Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias

Chapter 9

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Desde que a critica hoje não é mais, no dizer de Anatole France, _que as aventuras do espirito de cada critico atravez dos livros que este lê_, porque não confessarei que em Bento Moreno prefiro o contista ao romancista?

É que o _Amor Divino_, os _Novos Contos_ e o _Antonio Fogueira_, pintam deliciosamente e naturalistamente scenas da vida minhota, quadros da paysagem minhota, traços, condições peculiares, sentimentos e impressões da alma minhota.

Desdenhando inteiramente o successo facil e o applauso condicional d'um publico pouco litterario, Bento Moreno continuou a seguir, com enlêvos de artista, o precioso filão que descobrira.

Elle, de resto, não fez senão recordar-se bem, e traduzir--pondo a _nota justa_ nas suas formosas interpretações artisticas,--as scenas que vira e que presenceára na infancia, inconsciente da graça nativa que d'ellas se evola como um perfume acre e sadio!

Este escriptor, que o publico não tem favorecido com excessiva attenção, é comtudo um dos homens mais doidos pela sua arte, que eu tenho conhecido na minha já não curta existencia.

A fortuna, que ninguem mais do que elle merecia, pol-o desde longos annos ao abrigo d'esta necessidade ferrea, que nos traz a tantos de nós, curvados sobre a banca do trabalho, exhaurindo sobre ella a nossa força, a nossa seiva intellectual, a nossa saude, a nossa alegria, a nossa vida emfim.

Mas que lhe importava a elle esse secundario accessorio?

O trabalho litterario é o grande e o mais profundo amor da sua alma, tão nobremente povoada de affectos santos.

Debaixo do seu sorriso de sceptico, sob a sua palavra um pouco mordaz sem nunca ser maledicente, um pouco acre, sem nunca ser cruel, esconde-se um d'estes corações d'ouro, uma d'estas organisações d'uma sensibilidade exquisita e dolorosa, excessivamente impressionavel, aberta ás proprias dôres, e o que é mais, ás dôres d'aquelles que ama! Esta sensibilidade fez d'elle, irremediavelmente, o artista condemnado ás gestações dolorosas da ideia, aos improbos combates da fórma, ás tristezas invenciveis dos longos periodos de desalento, ás luctas sempre renascentes da creação artistica, laboriosa e terrivelmente fatigante para o cerebro.

* * * * *

Nos _Contos_ de Bento Moreno ha duas figuras, que ressaltam principalmente, com uma vida intensa, com uma realidade violenta. São o _abbade_ e o _brazileiro_, as duas entidades importantissimas na paysagem risonha e na farta vida tão singela da nossa verde provincia.

Foram Camillo e Bento Moreno os que comprehenderam e puzeram em poderoso relêvo estas duas figuras caracteristicas e tão nacionaes! Em Camillo, a linguagem d'uma riqueza incomparavelmente superior, a intensidade e a vivacidade comica da expressão, que o tornam rival, muita vez triumphante, dos maiores _humoristas_ do mundo, imprimem nas suas creações a perfeição e o cunho soberbo das duradoiras obras, que nenhuma revolução do gosto póde destruir.

Bento Moreno, com muito menos belleza na execução plastica da sua obra, com muitas mais imperfeições de processo, dá uma realidade mais viva, um cunho mais sincero ao personagem. Camillo faz o typo; elle desenha a physionomia muito individual, muito caracteristica da figura evocada, de modo a não deixar que se esqueça mais, ou que se confunda com qualquer outra.

As concepções diversas, que os dois teem da Arte percebem-se claramente nas differenças fundamentaes do modo de a executar. Mas o _abbade_ é tão palpavel e real nos _Contos_ de Bento Moreno, como nas paginas scintillantes de _humor_ do grande romancista, e o _brazileiro_ tem talvez mais verdade, visto atravez da lente microscopica de Teixeira de Queiroz, analysado com a paciencia de naturalista que distingue este observador, do que pintado a _fresco_ em largas pinceladas d'um immorredoiro sabor comico, pelo engenho extraordinario de Camillo Castello Branco.

Percebe-se _à priori_ que o genero em que mais se deleita e em que mais excellentemente se manifesta a imaginação e a observação de Bento Moreno, não favorece n'elle o estudo das complicações psychologicas e dos requintes sentimentaes, que tanto no gosto estão dos leitores contemporaneos.

São almas simples as que elle melhor analysa e disseca. Uma pequena ambição, uma vaidade pueril, um sonho de primitiva singeleza, uma paixão rude e instinctiva; bastam para encher estas vidas ingenuas que o artista se entretem em pôr a nú. Mesmo o drama, quando apparece como no _Antonio Fogueira_, é um drama sem complicações extranhas, sem contradições, sem complexidade, sem mysterios de indecifravel profundeza.

Ou selvagens, ou pueris, ou violentas ou ingenuas, estas almas sentem impetuosamente, n'uma explosão de instinctos irreductiveis e ardentes; ou vegetam n'uma doçura inconsciente de planta que medra ao sol, bebendo a luz sem saber que a bebe, amando sem ter a impressão de que ama!

O estylo de Bento Moreno que principiou por sêr duro e inflexivel, como se não houvesse meio de o fazer obedecer docilmente á vontade e aos caprichos do escriptor, e que pouco a pouco se foi transformando e aperfeiçoando, ammolleceu-se n'este ultimo livro--_Os Novos Contos_--em notas d'uma melancolia discreta, e d'uma sensibilidade suavemente vellada, e ha _Contos_ d'elle como a _A minha morte_, o _Nosso Senhor Jesus Christo_, o _Cego de Guardiam_, que dão uma nova phase d'este talento progressivo, e perfectivel como os talentos de bôa raça.

* * * * *

_O Amor Divino_ (pathologia d'uma Santa) foi talvez um dos melhores assumptos, que Bento Moreno encontrou no seu caminho de observador e analysta scientifico das doenças e manias do _animal humano_.

A influencia do _missionario_ na alma rude, ingenua e candida da mulher do povo das nossas provincias do Norte, é, como todos sabem, poderosissima.

Quando as _missões_ passam pelas aldeas de Portugal, que ainda estão sob a influencia d'esse meio paganismo, que ellas julgam religião catholica, o que succede ahi de perturbador e de desordenado, chega a parecer inverosimil e phantastico.

As raparigas deixam cahir, cortadas aos pés, as longas tranças nem sempre excessivamente cuidadas dos seus cabellos escuros e bastos; as mulheres abandonam pela egreja a casa onde o marido e os filhos ficam entregues á mais deploravel incuria! Ouvem-se pelas ruas e pelas azinhagas de carvalheiras, em que a vinha de enforcado pendura os pampanos verde-claros, brados afflictivos de peccadôras arrependidas que se lamentam; ha restituições de objectos roubados, denuncias de crimes esquecidos, bulhas medonhas entre os paes e as filhas os maridos e as mulheres; as _beatas_ arrepellam-se por quererem, todas á uma, ser a favorita do sr. missionario que mais virtude apparenta; e nos campos tranquillos e nas aldeias monotonas, que a ausencia completa do aceio feminino torna sempre tão tristemente contradictorias com a paysagem circumdante, luminosa, farta e festiva, tamanho movimento, tamanho bulicio, tamanhas luctas se desenvolvem, que chegam a fazer, de cada passagem de missionarios uma revolução memoravel.

Como em todos os movimentos sinceros da alma popular ha n'este muito oiro e muita escoria, muita cousa boa e muita cousa má.

A inconsciencia animal, em que vive o nosso camponez, é violentamente sacudida pela prédica, sempre adquada ao seu rude auditorio, do missionario que vem espalhar pelo povo a _palavra de Deus_. E, certamente levar uma pouca de luz a cerebros rudimentares, tão profundamente submersos nas trevas d'uma ignorancia absoluta e d'uma inconsciencia moral verdadeiramente lamentavel, poderia considerar-se uma obra santa, se os missionarios se limitassem a fazer penetrar no duro cerebro dos seus ouvintes algumas noções de moral, de religião e de tolerancia mutua.

É porem exactamente o contrario que succede, ou antes, succede o que é mais pernicioso que tudo!

Dirigindo-se de preferencia ás mulheres, d'uma impressionabilidade mais dolorosa e mais vibratil, d'uma fraqueza organica mais accessivel a qualquer influencia profunda, o que elles fazem é exacerbar-lhes perigosamente a sensibilidade, latente em todo o organismo feminino, e precipital-as n'uma ordem de ideias e de sensações morbidas, que por tenebrosas e desconhecidas, são infinitamente perturbadôras para as infelizes...

Pintando como peccado mortal a florescencia do rude instincto irreductivel, e da innocente e expansiva natureza; condemnando como um crime horrendo o exercicio das faculdades naturaes a todo o organismo humano; fazendo a descripção medonha e phantastica do inferno, que espera todos os que tiverem a desgraça de faltar aos preceitos da Egreja mais orthodoxa, e da Moral mais austera; accentuando com traços realistas, e com violentas côres brutaes, feitas para fallar ao instincto da multidão ignorante, esse Inferno em que os supplicios são comprehensiveis pelo materialismo grosseiro e pelas imagens physicas d'uma revoltante energia;--os missionarios levam a desordem, o desiquilibrio a todas as que os ouvem, e a loucura ás imaginações mais exaltadas, e aos organismos mais fracos.

Quantas raparigas do povo enlouquecem ao ouvil-os!... Quantas, fugindo para o convento ou fazendo-se irmãs de caridade procuram, na lida esmagadora ou na clausura estreita aggravada pelos cilicios e pelos jejuns, o perdão de imaginarios peccados e de phantasticas culpas!...

Pois o _Amor Divino_ é isto que pinta dramaticamente, com verdade, com animação, com muita diversidade de typos e de figuras reaes, e bem tocadas.

O _Amor Divino_ é a acção exercida pela palavra candente e inflammada d'um missionario, no espirito, no coração, na vida interior, d'uma robusta e alegre minhota, risonha, sensual, fortemente retemperada por aquelle bello sol luxuriante e quente para as sãs alegrias da vida e da maternidade feliz!

O missionario transfigura-a, e pouco a pouco, por uma gradação escrupulosamente notada, leva a pobre moça á exaltação, ao hysterismo, ao delirio, ao mysticismo das vizionarias e das stygmatisadas, á morte emfim, acompanhada de torturas e de hallucinações pavorosas!...

Se á belleza d'esta concepção, se á intuição delicada de tantos segredos intimos da organisação feminina, se ao vigor transcendente do assumpto, correspondesse n'este livro--um dos melhores de Bento Moreno--a impeccavel pureza d'uma fórma burilada e perfeita, este volume ficaria como uma preciosidade litteraria incomparavel!

Raras vezes um assumpto tão verdadeiro, tão rico de aspectos diversos, tão suggestivo, se offerece ao estudo d'um observador no genero especial de Bento Moreno!

Tem defeitos o livro? Tem. Mas é um dos melhores, dos mais exactos, dos mais bem feitos que devemos á penna de Teixeira de Queiroz, e é um _documento_ soberbo de verdade, e de vigor naturalista.

* * * * *

O _Antonio Fogueira_, é outro dos meus estudos favoritos. Que bellas paginas de paysagem, que notação exacta no estudo d'esse typo tão caracteristico e tão popular de _feirante_, amando os bons cavallos, o bom vinho, as robustas e alegres cachopas, vivendo com a inconsciencia vegetativa d'um bello e forte bruto, que nenhuma lei _flexibilisou_, em que nenhum principio moral actua, cujo duro craneo não abriga uma ideia, mas em cujo temperamento vegetam--no luxo enorme, na floração purpurea, no regorgitamento sensual da seiva mais opulenta,--os instinctos do selvagem, do animal bravio independente e feroz.

Tanto o _Amor Divino_ como o _Antonio Fogueira_, tanto o primeiro volume como o ultimo dos contos soltos, não poderiam ter sido escriptos, pensados, sentidos, senão em Portugal, senão na provincia em que teem a sua origem e a sua raiz vigorosa e tenaz. Este merito é enorme n'uma litteratura como a nossa, em que muitos dos melhores livros de costumes ou de analyse psychologica parecem traduzidos do francez!

Eis provavelmente o defeito que as nossas delicadas leitoras lhes encontram. Que lhes importa a ellas, no fim de contas, o que pensa um cerebro plebeu de abbade minhoto, ou de homem do campo robusto, indisciplinavel e brigão?

Que lhes importa o aspecto extranho que assumem, o mysticismo e a exaltação devota, na organisação robusta e brutal de uma pobre e ignorante mulher do campo?

Não é assim que pensam os cardeaes e os prelados, graciosamente affaveis, classicamente eruditos, risonhamente paternaes, delicados casuistas de consciencia, finos argumentadores theologicos e ao mesmo tempo conversadores adoravelmente indulgentes, a quem ellas, as gentis catholicas do _mundo_, beijam o annel encontrando-os nas salas mais _selected_, ante os quaes ellas se ajoelham rendidas, nas cerimonias patheticas e magestosas, austeras e tão impressionadôras do culto, que praticam e professam devotamente.

Não é assim que procedem os _dandys_ que ellas conhecem e admiram; nem é assim que a paixão dos divinos mysterios, que o extase das insondaveis beatitudes, as aspirações mysticas e a exaltação sagrada se manifestam nas deliciosas e pallidas mulheres, que ellas tractam de perto, e das quaes algumas se refugiam de vez em quando, do mundo que as trahiu e desenganou, sob o habito austero das _vizitandinas_, ou sob a grande touca branca de azas soltas das irmãs de S. Vicente de Paula.

Eu propria, mais amiga dos estudos em que a alma moderna, _atormentada_, saciada, desformizada por uma cultura excessiva, sonhadora de amarguras e de volupias ineditas, traduz as suas dôres peculiares, as suas doenças complicadas e extranhas, eu propria inacessivel ás vezes á sã e robusta influencia da mãe natureza, me penitenceio aqui do crime de que accuso as leitoras.

E no entanto a critica não deve assim proceder, para ser lucida e justa. A sua obrigação é collocar-se nos mais diversos pontos de vista, e explicar e comprehender as mais diversas tendencias.

Acceite, sem condições de especie alguma, o ponto de partida do escriptor, o que ella tem de verificar é se a obra correspondeu á concepção embryonaria, e traduziu bem a sua ideia inicial.

As mais oppostas manifestações de arte são igualmente legitimas perante o critico, os temperamentos mais contrarios obedecem á lei superior que os justifica, explicando-os, e perante a qual, quem só procura a verdade e só a verdade investiga, tem de curvar-se com respeito sincero.

* * * * *

Não me parece que na sua _Comedia burgueza_, Teixeira de Queiroz fosse tão feliz como na _Comedia do Campo_.

O estylo tem sempre progredido, a _maneira_ do escriptor, á proporção que elle avança na vida, vae-se tornando ao mesmo tempo mais flexivel, mais firme e mais sinuosa.

Comtudo é fóra de duvida que o seu instrumento de analyse presta-se menos ao estudo do meio burguez, mais complicado e mais réles, do que se presta á observação larga e feliz dos costumes campestres, e das simples almas plebeias e incorruptas, mesmo até na violencia ou no crime.

Os _Noivos_ são talvez uma pintura exacta. Exacta de mais! Não a sobredoira um raio de luz ideal. N'esse casal burguez profundamente antipathico e inesthetico, o marido é mediocre, pobre, mesquinho de comprehensão e de sentimento, incapaz de nos interessar pela sua figura incolor e em que nenhuma paixão cravou a garra leonina, em que nenhuma força desenvolve e manifesta energias latentes.

A mulher é mal educada, é rélesmente ambiciosa, coquette sem graça, amiga do luxo sem intuição artistica do seu valor, sensual sem impetuosidades de femea robusta e indisciplinavel. O meio em que elles se movem corresponde, pelo seu acanhado ambito, aos personagens, que longe de reagirem contra elle se lhe subordinam ás leis corruptôras.

É esta uma pintura real da pequena burguezia das grandes cidades? Não creio que o seja. Mas é um recanto d'essa classe, que toca d'um lado no povo inculto, que por outro se relaciona com uma cathegoria social mais rica, mais educada e mais ambiciosa; tendo os vicios d'uma e d'outra classe, sem ter nenhuma das qualidades solidas e grandes que no bem, distinguem e caracterisam qualquer das duas.

Essa classe dubia que tem do povo a grosseria do instincto e que tem da burguezia a ancia de _parecer_, o amor do luxo apparente e barato, a ambição de elevar-se socialmente, o respeito das cousas officiaes, das pessoas e superioridades consagradas, está aqui realmente apanhada, em muitas das culpas flagrantes que a assignalam e a tornam tão profundamente antipathica para o artista! Vê-se que Bento Moreno empregou n'este estudo o mesmo escrupulo de naturalista, a mesma indifferença de observador e de colleccionador, ao qual o sapo e a andorinha, a rosa ou o cardo, a borboleta multicôr ou a viscosa lagarta, interessam igualmente, e igualmente sollicitam e prendem!

Foi o mundo politico que no _Grande homem_ e no _Sallustio Nogueira_, Teixeira de Queiroz tentou estudar de mais perto.

São simples tentativas no genero estes trabalhos. Em ambos se manifestam as qualidades e os defeitos do escriptor. Mas o estylo tem sem duvida um grande progresso. Faltam os dados para a observação positiva; os factos não tem aquelle _carimbo_ de verdade tão indispensavel ao romancista da nova escola; o _documento humano_ nem sempre é authentico e incontestado. Tudo isto porem virá com o tempo, e essas acquisições secundarias dependem do esforço e do poder de vontade empregados pelo escriptor.

* * * * *

Concluindo repetirei o que já disse. A impopularidade de Bento Moreno é inteiramente injustificavel.

Não falta a este escriptor a graça natural nem o colorido pittoresco e vivo, nem a sensibilidade mais vibrante e mais enternecida!

Elle comprehende a natureza como poucos; é genuinamente portuguez no modo de sentir, e de traduzir a impressão que lhe é suggerida pelo espectaculo do mundo; e no seu talento impressionavel e delicado, ha uma flôr de sinceridade, de honestidade e de nobreza ingenua que me encanta!

No mundo actual em que triumpha o materialismo, o mercantilismo, o amor do ganho, elle adora com tocante desinteresse a Arte, que nem sempre o tem recompensado dos seus extremos, o trabalho que prosegue infatigavel, sempre em busca do melhor, sempre aspirando ao ponto mais alto e á comprehensão mais ampla do seu assumpto, sempre perseguindo aquella verdade relativa que é dado a cada homem possuir ou sonhar...

Cada novo livro tem revellado n'elle um progresso ou de estylo, ou de sentimento e de observação. Espirito eminentemente progressivo, Bento Moreno não nos deu ainda a medida completa do seu valor.

Atravez de todos os seus livros--marcos milliarios d'uma marcha ascencional--elle tem caminhado para alguma cousa de definitivo e de completo, que se está elaborando talvez inconscientemente no cerebro fecundo do notavel contista, e que hade surgir, enriquecida de todos os dons variados e preciosos que elle tem ido lentamente, gradualmente adquirindo e manifestando em cada novo volume publicado.

Entre o auctor do primeiro volume da _Comedia do Campo_ e o auctor dos _Novos Contos_, que extraordinaria differença, mas que progresso logico e natural!

Muitas das qualidades que só appareceram ali em germen apenas, fructificaram já; muitas estão na primeira flôr, e muitas não conseguiram ainda sahir do estado embryonario em que pela primeira vez appareceram. Mas o tempo que produz o seu effeito n'alguma d'ellas, ha de exercer nas outras a mesma acção embora mais tardia, e cada novo livro de Bento Moreno confirmará, estou certa, este diagnostico da critica.

Felizes os espiritos progressivos porque elles são os que triumpham do tempo, felizes os escriptores que em cada obra affirmam uma nova qualidade, porque n'elles o talento é uma ascenção laboriosa embora, mas feliz e consoladôra para a luz e para o ideal!

SEGUNDA PARTE

_Octave Feuillet_

UNE MORTE

O CASAMENTO E A EDUCAÇÃO

I

Visto que é da França que nos vem o santo e a senha, olhemos para a França, onde litterariamente se discutem sempre questões geraes, que a todos interessam.

N'este momento, e como que em protesto á obra naturalista e á escola que a produz--escola de que Zola está dando a formula no seu ultimo livro: _L'oeuvre_--Octave Feuillet, o velho romantico, acaba de publicar, na _Revista dos Dois Mundos_, um estudo intitulado: a _Morta_.

A _Morta_ é uma especie de pamphleto, escripto na adoravel maneira, um pouco falsa, do elegante romancista contra a invasão crescente e victoriosa das ideias modernas.

Ora o que os velhos de todos os tempos, de todas as raças, de todas as civilisações chamam _ideias modernas_, combate-se sim, mas não se vence.

A evolução permanente, a lenta transformação fatal das ideias humanas, está fóra da acção exercida pela vontade individual.

Cada geração traz o seu contingente á formação d'esse inventario enorme, que é feito de todas as riquezas do pensamento e de todas as acquisições progressivas da Sciencia, e ninguem tem no seu poder regeitar ou acceitar um facto que é de si inevitavel.

As ideias modernas triumpham sempre, e é por isso mesmo que a humanidade não pára, e caminha incansavelmente á procura do que julga _melhor_.

Imagina enganar-se?

Muito embora!

Retrocede, mas não pára.

E, n'esses momentos de retrocesso os velhos, que assistem a um espectaculo diverso d'aquelle a que assistiram moços, continuam a chamar _ideias modernas_ ao que mais propriamente se chamaria _ideias renovadas_.

O _naturalismo_ exigente, exagerado ou brutal, tal como elle hoje tenta estabelecer-se na arte e nos costumes, será uma invenção moderna?

Decerto que não!

Na Grecia encontramol-o soberbo, triumphante, constituindo só por si a religião, a lei, a moral, a civilisação completa, harmoniosa e feliz, que é ainda o modelo para o qual todos os olhos se levantam embevecidos e saudosos.

Na derrocada final do mundo romano, achamol-o como um facto irresistivel, como uma manifestação inconsciente de força, na onda germanica que invade o imperio caduco, e vem refundir physiologica e moralmente a raça cuja actividade especulativa, levada aos requintes extremos, se tornara na mais rapida e fatal das decadencias.

Mais tarde, ao sair das trevas gothicas, o que foi o mundo, senão o mesmo que hoje está sendo com menos pompa decorativa, com menos vigor physico e moral, com menos vivo sentimento do pittoresco?

A ideal exaltação de que o _romantismo de 1830_ fez escola, seria porventura, n'aquella quadra, uma _ideia moderna_?

O que foram as epochas de cavallaria, ao mesmo tempo mystica e sensual, o que foi a quadra das _côrtes de amor_, dos trovadores e dos pagens, dos cultos platonicos levados até ao exagero ridiculo, dos enthusiasmos apaixonados e symbolicos pela mulher, senão a traducção na litteratura e nos costumes do mesmo estado mental, menos requintado, menos perfeito, menos contradictorio, menos complexo, menos _civilisado_ emfim?

Já nada ha moderno sob a face dos ceus!

_Nous sommes revenus de tout_, mas depois de tudo havermos experimentado!...

Como quer que seja, Octave Feuillet fez um romance, combatendo as ideias modernas, e poz n'esse romance, delicioso em todo o caso, todas as suas qualidades e todos os seus defeitos de escriptor.

Entendamo-nos:

Octave Feuillet não é um escriptor profundo, é um escriptor elegante. Pinta com uma seducção de pincel muito sua, pinta de _chic_, na phrase de _atelier_, uma certa especie particular da sociedade franceza.

A aristocracia refinada, devota e monarchica, adora Feuillet, a quem no fim de contas não deve muito, porque se quasi todas as suas mulheres são encantadoras de graça e distincção, n'ellas a virtude é, raramente, um principio inabalavel; em quanto que a fraqueza é na maior parte das vezes um requinte delicioso.

A gente gosta de ler Feuillet, como gosta de estar n'um salão elegante.