Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 7
De resto, aos que perguntarem a Antonio Candido o motivo porque elle, sem ambições pessoaes de especie alguma e com poucas illusões a respeito todas as cousas, ou antes julgando todas as cousas uma illusão mais ou menos radiosa, se conserva ainda assim no seu posto de politico militante, elle responde com um bello trecho d'um dos mais bellos discursos que este orador tem pronunciado, o discurso consagrado á memoria de Braamcamp.
«O desfavor com que a _acção politica_ é considerada por muitos espiritos superiores, no velho e no novo mundo, tem da sua parte, é forçoso confessal-o, bastantes apparencias de razão.
Pela sua influencia immediata e complexa, e pela enorme comprehensão dos interesses que move, este genero de acção é o mais vasto, o mais attrahente de quantos podem sollicitar um homem de intelligencia e de vontade; mas como estadio de exhibição moral e como processo de educação publica mostra-se a esta hora, na America e na Europa Occidental, adverso a muitos interesses da dignidade civica, da justiça distributiva, da logica que deve haver nos factos, e do prestigio que as pessoas devem conservar. Tem uma base intellectualmente falsa: a philosophia naturalista do seculo XVIII! Tem um principio inane e contradictorio: a soberania popular. Tem um processo que não qualifico... por uma delicada circumstancia de logar e de tempo: o suffragio universalisado! Tem um limite para as elevações pessoaes, que difficilmente varia: a mediocridade. Tem uma litteratura propria, quasi sempre sem ideal e sem verdade: o jornalismo e a oratoria parlamentar. Tem uma liturgia sem pompa e sem pensamento: a das ficções constitucionaes.
A grande revolução, de que promana e deve dactar-se toda a moderna historia, assumiu, como se sabe, as formas d'um drama grandioso, enorme.
«Emquanto este drama desenrollou nos Estados latinos as suas scenas formidaveis foi sublime de paixão, de força e de movimento. O theatro grego, em que intervinham deuses, não é mais maravilhoso do que este em que representaram povos!
«Mas a commoção publica, como estado violento, não podia ser perduravel; a ebullição dos espiritos, consumidora quando é prolongada, não poude deixar de diminuir; recahiram nas condições normaes da vida os homens e as nações que se tinham exaltado até ao heroismo e até ao martyrio; e viu-se então que a superficie moral do mundo ficára com o aspecto devastado, arrefecido, melancolico, d'uma floresta que o incendio consumisse, e de que os velhos troncos em cinza tivessem apenas servido para fecundar rasteiras vegetações uniformes, de pouco vigor e sem vulto definido ainda...
«A França, onde a immensa combustão principiara, ainda se reenflammou uma vez contra a senil e caduca _Restauração_ e teve, durante alguns annos, uma prolongação artificial de vida politica na tribuna illustre de Guizot, Royer Collard e Thiers, e na imprensa convicta e apaixonada de Armand Carrel e de P. L. Courier; mas formado e desfeito o sonho de 1848, caiu, sossobrou, veio, pouco a pouco, a volver-se no que está, no que é hoje... A Italia depois de Cavour e de Garibaldi, a Hespanha depois de Espartero e de Mendizábal, Portugal depois de Mousinho da Silveira e de Saldanha,--grandes nomes que marcam a estatura de velhos povos,--voltaram fundamentalmente ao que eram d'antes, porque ha, meus senhores, uma tyrannia que as espadas não cortam, e um despotismo que a penna do legislador não fere de morte; a tyrannia das raças, e o despotismo da historia!
«N'este estado de cousas, _superior aos antecedentes porque sempre é um ponto vencido na serie do progresso humano_, mas repousado, egoista, apenas assignalado por um mais intenso fervilhar de vida vegetativa e intellectual, sem accidentes revolucionarios, salvo quando a questão politica trava na questão nacional, como em Italia antes da occupação de Roma, na França depois de 1870 e na Inglaterra actualmente; n'este estado de cousas, pouco propicio ás germinações do heroismo, e ás ostentações da grande força, porque os _obstaculos sociaes deslocaram-se do mundo para a consciencia_ e o poder publico desvigorisou-se, enfraqueceu nas multiplas divisões que o fraccionaram: n'este estado de cousas, que em compensação de tanta inferioridade é pacifico, é evolutivo, é felizmente desassombrado de terrores divinos e humanos--_ha um largo espaço para uma boa intelligencia que queira applicar-se, para uma energica vontade, que queira desenvolver-se, para um caracter honesto e digno que a vida publica tente com as suas glorias e os seus sacrificios, com os seus ruidosos triumphos e as suas tremendas ingratidões_!»
Citei todo este largo trecho, em que vão sublinhadas por mim algumas passagens mais significativas, porque, formosissimo, como forma, admiravel com synthese historica, elle vem de molde para definir as idéas que Antonio Candido tem ácerca da politica moderna, e os motivos que actuaram n'elle para continuar na vida publica que adoptou.
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Como quer que seja e sem me alongar, indiscretamente, em considerações que prendem no que ha de mais delicado e mysterioso n'uma consciencia de homem, o que é verdade é que Antonio Candido é hoje a suprema representação da arte oratoria no mundo politico e litterario d'este paiz.
Não é que no parlamento portuguez não brilhem talentos muito notaveis,--nas nossas assembléas meriodinaes sabe-se que não é o talento que falta--muitos fallam bem, argumentam bem, discutem bem.
Ha tribunos enflammados, ha luctadores politicos, a que nenhum segredo da estrategia parlamentar é vedado, mas orador, apezar de tudo é só elle.
Todos, em qualquer dos campos partidarios em que militem, o reconhecem unanimemente. Observação feita muito de passagem--o partido opposto áquelle em que Antonio Candido está, reconhece-o muito mais ostentivamente do que o seu proprio partido, injusto muitas vezes, ingrato quasi sempre para este homem que tanto o illustra.
O orador, é o mais privilegiado e o mais raro entre todos os artistas, e tambem--como que para contrabalançar a influencia directa e poderosa que só elle consegue exercer, como que para amargar e diminuir a sensação voluptuosa de força e de imperio absoluto, que só elle experimenta em certas horas de triumpho moral, quando a sua palavra fremente e indignada passa, curvando os espiritos, como a ventania passa, curvando as grandes arvores--o seu poder é de todos o mais passageiro, a sua força é de todas a mais ephemera, o brilho do seu nome é de todos o que mais rapido se apaga...
Quem é que hoje póde reconstituir pelo pensamento a commoção profunda que electrisou as almas de 89, quando a palavra de Mirabeau trovejava do alto da tribuna as suas apostrophes sublimes?... Quem fixou no papel os rugidos leoninos, os gritos titanicos de Danton? Quem, lendo os discursos de Savonarola, o inspirado dominicano florentino, comprehende o movimento desordenado e febril, com que elle agitou em convulsões de arrependimento e de lagrimas as almas italianas de seu tempo?...
Levaram o segredo de todas estas maravilhas aquelles que as ouviram e que as não poderam communicar a ninguem!
Na arte de orador, na _sublime arte potente e deslumbradora_, como lhe chama, no discurso já citado, aquelle que tanto lhe deve e tanto a ama synthetisam-se n'um relampago fugitivo, todas as mais bellas irradiações das outras artes!
A esculptura empresta-lhe a elegancia e a magestade das suas attitudes, a flexibilidade viril dos seus gestos, a graça malleavel e movimentada dos seus aspectos; a musica dá-lhe as notas graves ou dôces, apaixonadas ou severas, vibrantes ou meigas, sonoras, ou melancolicamente esmorecidas da sua voz; a poezia dá-lhe o encanto alado indefinivel, subjugador das suas imagens; a litteratura o requinte subtil da sua fórma, a belleza penetrante dos seus conceitos, a seducção _ondeante e diversa_ das suas expressões; a philosophia, a amplidão dos seus horisontes, uma comprehensão da vida soberanamente inspiradora, uma envergadura de azas potente e larga bastante para que elle possa levantar-se ás amplidões sem fim do Pensamento, ás deslumbrantes vizões do Ideal...
Faz-se de todas estas cousas maravilhosas e divinas a eloquencia dos grandes oradores, mas faz-se de mais alguma cousa que sobredoira tudo isto, e sem a qual tudo isto seria artificial como a representação d'um actor de genio! E essa outra cousa, insubstituivel e sagrada, é a sinceridade ingenua do caracter, é a bondade humana e communicativa do coração!
E é isto, que além de tudo o mais Antonio Candido tem como ninguem. É isto que, acima de tudo, o torna sympathico e querido.
A nota de probidade virginal, de susceptivel e melindrosa pureza de alma, que o distingue, e acaso, no meio actual da nossa politica o singularisa, punha-a Oliveira Martins em evidencia, ha tempo, no formoso _perfil parlamentar_ que consagrou a Antonio Candido.
«Quando Antonio Candido falla, diz elle, vê-se um caracter atravez de uma obra de arte.»
E accrescenta lucidamente. «Pela sua mente impressionavel passam as ideas do seu tempo como os raios do sol pela placa sensivel do photographo, e as imagens fixam-se com a mesma nitidez e a mesma fidelidade. Pela sua alma ingenua passam, como por philtro, as ondas da corrente dos factos e ahi se depuram para surgirem depois transparentes e crystallinas. E factos e idéas, animadas e allumiadas pela sua imaginação creadora, borbulham-lhe dos labios no caudal de uma palavra incomparavel de atticismo, de colorido, de propriedade, que são as qualidades artisticas do orador, combinado com um gesto e uma voz que não mente, quando exprime a energia mascula, a convicção ingenua, a indignação fremente, ou a caridade pura, que são as qualidades moraes do homem!»
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Para provar quanto é rara a reunião de faculdades que constituem este aristocrata do pensamento, esse maestro da palavra que se chama _orador_,--no sentido amplo e complexo, no sentido artistico que eu aqui dou á palavra--basta vêr-se que Portugal que tem tido sempre uma florescencia notavel de bellos talentos... desaproveitados, só teve no passado um orador chamado José Estevão, como só tem no presente um orador chamado Antonio Candido.
E a geração de José Estevão foi: Garrett, foi Castilho, foi Rebello da Silva, foi Herculano, foi Rodrigo da Fonseca, foi Fontes, foi Sampaio, assim como a geração de Antonio Candido é composta de tantos nomes illustres, que estão no pensamento e na memoria de todos, e que tanto na politica como em todas as outras manifestações da actividade intellectual tem dado de si soberbas provas.
Antonio Candido, porem, foi mais infeliz que o seu glorioso antecessor, porque em quanto esse achou o meio perfeitamente adquado ás suas bellas qualidades de tribuno impetuoso, enflammado, um tanto declamatorio como o seu tempo; emquanto esse podia vibrar ainda intensamente ao nome, então virginal, poetico, mysterioso, de _Liberdade_,--este, na fria quadra evolutiva que atravessamos, n'este periodo, que se chama positivo mas ao qual se deveria chamar sceptico, não encontra, fóra de si, nada que o estimule, nada que o anime, nada que responda ao sonho altissimo que a sua imaginação sonhára, antes de ter penetrado nos meandros complicados d'este moderno constitucionalismo, tecido de ficções transparentes, n'este mesquinho periodo politico, que é o triumpho da mediocridade, que é a tortura do genio, e a condemnação das fortes individualidades!...
Dessem a Antonio Candido os soberbos assumptos, que Emilio Castellar tem tido na sua brilhante e revolta existencia de agitador e de tribuno; dessem-lhe a vizão radiosa e juvenil da Democracia e da Liberdade, que deslumbrou na aurora da sua vida publica, esse bello Atheniense chamado José Estevão; dessem-lhe o theatro collossal em que representou esse titan de cabeça convulsionada e febril que foi Mirabeau;--e veriam se não era egual a qualquer d'esses, sem comtudo se parecer com nenhum d'elles, o homem que póde, ainda hoje, em Portugal, n'este momento de victorioso mercantilismo e de arranjos e combinações deprimentes, fulminar de admiração um auditorio de burocratas, fazer tremer de enthusiasmo uma assembleia de homens de negocios!...
É que o orador, infeliz em tudo como eu ha pouco dizia, alem de todas as singulares faculdades individuaes que necessita de possuir, para exercer e desenvolver o pleno vigor do seu genio, precisa tambem de que o tempo em que vive,--pela grandeza das suas luctas, pelo contraste das suas agitações, pela desordenada corrente dos seus desejos, pelo combate tumultuoso das suas paixões civicas, pelo interesse dramatico dos seus acontecimentos,--corresponda aos ideaes generosos que lhe illuminam a consciencia, e á fibra guerreira que palpita e freme na alma de todo o luctador, quer seja da Ideia quer seja da Acção!
Sempre uma quadra epica da vida dos povos antigos ou modernos, foi representada e contida na palavra d'um orador. E appareceria esse orador se as circumstancias o não houvessem por assim dizer, determinado e creado? Talvez que não!
Pois a superioridade extraordinaria de Antonio Candido, e talvez a maior causa da tristeza que transparece em tudo que elle diz, a fatalidade mais insanavel do seu destino, é ter apparecido n'uma epocha em que segundo elle proprio disse _a hora das grandes paixões politicas passou no mundo_!
As circumstancias não o favorecem; a transformação por que está passando a politica portugueza, e infelizmente toda a politica europeia, não o inspira nem impulsiona; e no emtanto, apezar de todas as más influencias, que parecem tender em toda a parte a paralysar o caracter e o talento, é tal a pureza crystallina da sua consciencia, é tal a illuminação fulgurante da sua palavra, que elle consegue crear para si, um logar á parte, indisputavel, aristocraticamente reservado, em que saboreia as delicias requintadas da sua isolação e do seu altivo desinteresse.
Sem ter transposto para sempre o circulo acanhado da politica partidaria, sem ter sahido definitivamente da jaula estreita do nosso constitucionalismo nacional, Antonio Candido, consegue em admiraveis _sortidas_ de que todos se lembram, dizer verdades profundas ao paiz que teima em não querer ouvil-as. Na sessão de 87 a tantos respeitos desoladora, n'essa sessão em que passaram sem debate leis d'uma grande importancia economica e d'um alcance politico altissimo, e em que se consumiram dias e dias discutindo os mais inuteis e ociosos pequenos assumptos pessoaes, as questiunculas de interesse mais restricto e mais acanhado, a palavra de Antonio Candido deixou, todavia, um rasto de inolvidavel e luminosa critica.
Vio-se ali um parlamentar julgando o parlamento; um filho da Revolução dizer á Revolução as verdades tristissimas que estão na consciencia de todos! Criticando a moderna comprehensão que temos da Liberdade, o orador, não teve a irreverencia que insulta, mas teve a razão austera e firme que adverte, a lucida comprehensão que vê longe e que vê justo, e que de leis inluctaveis sabe tirar as duras e ineluctaveis conclusões!
Já estamos longe do tempo em que se acreditava no empyrismo de receitas particulares, e na vinda de Messias privilegiados e salvadores.
É inutil accusar este ou aquelle individuo de males, cujo segredo e cuja origem só acha, quem investigue o espirito da nossa raça, o modo porque n'ella actuaram as inesperadas transformações que soffreu, a corrente historica dos acontecimentos, as mil influencias complexas, os mil factores diversos que nos fizeram... o que hoje sômos!
Diante dos acontecimentos que desdobram sob o nosso olhar a sua trama variada ou uniforme, é porem, nosso costume incorrigivel, accusar-mos não só os homens, mas ainda certos e determinados nomes de homens!
Não percebemos ainda que uma sociedade, que um paiz, possam na sua qualidade de organismos vivos, estar sujeitos ás mesmas condições de germinação, desenvolvimento, degeneração e morte, a que está sujeita a Vida Universal em qualquer das suas infinitas manifestações.
Revoltamo-nos contra o que não pudémos evitar! Attribuimos á preversidade insolita dos individuos o que é puramente o resultado de leis historicas incombativeis! D'aqui a nossa colera insensata, e contraproducente!
Podem os homens modificar as condições moraes d'uma sociedade, não podem obstar a que a vida d'ella siga o curso fatal que segue tudo que vive na terra, e que na terra tem de morrer.
N'este ponto, Antonio Candido educado por Comte e por Littré tem uma vantagem incontestavel sobre quasi todos os seus contemporaneos portuguezes. Nenhum, que eu saiba, se embebeu mais profundamente das lições do grande philosopho positivista, nenhum vê de mais alto e com uma imparcialidade mais bella e mais fecundante para o espirito, a evolução necessaria das leis sociologicas a que todas as civilisações estão subordinadas. Mas extranho contraste! Este positivista de educação, é um idealista incorrigivel, por temperamento.
Apezar d'isso ou talvez por isso mesmo nunca o ouvirão accusar um homem dos acontecimentos de que pela maior parte das vezes esse homem não foi senão o vizivel instrumento; nunca o ouvirão accusar o presente de não ter sabido perpetuar as virtudes e as crenças do passado.
Se tem saudades das bellas cousas extinctas, se tem pena de não ter vindo ao mundo n'outra quadra, em que o mundo ia n'um ponto mais pittoresco ou mais interessante, mais illuminado ou mais espiritualista do seu caminhar indefinido, se sente a nostalgia dos bellos ideaes hoje desfeitos, nem por isso deixa de reconhecer que toda a vontade individual é impotente para guardar na alma da Humanidade, pensamentos que se vão fatalmente dissipando, phantasias que a experiencia repelle, sonhos de que infelizmente se acordou, radiosas chymeras que se esvairam com a hora infantil em que tinham visto a luz...
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Como orador e como artista, Antonio Candido não pertence á raça impetuosa e enflammada de Castellar ou de José Estevão.
Educado, como já disse, pelos processos da sciencia positiva, tão disciplinadora e tão methodica; não se deixando nunca possuir pelo seu assumpto, antes possuindo-o, subjugando-o, vencendo-o, torcendo-o a todas as magicas flexibilidades da forma mais correcta e mais superiormente bella; desprezando os artificios d'uma rhetorica envelhecida e inane; sem nunca se deixar ir atraz das seducções um tanto serodias da pompa e da exhuberancia oratorias; possuindo uma razão clara e lucida, um poder de critica muito notavel, elle é justamente o orador moderno tal como os auditorios d'hoje teem o direito de exigir...
O orador que impressiona mas que persuade, que tem o brilho e a côr, a illuminação e o prestigio, mas que tem tambem o facto, o documento, a demonstracção scientifica, a comprehensão positiva das cousas.
Essa eloquencia que tão poucos teem sabido comprehender, essa eloquencia que os ignorantes desdenham, e que os mediocres teem em pouca conta, encontrou na critica indigena as interpretações mais diversas e mais extraordinarias.
Precedido d'uma celebridade cujas exigencias elle soube completamente realisar, Antonio Candido, apparecendo em S. Bento fez um d'aquelles seus discursos magistraes em que as bellas e largas syntheses brilham como constellações, n'um fundo azul de arte pura e de belleza a um tempo moderna e classica.
Foi então que o jornalismo portuguez o sagrou _rouxinol_. As appellações mais vulgares, que ficaram desde esse dia como cauda obrigatoria ao seu nome, foram as de: _orador maviosissimo_, _harmonioso tenor_, _voz eloquente e suave_, etc. etc. Cantor dos bosques sagrados de S. Bento--eis a sua posição social e artistica, perante a critica do seu paiz.
«--Mas eu não sou tal rouxinol! Eu nunca na minha vida cantei!--exclamava elle em vão com um gesto de suplice resistencia. Eu não tenho a pezar-me na consciencia nem um trilo nem uma volata.
--É rouxinol--respondeu severa e cathedratica a critica portugueza. É rouxinol, e rouxinol hade ficar!...
Foi uma hora amargurada esta, na vida do orador. Resignou-se então por algum tempo, para ver se o despediam d'entre o bando dos _alados cantores_, a fazer politica de pequenos interesses, e de pequenos assumptos.
Defendeu eleições, atacou dictaduras; foi vehemente e apaixonado no ataque ás personalidades eminentes; teve ironias mordentes e cruas, teve energias inesperadas; foi o orador politico, opportunista, habil, argumentador e arguto, que é necessario ser-se pelos modos, para arrancar de sobre os hombros as azas um pouco humilhantes de rouxinol.
Ás vezes no meio d'estes discursos de argumentação _terra a terra_, a sua imaginação opulenta e d'um brilhantismo extranho e raro, tinha uma fuga subita pelas largos espaços estrellados d'onde andava foragida, mas dos quaes se sentia eternamente nostalgica...
Outras vezes a sua faculdade critica tão educada e tão fina, d'uma subtileza de comprehensão tão viva e requintada, atirava para o meio do auditorio--sempre seduzido, senão sempre inteiramente capaz de o perceber--com uma d'aquellas interpetrações geniaes, um d'aquelles _aperçus_ soberbos, que só pertencem aos que meditam e estudam os mais arduos e complexos problemas da vida social.
Foi por essa occasião que alguns noticiaristas principiaram surrateiramente a chamar-lhe _aguia_. Nunca se soube bem qual a razão d'aquella mudança. Já que elle estava, no emtanto, adstricto aos dominios da ornithologia, antes aguia do que rouxinol,--pensou decerto Antonio Candido.
E aguia e rouxinol lhe ficaram alternativamente chamando os seus amigos e os seus adversarios.
Foi talvez para escapar a esta importuna classificação, que elle ultimamente, queimando os seus navios, sacrificando denodadamente qualquer ambição politica que ainda porventura se acoitasse no mais intimo e secreto do seu alto espirito, fez ouvir em S. Bento uma palavra de verdade suprema e tambem de suprema condemnação de toda a politica interna d'este malfadado paiz.
De todos os lados da imprensa levantou-se um brado que, condemnando a doutrina, glorificava o orador. Esqueceram-se, n'essa tardia accusação, de que em S. Bento a camara inteira o applaudira vertiginosamente, porque era a verdade quem punha na sua palavra a indignação fremente, a paixão intensa e viva, a melancolia immensa, inconsolavel, feita de ironia e de razão...
Accusaram-n'o porque, fugindo á banalidade e á falsidade historica de que todos ali são mais ou menos reus, elle não attribuia a ausencia de costumes politicos, a falseação do systema representativo, a exagerada elasticidade das ficções constitucionaes a violação sempre impune, de todas as suas praxes, as mil imperfeições do nosso machinismo governativo á vontade do sr. Fulano ao ministerio do sr. Cicrano, aos maus conselhos do sr. X e ao systema de corrupção do sr. J.
Era isto que elles estavam costumados a ouvir; era a continuação d'isto que elles reclamavam. Mas Antonio Candido é que lh'o não fez. É uma desforra brilhante e inolvidavel este discurso! É uma desforra das mil vezes em que o orador teve de pôr a sua palavra, não ao serviço d'uma causa má, mas ao serviço d'uma questão pequena ou d'um assumpto inferior.
Com a impaciencia, longo tempo soffreada, d'uma consciencia honesta, que vê continuamente, em torno de si, falseada a verdade dos factos, desfigurada a noção das coisas deslocados os assumptos, confundidas as mais claras e simples questões,--elle fez a largos traços a nossa historia constitucional, e provou, uma vez por todas, com o brilho e o atticismo da sua palavra sem rival, que isto que nós chamamos _decadencia do systema parlamentar_, não é mais do que uma justa e inevitavel consequencia de factos, de que esta geração não tem a culpa nem a responsabilidade, e de que ella tem fatalmente de ser a victima e o joguete.