ninguem.

Mas tudo isso o fazia por habito, com o espirito alheado e desinteressado d’aquella vida em que o corpo se lhe fatigava.

Não obstante,—tão grande é em nós essa força!—adquirida pelo uso conseguia communicar ás suas festas uma alegria de que estava bem longe, e tinha espirito e intelligencia bastantes para intellectualisar mesmo essas reuniões, que havia dois invernos estavam na moda e para as quaes se mettia empenhos para ser convidado, como se fosse a iniciação da suprema elegancia ser recebido n’aquelle interior aristocratico.

Na verdade, a severa compostura do seu porte e a graça exangue do seu sorriso diziam bem com o rico mobiliario herdado e que o visconde acrescentava sempre n’um enthusiasmo de apaixonado bric-a-braquista.

Entre os pesados cadeirões com pés de garra, os tamboretes de velludo lavrado, os pannos d’Arrás forrando as paredes onde os avós se alinhavam em solemnes attitudes, os reposteiros armoriados, os bufetes e contadores, n’uma uniformidade de estylo que era a maior preocupação do visconde, essa nobre figura de mulher d’um ancestral perfume como que completava o conjuncto.

No entanto, a verdadeira alma de todas aquellas festas era o proprio visconde, que nos ultimos tempos mudara as suas predilecções e habitos, a quasi ser outro homem. Conservava-se sempre no salão junto das senhoras, indo de fugida e contrariado á sala de jogo, respondendo distrahidamente a quem o abordasse para negocios e politica.

Tornára-se o idolo das mulheres, que lisongeava nos seus gostos e caprichos, discutindo modas, organisando festas onde podiam exibir o encanto dos sorrisos e o luxo dos vestidos copiados dos grandes retratos de mestres, escolhendo as musicas com que as fazia dançar, e não deixando fugir os rapazes para as salas de fumo, sendo emfim a alma de toda uma sociedade que vive para se divertir.

Tinha ditos de espirito que faziam época, e a pessôa que distinguisse uma vez tinha a certeza de estar em evidencia, pelo menos oito dias.

Mas eram ainda as mulheres as suas mais sinceras admiradoras, porque lhes deviam momentos de orgulho satisfeito, porque as envaidecia e lisongeava sem o dizer, só porque era um homem d’espirito que se divertia e se mostrava alegre junto d’ellas.

Por isso sorriam n’uma tacita desculpa, quando os descontentes e os adversarios boquejavam sobre a sua grande intimidade com o Braga usurario, que aproveitava a situação politica do Visconde para fazer o seu jogo e augmentar a fortuna, sem embargo do fausto em que a Candida vivia.

Tambem esta se tornára a mulher da moda, em que todos fallavam, que as modistas vestiam como figurino, que os homens cortejavam, que as outras invejavam, procurando-a e convidando-a, não obstante, para todas as festas, porque seria uma falta de actualidade imperdoavel não mostrar entre as flores das grandes jarras da China, os espelhos de Veneza e os biombos laqueados, esse busto de mulher que se desnudava com orgulho e tinha soberbas attitudes de marmore antigo.

Sorria, sentia-se feliz, quasi bondosa á força de felicidade n’aquelle meio elegante e futil que correspondia a todas as aspirações do seu espirito. Se n’elle tivesse nascido, se não tivesse consumido a infancia no sonho ardente de todos os gosos que o dinheiro pode trazer a uma alma que de vaidades vive, não teria sido a mesma Candida que empurrara para a sepultura a que lhe fôra mais do que irmã.

Perversamente egoista e ambiciosa era tão culpada por isso como pela belleza fatal que a tornara uma força da natureza.

Filha do meio, herdeira d’um sangue que o alcool envenenara, adulada em vez de severamente orientada pela educação, era como bella e orgulhosa flor cujo pé mergulhado no pantano de morte e podridão nutre o encanto das suas petalas.

Desvanecida a anthipathia que a principio inspirara á Viscondessa, tornara-se á força de delicadezas e blandicias a sua amiga mais intima, quasi da familia, um dos atractivos das suas festas. E n’esse convivio aprendêra o segredo de usar o luxo com a indifferença elegante, que raro alcançam os ambiciosos que a fortuna visitou tarde, já depois da miseria lhes ter imprimido a marca de vulgaridade.

A Viscondessa é que não era feliz n’um meio onde tudo é falso mas brilhante, onde só se cuida de apparencias, n’uma sociedade que se acotovella desrespeitosa na ambição de gosar e subir, n’uma sociedade que despresa almas e sómente se curva ao dinheiro e ao poder.

D’ahi aquelle eterno sorriso, aquelle deixar correr a existencia sem lagrimas nem alegrias, que lhe dava o ar mortiço e egual de quem anda por habito no mundo, sem energia nem desejo de correr á feira d’interesses e luctas que desvaria quasi todos.

Sentia-se só. Faltava-lhe a companhia de Isabella Burns, cujo espirito arejado e vivo se tornara uma necessidade do seu coração. Porque, se é verdade que Bella tinha uma dôce e nobre alma feita para comprehender os mais elevados ideaes, no seu espirito deixara fundo traço a educação prática que recebera. Era uma meredional pelo queimor do sangue, pela vivacidade da phrase e pela paixão; mas tinha a dar-lhe a fórma viavel no mundo o altivo bom senso, que a tornava um espirito prático, um d’estes caracteres que as mesquinhas contrariedades não quebrantam e á força de persistente energia realisam o que no dizer da maior parte não passa de utopias de sonhadores.

As suas cartas vinham cheias de enthusiasmo pelos trabalhos já executados e vibrantes de esperança pelo muito que ainda tencionavam fazer. Fôra por ellas que a viscondessa soubera da intriga que tornara o velho abbade uma victima das invejas e ambições do cura, e fôra por ellas tambem que lhe constara a entrada para o hospital e para o asylo da Misericordia das irmãs hospitaleiras, tornados assim succursaes de conventos e collegios, com pretexto de beneficencia... O que podiam fazer os seus amigos n’uma terra assim illaqueada, com a protecção interesseira do Maximiano que sem embargo se apregoava ainda um velho e convicto liberal?!... Por ella, sem força nem vontade para luctar, decerto que desistiria limitando-se a fazer o bem compativel com as suas forças. Mas Isabella protestava.—Que lhe importava que todos esses burguezes roidos de ambições e mesquinhos de interesse preferissem continuar a viver na ignorancia e na falsidade?! Ella oppunha-lhe o futuro com a fundação da sua escola de enfermeiras para a qual o tio lhe abrira já um crédito no banco de Londres, opporia a illustração e a intelligencia á rotina e á ignorancia. Quando tivesse no seu instituto enfermeiras bastantes, educadas segundo os preceitos da sciencia e da hygiene moderna, com ellas se apresentariam a todos os medicos dos hospitaes portugueses e veria então a Maria Helena se esses homens, que representam a sciencia e são como que os fiadores da vida de seus irmãos, teriam coragem, ainda os mais reaccionarios, para lhes preferirem outras, ainda que bondosas, mas sem illustração ou curso que as faça uteis collaboradoras na obra da sciencia. Esperava fazer em Portugal a luminosa obra que em Inglaterra realisou Miss Florence Nightingale, assim vivessem... E com respeito a asylos e escolas o seu projecto era o mesmo... A não ser que n’este pais já se tivesse obliterado por completo a noção da justiça, claro que os mais bem apercebidos para a lucta é que seriam preferidos...

Maria Helena duvidava... tinha já visto tanto e sentia-se tão desanimada de triumphos que a politiquice e a mariolada eleitoral não bafejassem, que sem querer o espirito se lhe entravava na descrença que aliena tantos corações honestos, que quebra tanta iniciativa proveitosa.

Quedava-se n’aquelle vago scismar que era agora a sua melhor distracção, quando uns passos apressados pararam á porta e uma voz perguntou de fóra:

—«Minha senhora, minha senhora, posso entrar?

—«Entra.

E Rosalina, a criada de quarto, uma trigueirita alegre que adorava a ama, entrou dizendo vivamente:

—«É a senhora D. Bella, apeou-se agora, vae entrar...

—Que tolice!—duvidou, entre alegre e desconfiada, a viscondessa.

—«Tenho a certeza!—affirmava a rapariga, expansivamente, feliz em trazer uma alegria assim.

Emquanto ella ia á janella ver se descobria alguma coisa que confirmasse a noticia, Rosalina accendia o candieiro velado pelo _abat-jour_ de seda rosa e dispunha com uma certa ordem os livros e retratos que se amontoavam sobre o grande buffete do centro.

Mas a porta abriu-se logo e a voz clara de Isabella chamou:

—«Maria Helena, estás aqui?

Por um momento as duas estiveram abraçadas, beijando se e rindo com aquelle riso chalrante de mulheres novas que se estimam e se vêem depois de grande ausencia.

—«Bôa surpreza! Como se resolveram?...—perguntava, custando-lhe ainda a acreditar.