Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 5
Shakspeare, por exemplo, esse colosso que nós julgámos por muito tempo a creação espontanea e maravilhosa, que um _decreto nominativo_ do Eterno fizera surgir n'uma idade semi-barbara, apparece, na obra de Taine, naturalmente, no logar que lhe é proprio e que lhe estava necessariamente destinado, de um modo que nada tem de surprehendente ou de imprevisto. Todo o movimento politico, litterario, social da Renascença ingleza vem rematar harmoniosamente em Shakspeare, sem esforço, sem salto inexplicado, sem arbitrariedade do Destino, sem que no espirito do leitor, que estuda o quadro complexo e extraordinariamente poderoso da vida intellectual da Inglaterra, este grande nome, universalmente acclamado, produza o espanto, a sensação do imprevisto, o abalo e o sobresalto de uma apparição sobrehumana!
Vista a evolução do pensamento a esta luz viva e fecundante, como tudo se explica e harmonisa, como tudo se ordena magnificamente, como os effeitos derivam naturalmente das suas causas superiores, como é bella essa admiravel ascensão das trevas para a luz, do cahos para a suprema harmonia!
Entre todos os obreiros maravilhosos que em França a critica moderna tem tido ao seu serviço, nenhum, porém, existiu nunca que melhor podesse explicar, illuminar, tornar accessivel a todos a obra de Anthero do Quental, como esse a que me referi ha pouco: o auctor, aos meus olhos adoravel, dos _Ensaios de Psychologia Contemporanea_.
Em Bourget sente-se, como em Anthero, visivelmente e fortemente, a influencia da Allemanha. Discipulo de Schopenhauer, foi elle--talvez inconscientemente seduzido--quem tornou Schopenhauer intelligivel á França, e popular ou, pelo menos, conhecidissimo em França. Mas o _pessimismo_, que no philosopho de Francfort é doutrina, foi Bourget encontral-o como _sentimento_ em muitos dos artistas mais delicados e mais queridos do nosso tempo, n'aquelles de quem uma geração inteira bebe a inspiração e acceita o ideal.
Bourget desceu ao fundo da alma contemporanea e achou lá, ora visivel como um jazigo a descoberto, ora occulta como um filão inexplorado, esta dolorosa aspiração ao _não ser_ em que virão, talvez, cruelmente e anti-naturalmente, a abortar todos os sonhos radiosos e extranhamente grandes que a humanidade concebeu, que a sciencia tem tratado tenazmente de realisar, e que a arte devia ter a gloriosa, sublime e util missão de traduzir!...
Seria pois Bourget quem melhor do que ninguem faria comprehender até aos mais profanos, e aos menos dados ás sublimes abstracções do espirito, o livro eminentemente moderno, e extranhamente doloroso e contradictorio de Anthero do Quental. A lingua em que nós escrevemos e fallamos não a conhecem porém lá fora, e este livro que em toda a parte seria criticado e discutido como um symptoma mental, caractetistico do nosso tempo, fica sem echo, a não ser entre alguns delicados d'entre nós, a quem estas questões interessam a titulo de curiosidade litteraria.
II
A mim, se me faltam, como já disse, muitos dos predicados exigidos para analysar e estudar a obra, tão profundamente pessoal, do auctor dos _sonetos_, não me falta comtudo, para lhe comprehender a alma agitada e sacudida por tantas idéas que se combatem entre si, produzindo uma tragica lucta interior, o que n'este caso supre vantajosamente a sciencia e a critica: refiro-me á minha alma de mulher, contradictoria tambem, tambem fluctuante, e que não foi corrigida nem mutilada pela necessidade fatal da acção, pela despotica lei social que impelle o homem a pronunciar-se n'um sentido definido, a caminhar para um fim determinado, a _comprometter_, por assim dizer, as suas opiniões e as suas crenças, dando-lhes uma forma precisa e limitada, encerrando-as n'uma esphera positiva e restricta.
N'este ponto Anthero de Quental guardou, a par das qualidades poderosas e creadoras de um espirito viril, a plena independencia mental que é talvez a maior felicidade da mulher, quando a mulher--o que é raro--a sabe aproveitar no enriquecimento, na ampliação e na cultura do seu mundo interior.
Está portanto ahi o ponto delicado e subtil em que nos encontramos.
O livro dos _Sonetos_, que para mim vale muitissimo como obra de arte e de poesia, vale principalmente como documento psychologico, como _notação_ sincera, espontanea, feita dia a dia, de sensações requintadas, como confissão d'uma alma que,--nas suas dôres imaginarias ou reaes, nas suas ardentes aspirações d'um espiritualismo doloroso, nas suas duvidas desnorteadoras diante de todos os problemas insoluveis da Vida, no seu desejo dilacerante d'um absoluto impossivel, nas suas anciosas interrogações em face do incognoscivel eterno, nos seus gritos melodiosos de apaixonada tristeza e de amargura revoltada--condensa, representa, synthetisa em si o estado sentimental de todo um mundo, o mundo a que nós pertencemos.
O vago mal-estar que fez chorar tão docemente Lamartine, e que sacudiu violenta e dolorosamente os nervos de Musset, definiu-se nos seus symptomas, revelou-se aspera e positivamente nos seus mais accentuados caracteres.
Nós não ignoramos o mal de que soffremos e porque soffremos.
Não foi impunemente, e sem que um medonho e forte abalo se produzisse nos espiritos e nas consciencias, que a sciencia, implacavel e tranquilla, despovoou os ceus, destruiu na nossa alma, ambiciosa e soffredora, o sonho da triumphante immortalidade, fez do mundo, que julgavamos centro e eixo do Universo este humilde grão de areia que hoje gravita subordinado e dependente nas amplidões infinitas do espaço; não foi sem dilacerar as fibras mais intimas do nosso orgulho que a biologia, arrancando aos abysmos do tempo o segredo da primeira scentelha da Vida que animou este planeta, nos demonstrou o que nós eramos no fim de contas, nós que nos julgavamos os filhos dilectos do Creador!
Se a sciencia exulta, se os seus apostolos continuam tranquillos e convencidos a trabalhar para a completa libertação d'esse escravo d'outras eras, que é o triumphador maximo de hoje, se o progresso caminha, se a civilisação se requinta, se a materialidade do goso attingiu quasi os limites do ideal, quantos corações, em compensação de tanta grandeza, não ficariam esmagados e desfeitos em sangue sob as rodas de fogo d'esse carro de triumpho, que leva a humanidade, cega de orgulho, á conquista da sua apotheose final!...
A extraordinaria revolução scientifica e social, que faz do nosso seculo uma quadra sem precedentes na historia, se trouxe a tantos a felicidade, a libertação, a victoria, se deu ás massas o goso de regalias ignoradas, se nivelou as castas, se diminuiu a miseria, se combateu muitos males visiveis, muitas injustiças flagrantes, se teve, emfim, nos seus aspectos geraes e nas suas linhas grandiosas, resultados soberbos, que ninguem contesta e que todos aproveitam, não podia comtudo, deixar de repercutir-se de um modo violento e profundo, dilacerante ás vezes, outras vezes entontecedor, em certas almas impressionaveis, em certos espiritos delicados, em certas organisações doentiamente accessiveis!...
Que importa, dirão, se a felicidade do maior numero exige o sacrificio desses poucos!
Sim, não importa que elles soffram; o que não obsta a que, ainda mesmo aos mais fortes, inspirem a mais irresistivel sympathia esses corações ardentes, essas almas visionarias, que a sêde invencivel da sciencia leva a beberem do seu amargo licôr, e que em vez de acharem n'elle a robustez, a certeza fortificante, a saude mental, cáem prostrados por uma dolorosa ebriedade,--iniciados que dariam tudo para ignorar, curiosos e complicados espiritos que anceiam debalde por se salvarem pela simplicidade e pela innocencia, a cujo seio nunca mais, _nunca mais_, poderão retroceder...
III
É perfeitamente esta dôr terrivel, que só é dada a alguns eleitos da sensibilidade, esta dôr sem consolo que tem de os perseguir implacavelmente até á morte, e que póde achar calmantes e anesthezicos, mas nunca uma cura decisiva, que Anthero de Quental exprime dolorosa e magnificamente n'estes _Sonetos_ que, para o _grosso publico_, hão de parecer apenas os devaneios de um phantasista, senão as mysteriosas locubrações de um allucinado e de um nevrotico.
Oh! felizes dos _simples_, porque elles não conhecem esta dôr dilacerante de duvidar, esta ancia amarga de saber, esta inquieta curiosidade de prescrutar todos os mysterios, de sondar todos os recessos sombrios do pensamento! Felizes dos simples, porque elles não voltam d'essas regiões terriveis, d'esses circulos dantescos, empallidecidos, cançados, mortalmente tristes, sem coração para amar, sem força para viver, sem incentivo para a lucta, sem alimento para as ambições banaes e limitadas d'este mundo.
E, no entanto, maldizendo as dôres de que a razão lhe foi origem, Anthero de Quental não pode amaldiçoar essa faculdade superior, comprada á custa de taes agonias, mas que lhe tem dado--goso contradictorio e extranho!--o austero orgulho dos que sabem!...
Razão, velha de olhar agudo e frio E de halito mortal, mais do que a peste! Pelo beijo de gello que me deste, Fada negra, bemdita sejas tu!
Bemdita sejas tu pela agonia E o lucto funeral d'aquella hora Em que eu vi baquear quanto se adora, Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas bemfazejas Do desengano... pela paz austera D'um morto coração que nada espera Nem deseja tambem... bemdita sejas!...
Muitos perguntam,--e, no seu ponto de vista racional e practico, perguntam com razão--a que se deve a reclusão quasi absoluta, o abandono de todos os interesses positivos, a inacção voluntaria, que tão estranhamente caracterisam esse pensador, esse critico, esse poeta, chamado Anthero de Quental.
Quando pela primeira vez os echos d'este nome repercutiram na sociedade portugueza, foi como um som bellicoso e guerreiro que se ouviu, sobresaltando os possuidores consagrados da realeza litteraria d'esse tempo.
Anthero de Quental era, na somnolenta, monotona e convencional _coterie_ litteraria de ha vinte annos, considerado um iconoclasta, atrevido e sacrilego, que vinha sem dó derrubar os velhos idolos, atirar por terra as reputações consagradas, levantar uma vermelha bandeira revoltosa em meio da serena paz, que os bons e pachorrentos mestres do classicismo academico faziam reinar entre todos os portuguezes... que os não liam!
Na politica Anthero tinha a ousadia, então quasi criminosa, de se proclamar socialista; em philosophia era um pantheista, em cuja bella imaginação, colorida e meridional, as sublimes hypotheses de Hegel exerciam uma acção dominadora; em litteratura, elle trazia todas as novas idéas hoje conhecidas e generalisadas, então quasi inteiramente ignoradas por nós, que la fóra tinham desthronado o romantismo, e produzido a grande evolução naturalista agora triumphante.
Anthero de Quental era pois um revolucionario, um innovador; estava-lhe destinado um d'estes papeis que n'uma litteratura e n'um paiz são o maior titulo de gloria, que ao pensamento e ao trabalho de um homem é dado alcançar: o de iniciador, de percursor, de _porta-estandarte_ de uma Idéa civilisadora e grande!
Porque não realisou elle estas promessas de luctador e de artista infatigavel?
A esta pergunta, que se apresenta naturalmente diante de todos os espiritos, responde este livro. Vamos pois vêr de que modo.
IV
Para mim--e talvez que eu n'este ponto e em mais alguns me tenha afastado do espirito com que Oliveira Martins, o notavel escriptor e o amigo fiel e terno e quasi fanatico de Anthero escreve as palavras que servem de prefacio aos magnificos versos do poeta--para mim o que prostrou Anthero de Quental n'aquelle extase vago e contemplativo, de que os seus ultimos _sonetos_ são a mais completa expressão, foi justamente o _excesso do pensamento_, o abuso da analyse, a que elle se entregou, prematuramente, no periodo mais activo e mais arrojado da vida do homem, quando geralmente este emprega todos os recursos da sua energia para se fazer no mundo um grande logar, onde tenha espaço que baste á envergadura das suas ambições.
Pensou _de mais_, quiz conhecer e sondar e penetrar _de mais_ as theorias extravagantes ou grandiosas, desconsoladoras ou sublimes, phantasticas em todo o caso, com que a Humanidade tenta, desde que existe, explicar a si mesma o mysterio da sua existencia.
São raras as almas em que se trava sériamente, tragicamente, este combate com a Verdade! Procural-a e possuil-a foi o sublime fim a que a alma d'este poeta, tão moço ainda, se entregou completamente.
Mas a nós homens não é dado achar a Verdade!
Por isso Anthero foi vencido na sua lucta soberba, por isso foi contraproducente o seu trabalho heroico, e, prostado, abalado até ás mais fundas raizes do seu sêr, por tantas contradições, que o cingiam como as lianas tenazes de uma floresta virgem, por tantas duvidas que estendiam sobre elle a sombra escura dos seus ramos venenosos, por tantas hypotheses que se desmentiam aos seus olhos penetrantes, por tantos sonhos vertiginosos que o entonteciam e embriagavam, pela inextricavel vegetação, gigantesca e confusa, de tantas idéas, sob as quaes o nosso seculo está litteralmente esmagado,--elle, o pensador sincero, a alma enamorada da Verdade e da Justiça eterna, o idealista incorrigivel que o mysterioso _au delá_ captiva e chama, apezar da negação feroz dos racionalistas e da indifferença systematica do positivismo, elle achou que o unico refugio, no meio d'este cahos, que o unico descanso no meio d'este combate em que a vida quasi se lhe esvaía, seria o de uma inacção contemplativa, de um renunciamento mystico, de uma especie de _bhudismo_ mental que nos seus versos se reflecte ás vezes em harmonias ineffaveis, em cantos resignados e immortaes!...
* * * * *
Mas, para chegar a esta estação ultima de uma longa Via Dolorosa, de que tempestades enormes, de que dramas convulsos não foi theatro a alma d'este poeta, que _viveu_ a sua poesia antes de a ter feito!...
Aspirou á felicidade como toda a gente, mas a felicidade a que elle aspirava é que não era a _de toda a gente_, e por isso a procurou de balde! É provavel que partisse, como todos os que são moços, com as suas grandes _botas de sete leguas_ á conquista d'esse _Velo de ouro_, que se chama amor ou que se chama gloria; mas que desalentos o fizeram parar absorto e esquecido de tudo, nos recantos melancolicos ou nos desfiladeiros sombrios do seu caminho imaginario!...
E é a historia d'essa viagem terrivel que estes _sonetos_ nos contam; por isso elles hão de interessar tanto os que pensam e sentem, e n'uma esphera, embora menos ampla, soffreram e luctaram tambem!
Foi n'uma das suas horas de tristeza sem consolo que elle escreveu estes versos, cuja vibração sonora e longa se repercute para além das paginas do livro, por esse espaço fóra...
Porque a noite é a imagem da Verdade Que está além das coisas transitorias, Das paixões e das formas illusorias, Onde sómente ha dôr e falsidade...
Mas tu, radiante luz, luz gloriosa, De que és symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o coração humano, Em rede de mil malhas mysteriosa!
Symbolo, sim, da universal traição D'uma promessa sempre renovada E sempre e eternamente perjurada, Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão... .................................... .................................... De que são feitos os mais bellos dias? De combates, de queixas, de terrores! De que são feitos? De illusões, de dôres, De miserias, de magoas, e agonias!
O sol, inexoravel semeador. Sem jamais se cançar, percorre o espaço, E em borbotões lhe jorram do regaço As sementes innumeras da Dôr!
Oh! como cresce sob a luz ardente A seara maldita! Como freme Sob os ventos da vida, e como geme N'um sussurro monotono e plangente!
* * * * *
Não pode a revolta d'um coração ferido pelas injustiças sangrentas da vida exprimir-se com mais desesperada e mais apaixonada eloquencia!...
Se a vida é isto--e é isto quasi sempre aos olhos do poeta dos _Sonetos_,--para que luctar, para que trabalhar, para que arrastar eternamenre ao alto da montanha, aspera de tojos bravos, o enorme rochedo que eternamente rolará pelos seus flancos duros ao abysmo fundo onde de novo o homem tem de ir buscal-o, para novamente procurar com elle o pincaro escalvado d'onde cahiu?! D'aqui ao profundo _nihilismo_ em que Anthero tem de ir dar é, longo o caminho, mas é logico e está claramente indicado...
Sob o ponto de vista pratico e razoavel, este livro, tão profundamente espiritualista, é um livro, no fim de contas, desconsolador; se a obra de Anthero fosse comprehendida por todos, teria um alcance funesto para o espirito humano! O sonho da perfeição que o inspira, leva-o a uma comprehensão da existencia erronea e perigosissima! Incompleta como é, a vida exige de nós todos, como um dever sagrado, que appliquemos a resolver-lhe os problemas, a vencer-lhe as luctas dolorosas, a cumprir-lhe os asperos deveres, toda a energia das nossas faculdades, toda a abnegação dos nossos sacrificios, todo o vigor da nossa vontade, todo o amor do nosso coração, todo o poder de sympathia de que a nossa alma dispõe. Não tem desculpa os que desdenhosos e inactivos, cruzam os braços, indifferentes aos triumphos do Mal desde que perderam a esperança de fazer do Bem o rei absoluto da creação.
Mas, feitas estas restricções que a consciencia me está impondo, a verdade é que não ha no bello livro de Anthero, tão pessoal e tão _vivido_ nem um _estado de alma_ que a minha alma não comprehenda e não justifique.
E que diversidade de sentimentos, e que mundo, complexo e vago, de emoções cambiantes!
É um devoto da Virgem, de um mysticismo doce como o dos monges primitivos? É um triste e incrédulo filho d'este seculo sem Deus? É um metaphysico perdido no seu sonho nebuloso e desconnexo? É um espiritualista que protesta com todas as revoltas da sua consciencia e todas as lagrimas do seu coração contra o materialismo que ameaça fazer retroceder este mundo a um estado de brutal immoralidade e de goso sensual nunca saciado? É um pensador que, conhecendo todas as theorias philosophicas que explicam o ser, a todas domina e a todas dá a forma sentimental e poetica de que ellas carecem para serem comprehendidas pelos profanos da sciencia, e pelos _diletantti_ do pensamento?...
É tudo isto, sem ser nada d'isto; porque é tudo isto em momentos que passam, e que, ao passarem, fixam a fugitiva imagem n'uma lamina argentea, emmoldurada em esmaltes vivos, em cinzeladuras rendilhadas, em delicados e artisticos florões.
Mas--e é este o supremo merecimento d'este livro--é tudo isto sinceramente, espontaneamente, sem _pose_, sem artificio, sem estudo previo!
* * * * *
Anthero não é um acrobata da rhetorica, não é um prestidigitador de imagens faceis, é um coração que soffre, é uma alma que se impressiona, é um cerebro que vibra, é um _sincero_ que põe toda a potencia das faculdades em cada rapida modalidade do seu complexo sêr!
Querem vêr como elle proclama, n'uma dolorosa amargura a inanidade final de todo o esforço humano?
Em vão luctamos! Como nevoa baça A incerteza das cousas nos envolve; Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve Nas suas proprias rêdes se embaraça.
O pensamento que mil planos traça, É vapor que se esvae, e se dissolve, E a vontade ambiciosa que resolve Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um pressentir divino...
Mas n'um deserto só, arido e fundo, Echoam nossas vozes que o Destino Paira mudo e impassivel sobre o mundo!
Contradictorio? sim; mas verdadeiro!
Para mim os que nunca se contradizem são, em geral, os que mentem sempre.
Os sinceros são alcunhados de incoherentes pelas pessoas _sérias e graves_ que fazem a _opinião publica_, quer dizer, que criam esse absurdo enorme, feito de convenções falsissimas, sempre aprumado na sua immobilidade estupida e na sua monotonia secular...
V
É-me absolutamente impossivel, e nem com esse intento se compadece a indole d'este rapido esboço critico, fixar aqui completamente a physionomia litteraria, tão expressiva e tão complexa de Anthero de Quental.
De resto, eu escrevo apenas para os que leram e apreciaram o poeta, para aquelles que se sentiram mais impressionados diante das suas contradicções, tão humanas, tão genialmente sinceras!
Pois qual é o homem verdadeiramente digno d'este nome, que nunca sentiu dentro da sua alma o terrivel embate de mil pensamentos dolorosamente hostis?!
O mais sceptico dos filhos d'este seculo sente palpitar ás vezes, no fundo intimo do seu coração, o dôce coração piedoso e crente da mãe querida, da velha avó, que outr'ora foi levar á sombra austera do templo, ao altar onde o Homem-Deus sorri resignado e triste, o holocausto de todas as suas tentações e de todos os seus amores; assim como o mais piedoso de entre nós, nem sempre logra fugir á acção dissolvente do scepticismo universal, que vai crescendo, crescendo, como uma maré de perdição...
Entre estes dois pólos do pensamento humano, quantas gradações, quantos cambiantes, quantos modos complicados ou morbidos de pensar e de sentir!...
Se só é completo e grande o que os comprehender a todos,--que desgraçado não será o que a todos experimente!
Por isso o nosso poeta exclama, n'um impeto de dôr sincera e tragica:
Ouve tu, meu cançado coração, O que te diz a voz da Natureza --«Mais te valera, nú e sem defeza, Ter nascido em asperrima soidão!
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão Frio e cruel da mais cruel deveza, Do que embalar-te a Fada da Belleza Como embalou, no berço da Illusão!
Mais valera á tua alma visionaria, Silenciosa e triste, ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia.
(Sem ver uma só flôr das mil que amaste) Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...
* * * * *
Pouco a pouco, porém, por uma especie de lenta gradação, com retrocessos fugitivos, a alma de Anthero do Quental, cançada de sonhar, de aspirar, de desejar em vão, vae-se iniciando n'essa paz suprema a que os sectarios do velho Bhuda indico chamaram o _nirvana_!
O _nirvana_ é uma especie de renunciamento da alma que nada espera, e que, fóra da esperança, achou a tranquillidade beatifica do _não-ser_.
Schopenhauer não fez mais do que pôr em moldes novos a palavra mil vezes secular do antigo sabio:
«A virtude, diz Bhuda, consiste em nos desinteressarmos de tudo que é sensivel.»
«Liberto de todo o cuidado da acção, o verdadeiro crente queda-se tranquillamente sentado na cidade das nove portas, sem de nada cuidar, e sem aconselhar aos outros a acção.»
«D'entre os meus servos, aquelle a quem mais quero é o que tiver coração benevolo para toda a natureza, não temendo os homens, nem sendo por elles temido. _Apraz-me tambem o que houver renunciado inteiramente á esperança, e o que não se abalance a nenhuma empreza humana_,»
Toda a desgraça do homem, continua ainda o philosopho da velha India, é attribuir ás coisas d'este mundo duração, permanencia, e realidade.
«O mundo é uma illusão immensa.»
Não desejemos, para não soffrermos. Não amemos, para nos não prendermos ao que é illusorio e passageiro. Não _esperemos_, e, n'esse _renunciamento_ absoluto (principio da moral bhudica, e fim da philosophia Schopenhaureana), encontraremos a paz, quer dizer, a extincção de todo o desejo, a morte de toda a sensação, o desprendimento de nós mesmos e da Vida universal.
N'esta doutrina tão velha, que o espirito germanico remoçou e como que adaptou ás complicações extraordinarias e imprevistas da vida moderna, acolhe-se adoravelmente o poeta em muitas das suas horas de desalento e de cançasso.
Envolve-te em ti mesma, oh alma triste! Talvez sem esperança haja ventura!
E n'outro soneto: