Part 11
—«É verdade que sim! Tinhamo-nos esquecido de que estavamos n’um baile...
—«Cabecinhas de vento! Ora vão recuperar o perdido, andem, a valsa convida.
—«E tu não vens tambem dar uma volta?—perguntou-lhe a amiga levantando-se e beijando a com uma nervosa affectuosidade que deu logo a perceber á Viscondessa que alguma coisa se passára de estranhamente grave entre os dois.
—«Eu? Já estou velha para valsas, quando muito o passeio da contradança cerimoniosa. E mesmo isso, querem crêr que já me fatiga?! Estou positivamente velha.
—«A prima deu agora na galanteria de se querer fazer uma _avósinha_...
—«Infelizmente sem netos. Já me vão tardando os que tu me has de dar, sabes?!...
João sorriu e não protestou. Isabella tomou-lhe o braço e disse, como quem quer terminar a conversa:
—«Vamos então á nossa valsa?
—«Miss Burns, encontro-a finalmente—entrou dizendo o visconde d’Alvora, retorcendo o bigode e empertigando-se para disfarçar a rotundidade do seu corpo abbacial.
—«Que empenho era esse, visconde? Julgava-me perdida e queria merecer alviçaras?
—«Oh não! O simples empenho que tem todo o cavalheiro em offerecer o braço á sua dama.—E offerecia-lho na verdade, sempre retorcendo o bigode e olhando João com altivez desprezadora.
—«Peço perdão, sr. Visconde, mas eu prometti a primeira valsa ao sr. João de Mello.
—«Mas, minha senhora, nós já estamos na segunda.
—«Não posso considera-la assim, visto que não assisti á primeira. Espero que me desculpará, meu caro visconde.
—«Eu não devo prescindir da honra concedida...
—«Mas prescinde porque eu desejo, e porque é de justiça. E vou já passar procuração ao tio William, que vem atravessando a multidão dos valsistas com a mesma impassibilidade com que atravessaria uma avenida deserta, para ser arbitro n’este importante pleito.
Na verdade Mr. William Burns vira de longe a sobrinha e sem mais cerimonias resolveu atravessar o enorme salão onde os pares dançavam ou esperavam a sua vez, fazendo roda, apertando-se e confundindo-se.
Olhava-os com interesse de observador, fitando todos com a viva curiosidade de uns olhos azues que lhe illuminavam a fronte de propheta e attenuavam o geito da bocca d’uma ironia mordente.
Alto e robusto, hombros largos, voz, olhar, gestos e o proprio andar, demonstrando a placida serenidade do homem saudavel e forte, bem equilibrado na vida; e que, apezar dos longos annos de existencia laboriosa, ainda se sente com musculos superiores aos dos rapazes a quem uma infancia atrophiada preparou uma mocidade rachitica.
Olhou o Telles a calçar as luvas e apressurando-se em amabilidades para a mais velha das Souzas, arrogante na pretenção de valsista incansavel e elegancia sem rival. Ouviu de passagem que ella respondia aos enthusiasmos litterarios do rapaz por Loti e Huysmans com a sua predilecção por Paul Féval e Montepin, que conhecia dos folhetins.
—«Garrett—dizia estendendo o beiço carnudo—não conheço. É francês? De Herculano já ouvi dizer que tinha um romance bonitinho, empresta-mo?!...
O inglês sorriu e cumprimentou a baroneza que estava de pé, pelo braço do D. Manoel Pereira, que lhe ficara fiel, e disse lhe com amavel bonhomia:
—«Sempre gentil, minha cara baroneza: dir-se-hia que descobriu a receita da bella Diane de Poitiers...
—«Mr. Burns sempre galanteador e... mordaz. Assim me passa uma certidão d’idade compromettedora...—ria francamente, porque tinha o bom senso de não querer ser moça pelos annos, contentando-se em o ser de facto pela elegancia e pelo espirito.
Mr. Burns que a estimava pelas suas reaes qualidades, escurecendo defeitos com os quaes nada tinha, respondeu sorrindo e continuando o caminho:
—«O que quer, minha amiga? diz o ditado português que ha _um sujeito_ velho, que não aprende linguas novas...
No meio da sala esbarrou com o par valsista por excellencia, Mademoiselle Hortense e o Vilhegas, que no dia seguinte seriam _fiancées_—participava a todo o mundo.
A mãe não estava menos soberba com o seu vestido _rosa velha_ com _traine_ de velludo verde e adereço de esmeraldas, tal qual fôra ao paço quando ministra e merecêra descripção especial no _Illustrado_. Mr. Burns parou para a cumprimentar, achando-a cada vez mais formosa, parecendo irmã da filha.
Agradeceu a amabilidade que lhe não era das mais agradaveis, porque detestava o titulo de _mamã_. Até por muitos annos a filha vivera quasi sem que as relações da mãe dessem por isso, ou no collegio ou em casa de parentes ou entre os criados, quando em familia, para que a mãe se não apresentasse com tal certidão de idade... Só o desejo de a casar e livrar-se assim de uma companhia importuna por indiscreta, vencera o receio de se envelhecer com a sua apresentação na sociedade.
Rodeando um pouco para não ser atropelado, mr. Burns encontrou o visconde que ia tirar a Candida para valsar. Sorridente, recusou, a não ser que o sr. Braga consentisse, pois o considerava como noivo, faltando-lhe apenas que o Visconde, em seu nome, fallasse ao tio. O velhote, como que assoberbado com tanta felicidade n’uma idade e com um physico que não eram os mais proprios a inspirar amoroso interesse, consentiu em que dançasse com o illustre amigo.—Ora essa, a menina bem sabia que não tinha outra vontade que não fosse a sua...
O inglês teve um rapido franzir de sobrancelhas de quem vê um caminho que lhe não parece o mais direito e ficou um instante parado a seguir a casaca preta do Visconde, que no giro da valsa se confundia com o vestido negro com palhetas d’oiro d’essa formosissima mulher sorrindo bondades e de uma quasi ingenua perfidia á força de inconscientemente sentida e usada.
Já voltavam e paravam deante do uzurario a quem dizia n’um meigo arrastar de phrase:—que o visconde a encarregara de lhe dar a boa nova de que estava emfim resolvido a seu favor o negocio da casa de Bernabé...—e ainda o velho William alli estava a considera-los attentamente.
Depois encolheu os hombros e foi mais adeante, até onde a mais nova das Costas conversava com a mais nova das Souzas, ambas insignificantes, inferiorisadas pelas irmãs, a Costa um pouco mais bonita, clarinha e gorda, com grandes olhos inexpressivos em que as pestanas demasiado compridas davam um aspecto de boneca de loiça. Viu-as alongar a vista pela grande sala de baile—a que os espelhos das portas dobravam, pela illusão, o tamanho—em procura de par e ouviu-as murmurar:
—«Parece que não ha rapazes!...
—«Elle ainda os ha—commentou a dos olhos tristes—mas parece que viram lobo!...
Sorriu ainda; e foi com o rosto aberto n’esse sorriso entre caridoso e ironico que chegou ao pé da sobrinha, o seu enlevo como artista, o seu amôr como tio, quasi pae.
—«Jesus, que longa e difficil travessia, querido tio! Julguei por vezes vê-lo sossobrar em tão perigoso mar!—dizia-lhe ella a rir, com affectuosidade.
—«Ainda por cima a ingratidão de uma troça! Ora eu que emprehendi esta _jornada_ só para a vêr, porque a minha amiguinha já nem se importa de se mostrar ao velho tio! Sim senhor, deixa-me á meza com os caturras, não me procura na sala de jogo onde os velhos se refugiam... estou perfeitamente posto á margem.
—«Não diga tal, querido tio! Pelo contrario, estava-o esperando para lhe dar a honra de o fazer juiz n’um pleito que ora aqui se debate. Exponha a sua queixa, visconde.
—«Oh, miss Burns está brincando, eu cedo sempre á vontade das damas, embora a justiça lhes faça mingua.
—«Oh, muito obrigada pela generosidade, mas nós as mulheres já temos os nossos direitos: queremos tambem as nossas responsabilidades. Despresamos a vossa piedade cavalheiresca, que nos dava a irresponsabilidade... das crianças.—Respondeu Bella com certo entono comico, que muito divertiu o tio e fez esboçar um sorriso ao João, a quem a questão não agradava.
—«Vamos, Visconde, não ha remedio: ella reclama justiça, justiça se fará, mas... talvez de moiro, que é o que ellas querem...
—«Se elle não apresenta a queixa, já vê que é uma prova de que não está seguro da sua justiça...
—«Menina, isso é um sophisma.
—«Não é tal! O caso é que a valsa acaba e a questão não acaba antes. Eu a exponho em duas palavras. O sr. João de Mello convidou-me para a primeira valsa e o Visconde para a segunda. Ora eu estive lá dentro e só agora venho dançar,—qual é a primeira para mim?
—«Realmente!—Burns deu uma alegre risada—um theologo não defenderia melhor um dogma arrevezado. Tu tens razão, o teu par é o João e o meu caro Visconde vae ficar compensado passando pelo _Messias_ desejado de duas almas em pena que lhe vou mostrar.
E levou o alegremente a uma das pobres raparigas que lamentaram não ter par que dançasse com ellas uma vez ao menos...
Bella agradeceu-lhe com um sorriso, e, pondo a fina mão desluvada no hombro de João, deixou que elle a enlaçasse com um respeito quasi de religioso tocando em preciosidade cultual.
Seguiram na valsa colleante que os levava na corrente de um rythmo de musica vinda do norte, do paiz dos longos amores sentimentaes e dos lendarios castellos alcandorados nas montanhas...
Iam, levando-se nos braços um do outro, sem se verem nem ouvirem por entre aquella confusão divertida, obedecendo quasi mechanicamente ao espreguiçar inebriante da musica, n’um estonteamento de felicidade que parecia dar-lhes asas n’uma inconsciencia a roçar pelo sonho, tão intenso, tão extra-terreno era esse goso.
Só quando os ultimos acordes morreram nos violinos chorosos é que elles pararam, ambos egualmente atordoados e commovidos, deante de uma das portas do terraço, onde se ia respirar um pouco d’ar puro embalsamado pelas rosas trepadeiras.
—«Sabe que está encantadora, miss Bella!?—murmurou João levando-a para a varanda onde se refugiaram os conversadores.
—«Não diga isso, meu amigo.
—«Porque não, se é a verdade, o que sinto, o que vejo com os meus proprios olhos?!...
—«É o mesmo que qualquer outro me diria.
—«E que culpa temos nós de que as palavras estejam tão banalisadas que não haja meio de exprimir com ellas uma coisa nova, delicada, e sentida como eu a sinto?!
—«Que voz a sua, João! não me falle assim! Atemorisa-me. Eu, que nunca tive medo de coisa alguma, estou agora tremendo como uma criança—dizia commovida, encostando-se á balaustrada de pedra e ficando toda na sombra.
—«E porque é que a sua voz treme como a minha, porque é que nos seus olhos as lagrimas querem rebentar, Bella?!...
—«É verdade, estou a chorar, mas porquê?!...—e tentava sorrir mas não conseguia dominar a tremura do seu pequenino queixo de uma pureza de linhas verdadeiramente infantil.
—«Porque me ama, Bella. Para que nega-lo? Porque me ama como eu a amo, com toda a minha alma, com todo o meu sangue, com a certeza de que o seu espirito e o meu se identificarão sem se absorverem, que seremos dois amigos para caminharmos juntos na jornada da vida...
Fallou por muito tempo, muito, tecendo sonhos, bordando phantasias, que ella ouvia enlevada, encostando a cabeça á mão que lhe deixava livre, numa passividade deliciada.
Calaram-se ambos, sem nada encontrarem que exprimisse a ternura immensa que transbordando da alma lhes enchia os olhos de lagrimas de ventura.
Elle, mais forte, conseguiu articular uma palavra que dizia o desejo ansiante do seu coração na sua mesma simplicidade—«Amo-a!...
Bella estremeceu toda, como se fosse emergindo n’um banho de caricias, e ciciou n’um halo de sonho:—«tambem eu o amo...
E de mãos enlaçadas, olhos nos olhos, sorriso com sorriso, assim ficaram completamente alheados do borborinho e esbanjamento de alegrias e egoismos que se degladiavam na arena do baile com brutalidades de feras em pleno circo romano...
XIII
Os azedumes e as rivalidades accentuaram-se depois do baile, onde, parece, se tinham querido reunir n’uma ultima revista de forças os dois campos que a politica, com todo o seu cortejo de baixas vinganças e mesquinhas ambições, conseguira levantar na pequena e socegada villa sertaneja.
Em tal lucta ia de vencida o grupo do visconde porque elle, apesar do seu elegante cynismo e da obliteração quasi completa do senso moral no sentido rigoroso da palavra, que lhe fizera o habito de viver no mundo e n’uma sociedade que a custo se sugeita ao direito commum, julgando-se crédora de isempções e privilegios, era todavia incapaz de uma vileza ou de uma flagrante injustiça para alcançar os seus fins. Tanto mais que não fazendo da politica modo de vida, não disputava com desesperos de esfomeado o direito de trepar.
Depois, a seu lado, usando ainda assim de processos que á viscondessa não pareciam bons no seu grande e puro ideal da reformadora, mas n’esses mesmos processos conservando uma certa dignidade e limpesa, agrupavam-se os mais honestos, os mais sinceros, os que menos culpas tinham a exprobar-se.
O exame directo imparcialmente feito pelo dr. Ramalho no Cabral, de S. Mamede, ferido na romaria da Senhora do Monte pelo Manuel Duarte, da Povoa, em desforço de rixa velha em questões d’aguas, diziam algumas testemunhas, levantára descontentamentos entre os partidarios e alguns já diziam pelas tavernas—que se passariam para o Maximiano nas primeiras eleições, visto o dr. Ramalho não ter coragem de salvar um amigo da cadeia lá porque n’uma romaria bebêra uma pinga e dera umas pancadas.
É certo que o Cabral morrera, mas o Vilhegas affirmava a todos, confidencialmente, que a morte não resultára da pancada mas da deficiencia do tratamento que deixára sobrevir uma meningite.
Debalde o medico se esforçava por conservar o sangue frio e explicar a sua attitude, não como acusador nem desejoso de ver um homem condemnado, n’uma iniqua lei de Tallião que a sociedade arbitrariamente se arrogou, soffrendo porque fez soffrer, mas porque acima de tudo estava a verdade e o seu dever de perito era dize la completa e inteira sobre o caso que sujeitavam ao seu julgamento. O juiz que fizesse o que entendesse, mas que por um interesse politico não fossem condemnar ou absolver, fiados n’uma mentira.
Mas feriam-no aquellas luctas traiçoeiras, magoavam-no muito mais do que as floreadas correspondencias do Telles para um jornal de Lisboa, em que tinha phrases de sapiencia e de effeito como aquella de citar Diogo Arias—o celebre valido de D. João de Castella que no mundo só desejava ter um prego com o qual podesse pregar a roda da fortuna—isto para insinuar que o Dr. era um malvado que não acudira ao Cabral para fazer mal á infeliz victima da politica, o Manuel Duarte, curtindo na enxovia a sua innocencia...
O Ramalho contava a Bella, que muito se indignava com tal meada de embustes, que o Manuel Duarte era o primeiro a rir-se d’elles porque dizia a quem o queria ouvir—que bem se ralava de que o mandassem para a Penitenciaria, pois já lá estivera dois annos e como tinha empenhos sahia á cidade e até trouxera dinheiro ganho a vender chapéos de sol. Que para tudo se queria sorte e o sr. Conselheiro o protegeria, porque eram o pae e os dois cunhados marchantes todos por elle na eleição dos quarenta.
—«Já vê, minha senhora—dizia-lhe n’uma tarde de quinta feira nos ultimos dias de setembro, na varanda do palacio dos viscondes—que não vale a pena explicar. Descobrem-se bem os grosseiros manejos do padre cura. Primeiro quiz requerer novo exame para que o Vilhegas dissesse que o caso não era perigoso; mas como o homem morreu, fui eu que o matei...
—«Oh, mas é indecente, uma lucta assim feita de mentiras!
—«Pois é; mas que fazer? A não se querer usar dos mesmos processos, mais vale não lhes ligar importancia.
—«O dr. hade confessar—dizia lhe o João indignadissimo—que tanta porcaria, tal esterquilinio d’almas desperta o desejo de caminharmos para o futuro varrendo todo esse lixo sem dó nem piedade...
—«João, João, cautella, não te mettas a regenerar o mundo, olha que se estes são o que vês, a _canalha_ sem eira nem beira ainda se lhes avantaja em atrevimento...—respondia o visconde sybariticamente deitado n’uma cadeira de baloiço, soprando para o azul hilariante do céo o fumo leve do charuto.
—«Mas suppondo mesmo que a _canalha_, como o primo diz, seja mais exigente nas suas reclamações, tem direito a faze-las tendo arrastado seculos de captiveiro, tendo a vingar rios de sangue e de lagrimas...
—«Deixa lá, João,—acudiu a viscondessa para terminar uma discussão que sempre a irritava entre o egoismo do visconde e o ardente enthusiasmo do primo, que trouxera da Belgica, a par de uma grande instrucção, uma fé sem limites n’um melhor futuro para os despresados de hoje—O dr. soffre o castigo de ser honesto e ter entrado em politiquices de campanario.
—«Queres então dizer que eu não sou honesto, não é verdade?—sorriu com indifferença o visconde.
—«Não é isso, mas tu como chefe tens tido sempre melhor posição e menos responsabilidades locaes...
A conversa terminou, felizmente, pela entrada da Candida que vinha convidar a viscondessa para madrinha do casamento.
Apesar da indiferença que aparentava, o dr. Ramalho soffria com tal campanha; demasiado honesto para usar de processos identicos e pagar diffamação com diffamação, sentia-se adoentar n’uma crise de desânimo que o deixava impotente para a lucta.
Só o dr. Pinto sustentava a retirada desembestando ironias a torto e a direito e conseguindo ridicularisar o Maximiano e a sua malta a ponto de obstar a que todo o partido do visconde, por um resto de pudor, se passasse com armas e bagagens para o campo inimigo.
Mas, contra esta influencia, mais paralysadora do que militante, alevantava-se a do padre Mathias carreando descontentes e ambiciosos que pediam empregos e ganhos, que não se regateavam no partido aos bons serviços politicos.
A sua bilis de atrabiliario extravasava em doestos e arremetidas que visavam todos os contrarios e em particular o abbade a quem odiava e invejava.
O velho padre, que era um bom e um humilde, sem sombra de maldade nem ambições gananciosas, fechava os olhos e desattendia-se para evitar questões, que se lhe afiguravam pouco em harmonia com os deveres da posição de ambos.
Bastas vezes fingira não saber dos desregramentos do cura, que a pretexto de ter sido feito padre pela violencia da vontade paterna não olhava a conveniencias que o mais simples homem livre tem o dever de attender. Mas porque o bom abbade não podera calar um dia a murmuração do povo pela escandalosa vida do novo cura e o admoestou em palavras mansas de caritativo pastor, o outro embezerrou e d’alli lhe veio odio terrivel, d’estes odios sem mercê que crescem na fria sombra das sacristias e se erguem como floração insalubre a ligar e a prender os movimentos até á suffocação dos miseros que n’elles pozeram um pé em falso.
Com um desejo de vingança e uma ambição a satisfazer, entrara para o serviço do Maximiano, tornando-se em breve o principal agente e o seu mais util auxiliar.
A conselheira é que, mal se annunciara o outomno, fixara a sua partida, para ainda poder gosar uns dias de praia elegante, em Cascaes ou Estoril. Era sempre contrariada que vinha para a villa e só se mostrava alegre e amavel no dia em que marcava o regresso ao mundo civilisado, segundo a sua expressão.
Irritava-a alli a preponderancia e real superioridade da viscondessa que era estimada pelo povo miseravel, que a ella recorria como a fonte inexgotavel de soccorros.
Eram noivas a quem dava dotes e enxoval, casas que deixava habitar de graça pelos mais pobres, crianças e velhos que era preciso vestir e metter em asylos e hospitaes a não ser que a familia recebesse alguma coisa para os tratar... Ella satisfazia todos os pedidos, feliz por se tornar util, não pensando sequer na gratidão, que afinal lhe tributavam todos.
Ora estas e outras superioridades de riqueza e de espirito eram um continuo manancial de sensaborias para o orgulho da conselheira que recebia n’essa noite, pela ultima vez antes de partir, os frequentadores das suas quintas feiras.
Como de costume, a maior animação era em volta das mezas de jogo.
Só a baroneza da Amieira se affastara com o D. Manuel Pereira—porque, dizia ella, era o jogo o unico vicio que nunca lhe dera prazer. Se perdesse, não se encommodaria, porque o dinheiro pouco valor tinha aos olhos da viuva que aos deseseis annos comprara, com o inestimavel preço do seu corpo juvenil e bello, uma fortuna quasi ingastavel. Se ganhasse, de que lhe serviria o dinheiro, que aos outros fazia tanta falta?!...
Não seriam positivamente essas considerações altruistas a causa da sua abstenção, mas como era divertimento de que não gostava, sabia com ellas tornar se sympathica. Chegava mesmo a sê-lo, apezar de todas as loucuras que os annos não tinham ainda interrompido. Intelligente, de uma saúde vigorosa, activa e com muito espirito, ousára fazer sempre o que a vontade e o capricho lhe aconselhavam sem sombra de respeito pela sociedade que conhecia cheia de tolerancias para as que, como ella, se escudam na fortuna, e tão austera soe sêr para as pobres que prevaricam.
No intimo da sua alma leviana havia um fundo de instinctiva justiça que a fazia prodiga com os miseraveis e sem maledicencia que ennodoasse as outras, como quem se quer desculpar com o exemplo alheio.
Se não era honesta e não dava grande valor a essa virtude que só lhe parecia bôa para pobres usarem, tambem não era hypocrita; e chegava a ser ingenua á força de impudencia na phylosophia adquirida no longo convivio de pessôas que se habituara a julgar o typo commum.
Pelo braço do D. Manuel Pereira affastara-se para a sala de bilhar onde, a um canto, a Hortensia languidamente recostada n’uma commoda mas feia cadeira inglesa, conversava com o Vilhegas, em requebros, retorcimentos de pescoço e gritinhos de cãosito de regaço. Ao fundo da sala, a meia voz, o conselheiro conferenciava com o juiz.
—«Então o que lhe dizia eu, D. Manuel? Onde menos gente houvesse é que era mais certo encontrar os noivos—dizia a baroneza alegremente.
—«Procuravam-nos?—perguntou M.ᵉˡˡᵉ Hortense voltando meio corpo, como manequim de uma só peça.
—«Não, precisamente, mas procuravamos alguem que não estando a jogar podesse dizer alguma coisa que distrahisse.
—«Viemos bater a má porta; estes senhores estavam tão absorvidos na sua felicidade que chega a ser um crime distrahi-los.
—«Pelo contrario, D. Manuel, dão-nos muito prazer. Estavamos fazendo _un petit bout de causerie intime_, mas temos para isso tanto tempo!
—«Faço ideia! Vão-lhes parecer seculos estes mêses. Quando casam?
—«Lá para o fim da primavera, para se sahir para Cintra ou para o Bussaco. A mamã queria que fôsse já, mas eu prefiro noivar durante o inverno, é mais chic e não corro perigo de me privar dos bailes...—sublinhou com impudor.—Já mandamos fazer participações de _fiançailles, qui est du dernier chic_.
A baroneza riu francamente e respondeu a meia voz qualquer coisa a que outra replicou n’um esgare de enjoada:
—«Tem suas conveniencias _le rôle de madame_ mas é d’uma falta de chic _assomante_ ser mamã. _Oh! les petites bêtes!_ uff!...
D’ahi a conversa foi derivando entre risos e anedoctas em que a rapariga representava o primeiro papel, com um despreso soberbo de todas essas velharias a que se chama pudor e ingenuidade. O Vilhegas, um pouco compromettido porque aquillo bulia-lhe ainda com todos os preconceitos provincianos, de que tentava limpar o espirito, contava tambem as suas graçolas, dizia historias de Coimbra.
—«Olhe, doutor—disse por fim a baroneza, sempre procurando novas distracções—parece-me que entrou agora o seu amigo Telles e esse é que nos vae entreter recitando alguma coisa. Chame-o e peça-lhe.
—«Da melhor vontade, mas se fôsse V. Ex.ᵃ a pedir teria muito mais valor.
—«Olha, parece-me que se anima a _soirée_. Lá entraram as Souzas e as Cunhas. Onde estaria toda esta gente mettida?
—«E o Móttasinho tambem, esse póde dizer charadas, dizem que tem geito.
—«É melhor chama-los todos para aqui, se os deixam ir para o jogo, então acabou se!... Faz falta o visconde d’Alvora,—commentou a baroneza.
—«Ah, esse agora é todo viscondes—começou o Telles que se adeantára a saudar.
—«Desde a noite do baile que lá está e nem ao menos uma visita!... _C’est incroyable!_