Ambições: Romance

Part 12

Chapter 123,952 wordsPublic domain

—«Ha muitos annos que é amigo intimo de sir William Burns e deve-lhe mesmo grandes favores—defendeu o D. Manuel.

—«É muito louvavel o seu procedimento, descendo á liça por um amigo ausente, sim senhor! Bem se vê que é descendente de Nun’alvares, o cavalleiro sem macula. Mas olhe que o visconde não merece defesa porque é um transfuga—riu a baroneza.

—«Elle quer chegar á sobrinha pendurando-se no braço do tio—retorquiu o Telles com azedume.

—«Vae mal por esse caminho, porque sei, e agora já não ha inconfidencia porque toda a gente o sabe, que Bella está pedida por seu primo, creio que é seu primo o João de Mello, não é, sr. Vilhegas?—respondeu e perguntou a um tempo a baroneza.

—«É meu primo affastado...

—«O quê, Isabella Burns vae casar com o Mello?

—«Parece que se admira, Hortensia?! Pois não é para isso; é até casamento bem igual. Ambos novos e bonitos, educados e ricos, é um verdadeiro casamento d’amôr, coisa rara n’estes tempos de brutal utilitarismo.

—«Ora adeus! O João de Mello é um sensaborão—_une vrai bête fauve_.

—«Por não ter o seu espirito perfeitamente gaulez, não se segue que não seja muito interesante. Ha pessoas intelligentes, que não gostam de conversar. Eu não o conheço a fundo, mas parece-me sympathico e muito instruido.

—«A sr.ᵃ baroneza está sempre disposta a defender.

—«É para me vingar dos que me accusam, meu caro dr.—respondeu para o Vilhegas.

—«Além d’isso, a Bella é galantinha, mas a baroneza sabe o que foi o pae...—tornou Hortense com gesto desdenhoso.

—«Não pense em tal, minha querida; bem sabe que para a sociedade essas coisas dos paes só lembram quando não ha tios ricos. E, aqui para nós, com toda a imparcialidade, quem não tiver um parente cujo procedimento o faça corar, que lhe atire a primeira pedra.

—«Oh, mas o pae deu um escandalo medonho!... Foi um verdadeiro ladrão!...

—«A Hortensia é muito nova para julgar, um facto que tem a sua explicação, como tudo no mundo. O pae de Bella era um perfeito homem da sociedade, fez o que outros têm feito impunemente, foi infeliz...

—«A baroneza conheceu-o?

—«Conheci-o admiravelmente, era das minhas intimas relações. Tinha deffeitos que mais ou menos todos nós temos, mas, a par d’elles, quanta bôa qualidade tambem!...

—«Pois sim, mas se não fôsse o tio rico talvez o João de Mello, que sempre passou por tão serio e esquisito, não achasse muito merecimento n’uma menina que vae para uma romaria só com um rapaz...—insinuou a mais velha das Souzas que tinha vindo com as outras juntar-se ao grupo sem interromper a conversa.

Já percebera que a assiduidade do Telles a devia ao despeito que lhe causava a indifferença de Bella e isso enraivecia-a, não poupando doéstos á _inglesa_, como por escarneo a tratavam.

—«Decerto que um homem honesto não poderia já acceita-la para esposa—frisou ainda o pharmaceutico.

—«É que o sr. Telles não sabe, talvez, que Isabella Burns foi educada em Inglaterra. O que n’uma terra pequena de provincia portuguesa lhes parece escandaloso é perfeitamente natural e correcto em todos os paizes onde as mulheres são mais respeitadas. O senhor, que é homem, sabe perfeitamente que só é deshonesto quem o quer ser...

—«Sim, nós sabemos que a educação e os costumes ingleses são outros, mas temos obrigação de respeitar os costumes da sociedade em que vivemos—acudiu o Vilhegas em defeza do amigo.

—Decerto, os que vivem d’ella e para ella. Mas Isabella é bastante independente para despresar commentarios malevolos de quem em tudo lhe é inferior. Terminou seccamente, quasi agressiva e n’aquelle tom que não admittia replicas, porque Isabella era uma das suas grandes sympathias, e a baroneza, quando gostava d’alguem, não queria mesmo averiguar se era retribuida a sua affeição para francamente se pôr em campo pelos que lhe agradavam.

O Vilhegas porêm não desistiu e com o gesto largo e o tom emphatico de quem sonha bancadas parlamentares ainda accrescentou:

—«Oh senhora baroneza, mas isso é negar toda a virtude e condemnar sem remissão uma sociedade de que V. Ex.ᵃ faz parte.

—«É por isso que fallo com conhecimento de causa, o que se requer é hypocrisia e dinheiro, bem sei, sentimentos intimos e nobres são frioleiras... Pois se ha pessoa que esteja acima de todos os egoismos e mentiras é Isabella, pode crêr! Se casa com João é porque decerto muito o ama.

—«Oh, dizem que sim,—atreveu-se a dizer a Aurora Cunha, que havia algum tempo estava morta por fallar, retrahindo-se logo com acanhamento—um amôr assim nunca se viu. Andam ambos tão felizes, tão contentes, que até dá gosto vê-los.

—«A menina vae lá?—perguntou a baroneza com interesse.

—«Eu era amiga da Pillar, que me tratava com muito agrado. Agora vou lá menos, mas a Engracia, que é muito amiga da minha avó, foi hontem fazer-lhe uma visita e contou isto. Lá em casa gostam tanto da noiva, que até ella, que d’antes só fallava na sua Pillarsinha, agora já diz que esta é um anjo do céo que Deus lhes mandou para pagar o roubo que lhes fez...

O Vilhegas torcia-se nervoso desde que a conversa tomara aquelle rumo, e Hortensia desviava a cabeça com enjôo, contando, por disfarce, os berloques que trazia no cordão de oiro ao pescoço. O Telles quiz desviar a conversa, mas a baroneza perguntou ainda com interesse.

—«A menina sabe quando elles casam?

—«Á Engracia disse que era depois de janeiro, porque faz um anno que morreu a Pillar. A Candida é que casa primeiro.

Novo estremecer do Vilhegas trocando olhares de intelligencia com o Telles.

—«Sim? Com quem casa essa? É uma formosura, não é, D. Manuel? Olhe que em Lisboa, convenientemente emoldurada em luxo, e n’uma frisa de S. Carlos, era d’um soberbo effeito—disse com a convicção de quem se não julga prejudicada pela mocidade nem pela belleza, forte no seu reducto de oiro.

—«É realmente perfeita! Faz pena ver escondida entre serras uma tão rara planta—respondeu o Pereira, que ás vezes se mettia em floreados de phrase recordando tempos de Coimbra.

—«Em casando já ella vae para Lisboa viver—tornou a menina Aurora, que estava tendo um verdadeiro successo com tanto saber de vidas alheias.

—«Quem é esse marido ideal?

—«É o Braga, v. ex.ᵃ não conhece? Cá chamam-lhe o Braga usurario, porque empresta dinheiro a noventa por cento. É muito rico. No baile da viscondessa estava sempre ao pé d’ella, não viram?—voltou-se a pedir confirmação ao dito, ás irmãs e ás meninas Souzas, que abanaram a cabeça affirmativamente e começaram todas a fallar ao mesmo tempo, querendo ser interessantes com o saber muito d’esse casamento, que era o escandalo da terra.

—«Dizem que o velho está doido pela Candida.

—«Até já fallou aos pedreiros para deitarem abaixo a casa do Bernabé, que o visconde sempre fez com que a camara expropriasse por utilidade publica...

—«É um verdadeiro escandalo, uma arbitrariedade sem nome, uma d’estas coisas que só se fazem n’uma terra de cafres como esta!...—apostrophava o Telles pensando já na correspondencia para o jornal de Lisboa.

E uma das meninas ainda elucidava:

—«Dizem que para o anno já hade ter um _chalet_ como nunca se viu outro cá!...

—«O tio comprou-lhe um enxoval que nem que fosse para uma rainha—disse ainda outra com inveja.

—«Diz se que casam já para o mez que vem...

—«Ora ahi está _un vrai mariage d’amour_!...—casquinou a Hortencia.

—«Não se ria, minha querida,—respondeu a baroneza, que tinha o gosto particular de contrariar a filha do Maximiano—elle gosta sinceramente, e n’este genero de negocios um quasi sempre é enganado, quando não são os dois!...—sorriu com finura.

—«Oh Vilhegas—chamou do fundo da sala o conselheiro.

O Emygdio correu com interesse de subordinado humilde a perguntar o que lhe queria o patrão.

—«Venha cá, meu amigo. O sr. juiz pode ter algumas duvidas e quero que lhe diga com a mão na consciencia se o Cabral morreu assassinado pela pancada ou em resultado da doença que lhe deixaram sobrevir.

—«Não tenho duvida nenhuma em affirmar que foi da doença...

—«Deixem-me dizer-lhes—continuou o esperto politico—que o meu interesse pelo Manuel Duarte é apenas filho da revolta que toda a injustiça me causa, notem que nem é meu partidario... Mas o dr. Vilhegas, que em breve será meu filho, faça o mesmo que eu, feche os olhos a resentimentos e diga sempre o que a sua probidade mandar.

—«Sr. Conselheiro—começou o medico, dando um passo atraz e pondo a mão no peito n’um gesto de comediante sentimental—eu respeito v. ex.ᵃ mais do que ao meu próprio pae—e n’isto era sincero porque não fazia grande caso do barbeiro d’aldeia que lhe dera o ser...—mas acima dos affectos humanos está a justiça e a consciencia. Eu farei sempre o que uma e outra me ordenarem; se v. ex.ᵃ me pedisse o contrario teria muita e sincera magua, mas não cederia...

Isto é que já soava como bilha rachada, mas o conselheiro bateu-lhe no hombro e disse com enthusiasmo:

—«Bravo, meu rapaz! Assim é que eu aprecio o caracter d’um homem! É com toda a confiança que lhe porei nas mãos os meus negocios e sei que não usará da minha influencia senão para o bem d’este desgraçado paiz que caminha para o abysmo!... Dê cá um abraço, homem!—abraçaram-se com gravidade.

—«O sr. dr. Vilhegas—começou o juiz, arrastando a phrase como arrastava a perna gottosa—é um rapaz a entrar na vida com nobre caracter e agúda intelligencia. Abre-se aos seus passos um largo caminho que não hade querer manchar com uma injustiça inspirada pela má paixão da politica, como usam alguns seus collegas; fico pois com a minha consciencia tranquilla.

—«Agradeço o conceito que v. ex.ᵃ forma do meu caracter e tenho a vaidade de o julgar justo.

—«Mas não o prendâmos por mais tempo, aliás a Hortencia ficará zangada...—disse o conselheiro empurrando-o com amavel sombra. Depois continuou n’aquelle ar de indifferença bem calculada que todos os politicos conhecem para despertar a curiosidade que desejam espicaçar:—Sabe que é definitiva a aposentação do dr. Saavedra? Escrevi ao ministro para não dispor do logar sem me ouvir...

—«O que respondeu?!...—perguntou o outro arregalando os pequenos olhos de porco, n’um esfusear de curiosidade.

Interrompeu-os o padre Mathias, fulo com o Neves que se lhe fôra pôr ao lado e o fizera perder todos os cobres,—porque _engallinhava_ com aquelle typo... dizia, bufando.

—«Ora—respondia-lhe o conselheiro sorrindo—vocês não sabem jogar, perdem logo a cabeça! Vae-se tenteando emquanto se perde com pouco dinheiro; depois, quando a sorte vem, é só uma cartada bastante para a desforra.

—«Isso era bom se todos soubessem e tivessem a felicidade de v. ex.ᵃ

—«Então hoje está o caso muito feio; hein? Vamos lá ver.

Dirigiram-se para a outra sala emquanto o juiz rodeava, arrastando a perna e trauteando o estribilho favorito, até ao grupo das senhoras ás quaes costumava dirigir grosserias que imaginava deviam tomar por amabilidades.

—«Oh sr. Telles—dizia a baroneza, para terminar a conversa das vidas alheias que já a enfadava—eu tinha pedido aqui ao seu amigo para interceder por nós junto de v. ex.ᵃ.

—«Que valor tenho para merecer um pedido de v. ex.ᵃˢ?!...

—«Tem o valor de ser poeta, acha que é pequeno? Nós queriamos ouvir recitar alguma das suas poesias.

—«Oh, sr.ᵃ baroneza, os meus pobres versos são pedaços d’alma angustiada que não podem interessar aos felizes da terra!...

—«As obras d’arte, quando sinceras, são comprehendidas por todos e commovem as almas menos sensiveis, não é verdade, sr.ᵃ baroneza?!...—disse o Vilhegas querendo que o amigo figurasse.

—«Decerto—respondeu ella.

—«Não se faça rogado, sr. Telles, _j’aime beaucoup vos poésies_!...—acrescentou Hortencia languidamente cerrando os olhos e apertando os beiços com denguice.

Um coro de insistentes pedidos rodeou o Telles, que se fazia grave, mettia os dedos nos cabellos, fechava os olhos, dizia não se lembrar nada do seu livro _Verde-mar_... Por fim, como que victimado, mas radiante de vaidade, levantou-se, pôz a mão sobre as costas da cadeira, levou a outra ao coração, fez ainda um gesto vago de quem se lhe tinha varrido tudo da memoria, o que impacientava os ouvintes, e começou com voz sibilando entre sorrisos de superioridade.

—«Dedicatoria: Á Doce e Pura que a minha alma espera para entrar na _Turris eburnia_ da Perfeição.

Mas a palavra foi-lhe cortada violentamente pela explosiva apparição da conselheira n’um desmanchamento de modos de quem precisa desabafar arrelía séria.

Offegante, rubra de indignação, dirigiu se á baroneza como se quizesse toma-la para testemunha da justiça que lhe assistia.

—«Veja isto, veja isto!—e mostrava-lhe uma grande folha de papel escarlate por aparar, com uma enorme corôa de visconde ao centro encimando floreado brazão—aquelle pelintra que já desdenha assistir ás nossas partidas!... Não ha maior desaforo!

—«Mas o que é afinal?—perguntou a baroneza, que apreciava pouco scenas tragicas no seu epicurismo de pessoa que quer tirar da vida só o fructo saboroso e leve.

—«Leiam, vejam isto, desde que veio o inglês para lá está assoldado... Não se lembra o pobretana que veio para ahi sem roupa; até foi preciso emprestar-lhe camisas do Maximiano!... Ainda hontem a costureira me veio mostrar um par de meias d’elle que não tem por onde se lhe dê um ponto!... Agora, o figurão já não perde tempo a vir aqui...—voltando-se indistinctamente para quem tinha mais perto e calhou ser o Telles—leia o senhor o que manda por um lacaio. Só visto!...

O discurso ameaçava não deixar occasião para se ler a carta, porque a conselheira, vendo-se benevolamente escutada, não tinha mão nos improperios. Interrompeu-a a baroneza benevolamente:

—«Deixe que o sr. Telles leia a carta, aliás não percebemos nada.

—«Pois que leia, para verem quem é aquella bisca!... Só a chicote!...

O Telles pegou na carta traçada com larga calligraphia inglesa propria de _sportman_ e de pessôas de poucos dizeres, e leu:

—«Minha ex.ᵐᵃ e querida senhora. Venho humildemente a seus pés depôr a minha homenagem e pedir desculpa pela falta que hoje darei na sua _quinta-feira_. Não _poço_.—O sr. Visconde escreveu posso com ç, não sei se quer dizer o mesmo, commentou o Telles com litteratica ironia.

—«Deixe lá os erros e diga para deante—apressou a baroneza.

—«Não póde deixar a _partida_ de mr. Burns, a quem acompanhará n’uma caçada á serra ás tres da manhã—resumiu o Vilhegas, que acabou de ler por cima do hombro do amigo.

—«Ora então, coitado do rapaz, tambem tem alguma razão—desculpou a baroneza.

A conselheira ia sair-se talvez com nova ladainha de injurias e improperios, se o Jorge Cabreira a não chamasse da porta, n’um gesto desesperado. Estava pallido; o bigode, que enrolava furiosamente entre os dedos, mostrava bem a excitação nervosa que o tomava.

O conselheiro tinha-lhe _limpado_ todo o dinheiro n’um _baccarat_ rijamente sustentado, e elle vinha pedir á mulher que lhe emprestasse mais para tirar a desforra do marido...

XIV

Tinha passado o tempo das festas com os primeiros rebates de um inverno que vinha rudemente soprado pelas ventanias da serra, a afugentar os veraneadores.

Primeiro sahiram os Maximianos, seguidos pelo Emygdio, que, fiado em tão bôa escóra, resolvera a sua ida immediata para a capital. Estava _lançado_, como por ahi se diz n’um francesismo de mau gosto, o que ao dr. Pinto fazia commentar: só um estomago de avestrus como o do conselheiro teria bojo para expellir tão grande maroto!

Os viscondes seguiram-os tambem, depois de assistirem ao casamento da Candida, a quem Maria Helena serviu de madrinha, visto Josephina não sahir de casa nem assistir a festas, lamentosa como continuava ainda pela morte da Pillar.

A Bella, que primeiro partira com o tio, fôra em breve reunir-se o João, para juntos combinarem todos os preparativos para a sua vida commum, que elles queriam bem harmonicamente organisada como em harmonia estavam sempre os seus gostos e maneira de vêr e sentir.

Retomára, pois, a villa o seu ar de pacatês provinciana; e se não fossem os odios e luctas politicas ateados pela proximidade das eleições, ninguem diria senão que aquillo era burgo medievo esquecido pela civilisação, cujos habitantes o tempo tinha mumificado.

Nem carruagens de luxo nem garboso trotar de cavallos de raça pelas calçadas desiguaes faziam assomar ás janellas entreabertas as cabeças, entre curiosas e receosas, das meninas da terra. Cahiam no marasmo que ataca as provincianinhas ambiciosas por movimento e vida, que se resignam a só mostrar os vestidos de luxo aos domingos, á missa das onze, e a passear funebremente, quando a musica toca na praça, as suas anemias sentimentaes de quem não tem um nobre e util destino a preencher, de quem lhes falta, para sacudir os nervos e hygienisar a alma, uma educação de trabalho remunerador que as liberte da escravatura feminina, que tem por carta d’alforria... só a porta da igreja que dá para o casamento.

As _partidas_ arrastavam-se somnolentas pelo anno fóra, sem despertarem o enthusiasmo e o interesse das reuniões de verão. Emquanto as mesas do sólo e da manilha se armavam para os velhos junto da brazeira, os outros rodeavam a mesa do centro para o jogo ou para a conversa, e era então o momento escolhido para se rememorarem os acontecimentos da passada estação e darem-lhes a fórma anedoctica que depois se transmitte de geração em geração, como as receitas dos dôces e os lençoes de linho caseiro.

E não fôra, na verdade, das menos ferteis em acontecimentos sensacionaes, essa que originára o casamento do melhor herdeiro das redondesas com uma _estrangeira_: o que fazia, apesar das poucas esperanças que João déra sempre ás meninas casadeiras da terra, com que todas se julgassem offendidas.

Depois, o casamento, mais que imprevisto, do velho Braga com a formosa sobrinha de Antonio de Mello—que era o caso escandaloso por excellencia. Commentava-se o insolito luxo que o homem botára, elle que fôra sempre considerado o maior dos avarentos, o que enraivecia as raparigas e fazia dizer aos paes—«que bem o tinham previsto: o Braga seria o ideal dos maridos, babadinho pela mulher...» Ellas gritavam repugnancias que não sentiam, e os velhotes encolhiam os hombros:—«tolices de raparigas! Sabem lá o que custa a vida e o que uma mulher perde quando despresa um casamento rico!... Depois é que torcem a orelha. A Candida, sim, essa é que tivera juizo. Não ha como as mosquinhas mortas para se saberem governar.

Fallando com a segurança de quem não tivera o Braga como genro porque as meninas o não tinham querido, não pensando, na sua illusoria vaidade, que só uma invencivel e tresloucada paixão transformaria em prodigo amante o homem que, na sua já larga vida, não tivera mais desejos que não fosse os de accumular oiro, mais orgulho que o de juntar propriedade á propriedade, ambição que não fosse a da riquesa pelo prazer avaro de a possuir.

Por fim, até o Vilhegas, que, depois da morte da Pillar ainda fôra uma esperança de marido rasoavel, até esse era levado pela filha do Maximiniano Carneiro!...

Estes e outros factos contados e completados pela bisbilhotice da criadagem, davam alimento para as conversas em todas as infindaveis noites de inverno.

O rico enxoval da Candida, mandado fazer pelo tio nas melhores casas de Lisboa, com duzias de duzias de cada peça, rendas finas, sedas e bretanhas, as joias de preço com que o noivo a brindára, os mais presentes que tivera, tudo se commentava trazendo á baila a pobreza da rapariga, o que seria ella n’esse momento sem a generosidade dos tios, na mediania quasi pobreza em que vivia a mãe e os irmãos... Depois, a cerimonia do casamento, a que tinham assistido por convite do Braga, chegado ao delirio da paixão, todos querendo associar á sua alegria. O orgulho da Candida, a arrastar a cauda do seu branco vestido de noiva; o véo de verdadeiro _tule_ de seda e as flores de larangeira a coroá-la n’uma alvinitencia de castidade; a cara do noivo e a sua figura ridicula, que ainda mais os fazia morrer de riso; a partida para Lisboa e a permanencia lá durante o inverno... nada ficava por dizer e commentar.

Quando este acontecimento já ia aborrecendo por demais refervido, como o chá de Tolentino, começaram alguns jornaes da capital a trazer umas noticiasinhas sorrateiras, que interessavam a todos. Tratava-se do Vilhegas, fallado em pequenas mas insistentes locaes, no corpo do jornal, que lhe apregoavam o talento formoso, a sua delicadesa e habilidade profissionaes, o casamento ajustado, para a primavera, com a gentil filha do illustre estadista...

Na botica velha o dr. Pinto ria sem respeito das _maximianices_, como costumava chamar ás espertesas do habil conselheiro, e affirmára ás gargalhadas, quando viera no _carnet mondain_ de um jornal elegante que o enxoval da noiva fôra encommendado em Paris, que o vira a fazer em casa das meninas _Sebastianas_, as pobres costureiras e bordadeiras de roupa branca, que um escrivão de fazenda chamado Sebastião alli deixára na miseria.

Chamava o Neves e fazia-o fallar, elogiando-lhe o primo, fingindo-se de boa fé. O outro, coitado, ia dizendo, no seu grande fanatismo de parente pobre que julga engrandecer-se com a grandesa dos seus:

—«O rapaz vae a ministro, não tarda, o sr. doutor verá! Não, que uma cabeça como aquella... ha poucas!

O _finorio_, cofiando as barbas brancas, em que punha vaidade, ria sorrateiramente, achando que era realmente esperto, que se soubera arranjar, que casava bem...

—«Mas que bem!—dizia o outro tomando a deixa.—Casamento de trús! O sogro entende-se bem com elle; ha de leva-lo a tudo!...—Voltando á sua idéa fixa:—Não tarda que seja ministro, o sr. doutor verá!

—«Sim, sim, é natural. D’aquella massa é que elles se fazem por cá. O sogro, em demasia conhecido, dá homem por si, sim senhor, é bôa tactica!—Despedia gargalhadas jubilosas, batendo fortes palmadas nos joelhos.—É um patusco, aquelle Maximiano! E comem-na, vocês verão!...

Voltava-se para a roda dos frequentadores da botica velha, que iam rareando á proporção que a _nova_ crescia em créditos e fama, o que trazia o Domingos estomagado.

O caso do Manuel Duarte responder n’um processo correccional em que o juiz lhe déra por pena o tempo decorrido na cadeia, antes do julgamento, isto fundado no exame e na autopsia feitos pelo Vilhegas, com patente desconsideração ao Ramalho, suscitára contendas varias nos partidarios de um e de outro campo, e rompimento de hostilidades.

Da parte da velha fallava-se com indignação e sem rebuço no procedimento do juiz, peitado pelo conselheiro, e de todos os mais que haviam entrado no conluio. O delegado, um pobre rapaz sem vontade, especie de serventuario do juiz, torcia-se, mas não fazia nada que fosse contra as suas indicações.

D’ahi descomponendas nos jornaes por uma parte e por outra, mas principalmente pelo lado do Maximiano, feitas pelo Telles em redundancias de estylo a que o Dr. Pinto respondia em chalaça. Nessa tarde caturrava elle com o Neves, que não queria estar mal com uns nem com outros—«_por causa da engrenagem dos governos_», dizia.

—«Você desculpe, eu não quero dizer mal do seu primo, mas esta de certificar que um homem que leva com um marmeleiro na cabeça e morre em seguida de uma meningite, não é em resultado de pancadas, é de cabo de esquadra.

—«O sr. dr. bem vê, elle depende do sogro...

—«Deixe lá, ha coisas que se fazem só de vontade. Elle é seu primo, é verdade, mas isto brada aos céos...

—«Pois decerto, ora essa!... á vontade, sr. doutor; entre amigos não ha cerimonias, que eu, aqui para nós, o que quero é que o meu primo Emygdio vá a ministro. Depois é só eu lá chegar...

—«Com certeza... Pelo menos director da instrucção!—ria entre dentes.

—«Eu cá não quero muitas grandezas. Tamanha é a náu tamanha é a tormenta. Para mim basta-me um logarsito que me dê tanto como o do Manuel Vilhegas, uns dois mil reisitos por dia... e mais esse mal sabe assignar o seu nome.

—«Não é muito, é até rasoavel,—respondeu com sarcastica seriedade o doutor—mas diga-me, oh Neves, porque razão se assignavam os seus primos Viegas e agora são Vilhegas?! Olhe que isto dá-me que pensar...