Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias

Chapter 6

Chapter 63,781 wordsPublic domain

Na floresta dos sonhos, dia a dia, Se interna meu dorido pensamento, Nas regiões do vago esquecimento Me conduz, passo a passo, a phantasia.

Atravesso no escuro a nevoa fria D'um mundo extranho, que povôa o vento, E meu queixoso e incerto sentimento Só das visões da noite se confia.

Que mysticos desejos me enlouquecem? Do _Nirvana_ os abysmos apparecem A meus olhos, na muda immensidade.

N'esta viagem pelo ermo espaço Só busco o teu encontro e o teu abraço, Morte! irmã do Amor e da Verdade!

Ó poeta,--eu, uma pobre mulher condemnada, pelas leis fataes da physiologia e pelas leis logicas da sociedade, á inacção completa, não posso deixar de protestar contra essa paz egoista, em que o teu coração pretende affundar-se!

O _bhudismo_ comprehende-se n'essa India, corroida pelo odio das castas, e na qual o homem se sentia esmagado e vencido pela implacavel Natureza, devoradora e cruel, de uma exuberancia que escorria venenos!

Comprehende-se o _bhudismo_ no tempo em que a fatalidade das coisas subjugava o homem, o ultimo que chegara ao banquete da vida, e que chegára desarmado, predestinado á sua lucta de seculos, á sua lucta sublime, á lucta de titan, em que elle começa apenas a ser vencedor!

Mas imagine-se por um momento o _bhudismo_ triumphante, alastrando pelo mundo inteiro a sua doutrina de inerte contemplação, de extase inutil e vago!

O que seria hoje o mundo?!...

Não, o Homem não se deixou vencer; em vão o convidaram á preguiça, á covarde resignação, ao renunciamento esteril as religiões fatalistas e a Natureza hostil e inviolada ainda!

Elle resistiu!

E, desarmado, escorrendo sangue de todos os póros da sua torturada carne, perdido na escuridão profunda d'essa tenebrosa noite, que é o passado, ora seduzido pelas sereias enganosas que tentaram perdel-o, ora asphyxiado sob o pezo de barbaras e anti-naturaes doutrinas que o mutilavam, soffrendo sempre, luctando sempre, sacrificando-se sempre, trabalhando como escravo, guerreando como heroe, pregando como apostolo, immolando-se como martyr, escalando o céu como Prometheu, encarando intrepidamente, e face a face, os mysterios e os dogmas, furando as entranhas da terra cheia de pavores, ascendendo á região dos astros cheia de deslumbramentos, sondando os oceanos sem fim, resignado e tenaz, revoltoso, indomito, terrivel, mas sempre com olhos fitos no ideal, que pouco a pouco se ia desvendando, que a pouco a pouco se ia tornando definitivo e claro, elle chegou emfim a fazer da Natureza, seu algoz, a Natureza, sua escrava, e, das chymeras de hontem, as verdades libertadoras de amanhã!

E caminha ainda, não descançou por ora o heroico viajante, avido de mais dôres, avido de mais sacrificios, avido de mais combates!

Caminha não sabemos para onde, mas decerto para onde haja mais luz, mas decerto para onde a alma tenha mais liberdade o espirito tenha mais amplo espaço e a consciencia, a inviolavel consciencia, a garantia sagrada de mais direitos!

E tudo isto sentiu, n'uma das suas horas boas, Anthero do Quental quando escreve este soneto suggestivo de heroicos impetos e de ambições sublimes:

Conquista pois sósinho o teu futuro, Já que os celestes guias te hão deixado Sobre uma terra ignota abandonado, Homem = proscripto rei = mendigo escuro!

Se não tens que esperar do ceu (tão puro, Mas tão cruel!), e o coração maguado Sentes já de illusões desenganado, Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te então na magestade estoica D'uma vontade solitaria e altiva, N'um esforço supremo de alma heroica

Faze um templo dos muros da cadeia Prendendo a immensidade eterna e viva No circulo de luz da tua Idea!

Oh! como isto é mais bello do que a derrota confessada do pensador que se refugia no pessimismo, achando no pessimismo uma solução, quando elle não é mais que um estado transitorio da alma contemporanea, um dos symptomas mais caracteristicos da doença de vontade, de que mais ou menos hoje estamos--ainda mal!--todos contaminados!

VI

Chegando ao termo d'este trabalho percebo que ha n'elle, além dos mil defeitos que outros lhe notarão, uma lacuna enorme que eu propria reconheço.

Tentando explicar o pensador, eu não tenho dado ao poeta o merecido relevo que elle tem; quero dizer, o pensamento d'estes _sonetos_ tem-me ás vezes feito esquecer a belleza singular da sua forma artistica! Parece que o soneto, pelos moldes precisos e rigorosos em que se vaza, seria o menos proprio dos generos de poesia para fixar, em formosa esculptura, as abstracções metaphysicas em que o genio de Anthero do Quental se compraz principalmente.

Porque este poeta não é como H. Heine, apezar de tantas similhanças que os aproximam, apesar de serem a negação e a duxida as muzas principaes da sua inspiração, e de ambos representarem, sob uma fórma de grande arte, este periodo de transição entre as velhas crenças e as novas convicções do espirito, que a analyse paciente e complicada está elaborando ainda. O poeta allemão tem a impressão directa das coisas, e é n'ellas, e não nas idéas, que elle distingue a linha comica, a contradicção irreductivel, a impassibilidade perfeita diante das velhas theorias que decahem e agonisam; Anthero do Quental eleva essas dôres á abstracção suprema do seu espirito, a uma especie de metaphysica imaginosa e vaga, que pareceria impossivel a um temperamento peninsular aquecido pelo nosso sol, vivificado pelo nosso clima, cingido no circulo, impressionador e ardente, dos seus horisontes de ouro e de fogo. A sua poesia é como o reflexo fluctuante, caprichoso e indeciso, das contradicções, das amarguras, das tristezas e dos sonhos do nosso tempo; ella canta a dôr de toda uma geração que a si propria se estuda, sonda e interroga, e sendo profundamente pessoal, como é, repercute-se e vibra todavia em muitas almas egualmente angustiadas e vacillantes.

Não tendo, pois, antecedentes da mesma especie, foi-lhe necessario crear, dentro da velha fórma consagrada, uma forma nova; e d'esta difficuldade sahiu-se admiravelmente Anthero de Quental. Os seus sonetos trazem a marca do auctor; não se confundem com nenhuns outros. Muitas vezes tem de sacrificar a melodia do verso á extensão e ao vigor do pensamento; n'esse caso não hesita, e o pensador vence n'elle o poeta.

De todos os poetas que eu conheço ha um que Anthero me lembra muitas vezes. É Sully Prudhomme. Mas devo accrescentar que a individualidade accentuada de Anthero escapa incolume a toda a comparação e a todo o confronto.

Já ouvi, não me recordo n'este momento a quem, que o livro dos _Sonetos_ lembra tambem em muitos pontos o _Diario_ de Amiel. É que realmente estas duas obras, diversissimas entre si, filiam-se na mesma necessidade inteiramente moderna que o homem sente de auscultar-se, de conhecer-se, e de fazer a si proprio innumeras perguntas.

A antiguidade não tinha este prurido de penetração psychologica; por isso a antiguidade foi feliz, radiosa, activa e sã.

Comtudo, dado o nosso gosto pronunciado para este genero de estudos, ainda bem que Anthero escreve, e que Amiel escreveu. Se o primeiro não tivesse cantado muitos dos seus adoraveis e extranhos sonetos, se o segundo não tivesse _notado_, momento a momento, os cambiantes de uma alma tão extraordinariamente e tão morbidamente complicada, perder-se-hiam documentos inapreciaveis para o estudo completo da alma contemporanea.

Amiel, que, emquanto viveu, foi obscuro e desconhecido, e que, morto, inspirou a muitos dos mais subtis moralistas modernos, taes como Renan, Caro, Bourget, etc., estudos minuciosos e delicados, soffria, como Anthero, de um excesso de _vida interior_, origem de desiquilibrios dolorosos. A solidão, em que Anthero vive e em que viveu Amiel, aggrava este estado, fazendo-o degenerar, de riqueza fecunda e rara, que pode ser, na perigosa doença que a _élite_ do nosso tempo soffre com raras excepções: o enfraquecimento progressivo nos orgãos que determinam a acção e predispõem para o combate.

Para este mal, o remedio efficaz e supremo seria o contacto de outros espiritos, o attricto com outras intelligencias hostis ou apenas finamente e subtilmente criticas, porque se a convivencia com os homens nos faz perder a independencia absoluta do espirito, ou a originalidade profunda dos que não vão na corrente da opinião geral, nem tão pouco navegam contra ella--o que é ainda um modo de a considerar--é claro que, em compensação, ella nos torna mais aguerridos para a lucta, mais tenazes nos nossos propositos e mais vivos nas nossas ambições.

Tanto Amiel como Anthero encarnam, pois, com extranha intensidade essa doença que se traduz pelas hesitações do querer, e pelas fluctuações permanentes do pensar. Para ambos a vida perdeu as linhas reaes, fixas e positivas, com que ella apparece ao espirito pratico das raças latinas, tornando-se no que é para os espiritos, ethnologicamente ou moralmente germanicos, para Carlyle ou para Goethe, para Shopenhauer ou para Shakspeare, um não sei que de indeterminado e de fluctuante, um sonho que apparece confuso, nebuloso e phantastico, sempre prestes a decompôr-se em transformações successivas, sempre em via de desmanchar-se e de refazer-se em condições novas.

A Allemanha tem a palavra propria que exprime esta concepção das coisas; nós não a temos, de tal modo ella repugna ao espirito da nossa raça!

Mas Anthero de Quental longe de ter adoptado a linguagem semi-barbara á força de requintada, com que Amiel pretendeu naturalisar latinas abstracções puramente e genuinamente germanicas, é pelo contrario um escriptor de raça, um escriptor de primeira ordem, dando ao seu sonho, vago como é, o molde nitido e magistral d'uma linguagem riquissima, e sabendo em certas horas ser um prosador de largo folego, um critico sagacissimo e cheio de penetração genial.

Bastariam para provar esta asserção, os seus dois magnificos opusculos: _Considerações sobre a historia da litteratura portugueza e causas da decadencia dos povos peninsulares_.

Pena é que um espirito tão extraordinariamente dotado não enriqueça a litteratura nacional com alguns livros de critica e de historia, que, tão bem como os melhores, elle poderia escrever.

Emquanto Anthero aspira infatigavelmente a alguma coisa de muito superior ao que a vida póde dar, Amiel escreve n'uma das paginas do seu _Diario_ este pensamento caracteristico:

«_Il n'y a de repos pour l'esprit que dans l'absolu, pour le sentiment que dans le divin; Rien de fini n'est vrai, n'est interéssant, n'est digne de me fixer!..._»

Amiel n'uma hora de lucidez rara, n'uma d'estas horas em que o visionario mais intransigente vê em clarão rapido o _nada_, das chymeras a que immolou a sua vida, traça estas palavras, que são uma revelação e que são um arrependimento:

_Le resumé: Nada! Rien!... Et pour dernière misére, ce n'est pas une vie usée en faveur de quelque être adoré ni sacrifié à une future espérance..._

Do mesmo modo Anthero escreve este _soneto_, que é como a suprema condemnação do seu funesto _credo_, que é como a lagrima que se desprende da pupilla cançada de contemplar inutilmente as profundezas insondaveis do _eterno abysmo_...

Empunhasse eu a espada dos valentes; Impellisse-me a acção, embriagado, Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!

Respirariam meus pulmões contentes O ar de fogo do circo ensanguentado, Ou caíra raivoso, amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes!

_Já não viria dissipar-se a aurora De meus inuteis annos, sem uma hora Viver mais do que sonhos e a anciedade!_

_Já não veria em minhas mãos piedosas Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade!_

* * * * *

Não foi esteril, não, a vida de quem produziu este livro, que ficará na litteratura portugueza occupando um logar _á parte_, nosso pela lingua, bella, harmoniosa e rica, em que está escripto, e d'outra raça bem diversa da nossa, pelo perfume exotico de que está impregnado.

N'este momento de cosmopolitismo litterario, em que a arte é uma Babel onde as raças e as linguas se confundem, este livro marca um momento, e como tal é precioso para os que pensam e para os que estudam.

Reflecte-se n'elle, além do que deixo dito, uma alma angelica, uma d'estas almas raras, que não podem deixar de soffrer muito n'um mundo para que não são feitas.

Eu deixei de proposito, inviolado pela minha critica, porventura audaciosa, o que ha de mais profundamente subjectivo, de mais intimo e de mais sagrado no volume adoravel de Anthero de Quental.

Muitas vezes as lagrimas me romperam irresistivelmente dos olhos, ao ver n'elle, deliciosamente reflectida, a aspiração, sempre incomprehendida, a um amor que o consolasse e redimisse! Pensar é perigoso. Melhor é sentir. Anthero pensou de mais.

Eis o motivo porque não encontra a consolação unica a que a sua alma aspira anciosamente e inutilmente.

Sejamos bons e dôces para a Vida! Ella tem horas sinistras, bem sei; ella tem a Duvida; ella tem a Dôr e tem o Silencio eterno a todas as interrogações anciosas da nossa razão e da nossa consciencia; mas de que doçura infinita ella nos não enche o coração! mas com que lagrimas abençoadas ella não apaga as sêdes ideaes da nossa alma cubiçosa! Como no mytho pagão, toquemos a Terra, quer dizer, retemperemos o nosso organismo cançado nas primitivas alegrias da simplicidade, da innocencia, e do amor! Não renunciemos a nenhuma das ineffaveis riquezas de que a Vida é depositaria fiel, e acharemos, n'este retrocesso á Natureza amiga e boa, a paz que os artificiaes _nirvanas_ d'este seculo nos não podem dar!

* * * * *

Concluo este estudo, que eu fiz com o maximo amor que o artista, por humilde que seja, póde pôr no seu trabalho, e no qual apenas a sinceridade suppre tantos predicados que me faltam, pedindo a Oliveira Martins desculpa da minha ousadia.

Melhor do que ninguem, elle fallou do seu amigo; melhor do que ninguem, elle o explicou aos que o não conheciam, tocando com recolhimento e com fervor quasi religioso n'esta alma, que é para tantos um enygma indecifravel, e dando luz a tantos pontos indecisos d'este temperamento artistico, extranho e singular.

Depois de ter inspirado aquelle sentido prefacio, com que o notavel historiador enriqueceu o seu livro, que necessidade tinha o poeta dos _sonetos_ de que uma alma, que o não conhece senão atravez d'elles, viesse fallar ao publico da sua complexa individualidade?

No prologo de O. Martins ha mais do que o seu talento; ha tambem o seu coração de amigo, e é isso o que, aos meus olhos, lhe augmenta enormemente o valor.

Se houve audacia na minha apreciação, que m'a perdoem, pois, o poeta e o seu critico. Eu não quiz mais do que fazer ver o livro extraordinario dos _Sonetos_ de Anthero á luz da minha impressão pessoal. Não tive outro intento, nem desejo outra recompensa além do prazer intimo e profundo que senti escrevendo estas palavras sinceras, depois de ter lido o livro adoravel que tão espontaneamente m'as inspirou.

_ANTONIO CANDIDO_

I

Uma vocação irresistivel, uma d'estas vocações a que tem por força de obedecer-se, sob pena da mais tremenda mutilação intellectual, fez de Antonio Candido _um orador_.

Os escriptores fazem-se, os oradores nascem! Antonio Candido nasceu orador.

N'este ponto é elle absolutamente irresponsavel do seu destino.

Poucos haverá que em Portugal não saibam as circumstancias singulares que o subjugaram e venceram tragicamente, dando-lhe, n'este nosso meio muito uniforme e muito incolor, uma individualidade extranha, um toque de romanesco, que ainda mesmo nos oradores politicos destaca e assenta bem.

A vontade respeitada e querida de alguem, que elle muito amou, impoz-lhe um genero de vida com o qual o seu espirito, a sua educação, a sua comprehensão das cousas, o iam brevemente tornar incompativel.

Moço, ingenuo, inexperiente, elle subordinou n'uma hora de inconsciencia, de abatimento mental, toda a felicidade do seu destino futuro a essa vontade que respeitava sobre todas. Mais tarde, comprehendeu que as responsabilidades gravissimas que tinha acceitado, na sua imprudencia de moço, importavam nada mais e nada menos do que a abdicação da propria consciencia. Viu então que não podia occupar com sinceridade--isto é, com dignidade, porque é indigno tudo que não é sincero--a tribuna a que o tinham feito subir, e desceu d'ella sem hesitação e sem covardia.

Fez mal, diz o mundo; e não ha ninguem que o não tenha ouvido dizer muitas vezes, com aquella despreoccupada ousadia com que dizem tudo os que não acreditam em cousa alguma.

Fez mal. _Il est avec le ciel des accommodements_; e a sociedade actual, como em summa todas as sociedades extra-civilisadas, não exige heroismos nem abnegações sobre-humanas.

Ella só quer o respeito apparente das convenções estabelecidas; no mais, acha regular que se sophismem os preceitos, que se illudam e transgridam hypocritamente as leis. O que exige apenas e não se dirá que exige muito--é que se acceitem as posiçoes definidas, e que se finja acatar todas as tyrannias sociaes que a tradição consagra.

Que fizesse mal ou bem não me pertence a mim julgar aqui. O caso é que o fez, e que o fez com tamanha dignidade, com uma reserva tão silenciosa, com um desdem dos bens positivos e das utilidades praticas tão intellectualmente aristocrata, que ninguem ousou atacar de frente este acto d'uma vontade, esta determinação d'uma consciencia!

Os que privam de perto com Antonio Candido sabem que elle amou muito essa tribuna, onde a sua palavra deixou vestigios de graça incomparavel e de soberbo vigor.

Amou-a muito, e nunca a ella se refere sem o respeito enternecido e a vaga saudade dos que viram dissipar-se um sonho querido.

Mas ficar onde a Fé o não prendia teria sido uma transigencia covarde com a hypocrisia mundana.

Só espiritos amesquinhados pela comprehensão d'uma falsa moral o poderiam applaudir. Antonio Candido não teve essa transigencia. Antepoz a todas as considerações de facil e util egoismo o seu culto sincero pela verdade, a sua noção grave e austera do Dever.

Com a sua intelligencia malleavel, penetrante, capaz de vêr justo e de vêr fundo, percebeu, de certo, antes de tomar a resolução definitiva de romper com o passado, as difficuldades extremas que a vida ia ter para elle. Não hesitou, porém, certo de que na sinceridade ingenua do seu coração, na pureza do seu caracter, n'aquella isenção desdenhosa que é a melhor salvaguarda do homem superior, n'este tempo sem crenças absolutas, elle encontraria sempre um guia seguro para as complicações de ordens diversas, que tivessem de surgir diante dos seus passos.

II

Outra tribuna, a tribuna politica, se lhe abriu então ampla e rasgada!

Quem não advinha hoje as tristezas que a consciencia austera d'este homem terá sentido ao apalpar a inanidade vã das chymeras que sonhou antes de entrar n'este novo mundo!...

Porque, os que julgando amesquinhal-o e diminuil-o, lhe chamam _poeta_, sómente se enganam na intenção com que o fazem. Se é ser poeta não poder viver sem um ideal de justiça, de belleza, de bondade que sobredoire ainda as concepções mais vulgares, que espiritualise ainda as realidades mais praticas; se é ser poeta ter sempre a impulsal-o, a commovel-o, o sonho de _melhor_, a aspiração indefinida a alguma cousa que ainda não foi realisada no mundo, mas por amor da qual o mundo tem caminhado sem parar; se é ser poeta ter a comprehensão, perfeita e sympathica, de todos os sonhos adoraveis com que se entretem eternamente a phantasia d'esta velha creança incorrigivel chamada, a Humanidade--Antonio Candido é poeta como os que mais o são.

Lembro-me de o ter ouvido, ha bastantes annos, fallar com enthusiasmo na vida nova que encetára,--resignado já ao tragico _abortamento_ do seu destino de homem;--lembro-me de o ter applaudido quando, diante de mim e d'alguns amigos sinceros, dos quaes um já desappareceu da terra, elle desenrolláva com a palavra flexivel e deslumbradora, colorida e vibrante, em que a eloquencia é tão natural que chega mesmo a ser involuntaria, os planos sociaes que o consolavam de tanta cousa perdida para sempre, ou para sempre inacessivel...

É provavel que hoje Antonio Candido já não sonhe; mas acredita ainda decerto que a evolução necessaria das sociedades tende constantemente a melhorar os seus instinctos, a esclarecer a sua consciencia, a diminuir n'ellas a somma do mal e da iniquidade, a desenvolver mais e mais no seu espirito a ambição d'um alto destino... E a sua philosophia, a que elle ás vezes se refere sorrindo, e ácerca da qual os seus amigos gracejam benevolamente, não se perturba nem se ensombra, porque o meio que o cerca n'este momento parece comprazer-se em contradizer todas as suas formulas, em desmentir todas as suas conclusões...

De feito elle tem visto que, na lucta que as ambições pessoaes travam na scena politica, o vencedor paga o seu doloroso, o seu humilhante triumpho, com os thesouros insubstituiveis da integridade e da delicadeza moral. Elle tem tido, hora a hora, a prova irrefutavel e desconsoladora de que a _habilidade_ vence o genio, de que a astucia vence a virtude, de que os meios tortuosos vencem os impulsos dignos e as aspirações sinceras.

A historia moderna em Portugal tem sido, sem duvida, um ensinamento fecundo e triste para esta intelligencia tão penetrante na analyse das cousas, como intuitiva e superiormente sagaz na sua concepção synthetica.

Porque é que n'esse caso não deserta elle o exercito sem ideal, onde--errando mais uma vez o caminho da vida--elle se alistou na ingenua confiança do seu optimismo juvenil?

Por muitas razões, umas claras e simples, outras mais complicadas, umas originadas, simplesmente pelo seu proprio destino, outras que derivam naturalmente da especie de determinismo historico, que principalmente o inspira ainda nas crises de mais desolação interior, ainda nas luctas mais dolorosas da sua sensibilidade um pouco feminina, quasi morbida...

Como Renan, um dos seus amigos ideaes, o mystico e bondoso coração com o qual o seu tem tantos pontos de contacto--elle acceita resignado, com o benevolo desdem das almas fortes, a dura lei que, fazendo tão grande e tão sublime a Humanidade, fez ao mesmo tempo tão frageis e tão imperfeitos os individuos, a complicação inextricavel, apparente, que existe em tudo que nos cerca, e que faz com que, muita vez, as mais contrarias soluções do mesmo problema moral sejam igualmente justas, igualmente legitimas diante do olhar da Critica; a certeza melancolica de que os males e as miserias que nos circumdam e nos fazem tanta vez perder de vista o ceu azul, o amplo espaço luminoso e puro, não são feitas pela vontade dos homens, são simplesmente modificadas por ella n'um ou n'outro ponto secundario. Elle sabe que só a vagarosa evolução dos tempos pode exercer a acção que antigamente se attribuia ao capricho ou á influencia immediata de homens providenciaes.

D'aqui a sua tolerancia, a sua resignação austera e triste, e a expressão melancolica da sua palavra, em que não ha revoltas inuteis nem injustiças escusadas, mas sim a tragica acceitação de leis ineluctaveis e crudelissimas.

Cada epocha que passa não faz mais do que servir, intelligentemente ou cegamente, conscia da sua missão historica ou ignorante d'ella, a corrente das idéas, dos factos, dos phenomenos que o periodo anterior tinha necessariamente preparado.

Caminhantes forçados d'uma estrada enorme, cujo principio se perde em sombras incognosciveis, cujo fim nenhum olhar descortina ou sondará jamais, nós seguimol-a, resistentes ou doceis, confiantes ou resignados, scepticos ou cheios de fé, egoistas ou desinteressados, parando nas _etapes_ marcadas, perdendo-nos momentaneamente nas charnecas aridas, ou nos atalhos floridos e risonhos, mas voltando, apoz o retrocesso rapido, ao longo caminho que necessariamente temos de seguir, como o astro segue a sua trajectoria, como a Vida segue a sua evolução.