Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 8
É bello de verdade e de eloquencia impressionadora todo este trecho do seu ultimo discurso politico, que desenha, com rapida vivacidade, o modo porque o constitucionalismo foi improvisadamente implantado entre nós, e os obstaculos que para o seu pleno e vigoroso desenvolvimento encontrou na nossa educação tradicional, na nossa indole herdada de fidalgos preguiçosos, nos nossos costumes seculares, na nossa pobreza, na nossa ignorancia, nos defeitos irreductiveis de raça que tão adversos nos tornam por ora e, talvez para sempre, á ficção chamada systema representativo.
Taine no 2.^o volume do seu trabalho sobre as _origens da França contemporanea_ escreveu este trecho, que os nossos politicos deviam meditar um pouco, antes de se entregarem á desabalada gritaria contra os governos que se teem succedido, sempre perpetrando os mesmos erros, e sempre conseguindo resultados iguaes:
«Se ha n'este mundo cousa que seja difficil de elaborar-se, é uma constituição, sobretudo uma constituição completa. Substituir os velhos quadros, dentro dos quaes vivia uma nação, por quadros differentes, apropriados e duradoiros; applicar um molde de cem mil compartimentos á vida de uns poucos de milhões de homens; construil-o tão harmoniosamente, adaptal-o com tamanha habilidade e tamanha opportunidade, com uma tão exacta apreciação das necessidades d'esses homens e das suas faculdades, que elles entrem dentro d'elle de seu mutuo proprio, para ahi se moverem sem atrictos asperos; e que immediatamente a sua acção improvisada tenha a facilidade d'uma velha rotina--eis uma empreza que é positivamente prodigiosa, e provavelmente muito superior ás forças do espirito humano...»
Foi isto que nós tentamos fazer, e é do abortamento d'esta empreza impossivel, que se originam e que resultam todas as nossas desgraças, todas as provações dolorosas que temos atravessado, todas as amargas desillusões que a nossa alma nacional tem soffrido e que tão abatida e descrente a fizeram desde muito...
E foi isto que o orador fez sentir, com a clareza e a nitidez da sua palavra privilegiada, na assemblea representativa e no paiz inteiro.
Parece impossivel que este modo de levantar a discussão, de illuminar os phenomenos sociologicos, de fazer a critica ampla e elevada da nossa vida publica, produzisse um effeito de _indignação patriotica_ na imprensa d'este paiz.
E o grande pensador foi finalmente demittido do seu posto de rouxinol honorario da camara dos deputados!
Se Antonio Candido, faltando á verdade da sua intelligencia e á verdade da sua consciencia, tivesse declamado pomposamente sobre a _decadencia politica_ dos nossos dias, attribuindo-a aos manejos machiavelicos do sr. Fontes, que Deus haja,--uns applaudiriam enthusiasticamente, outros, invertendo o caso, lançariam a responsabilidade d'essa decadencia ás locubrações mysteriosamente preversas do sr. José Luciano que Deus conserve, mas ninguem alcunharia de anti-patriotica a inspiração honrada e nobre d'esse discurso, tão bello pela arte com que foi dicto, como foi grande pela sincera verdade com que foi pensado.
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Visto que o orador é o homem, fallemos do homem.
Quem vê Antonio Candido n'uma sala, quem conversa com elle, quem o observa, caprichoso, desigual, expontaneo, mais triste do que alegre, ora silencioso e esquivo como uma creança amuada, ora vibrante, apaixonado, inquieto, defendendo ou atacando uma these artistica ou um problema de moral,--perceberá logo que esse homem, apesar de não ser o que nas salas se chama _um conversador_, tem o dom da palavra maravilhoso e raro, que a poucos é concedido; mas não saberá, ainda assim, advinhar n'elle o portentoso orador que as nossas assembléas politicas conhecem e acclamam.
É que Antonio Candido, que, como todos os artistas sinceros, sente tudo o que diz, e em quem, antes de sêrem verbo incomparavel, as ideias são sangue das veias, vibração dos nervos, cellulas do cerebro,--transfigura-se d'um modo indizivel, logo que, entre elle e o seu auditorio, se estabelece aquella corrente magnetica, que faz com que centenas de homens vibrem á voz d'um só homem, que faz com que a sensibilidade d'um homem se exalte se exacerbe d'um modo violento, doloroso quasi com a commoção de todos.
O olhar, que a contemplação das cousas da vida e a vizão interior, desalentada e triste, tem apagado e como que vellado mysteriosamente, accende-se então em scentelhas chammejantes, ou fulgura como luz fixa, penetradora, intensa e viva; a cabeça, admiravelmente modelada, levanta se n'uma attitude de orgulho infinito; o gesto faz-se, ora largo, soberbo, magestoso, ora incisivo, ironico, sublinhando com extranho vigor os tons diversissimos do discurso; na voz poderosa, d'uma gamma opulentissima, vibram-lhe magnificamente todas as cordas que, diante d'um auditorio um tanto sceptico, póde fazer vibrar um artista intelligente--a ironia tempera n'ella a indignação, uma graça dolente e melancolica, attenua-lhe e como que lhe subtiliza artisticamente a tristeza. A sua dicção correcta até ao atticismo possue todos os segredos da moderna comprehensão da arte. A palavra sahe-lhe colorida por todos os cambiantes d'um sentir sincero e profundo, as intenções teem uma graça penetrante, uma fina malicia, benevola e indulgente, de quem conhece o mundo e os homens, de quem tem para a Vida, incompleta como é sempre, miseravel como é tantas vezes,--uma larga tolerancia, feita de sympathia e de bondade...
E a pairar sobre tudo isto, dando a tudo isto um toque de irresistivel sinceridade--tornando uma creação de moral cada manifestação eloquente de arte--aquella tristeza que elle exprime tanta vez em traços leves, discretos e subtis: a tristeza que sentem os grandes pensadores, ao verem que é, no fim de contas, tão estreita e tão limitada a esphera da sua acção, que é tão inefficaz o poder isolado da sua vontade, que é inutil e vão todo o esforço com que elles queiram combater a corrente impetuosa que passa, a qual os mediocres continuam, com louvavel modestia, a imaginar determinada, guiada por elles...
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Alem dos seus discursos parlamentares, que já davam um bom volume e que, segundo ouvi, serão breve publicados, Antonio Candido tem feito algumas conferencias litterarias de subido merito, que no tribuno revelam o pensador, no orador o litterato delicadissimo, o artista vibrante, superiormente cultivado, a fina sensibilidade em que os mais differentes estados se repercutem vivamente.
Estas conferencias são superiores aos _discursos_, porque os assumptos escolhidos pelo orador põem mais á vontade o seu espirito, dão mais espaço á sua imaginação, dão ensejo ao seu genio de manifestar-se em mais liberdade.
D'entre ellas destaca-se, pela belleza litteraria, a que foi pronunciada no Porto, quando Victor Hugo morreu.
Nem na patria do grande sonhador da _Légende des Siécles_, em que já tinham morrido quasi todos os companheiros idolatras do poeta, se encontrou, n'aquella occasião, uma voz que melhor e mais lucidamente soubesse, em traços tão rapidos, com eloquencia tão maravilhosa e tão adequada á grande gloria que se celebrava, julgar o o homem e o escriptor, aquilatar o valor e a especie da sua obra, fazer valer a exhuberancia extraordinaria d'aquella organisação, pôr em relêvo a força creadora do gigante adormecido!...
Era para este genero de conferencias,--muito moderno, muito no gosto do nosso tempo, que póde elevar-se á cathegoria d'uma arte perfeita,--para este genero, a que Renan tem dado o prestigio da sua perfeição atheniense de estylo, a graça ondeante e melancolica do seu pensamento de celta, que eu quizera vêr voltado o espirito de Antonio Candido.
É que elle tem perfeitamente a especie de talento e de imaginação que este trabalho requer. Desdenhoso e desattento para o contorno das cousas exteriores; não se dando demasiadamente ao espectaculo mais ou menos pittoresco da Natureza vizivel; adversario da comprehensão egoista da _arte pela arte_; tendo por audaciosas hypotheses inverificaveis os sonhos transcendentaes da methaphysica;--são principalmente as preoccupações da ordem moral que o interessam, são as vizões e as contemplações da consciencia que o absorvem, com exclusão de todos os interesses e de todas as actividades praticas.
Cada grande espirito escolhe para esphera da sua acção e da sua influencia aquella em que melhor se aclima o seu temperamento especial.
Uns, os philosophos, concentram-se na especulação desinteressada, sem se preoccuparem sequer das consequencias terriveis, destructivas, assolladoras muitas vezes, que possam resultar das suas premissas audaciosas. Indifferentes a tudo que não seja a logica do seu systema, seguem-n'a até ás extremas conclusões, sem curarem do mal ou do bem que possam produzir na humanidade.
Quando Spinoza o _bemaventurado_, como, lhe chamavam os que o conheciam de perto, doente e pobre no canto isolado da sua obscura casa, negava ao Deus pessoal a possibilidade de existir, á Natureza um fim e um principio, ao homem a noção do mal e do bem, e o livre arbitrio--minando assim as bases fundamentaes em que assenta a segurança e a moralisação das sociedades, pensava elle, porventura, que da applicação pratica das suas ideias podiam provir os cataclysmos moraes mais terriveis, a subversão de todos os principios existentes, o cahos de todas as leis e de todos os dogmas?
A lembrança de que, das descobertas da astronomia e da physica, proviria para o homem uma comprehensão do seu destino inteiramente diversa da que elle tinha até ali, uma concepção do Universo contraria em tudo á que elle formára, passou alguma vez pelo espirito de Galileo, de Copernico, ou de Newton?
E o artista que adora e procura no mundo a belleza como elle a imagina, a reproducção real d'um typo que elle sonhou, distingue acaso a belleza, que é pura e sã, d'aquella que é preversa e corruptora? Não. Para elle a belleza existe por si só, é só ella que o exalta e encanta, é só ella que lhe dá a sensação unica, voluptuosa e divina, por amor da qual, aos seus olhos, a vida tem um sentido e tem um fim!
O psychologo, como o artista e como o philosopho, não se preoccupa absolutamente nada com o resultado nem com a applicação das suas observações e das suas sondagens.
O seu desejo de penetrar os escaninhos mais secretos, mais escusos, mais tenebrosos do coração humano, tem em si mesmo o seu limite, o seu fim e a sua razão.
O que o interessa é o funccionar da machina cerebral, a germinação e o desenvolver do pensamento, o jogo e a combinação das paixões; são os estados variaveis e complicados da consciencia, as inextricaveis e confusas vegetações da Ideia e do instincto, o impeto irreductivel dos sentidos, a engrenagem complexa do organismo humano. É-lhe absolutamente indifferente que haja paixões peccaminosas ou sentimentos legitimos, ideias preversas ou ideias sãs, instinctos criminosos ou instinctos bons.
Essa ordem de considerações fica alem dos limites que a si proprio traçou. Não tem indignações nem desprezos, não tem admirações nem alegrias. Tem simplesmente a curiosidade attenta do chimico, em presença do qual dois productos se combinam ou se repellem, do naturalista que encontrou a lei pela qual se explica um phenomeno da materia.
Ha porem outra ordem de espiritos, que teem, como o philosopho, uma concepção particular do Universo e da Vida; que teem, como o artista, o amor do bello; que teem, como o psychologo, a curiosa penetração do homem interior,--mas que, de cada facto veem a consequencia, de cada lei veem a applicação, de cada aspecto bello das cousas veem a influencia. Julgam, estudam, absolvem ou condemnam, impõem condições á belleza, regras immutaveis á consciencia, preceitos sagrados á Vida Humana e á vida social. Não lhes basta o interesse dramatico, a magnifica florescencia da Paixão, a vitalidade intensa do instincto, o jogo admiravel das energias physicas ou mentaes. De tudo isto se preoccupam, tudo isto estudam e analysam, mas com o fim de pôr o equilibrio e a harmonia n'estas forças indomitas, que, entregues a si mesmas se aniquillariam mutuamente, sem uma lei suprema que as subordinasse!
O espirito de Antonio Candido pertence ao genero d'estes espiritos em que predominam as preoccupações de ordem moral.
Os asperos deveres e as amargas tristezas de todos os dias; os nossos sentimentos mais intimos; as nossas mais irrepremiveis paixões; as incertezas, as agonias do espirito alanceado por tantas contradicções e tantas duvidas, e que, em nenhuma solução, das que offerece a philosophia ou a crença religiosa, encontrou ainda o repouso desejado; e lucta interior travada entre o mysticismo--innato ou herdado no homem--e o racionalismo victorioso mas cruel, cujas ondas veem, dia e noite, bater impetuosas contra a fortaleza mal segura, em que elle abrigou os seus deuses foragidos; os combates da consciencia e da vontade, do instincto e da razão; todo este mundo enorme, que cada um de nós traz dentro de si, para sua tortura e seu orgulho;--eis em summa o que attrae irresistivelmente este espirito contemplativo, no qual a educação moderna não poude nunca vencer de todo a nostalgia, talvez inconsciente, d'outras eras de simplicidade e de fé, em que a vida era mais facil, em que o dogmatismo religioso se impunha sem esforço á consciencia individual e a conservava mais tranquilla, mais ignorante e mais... feliz!
O seu sonho--bello e radioso sonho, talvez nunca realisado--seria a pacificação da alma moderna, tão desordenada, inquieta e dolorida n'este momento, de que, todos mais ou menos, sentimos em nós a repercussão dilacerante!
Elle não é dos indifferentes, que assistem impassiveis e frios a estas angustias enternecedôras do espirito contemporaneo, ou dos que trabalham para propagar, em torno de si, o desinteresse absoluto das cousas invisiveis, das cousas ideiaes...
Achar uma solução pacificadora para este estado de crise latente, reconciliar as aspirações irreductiveis da nossa alma, que são o seu mais precioso e imperecivel thesouro, com as imposições da philosophia d'este seculo, que se tem insinuado até nos espiritos que a ignoram, pela indirecta e invizivel influencia que opera na litteratura, na arte, no theatro, em todas as manifestações que _democratizam_ e vulgarisam a Ideia--tal seria a ambição suprema d'este pensador, em quem a _vida interna_ é tão exigente e intensa, tão desenvolvida e tão profunda.
Em varias conferencias feitas em Lisboa, em Coimbra e no Porto, Antonio Candido tem tocado em todos estes pontos delicados e melindrosos da consciencia moderna.
Em nenhuma, porem, os tocou mais magistralmente do que no discurso pronunciado em 12 de abril de 1888, no theatro de S. Carlos, e n'um saráu promovido pela imprensa lisbonense em favor das victimas do Porto.
Tenho ainda no ouvido, as palavras d'aquelle protesto heroico contra o pessimismo doutrina, d'aquelle hymno entoado ás Alegrias e ás Virtudes da vida, por esse melancolico, por esse vencido da felicidade, cuja voz musical parecia embebida em lagrimas, quando pintou as bellas e radiosas cousas que a Humanidade tem feito e que lhe conquistaram o direito indeclinavel de amar a existencia, que a par de tantas tristezas tem tantos risos, que a par de tanta covardia tem tão sublimes heroismos, que a par de tantas paixões cruas e de tão mortiferas angustias tem graças de tão ineffavel virtude, e voluptuosidades de encanto incomparavel. Que desinteressada homenagem prestada a essa Vida, que trahiu para elle as suas promessas todas, que nem das chymeras, que a constituem e compõem, quiz fazer a chymera suprema que o illudisse e fizesse feliz!...
Se realmente Antonio Candido versando estas questões de interesse maximo, tratando estes problemas de tão complexa e vital importancia, podia fazer um serviço grande á alma portugueza, porque é que elle se não consagrou principalmente a esta alta e moralisadora tarefa social? Porque não falla, elle que o sabe tão bem, aos que teem sêde de uma palavra de vida; aos que não julgam grosseiramente que é só de pão que vive o homem d'hoje.
E não é! Não o calumniemos, ao pobre homem d'hoje, tão mal pintado pela litteratura decadente d'este tempo. Nunca, no meio do mais asqueroso mercantilismo, houve mais violentas aspirações idealistas! Nunca, no meio de mais desenfreadas ambições pessoaes, houve uma ancia mais apaixonada e mais dolorosa de alguma cousa grande, indefinida e immortal!
Eu sei que essa tarefa de orador e do escriptor moralista faria sorrir ironicamente a turba multa soez dos triumphadores do dia, e que ella não daria vantagens praticas de especie alguma ao que lhe acceitasse as responsabilidades e os trabalhos.
Mas sei tambem que o pensador illustre, desinteressado, altivo e desdenhoso, bastante superior para cahir no desagrado pleno d'essa cousa niveladôra e immoral chamada _o sufragio universal_, poderia, renunciando ao preço mesquinho com que o mundo sabe pagar aos que o servem, guardar no coração, como um thesouro immaculado a consciencia de haver semeado o bem, de haver lançado a luz d'uma palavra sincera nos mil labyrintos tenebrosos em que a alma agonisante de hoje se perde e se debate desnorteada, de haver fallado emfim, aos homens, d'aquellas bellas e sublimes cousas, cuja posse, sonhada só que seja, nos consola de todo o mal, de toda a tristeza de viver!..
Se a verdade não é privelegio exclusivo de ninguem, aquelles que possuem uma das parcellas sagradas d'esse bem devem repartir d'elle com os seus irmãos indigentes! Contar as delicias da Abnegação, os triumphos do Sacrificio, a graça ineffavel da Virtude, não será possuil-os por momentos, não será evocar nas almas o desejo sublime de os alcançar tambem? Socegar a consciencia dos que duvidam dizendo-lhe que a Duvida é o mais seguro meio de attingir a Verdade, de que é preferivel mil vezes a agonia que os dilacera á quietação, á estagnada immobilidade dos indifferentes, não será levar um pouco de tranquilidade a tantas almas que padecem?.. Justificar as ousadias do pensamento moderno, pela sua ancia tão meritoria de sciencia e de luz, não será apresentar sob um aspecto misericordioso e justo tanto esforço que a ignorancia condemna, tanto arrojo que a intolerancia maldiz? Oh! como é largo este campo, e que beneficio não seria desbraval-o, e fazer com que na sua terra esteril as arvores desabrochassem, crescessem, se enchessem de fructos e de flores, dessem sombra, e abrigo aos que procurassem cançados a sua rama protectora!
Ninguem poderia, melhor de que o orador em quem todos os prestigios da Palavra se alliam a todos os calmos esplendores do Pensamento, fazer uma realidade d'esta esperança que a tantos se affigurará talvez chymerica e pueril, mas que eu, pobre mulher, ignorante e sonhadora, me não arrependo de haver formulado aqui.
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_TEIXEIRA DE QUEIROZ_
(BENTO MORENO)
Com quanto seja avultada a bagagem litteraria d'este escriptor, comquanto seja admiravel a sua actividade intellectual, n'um meio tão hostil a todos os trabalhos de imaginação ou de arte, a verdade é que Bento Moreno não é, e creio que nunca será, um romancista popular.
É restricto o publico que o conhece e admira, e por isso mesmo, mais rigoroso é ainda o dever da critica, perante este ostracismo injusto a que é votado um talento bem nosso, bem portuguez, e d'uma probidade litteraria, presentemente rara em toda a parte, quanto mais entre nós.
Hoje o escriptor portuguez, para ser lido e conhecido, precisa de banalisar-se primeiro no jornalismo de todos os dias. O nosso publico tem apenas a paxorra necessaria para ler as gazetas. Uma _élite_ ha, pouco numerosa ainda assim, que compra a ultima _novidade_ parisiense na livraria da moda, mas isto de ter em cada dia uma ou mais horas destinadas a essa grande e purificadôra cultura do espirito, chamada a leitura, é cousa que realmente não conhecem as nossas mulheres e muito menos os nossos homens.
Os romancistas modernos, capitaneados por Flaubert e por Zola, professam o mais profundo e altivo desdem para com o publico feminino. Fazem mal, e por duas razões:
Primeiramente porque a imaginação e a sensibilidade da mulher são muitissimo mais promptas e accessiveis que as do homem para este genero de leitura, e depois porque a verdade dura, mas positiva é esta: só as mulheres e os homens extremamente moços, isto é, ainda um pouco _mulheres_, teem paciencia tempo e gosto de lêr romances.
Passado esse primeiro periodo da vida em que o sentimento impera sobre a razão, em que a phantasia é mais forte que o raciocinio, _em que as questões do coração_ são _as grandes questões_ que sobrelevam a todas, qual é o homem que lê romances, e se enthusiasma por esses _creadores d'almas_, chamados romancistas?
Talvez que os artistas os leiam, mas em cada dois mil espiritos praticos póde talvez encontrar-se um espirito de artista. Não é o bastante para constituir um publico, e sem publico como é que o escriptor póde passar?...
São portanto as mulheres e os moços que restam ao romancista. É sobre esses que elle tem de actuar, é esses que elle interessa e emociona, educa ou perverte, ammollece ou tonifica, agita ou faz pensar.
As nossas mulheres leêm pouco. Falta de tempo, falta de habito, falta de cultura litteraria, falta de gosto ingenito?... Não sei, nem é realmente este o momento de o investigar. D'aqui provem portanto o escassissimo mercado dos nossos livros. É o Brazil que ainda assim se encarrega de lêr o que os nossos escriptores publicam e no Brazil tem Bento Moreno uma popularidade muito maior do que chegou a alcançar aqui.
* * * * *
Foi com um volume de _Contos_ que Bento Moreno, haverá quatorze annos se estreou na litteratura portugueza. Os que lêram este primeiro volume da _Comedia do Campo_, e os que podiam ter n'este ponto opinião que valesse a pena de attender-se, perceberam no artista que se estreiava faculdades singulares, que davam á sua penna um cunho inconfundivel. _Não se parecer com ninguem_ é a condição indeclinavel, indispensavel do escriptor de raça.
Bento Moreno appareceu logo com um estylo seu.
Era duro esse estylo; não tinha as malleabilidades, as ductilidades e as graças que se assignalam sympathicamente ao instincto do leitor; havia n'elle um não sei quê de primitivo, de ingenuo, de _não cultivado_, que o tornava talvez ainda defeituoso e tosco, mas as qualidades poderosas do observador e o sentimento vivo e profundo do _pittoresco_ revellavam-se já n'este livro d'um modo surprehendente. A alma primitiva e rude do minhoto, a paysagem deliciosamente verde, e singelamente idyllica do Minho, retratavam-se ali, n'aquelle primeiro livro, em traços admiraveis de verdade e de encanto. Observar e sentir, não serão estas as duas faculdades principaes de todo o artista?
O theatro era talvez monotono e um pouco trivial na sua verdura sem quebras, na sua paysagem sem accidentes e sem relevo accentuado; os personagens não tinham nem o vigor brutal, e o monstruoso aspecto inquietador dos camponezes de Zola, nem a manha, e a velhacaria quasi grandiosas dos camponios de Balzac; mas scenario e figuras eram bem nossas, e não havia nas paginas d'esse livro, como de resto continuou a não haver nas obras de Bento Moreno, reminiscencias litterarias, echos de vozes já ouvidas, copia ou imitação de processos extrangeiros, _pastiches_ de creações alheias!
Seguiram-se, com intervallos desiguaes, a esse primeiro volume de contos minhotos d'um sabor tão vivamente original, _sentant le terroir_, na phrase franceza para a qual não encontro n'este instante equivalente, muitos outros de varios generos, que accusavam cada vez mais o progresso do estylista e a indole especial do escriptor.
São esses livros o _Amor Divino_, o _Antonio Fogueira_, os _Noivos_, o _Grande homem_, o _Sallustio Nogueira_, e os _Novos Contos_.
D'esta bibliographia variada e extensa o que eu prefiro, são os _Novos Contos_, o _Amor Divino_, e o _Antonio Fogueira_.