Part 1
AMBIÇÕES
Obras de ANNA DE CASTRO OSORIO
INFELIZES (_historias vividas_)—Livro de contos.
PARA AS CRIANÇAS (_bibliotheca infantil_)—Publicação mensal illustrada:
Contos tradicionaes portuguezes—7 volumes.
Contos originaes, educativos—2 volumes, (_Alma Infantil_ e _As boas crianças_).
HOMENAGEM A GARRETT (_de collaboração com_ =Paulino de Oliveira=)—Opusculo commemorativo do centenario garretteano, edição de luxo.
A BEM DA PATRIA (folhetos de propaganda, distribuição gratuita):
_I As mães devem amamentar seus filhos._
UMA MISSÃO DO PADRE GRAINHA, por =Alberto Osorio de Vasconcellos=—_Edição em livro, feita e apreciada por_ =Anna de Castro Osorio= _e_ =Paulino de Oliveira=.
AMBIÇÕES (_romance de costumes_).
A PUBLICAR
A VICTIMA (romance em continuação do AMBIÇÕES).
HOJE E AMANHÃ (revista mensal illustrada, litteraria, scientifica e educativa, sob a direcção de =Anna de Castro Osorio=)—A sahir em fevereiro d’este anno.
OS ANIMAES (10.º volume da publicação: _Para as crianças_)—contos originaes, já em publicação.
_ANNA DE CASTRO OSORIO_
AMBIÇÕES
ROMANCE
1903 _LIVRARIA EDITORA_ GUIMARÃES, LIBANIO & C.IA _108, Rua de S. Roque, 110_ LISBOA
I
É na botica d’uma villa de provincia, velho burgo acastellado, orgulhoso dos seus foraes e brazões como da nobreza que em tempos d’alli sahiu e se espalhou pelo reino, deixando fortes raizes na terra, que ainda exporta fidalgos como podia exportar qualquer mercadoria.
Despoetizada pela moda que tudo confunde e baralha e pela turba de veraneadores que a procuram para refazerem os pulmões e os nervos, a que os invernos de Lisboa esgotam a energia, é ainda assim das mais typicas e formosas da provincia.
Afóra dos muros, os campos estendem-se verdes—do verde escuro dos pinheiros, do verde cinzento das oliveiras, do verde brilhante dos castanheiros... de longe em longe, manchas risonhas de pomares, salpicadas de casaes brancos, com recortes de velhos campanarios, fachadas ennegrecidas dos antigos solares, e as ermidas caiadas nos cimos dos montes cobrindo com um leve e translucido véo de mysticismo pagão a hilariante festa da natureza.
Nada mais proprio, em verdade, para uma villegiatura alegre, do que esse recanto de provincia,—valle ameno entre montanhas, com o rio cachoando ao fundo, deslisando mais adeante entre salgueiraes, como assustado da sua propria fúria.
Ha alli de tudo para deleite dos ociosos que no verão passeiam pelas provincias os tedios e as _toilettes_ da moda.
Para os _pic-nics_, a sombra de velhas arvores em quintas senhoreaes; o rio, com as madrugadas de pescarias alegres; e lá para setembro a caça a rôdos pelos matagaes da serra; e para cúmulo as estradas bem conservadas pelo interesse que a gente da villa mostra em dar boa conta de si perante a civilisação dos _pur-sangs_ e dos cocheiros inglezes.
Mas estamos no inverno, n’uma fria tarde de fins de janeiro. Ora o que se hade fazer no inverno n’uma terra de provincia, quando a neve cobre o cimo das serras e o vento corta as carnes como vergastadas? Procura-se então um bocado de sociedade para encurtar as noites sempre grandes para os preguiçosos e os paroleiros.
Vae-se para a botica, pois para onde se hade ir?...
Aquillo é o club, o centro onde tudo se reúne e as novidades se sabem e commentam, primeiro que em parte alguma.
Toda a gente tem entrado n’uma pharmacia e conhece mais ou menos o cheiro especial dos remedios, o feitio classico dos boiões das pomadas, os frascos bojudos com tampas de vidro e letreiros em grossas lettras sábias, os passaros empalhados entre o aquario com peixesinhos vermelhos e a balança na sua maquineta de mogno polido.
Em coisa alguma sahia dos antigos moldes consagrados a propriedade do sr. Domingos José da Silva, chamada a _botica velha_, para se distinguir da _nova_: envernizada de fresco, com mobilia de casquinha folheada em mogno, fabricado n’uma marcenaria do Porto.
Comtudo, a velha pharmacia rotineira e modesta não perdêra os freguezes antigos, como se não cançava de o apregoar o seu feliz dôno, que não soffria sem verdes olhares d’inveja o luxo sybarita do competidor.
Por largos annos fôra o unico pharmaceutico n’umas poucas de leguas em redor e gabava-se que não havia quem lhe levasse a palma na confecção d’umas certas pastilhas contra os vermes. Essa e a dos cães damnados eram muito suas e a ninguem as daria senão no ultimo arranco.
Mas um dia—questões de politica, infamias, invejas!...—eis que lhe surge pela prôa a nova pharmacia, com proprietario rapaz a modos litterato e suas vistas altas de quem tem um curso e faz os rótulos em latim.
Ia tendo uma apoplexia o sr. Domingos! A cada innovação que o seu rival trazia ás velhas costumeiras de botica provinciana, elle desabafava em murros no mostrador e furioso sorver de rapé.
Andou atrapalhado uns tempos. O filho aconselhava que mandasse dar uma pintadella ás portas, comprasse estantes e livros encadernados, e lá emquanto aos letreiros mandava-se ao mano, que estudava no seminario, que os escrevesse.
—Que não!—berrava o velho em vermelhas guinadas d’orgulho—que assim tinha vivido sempre e assim queria morrer; que levasse o diabo os modernismos!
N’estes sentimentos era appoiado pela mana Joaquina, resmungando sempre encatharroada contra as novidades e contra o rheumatismo que mal lhe deixava arrastar as pernas trôpegas.
Mas o caso é que a botica nova não lhe tirou freguezia, apezar dos fumos de sabichão do pharmaceutico, porque a boa gente da provincia gosta sempre de andar pelo seguro:—_ná_, diziam elles, temo-nos governado com o _sô Domingos_, e com as suas drogas nos iremos medicando; nada de venenos, que são os remedios novos!
E batiam familiarmente nas costas do velhote, que esfregava as mãos triumphante.
Passára-lhe já a maior furia, mas o rancor ficára latente e resmungão, como cachorro mal acostumado ao canil. Pessoa que, por acaso, ou propositadamente, entrasse na _nova_—como dizia com ironico despreso—era certo incorrer para sempre no desagrado geral da familia.
Mas, isto era ao accender dos candieiros de petroleo,—não chegou ainda a civilisação do gaz a todos os cantos de Portugal—por um fim de dia de frigido janeiro.
Lá fóra a escuridão fazia-se rapidamente, com um tremôr d’estrellas que annunciavam muita geada por essa noite fóra.
O sr. Domingos José da Silva, _matriculado_ pharmaceutico no largo da Fonte, (como de si proprio dizia com grossa voz fanhosa e expedimentos de perdigotos por demais explicativos para quem lhe ficava em frente) estava nos seus momentos felizes.
Era á hora a que os parceiros do _solo_ e da má lingua começavam a chegar, e toda a sua grossa pessoa rejubilava festiva.
Não que elle fosse positivamente um mau homem, que não era! Mas aquelle fraco por saber o que se passava na terra, fazia-o esperar pela noite como pelo melhor bocadinho da sua estupida vida, partilhada entre as tizanas, as descomposturas aos freguezes pobres, e o desvanecimento pela esperteza propria e a da familia.
Não era raro ouvir-lhe contar os adeantamentos e habilidades da sua prole, n’estes e n’outros discursos por igual demonstrativos.
—«O meu filho _Antoino, cabalidade, cabalidade_!... Deu os riscos p’ró chafariz novo. Ainda os pintava melhor, a _cambra_ é que não quiz gastar dinheiro. Mas deixem-me ser _vérador_ que o caso é _oitro_...»
Tinha ferrado no bestunto esse ideal supremo de labrego, que ao acaso de muito pontapé da sorte conseguira largar o cabo da enxada pela mão do almofariz.
Passeava, pois, o sr. Domingos José da Silva ao longo e largo da pharmacia, para melhor aquecer os pés mettidos em tamancos forrados; esfregava as mãos vermelhas e enfrieiradas vestidas de _mitenes_ d’algodão verde salsa; tossia para o _cache-nez_ enrolado ao pescoço, e esperava os parceiros emquanto o filho _Antoino_ accendia as luzes e preparava as cartas para a partida.
N’uma das voltas do passeio, que o poz em frente da porta, deu de cara com a Engracia da Luz, a velha criada, quasi da familia, de casa dos Mellos.
Estacando deante d’aquella visita inesperada, onde farejou um principio d’intriga para o serão do padre cura e mais freguezes, perguntou solicito:
—«Que é lá isso, _nhora_ Engracia? Está alguem doente lá por casa?! Parece que a vejo assim a modos assarapantada!...
—«Ai! deixe-me aqui _sô_ Domingos. Eu vinha em busca do sr. dr. Ramalho. Disse o Zé Leandro que vira chegar umas malas grandes no carro da estação, que talvez fosse o senhor doutor... E vae eu vim em cata d’elle, porque a minha menina está muito mal, muito mal!...—puxando a ponta do avental, n’um arremesso á desgraça, limpou as lagrimas que lhe corriam em fio.
—«Olha que _lanzudo_ aquelle! Essas malas que diz são do caixeiro das amostras, que até está em casa do Brito. O bruto não sabe _cabriram_ as _cambras_ e o dr. Ramalho é deputado? Que eu _tamem_, não sei o que alli anda!... Elle não pára cá em chegando o inverno...—piscava os olhos ao filho com ar de finura laponia, o que escancarava n’um regosijo a bocca do rapazola. Mas, reparando no ar desinteressado da Engracia que se voltava já para a porta, tornou:
—«Olhe cá, então o dr. Viegas, o doutor _novo_, não está lá sempre mettido em casa, não é até o noivo da Pillarsinha?
—«Pois é, é!... E não sei que lhe diga, _sô_ Domingos, mas aquelle casamento foi a nossa desgraça. Nem elle se faz, que a minha menina morre!...
—«Elle que é medico hade curá-la, e com remedios da _nova_ a sua menina irá a melhor, verá!...
Ria n’um pigarro escarninho, que arrepiava.
—«Olhe, _sô_ Domingos, eu não sei d’essas coisas. Os senhores é que lá entendem d’essas guerras! Só cá me consolava o coração que o sr. dr. Ramalho visse agora a minha menina. Está _finadinha_ de todo. Aquillo é uma fraqueza de peito, uma canceira que nem parece a mesma! _Decoadinha_ como a senhora da _Solidade_! Valha-me o _Senhor dos Afflictos_ da egreja, que só a elle a gente se póde apegar!...
—«E os paes!?...
—«Ora, os paes?!... A mãe chora dia e noite e o pae anda assim como maluco, nem toma tento no que se lhe diz.
—«Mas porque não mandaram vir o dr. Ramalho?
—«Todos os dias fallâmos n’isso, mas a menina não quer, diz que está melhor e se o mandam vir é porque a acham muito mal. Até disse que se escondia, que lhe não fallava. Não se hade contrafazer uma doentinha. O dr. Vilhegas tambem diz que não é preciso!... Ai, não estar cá o Joãosinho!...
—«E a prima, a Candidita, o que faz?
—«Está uma boa delambida, essa!... Aquillo nem parece prima da minha menina, uma soberbona, uma tola... Emfim... vou me que tenho pressa. Adeus, _sô_ Domingos, recados á _sora_ Joaquina.
—«Obrigada. Até outra vez, _nhora_ Engracia!
Deixou-a partir sem mais conversa, por lobrigar o gabão do padre cura que atravessava o largo.
—«Boa noite, meus senhores,—entrou dizendo e deitando para baixo a golla de pelles, o padre, novo ainda, espadaúdo, cacete nas unhas, cigarro nos beiços, e grossas botas tamancos.
—«Então como vae isso, _mestre_ Domingos, rijo e fero, hein? Isto por cá está hoje muito só. Estes senhores teem medo do frio, que está de rachar. Não temos parceiros para o _sólo_, aposto!—escarrava para o chão, raspando com o pé.
—«Ainda não é tarde, ainda não é tarde. O Neves não tarda por _hi_.
—«Aquella que sahiu não era a Engracia dos Mellos?
—«Era, vinha em busca do dr. Ramalho; imaginava que tinha vindo, porque, _plos_ modos a Pillarsita está a _espichar_.
—«Ora adeus! A você o que o faz fallar é a inveja.
—«Inveja, eu?! Agora de que havia eu de ter inveja? Pois qu’é o _Antoino_ de Mello mais _camim_? A mulher sim, não digo nada, agora elle!... Olha a grande _jaração_!
—«Não é lá d’isso que você tem inveja, _sô_ Domingos; deixe-se de cantigas! O que a você o rala é a pequena ser tratada pelo Vilhegas que os levou para a _nova_.
—«Quê?!...—rouco de furia contida, recomeçava o Domingos o passeio n’uns impetos de fera, vendo o padre torcer-se ás gargalhadas.
Era o pratinho do cura metter ferro ao pharmaceutico; e este, sabendo isso, não queria responder para não dizerem que dava o cavaco.
O padre cura era o unico a quem elle desculpava umas certas graçolas e o unico que acceitava na sociedade depois de o saber frequentador da _nova_. Um pouco por medo, porque o padre tinha genio de varrer uma feira e não raro se fallava de romarias em que o seu cacete se cruzára com o dos mais _pimpões_, e um pouco, tambem, por curiosidade de saber o que se passava no campo inimigo.
Ainda o padre se torcia com riso quando entraram o Braga uzurario e o recebedor, que, só de o verem rir, começaram tambem a rir, comprehendendo logo do que se tratava pela cara apopletica do boticario.
O recebedor—muito vermelho, quasi cego, atarracado e obeso—interveio, conciliador!
Lá está o Domingos _a dar a casca_; deixe lá, homem, não faça caso. Ó sr. padre Mathias, deixe-o lá!
—«Eu pego-lhe?! Só lhe digo as verdades, e vae elle põe-se que nem uma barata.
—«Podéra não! Vem cá dizer que tenho inveja da _nova_...
—«Pois não tem, não!...—recomeçava o riso que endoidecia o outro.
—«Ó padre!...—avançava irado.
—«Deixe lá, deixe lá, aquillo é graça—amansou o Braga, lambendo-se por novidades... Vamos a saber a que veio a historia?
—«Conta lá homem, desembucha.
—«É a pequena do Mello que está doente—explicou o cura, levantando-se para ir contar as cartas em cima do mostrador—e cá o mestre Domingos diz que são venenos da _nova_...
—«Ó sr. padre Mathias! O senhor põe-me doido, olhe que me póde metter em trabalhos. Eu disse lá semelhante coisa, crédo, que _home_ este, como as inventa!...
—«Ora, se o não disse pensou.
—«Não pensei, não senhor!
—«Então hade pensar.
—«Ora isto, isto! Mas que mal fiz eu a Deus, para aturar este _home_!
—«Pois sim, diga-lhe d’essas. Venham os senhores jogar uma partida emquanto elle desabafa.
—Mas conte sempre—acudiu o Braga, muito curioso.
—«Não é mais nada. A pequena está doente: nem ella melhorou em termos desde a pneumonia, pleurosia ou lá o que foi...
—«Aquillo foi doença do diabo, foi—commentou o recebedor.
—«E depois?—apressou o uzurario.
—«Depois, o medico é o Vilhegas que vae á _nova_. E o Domingos desespera-se porque não está o Ramalho, que é cá da _velha_. Vae pelo _antigo regimen_...
—«Não, o Ramalho não tem preferencias, e lá bom medico é elle.
—«Ó recebedor, você está sempre a defender todos, sem que ninguem lhe pague o sermão. Não digo que seja mau, mas muito adiantado não está, não se póde comparar com um rapaz sahido da escola, conhecedor de todos os processos mais modernos.
—«Não sei. Eu cá só me quero com elle. O Vilhegas será muito bom, não contesto, mas cheira-me a intrujão.
—«Pois não é, fique sabendo que é um talento!
—«Será!...
—«Mas o que tem a pequena?—perguntou o Braga, que não estava ainda satisfeito.
—«Não sabem ao certo. Dizem que é nervoso. O nervoso agora serve para tudo. Ella é fraquita. O João é que fica um bom partido, para mais de quinhentos contos!...
—«Hum! Não lhe hãode durar muito, acostumado a viver no estrangeiro...
—«Deixe lá, amigo Braga, um estudante lá fóra não gasta mais do que gasta por cá; e sempre trazem outro lustro—contradictou o cura todo de ideias avançadas e amigo do progresso.
—«Ha o perigo de se não darem cá depois, como succedeu ao Pedro d’Athayde da casa da Fradosa. Veio lá de Paris com taes ideias que não podia tolerar a familia—ponderou o recebedor.
—«Não, esse caso foi outro. Sei-o eu melhor do que ninguem, porque fui amigo do Pedro desde a escola do padre _Zé_. Era um bom rapaz! Generoso, franco, não podia ver uma desgraça que não a alliviasse com dinheiro, conselhos e favores, tudo! Era uma joia. Mataram-n’o os beatos que se metteram lá em casa e que elle não podia supportar. Com as suas ideias livres, a sua consciencia clara, era um escandalo na casa que se tornou um asylo de quantas irmãsinhas, frades e freiras, apparecem por ahi. O rapaz dizia, e dizia bem, que não se importava que rezassem e jejuassem sempre que lhes appetecesse, mas que o não quizessem converter a elle, que o deixassem em paz ir para o inferno ou para o céo á sua vontade. Houve questões horrorosas entre elle e o pae, que é o verdadeiro beato da casa. Por fim descoroçoou e partiu outra vez para França. Lá morreu, ou se matou. Viram-se livre d’elle e agora resam-lhe por alma. Eu sou padre, mas não gosto de beaterios. Tambem tenho tanta vocação para isto como para fiar na roca.
—«Ora, deixe se de contos, homem! Aquillo são tolices do Mello que perdeu o juizo com o dinheiro do Brazil. Metteu-se a fidalgo, casou com a prima da viscondessa, já quer os filhos educados como principes.
—«E soberbo!...—começou o Domingos, já serenado, visto que a _critica_ principiava—não ha quem lhe chegue! E quer fazer _lordes_ de toda a familia. Ao Vilhegas, lá porque era primo em decimo grau, emprestou-lhe o dinheiro _p’rós estudios_. Já se viu assim uma coisa?!
—«Quem os conheceu!...—grunhiu o Braga entre uma baforada de cigarro e um _solo_ resmungado a _mezza voce_.
—«Deixem lá, que elle é bom homem—terminou o cura, com a ultima carta que lhe sahiu das mãos. Só o que elle tem feito á sobrinha, que a tem em casa como filha!
—«Hum! Uma boa prenda a tal menina, segundo diz a Engracia—informou o Domingos.
—«Bonita a valer. Se a vissem no verão passado, nos annos da viscondessa!
—«Então eu não estava lá? É muito bonitinha, é!
—«Bonitinha! Onde tem você visto melhor, _seu_ Braga?! É uma bella mulher!
—«Ó cura, você parece que se lhe não dava de casar com ella.
—«Se não fosse este diabo da batina, não lhes digo nada. Ainda que mulheres d’aquellas não são boas para pobres.
—«E parece que não tem namorado—lembrou o recebedor, sempre comezinho nos commentarios.
—«Pois quem ha por ahi capaz de a tentar?! Você imagina que ella é parva, que se não conhece? Ó Braga, você é que podia casar com ella. Levava uma mulher que muitos lhe invejariam.
—«Eu?!... Na minha idade, uma rapariga bonita, que hade querer luxos... Você vê-me algum _t_ na testa?!
—«Não sei; ella é de fazer perder a cabeça... e você é rico... Sabe o que é ser rico? É ter tudo quanto se deseja. Se eu fosse rico como você, deixava crescer a corôa e ia até Roma para que me livrassem das ordens; depois casava com a pequena, olá se casava!...—estendia as pernas e cantarolava, esperando as cartas que o recebedor muito myope a custo despegava das mãos.
—«Hum! Ella hade pentear se para o primo.
—«O João, sim! Quer lá agora a Candida sem vintem e sem educação!...—acudiu o recebedor—Que isso lá, verdade, verdade, eu não quero nenhuma; sou casado, não ha que desconfiar, mas a Pillar é _outra fazenda_. É muito fina, muito boa, não se compara...
—«Pois sim, mas a Candida é uma mulher a valer! Depois, a Pillar está noiva do Vilhegas, não ha que pensar n’ella.
—«Casar?... Se não morrer primeiro, intrometteu-se o boticario.
—«Lá torna você, homem; olhe que já é mania!
—«_Nan sei!_ Elle lá está de dentro, vê as duas; talvez se arrependesse e...
—«Calle-se ahi, homem de Deus, não diga _barbarismos_. Lá vem o Neves.
O Neves, ainda rapaz, entrou tossindo a sua asthma, magrizella, sem emprego certo, mas cheio sempre d’affazeres, muito prestavel e comprimentador para os _grandes_, risonho no seu ar de pobre diabo.
—«Vivam, meus senhores!
—«Adeus, Neves, então o que ha lá por fóra?
—«Não sei nada—respondeu sacudido, como se as phrases lhe sahissem aos pedaços, aos arrancos, da bocca embrulhada.
—«Dizem que a Pillarsita está doente. É verdade?—interrogou o cura.
—«Verdade, é; mas o meu primo disse-me hoje—não perdia occasião de referir-se ao parentesco que o engrandecia, com a grandeza do Vilhegas—que não era coisa para as afflicções dos paes. Noivo é elle e não vê motivo para tanta apoquentação.
—«Talvez não veja bem... disse entre dentes o pharmaceutico.
—«Que é lá isso, ó _sô_ Domingos? Você parece que me traz _quesilha_ desde que veio o meu primo. Olhe que eu não tenho nada com as suas zangas...
—«Quem diz isso? É que hãode ver muita coisa!... Eu cá sei!...
—«Sabe o quê? Diga aos amigos, desembuche.
—«Nada, nada!...
—«Está doido—rematou o cura, ainda preoccupado com a belleza da Candida.
II
Era verdade. A Pillarsita havia uns tempos—depois d’uma pleurezia que a tivera entre a vida e a morte—puzera-se n’um esmorecimento de flôr que se estiola.
Não se queixava, que a doença não lhe pedia remedios nem desejos de melhorar—só os que ainda teem esperança de felicidade se apegam á vida e querem convencer-se de que o queixar-se lhes traz allivio.
A pequena, dantes tão alegre, d’uma vivacidade gárrula d’avesinha amorosa, entristecêra subitamente, e, taciturna, aborrecida, ninguem diria que era a mesma. De bondosa e tolerante que era, tornára-se impertinente e irritavel, como se os nervos lhe andassem desorientados sob a pressão d’um grande mal.
Essa mesma susceptibilidade morbida, que transformára a rapariga d’outr’ora, alegre, boa e egual, n’uma nevrotica, minada de desejos e caprichos que logo se convertiam em saciamentos de vontade doente, dava-lhe por vezes tambem dias de tanta meiguice e passividade que o seu espirito não parecia ter mais energia do que o d’uma criança recemnascida.
O noivo, o Emygdio Vilhegas, tinha para desculpar estes caprichos e phases, discursos e theorias sobre as doenças nervosas, que deixavam os paes, senão satisfeitos, ao menos mais socegados sobre a gravidade do estranho mal.
Elle e a prima da Pillar, a Candida, que fôra a sua companheira e amiga intima desde a infancia, não podiam comprehender a quasi aversão com que a enferma os olhava e por vezes até repellia.
No principio da doença, quando a pleurezia se apresentára dupla e d’uma violencia mortal, elles arvoraram-se em enfermeiros solícitos e era impossivel exigir aos seus affectos maior vigilancia e cuidados. Mas desde que a febre cedêra e a doente começára a reconhecê-los, affastára-os systhematicamente, com uma friesa de maneiras que mais se evidenciava pelo contraste com a mãe, a quem desejava sempre ao pé do leito, sem uma hora de repouso que não fosse substituida pela velha Engracia.
—«Porquê?!...» os dois, no vão d’uma janella, n’um fugitivo momento de solidão, olhavam-se apavorados e trocavam rapidamente essa pergunta.
—«Porquê?!—dizia o Emygdio—terá acaso desconfiado alguma coisa?
—«Parece!...
—«E se diz aos paes?!
—«Que importa? Não o devem saber mais dia menos dia?...—murmurou a Candida, fitando os seus olhos carregados de duvidas nos olhos que o Emygdio desviava intencionalmente, ao mesmo tempo que respondia:—«Ah, mas por emquanto não... Bem vês!... Devemos-lhes tanto!... É urgente saber, custe o que custar, o que ella sabe de nós.
A conversa, cheia de reticencias e sub-entendidos, foi interrompida pelo arrastar de passos trôpegos no soalho do corredor. Era a Engracia que entrava para levar um caldo á doente, que no quarto ao lado se ia finando. Olhou os dois com severa desconfiança, emquanto o medico n’uma voz de perfeito socego fingia dar as ultimas recommendações á inferma:
—«Logo que venha o remedio da pharmacia dê-lho d’hora a hora, até que eu volte.
A Candida affastou-se silenciosamente, emquanto o rapaz a ficava olhando embevecido. Era na verdade linda, mulher de fascinar e não d’encantar, talvez, de uma belleza cheia, fria, e esculptural, que se impunha.
Branca como um lirio e tão branca que o seu busto triumphal mais parecia talhado no marmore de que se fizeram as maravilhas da estatuaria grega. Cabeça alta e pequena levemente inclinada para traz, como que vergando ao peso dos fartos cabellos d’um castanho que á luz toma reflexos d’oiro; a bocca delgada, sempre aberta n’um sorriso frouxo de contemplação propria; e nos olhos negros, velados d’uma placidez funda d’abysmo, nada se poderia lêr do que lhe ia na alma. Muito alta e direita, nobremente lançadas todas as linhas do seu corpo—era uma verdadeira maravilha da carne.