Ambições: Romance

Part 13

Chapter 133,992 wordsPublic domain

—«O Emygdio começou a assignar-se assim lá nos estudos, depois os outros fizeram o mesmo.

—«Diga-me d’essas; é o que se chama uma _nobresa de repuxo_... Elles têm razão, o nome fica mais bem soante; isto de Viegas lembra pobreza, gente sem representação...

—«Pois é por isso; elle como está mettido na politica!

—«Não tem outro remedio.

Não se fartava de troçar o pobre homem, com applauso de toda a roda.

* * * * *

Na botica nova não era menor a azafama de parlatorio e coscovilhices azedas.

Quasi sempre era o Telles, como senhor da casa e mais versado em litteraturas e oratoria facil, quem tomava a palavra para declamar contra os adversarios.

Achava elle, no ultimo artigo de arromba,—que ninguem de bôa fé deixaria de seguir essa gloria da terra, esse homem que, nos pinaculos do fastigio politico, não desdenhava a patria que o vira nascer e para a qual projectava tantos melhoramentos que fastidioso se tornaria enumera-los. Melhor seria que o povo abrisse os olhos para vêr, e então desfolhariam aos seus pés, como homenagem de corações sinceros, as flores do agradecimento... Bem se sabia o que até ahi tinham feito os magnates da aristocracia, exhibindo escandalosos feitos de protecção descarada aos seus adeptos, que de ha muito servem de muletas ao _illustre côxo da medicina_...

Este era o Ramalho...

Enumerava as phantasmagorias com que o conselheiro trazia embaidos os papalvos:—telephone para todas as aldeias, estradas em todos os sentidos, luz electrica, um lyceu, e até um americano a vapor, vários parques e jardins, e a exploração de umas aguas medicinaes que se esperava apparecessem na Senhora do Monte...

De jornal em punho o Telles lia ao seu auditorio attento e approvador, de que era principal figura o Padre Mathias, que dizia com um certo ar de compunção que ultimamente adoptára:

—«Está bem, sôr Telles, mas veja lá se o povo percebe... Seria melhor dizer ahi que _esse côxo da medicina_, o tal materialista que não conhece Deus nem o Diabo, não frequenta os sacramentos e para encobrir a sua irreverencia se finge philantropo á moda nova, tratando sómente do corpo e deixando a alma perder-se e cahir nas profundas do inferno!...

—«Isso não; olhe que o povo gosta d’elle e deve-lhe muito. E, escorado pelo abbade, ninguem poderá chama-lo hereje por não ser um frequentador assiduo da igreja.

—«Pois ahi é que está o ponto. Os que não são por nós são contra nós. Acabaram-se os tempos da transigencia culposa. Que o povo saiba que tem um abbade sem fé!...

—«Homem, não diga isso; eu sou um crente, mas olhe que uma das paginas mais negras da humanidade é sem duvida a da Inquisição e de todas as perseguições feitas em nome da religião...

—«Pois sim, sim, você tambem... é um poeta. O que se quer é força, é energia; se viesse a Inquisição, não se perderiam senão as que cahissem no chão, como o outro que diz...

—«Isso é retrogradar, padre. Muito ensino, muita luz, é do que carece o povo.

—«Você parece que me está a sahir jacobino!...

—«Deixe ser, antes isso do que retrogrado...—respondeu o Telles, com uma importancia impertigada de chefe, vendo-se assim considerado na terra pela intima amizade que o ligava ao Emygdio.

E, no entanto, nem elle nem o padre Mathias conseguiam manter o equilibrio de opiniões e ideias que o Maximiano conservára sempre, sem levantar attritos.

O primeiro não liberto ainda do ideal de progresso que o fizera em Coimbra o redactor de um jornal republicano em que toda a mocidade intellectual e livre exposera as suas opiniões progressivas; o outro, mudado nos ultimos meses, transformado não se sabia bem porque influencias estranhas...

Havia um certo tempo, desde umas visitas amiúdadas que fizera á capital do districto e de umas conferencias que tivera, dizia-se á bocca pequena, com o chefe da sua diocese, considerado o protector do reaccionarismo regional, que o cura mudára tão completamente que se dizia que o tinham voltado do avesso.

Seguira o conselho do Maximiano, que, em ar de chalaça, como dizia tudo, o avisára um dia:—Olhe que isto de _padres liberaes_ é uma asneira. Já ninguem os quer. Deixe para os tolos dizerem o que pensam... Falle com o bispo se quer ser o nosso abbade... As coisas mudaram muito nos ultimos dez annos... Nós só referendâmos o que os bispos querem.

O padre meditára; e n’aquella sua maneira impulsiva e violenta de atacar as situações, marchára para a cidade, confessára as suas culpas n’uma confissão geral, e desfizera-se em arrependimentos, que a benção do bispo santificaram.

Do antigo e expansivo cura de aldeia, gritando aos quatro ventos a sua revolta ao dogma, a contrariedade da vida que forçado adoptára, o despreso com que calcava as mais comesinhas noções da honestidade vulgar e consagrada, pouco ou nada restava, apparentemente.

Sempre sério, olhos no chão, viver regrado e quasi ascetico, toda a violencia d’aquelle temperamento de camponio mal desbastado se voltava agora, como arma de dois gumes, tornando-o um fanatico perigoso, que aos proprios amigos incommodava ouvir.

Entre as beatas já era tido por santo, e não faltava pobre velha senil que não affirmasse que aquella reviravolta miraculosa tinha sido visão que tivera na missa, entre o calice e a hostia.

Aproveitando a occasião e para se tornar effectivo e mais assiduo na convivencia do grupo com o qual contava subir até ao logar ambicionado, lembrou-se o padre Mathias de implantar n’aquelle meio, até ahi refractario a beaterios, graças ao bom do abbade, a devoção ao _Coração de Jesus_.

Fallou com o seu chefe, que lhe louvou particularmente o seu zelo e o aconselhou a interessar em tão meritoria obra o parocho da freguezia, porque era da melhor disciplina christã não relegar os superiores.

O cura sorriu: conhecia o bondoso velho que seguia a lettra do evangelho cuidando cumprir o seu dever de padre, não reparando, na sua simplicidade de primitivo, quanto se distanciava do catholicismo triumphante... Tinha a certeza de que o abbade não annuiria ao seu intento, e isso convinha-lhe para a intriga em que o queria illaquear.

Assim foi. Consultado sobre a urgencia de se abrir uma subscripção entre os fieis para a compra da imagem do Coração de Jesus, o velho não acquiesceu a essa opinião e respondeu ao cura:

—«Que bem mais do que de novas imagens precisavam os parochianos de quem os soccorresse em tanta fome e miseria como havia por esses casebres...

Voltou o padre Mathias a conferenciar com o bispo, aggravando com unctuosas e velhacas palavras de desculpa o procedimento do parocho—mas que, graças a Nosso Senhor, as damas fieis se tinham quotisado entre si e a imagem estava encommendada ao santeiro de mais fama.

Quando chegou á matriz a imagem, reluzente de vermelho e oiro, atarracada e sem elegancia nem sombra de espiritualidade esthetica, o abbade mandou-a collocar no altar-mór, visto a recommendação do prelado, sem reluctancia nem enthusiasmo.

Achava aquillo disparate, com tantos santos que havia na igreja e até na arrecadação, quando tantas obras de urgencia eram necessarias, desde o telhado até ao altar do Santissimo.

Passados dias viera o padre Mathias ter com elle para conferenciarem sobre a festa de inauguração que se devia fazer em breve, com toda a pompa, e pedir-lhe o seu auxilio moral e bôa vontade para a nova devoção tão cheia de indulgencias e promessas divinas, pela qual o sr. Bispo tanto se interessava e n’ella tanto fiava para a regeneração da humanidade.

O pobre velhote, alma lavada, coração virgem de rancores, respondeu ao cura:—que interessar-se por essa nova irmandade não podia, pois que estava velho e cançado. Mas á festa prestaria o seu concurso como a outra qualquer que particularmente os seus parochianos quizessem fazer. No entanto, sempre lhe dizia á bôa parte que melhor se lhe antolhava que protegessem as confrarias existentes e que de tanta utilidade corporal seriam como por exemplo, a do Santissimo, a da Misericórdia tão digna de protecção para sustentar o hospital e o asylo, e a da Senhora do Carmo tão util aos seus associados, e tão antiga, tão portuguesa! Deixasse aquella, invenção de uma ordem riquissima e poderosissima, que só era bôa para gente ostentosa e sem obrigações, ou para frades e freiras que pouco mais têm que fazer que desfiar rezas.

Quando á tarde contou o succedido em casa, a irmã mais velha, que mal se mexia na cadeira onde a paralysia a tinha presa, levantou do livro que lia os olhos embaciados de présbyta, e avisára:—que na sua opinião mal andára usando tanta franqueza com o cura; bem sabia que elle o odiava e lhe ambicionava o logar!...

—«Cá lhe fica quando eu morrer; deixe a mana estar que o não levo. Não me dê Deus outros cuidados. Quero mas é descançar, quando a minha vez vier...

—«O mano bem sabe—tornou ella ainda com a sua voz mansa—que o cura é impaciente. Bem sabe de que gente elle vem, que o pae nunca achou obstaculos ao seu querer...

—«Ora, mana! Não se faça echo desses boatos!... Dado mesmo que o pae fôsse, como dizem, companheiro do Braga pae no assalto á casa do Olival, que culpa tinha o filho?

—«Tinha culpa, tem culpa de ter aquelle sangue—que se fôsse só o roubo da casa do Olival!...

—«Pois sim, pois sim, não vamos agora esmiuçar a historia dos que Deus já lá tem e a quem já pediu contas... O rapaz até hoje não tem sido máu—leviano, doidito, verduras da mocidade... Até bem mudado está elle, nem já parece o mesmo que era!

—«Pois é o que me espanta, é o que me dá cuidado; a natureza d’uma pessoa mudar assim d’um dia para o outro, só por grande milagre, mano Antonio!... E os milagres vão tão raros, que até parece Nosso Senhor já os não querer fazer!

—«Ora Joanninha, desde que a mana tolhida se pôs só a lêr e a pensar, já me parece que de todo perdeu a confiança na humanidade; até ás vezes se me affigura que já descrê mesmo da Providencia divina!?...

—«Nem uma nem outra. Cada vez creio mais na humanidade, que bem guiada e educada não pode ser má. A Providencia nos acudirá n’este angustioso transe, em que tudo parece andar fóra do seu logar, em que os pobres, sem ninguem que os dirija para o bem, pensam na vingança tremenda que fere ás cegas bons e maus, culpados e innocentes. Mas tambem me convenci de que a hypocrisia é o peor inimigo do homem justo!... Lembre-se o mano do que lá diz Frei Luís de Souza:—«Oh abysmo de toda a verdade!... Quão medonho monstro é a apparencia!»

Olhava o abbade, estarrecido de espanto, do ar illuminado de pithonissa que a irmã mais velha tomára desde que, paralytica, não se levantava da cadeira senão para ser levada em braços para a cama.

Desde criança que se habituára a respeitar essa irmã poucos annos mais velha do que elle, mas que á morte da mãe tomára a direcção da familia e fôra quem os criára e educára, tendo sempre grande amôr á leitura e aos livros que em casa dos antigos viscondes, de quem o pae fôra zeloso e honrado administrador, encontrára sempre ás ordens. Mas nunca, como n’aquelle dia, comprehendeu quão fundos eram os pensamentos da intelligente senhora.

Valeu-lhe para acabar o mal estar de tal conversa, a irmã mais nova, que da cosinha, onde fazia uns bolos, ouvira do que se tratava e viera tambem dizer:

—«Queira Deus, queira Deus que o mano se não mettesse em alguma!... Não sabe que o padre Mathias anda agora mettido com todos os beatos; não sabe que o sr. Bispo o confessou e absolveu?!... Ora Deus queira!... Este homem é um _barbeiro abafado_, ora porque não faz o mano como elles?...

—«É verdade, sr. abbade,—acabou por intrometter-se a criada, que no costume patriarchal das boas casas antigas tinha vindo ao desmamar para a sua companhia e fallava como da familia—já me disse a mulher do Antonio da Capellinha que é raro o dia em que elle não vae a casa da viuva do Marques; que é ella quem protege a irmandade e quer trazer para cá um collegio de jesuitas e irmãs de caridade para o hospital.

—«Vê o mano?!... Ricos, protegidos do sr. Bispo, e com os jesuitas a aconselha-los, o que será de nós?!...

—«Hade ser o que Deus quizer, mas hão-de contar commigo—respondeu o abbade, com uma ruga na fronte. Depois terminou alegremente, levantando-se da cadeira onde se assentara defronte da irmã—Mas deixem-se vocês de lamentações e vamos ao nosso jantar. São bem capaz de me terem deixado esturrar as sôpas, suas falladoras. É aviar, que ainda vou a Maceira ver um rapaz que lá está com um typho e que aquelles brutos não querem tratar. Á tardinha heide estar de volta para examinar os pequenos da doutrina, á noite a lição do filho do José sapateiro que tem o exame á porta, coitado!... Hoje é um dia cheio e ainda vocês me vêm maçar com essa historia de beatos e Coração de Jesus!... Nem que Jesus nos não tivesse já dado o coração no Evangelho; eram lá precisas aquellas maluqueiras, que até contradizem a palavra do Senhor!...

—«Ai mano, não diga essas coisas, credo! Se o ouvem!...

—«Deixe ouvir, dê-nos a mana os bolos e deixe o resto por minha conta.

Tinha sido um bom dia para o abbade. Quando elle assim o achava e satisfeito se assentava á meza comendo as suas sopas, é que muita lagrima podéra enxugar, é que muita dôr, muita miseria, conseguira suavisar. Era por isso que o povo o estimava como a um pae, e era por elle, por Josephina, pela viscondessa e pelo dr. Ramalho, todos collaboradores de uma grande obra de simples beneficencia prática, que a eleição do Maximiano, apesar de tudo quanto usava gravata lavada, no dizer do Telles, o seguir, estava muito tremida. Isto, sem contar os caseiros das tres grandes casas da comarca: a dos Mellos, a dos viscondes e a dos Athaydes, da Fradosa, ainda seus parentes, que todos á uma, por ordem dos patrões, levavam votos ao visconde.

XV

Como se previa, e apesar da lucta desesperada do partido maximianista a que se tinham aggregado todos os _trunfos_ da terra, ainda n’essa lucta eleitoral fôra o visconde o vencedor. Mas não desanimava nem afrouxava o enthusiasmo dos vencidos, porque o governo, após as eleições e apesar da maioria nas camaras, cahira vergonhosamente com a publicidade de uns casos de empenhos e empregos por demais escandalosos.

Dissolvidas as camaras pelo novo gabinete, esperava-se que o governo em dictadura marcasse data para eleições, e para ellas trabalhavam já com affan.

Os partidarios do visconde pleiteavam, mais por honra da firma do que pelo interesse que verdadeiramente a lucta já lhes despertava, visto que o chefe a pouco e pouco, tambem, se tinha desinteressado da politica, não faltando mesmo já quem affirmasse que era combinação com o Maximiano, senão pouca vontade de gastar dinheiro... Affirmações estas tão gratuitas quanto mostravam o desconhecimento completo do caracter do visconde, tão incapaz de se prestar a uma traição assim grosseira como era incapaz de vestir uma camisa manchada ou uma casaca fóra da moda; tão incapaz de antepor o dinheiro aos seus compromissos como era incapaz de faltar a um dever de cortezia ou de acrescentar as suas colleções com um objecto de que não podesse authenticar a procedencia. Não obstante, era certo e bem certo que o enthusiasmo da politica lhe passára como até alli lhe tinham já passado muitos outros. Voluvel, apaixonado e enthusiasta, era um d’estes caracteres que não se dão a meio e com a violencia passional com que se entregam a um desejo ou capricho, com o mesmo arrebatamento o abandonam sem piedade nem recordação.

Ficára, pois, deputado, como ficaria sempre emquanto o recenseamento não fosse falsificado ou se desse um caso que não previam, pela forca numerica dos caseiros das tres casas grandes da comarca e pela vontade espontanea do povo da villa que mais lhe queria, apezar de todos os seus defeitos, do que ao Maximiano, que não tinha pretensões nem desejos ambiciosos a realisar-lhes. A noticia de ter vencido recebeu-a com a mesma risonha indifferença com que receberia a da derrota.

Outro era agora o seu empenho, outra a sua ambição e cuidado.

Como o inverno se passára assim na villa decorria o verão, que esse anno não chegou a ter o bulicio e o animado convivio dos precedentes.

Ao conselheiro, agora no partido governamental, não convinha affastar-se muito das altas regiões onde se jogam os interesses politicos; era occasião de acceitar o pretexto que a mulher francamente lhe fornecia com o seu odio confessado á provincia em geral e muito particularmente á terra do marido.

O Vilhegas, casado de fresco, viera apenas com a senhora, no principio da estação, visitar os paes e irmãos de quem se fizera protector e respeitoso amigo, seguindo a maxima do sogro: de que os parentes pobres não se despresam—empregam-se.

E era o que ia fazendo, tendo já á sua conta uma não pequena parte de responsabilidade pelo dinheiro esbanjado criminosamente n’este paiz.

Mandára ainda pedir licença aos Mellos para os visitarem, querendo seguir á risca os preceitos do conselheiro que não gostava de levantar atritos, principalmente com gente rica; mas tanto Josephina como o marido pretextaram doença para os não receber. A maneira porque se apressára em arranjar casamento que lhe servisse os planos ambiciosos davam-lhes a prova de quanto eram justificadas as desconfianças de João e quasi a certeza de que a morte da filha a causára elle mostrando d’alguma maneira, que ainda não conheciam, que era a fortuna que elle visava quando mostrava um tão ardente amôr.

Hortencia, durante a sua estada na villa, aborrecia-se francamente, agora que já casada não encontrava na conversa com o marido os attrativos picantes do galanteio, e para uma sã e honesta intimidade espiritual nem um nem outro tinham alma nem educação. Affirmava cathegoricamente ao Móttasinho e ao Telles e mais ás Souzas e ás Cunhas, que lhe formavam a limitada côrte,—que se o Emygdio quizesse podia ficar; emquanto a ella, _pas possible_... A mamã esperava-a para irem juntas para Cascaes e não podia trocar por nenhuma a companhia da mamã, que demais a mais escolhera a praia _chic_, onde se reune a côrte e com ella toda a _haute-gomme_... _Cela va sans dire_...

A Candida tambem conseguira que o Braga a não obrigasse a vir alli passar o verão, tendo demais a mais o _chalet_ em obras, que lhe não podia dar o conforto a que estava habituada. E o visconde, a pretexto de que o ar das montanhas não é aconselhado aos cardiacos, convenceu a viscondessa em procurar para a mãe uma estancia onde passasse socegada os grandes calores de julho a outubro, mais perto da casa e das commodidades da capital.

Apenas João e Isabella se estabeleceram alli, depois de uma visita larga a Inglaterra e d’alguns doces dias de inverno italiano passados a reverem juntos o que ambos já conheciam e admiravam.

Mas nem um nem outro animavam a terra: «dois bichos—no dizer espevitado das Souzas—que nem sabiam para que lhes servia o dinheiro e a educação...

Indifferentes a taes opiniões, um e outro começavam a pôr em prática o sonho de altruismo que juntos tinham architectado. No meio da sua grande felicidade um como pugir de remorsos lhes amargurava o espirito, achando injusta a vida que a uns colloca tão alto, bafejados pela fortuna em calentoso ninho, e a outros faz rastejar tão baixo pela estrada poeirenta da miseria e da dôr.

Ha muitos, ricos como elles, que sentem no silencio das suas almas piedosas o agrôr da comparação, e gosando do desafogo da propria vivença não podem fechar os olhos inteiramente á pávida realidade. Mas, incapazes de juntar a acção ao pensamento, traduzem essa piedade que os devia tornar uteis obreiros na grandiosa obra que o futuro reclama, dando esmolas, protegendo um ou outro, associando se á caridade farfalhuda e acomodaticia, fazendo o que se convencionou chamar o _bem philantropico_, e não passa de fórmula egoista para assocegar aturvados ânimos em sobresaltos...

João e Bella intentavam pôr em prática o seu ideal humanitário, não dando esmolas para entreter o vicio da pobreza mas educando individuos que, conscientes do seu valor e dos seus direitos e deveres, se acerquem da meza lauta que a natureza e a industria reservam aos que juntarem ao esforço material de obreiros a intelligencia e a educação.

Ajudada pelo dr. Ramalho e pelo velho abbade, já Isabella tinha organisado um rasoavel serviço de inspecção á miseria, que nas populações ruraes é tanto ou mais desoladora do que é nas cidades. Visitados pela doença e pela morte amiudadas vezes, curtindo fomes e frios sem alimento nem abrigo, quasi inconscientes e irresponsaveis pela ignorancia profunda em que se abysmam, mais do que a entes humanos se podem comparar a bravos animaes do monte...

Adaptando provisoriamente para hospital e para escolas duas velhas casas pertenças da familia, esperava em breve completar esses beneficios criando officinas, instituindo a créche, juntando ao asylo-escola para crianças, um asylo para velhos, mas governado de maneira a não fazer dos desditosos que se obstinam em viver uma especie de revoltados contra a propria beneficencia que os força á prisão.

Entretanto ia João pondo em execução o seu plano de um bairro operario, com casas simples mas não desprovidas do encanto que só a arte pode dar, bem saneadas e arejadas, com janellas e portas bem largas e com seu jardinsinho á frente e pateo interior onde se faziam as construcções proprias para acomodação dos animaes, que em toda a população rural fazem parte integrante e importantissima da familia.

João, todo radical e violento, como o avô materno que não transigira nunca com opiniões e preconceitos alheios, queria dispensar o concurso de toda essa gente da villa, que de sobra conhecia, e entender-se só com aquelles que devia melhorar. Mas n’isso não concordavam Isabella nem o abbade e o próprio Ramalho, antes mais habil lhes parecia utilisar elementos existentes para a organisação immediata de uma escola onde rapazes e raparigas aprendessem officios e misteres que os habilitassem a ganhar a vida no futuro. Para isso foram convidadas as pobres _Sebastianas_, que serviriam como professoras de bordados e roupa branca, o que fez com que a Aurora Costa, invocando a amisade da Pillar, viesse pedir tambem um emprego—pois o pae ganhava pouco e a familia era muita. Sabia talhar alguma coisa, se bem que nunca tivesse sido ensinada, e fazia flores e bordados muito especiaes em cascas e aparas...

Isabella teve um sorriso de amargurada censura a tão pouco prática educação e disse-lhe—que sim, que a utilisaria como ajudante de uma professora de córte que mandára procurar em Lisboa, e que, mais tarde, se essa senhora não quizesse ficar ou ensinasse outra qualquer coisa, a Aurora, em sabendo bem, tomaria o seu logar.

—Mas—lembrava-lhe ainda—precisava d’uma senhora que a auxiliasse no trabalho de escripturação e contas que taes emprehendimentos necessitam, um trabalho material que não requer grandes conhecimentos e sim escrupulosa meticulosidade e uma lettra rasoavel. Se quizesse, podia ficar já n’esse logar.

A Aurora córou e confessou, vexada, que escrevia muito mal e que de contas sabia pouco; piano é que tocava alguma coisinha, se fosse preciso ensinar...

—Não,—respondeu-lhe a outra tambem vexada porque, naturalmente bondosa, nunca fazia sentir a ninguem a sua inferioridade—piano não precisava, porque pretendiam educar para o trabalho e para a vida, e o piano, como qualquer outro instrumento ou arte, só se queria cultivado em pessoas de rarissima vocação e ensinado por professores bem habilitados, aliás era uma inutilidade. Mas experimentasse ella estudar um pouco de contas e português e depois com a prática faria o resto.

O abbade andava radiante: aquillo sim, aquillo é que era a verdadeira religião, que fervorosamente praticava. Mal de manhã dizia a missa conventual, abalava para os campos a farejar desgraça, que podessem minorar. E doente que encontrasse ou criancita a mandar para a escola, ou mulher a reclamar cuidados de sabia hygiene, era logo apontado na carteira, com o alvoroço de quem aponta rendoso negocio a aproveitar e que não deve esquecer.