Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias

Chapter 4

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D'aqui provém a logica simples e sympathica de todos os seus actos e sentimentos. O drama deixa de existir como elemento natural da nossa alma e da nossa imaginação. O peccado não tem as mesmas excitações sensuaes, o cumprimento do dever é alguma coisa de mais serio, de mais sagrado e de menos complicado e contradictorio do que nos paizes catholicos, onde o padre, orgão da lei divina, ordena em geral o contrario do que o marido, orgão da lei social, exige e faz cumprir; onde a alma feminina vive entre a satisfação do desejo e os ardores do arrependimento, sempre oscillante, sempre inquieta, no eterno desiquilibrio, e na eterna vacillação enfraquecedora entre o bem e o mal, entre a culpa e a penitencia, entre o pequenino goso irritante de desobedecer, e o extase soluçante do confissionario, onde tudo se lava e se perdoa...

Ramalho Ortigão deixa entrever tudo isto sem o accentuar demasiadamente, limitando-se a fazer-nos entrar com elle em dois ou tres _interiores_ que se lhe franquearam, e que elle pôde observar com a sua poderosa faculdade critica.

São adoraveis de bondade simples, de feliz contentamento, de paz serena e doce, estes interiores hollandezes, e ainda aqui, perante a superioridade da nação que estamos estudando, a nossa consciencia se curva humilhada, e a nossa alma se penetra de salutar inveja.

Todavia não nos deixemos ir completamente atraz do enthusiasmo, que tenta avassallar-nos diante d'estes quadros d'uma felicidade sem sombras, d'uma perfeição sem macula.

As paginas do humorista hollandez Dowes Slekker, que Ramalho cita,--talvez movido pelo remorso, que no fim de contas o punge de admirar sempre, de admirar incondicionalmente,--as paginas em que aquelle escriptor, mais na intimidade do seu paiz, da sua raça e do seu meio, do que o viajante que passa impressionado simplesmente pela seducção dos aspectos exteriores, escalpelliza duramente, e ferozmente os ridiculos e os vicios dos seus concidadãos, essas dão-nos a certesa consoladora ou cruel, consoante o ponto de vista em que nos collocarmos, de que a absoluta perfeição humana não é mais que um sonho radioso em que se entretem por momentos a nossa ambiciosa phantasia.

Em toda a parte a burguesia enriquecida e triumphante--e onde é ella mais triumphante e mais enriquecida que na Hollanda?!--hade ter os mesmos vicios, o mesmo egoismo desolador, a mesma ultrajante prerogativa de gosar, esquecida de todos os que soffrem!

Nas _colonias_, a fóra a parte technica, util pelas informações, pelos factos e pelos documentos de comparação que fornece aos competentes, o que a mim me agradou como artista foi a pintura da Batavia, foi essa invasão luxuosa e violenta da vida dos tropicos, da sua paisagem, da sua flora e da sua fauna; do ar feito de chammas, da vegetação monstruosa, da implacavel, soberba, subjugadora e invencivel natureza d'esses climas de mortifero encanto!

O ultimo capitulo da Hollanda intitula-se _A Arte_, e assim devia ser.

E pela arte que esse paiz tem principalmente direito a viver, venerado e querido, no espirito dos que pensam, e na alma dos que sentem. A arte é o disco luminoso que o cerca, é o nimbo em que elle nos apparece idealisado e engrandecido. A arte é a coroa suprema da sua realesa.

E depois a patria de Rembrandt e de Franz Halz justifica e faz comprehender a apotheose, o hymno de admiração enternecida que é este livro, elle proprio uma obra de arte, muito mais do que uma obra de critica.

Ninguem estava no caso de apreciar e de sentir melhor a arte hollandeza,--essa arte que teve, como nenhuma, a perfeição do detalhe na harmonia do conjuncto, a nota exacta na comprehensão larga,--do que Ramalho Ortigão, o escriptor que, no seu processo, realisa tão adoravelmente a formula naturalista d'essa inspirativa e grande escola, ante a qual os modernos se sentem ultrapassados e excedidos.

Pontos de vista notaveis, observações finas, analyse penetrante do assumpto, intuição maravilhosa de todos os segredos da arte--eis o capitulo que remata soberbamente este bello livro, d'um largo folego, d'uma ampla e serena inspiração.

O assumpto arrastou-me. Fui mais extensa do que tencionava, e ha n'esta critica um _não sei quê_ audacioso na contradicção que a mim propria me espanta.

Julgarão os leitores menos benevolos que eu me arrogo os direitos de critica em assumptos de viagem e de arte que me são quasi extranhos.

E, no emtanto, no silencio do paiz, em face dos que tentam levantal-o trabalhando, ha uma desconsolação tão intima para a alma do escriptor, que a minha voz, por obscura que seja, tem, n'esta mudez geral, uma nota de sinceridade, uma aspiração de justiça, uma intenção de applauso, merecedôra d'uma certa indulgencia.

Não me arrependo de fallar, visto que se callam tantos que tinham direito de applaudir em alto e bom som.

Concluindo, repito o que já disse no principio do meu defeituosissimo esboço critico. Porque será que, apezar de tanta virtude sympathica e de tão nobre e levantado ideal, a Hollanda me impõe admiração sem me inspirar ternura absolutamente nenhuma?!

É porque sou meridional de mais para comprehender essa raça persistente, fria, fleugmatica e pesada, incapaz de expansão, incapaz de altruismo generoso, incapaz do dilettantismo intelligente, que eu tanto aprecio nos individuos e nas nações!

O que a elles, os bons hollandezes, lhes falta para me seduzirem, é a _pontinha de febre_, o grão de loucura, a chamma iriada e multicor que nós, a velha raça gasta nas exaltações e nos sobresaltos convulsos da nevrose que nos exhauriu a seiva, conservamos ainda na velhice que nos prostra... á sombra dos loureiros de outr'ora!

Elles teem a virtude e a força que dão a serena placidez, nós temos a agitação eterna e dilaceradora, á custa da qual se compram os requintados supplicios e as delicias de uma volupia morbida.

Nós conhecemos todos os martyrios, mas tambem todos os inebriantes gosos que dá a Imaginação. Nós buscamos na Dôr a suprema voluptuosidade sagrada, com que ella exalta e unge os seus dilectos, e não a trocamos pelas calmas e tranquillas alegrias d'essa boa gente pacata, pachorrenta, reflectida, egoista e séria, para quem a vida é um grato dever, para quem as scismas, as contemplações, as duvidas, os terrores phantasticos, são um accessorio inteiramente inutil, para quem o mysterioso _alem-tumulo_, que nos irrita e nos perturba, e nos chama, e nos allucina, e nos enche os labios de ironias blasphemas, e a alma de anciosas e ardentes interrogações, é uma certeza firme, accentuada, perfeitamente em regra, como um ramo de escripturação commercial?.....

O incognoscivel, que é a enorme região sombria, onde a nossa mente divaga attonita e deslumbrada, a elles nem os afflige, nem os preoccupa!

São felizes, no positivismo chato das suas ideias e das suas occupações! Nós somos os eternos mergulhadores do sonho, os eternos amantes da Visão! São felizes, nós somos loucos! mas eu amo a loucura com intermittencias geniaes, esta loucura com fecundos arrojos rapidos e apaixonadas ancias de um bem desconhecido, que escala o céu como o Prometheo do mytho hellenico, ou que se atira ao inferno, como o poeta que resume em si toda a sombria Edade Média!...

_RAMALHO ORTIGÃO_

III

AS FARPAS

Tenho aqui, na meza em que escrevo, deliciosamente cartonado, o _primeiro volume_ da nova e augmentadissima edição das _Farpas_.

Não entram n'este volume, que é todo de paysagens, aspectos maritimos ou campestres, scenas ruraes, costumes de aldeia ou de borda d'agua, de estações thermaes ou de pequenas villas provincianas--nenhum dos assumptos das _antigas Farpas_. Este volume é portanto inteiramente novo para nós, e não é tardia nem inopportuna a opinião da Critica a respeito d'elle.

Basta ter enumerado os capitulos que o compõem para se comprehender que o livro é delicioso. Não ha em Portugal quem, como Ramalho Ortigão, saiba _vêr_ e saiba transladar para a sua prosa o _aspecto exterior_ das cousas.

Para descrever uma paysagem, para pintar uma _marinha_, para nos dar a impressão nitida, precisa e firme, de um ou de muitos objectos, para desenhar, a traços inimitaveis de exactidão ou de pittoresco, a _sillouette_ d'um monumento archeologico ou o _fouillis_ encantador d'um salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as especialidades, fixando na memoria e no olhar a physionomia viva e real das cousas que elle pretende fazer-nos vêr.

Não é um psychologo, não é um devaneador.

É raro que elle se perca por um instante n'essa «floresta de almas», em que só vagueiam os apaixonados prescrutadores do invizivel, os sedentos de inacessivel Ideal, os interrogadores sombrios do eterno abysmo humano!

Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do nosso destino...

Ramalho Ortigão foge muito de preposito d'essas regiões vaporosas em que a flor azul do sonho desabroxa, a um luar doentio, as suas petalas ideiaes.

Robusto, equilibrado e são, ha n'elle um forte temperamento de artista, mas de artista que no seculo XVI teria podido desenvolver e exercer amplamente todas as suas faculdades, satisfazer o seu gosto do pittoresco, o seu amor do luxo, a sua preferencia pelas bellas coisas decorativas e espectaculosas.

Na Vida o que o interessa mais que tudo, é o colorido, a variedade, o brilhantismo, a graça, a correcção, a harmonia dos seus multiplos aspectos e das suas diversas formas.

A côr e a linha--eis os elementos que lhe bastam para a felicidade dos seus olhos, para as delicias da sua imaginação, para as necessidades do seu temperamento de artista!

Viajar muito, vêr muito, e pintar tudo o que vio, n'um estylo de colorista veneziano, com uma penna que é, ao mesmo tempo, escopro e pincel--eis a faculdade predominante d'este escriptor que, só errando a brilhante vocação que recebeu da Natureza, póde perder-se de vez em quando em abstracções philosophicas, sempre confusas, e em sabbatinas pedagogicas, sempre contrafeitas.

Elle não é um philosopho nem um educador das sociedades; é um artista! Abençoado quinhão o seu, incontestavelmente o melhor de quantos na terra se podem escolher!

Para demonstrar n'elle a superioridade do colorista, do pintor, sobre o philosopho e o critico, bastaria este volume de viajante, illuminado das mais bellas e radiantes paysagens, em que os aspectos ruraes, as _marinhas_, as scenas campestres, os quadros de aldeia se succedem, alegrando-nos a vista como um kaleidoscopo deslumbrador.

E eu não quero com isto dizer que Ramalho Ortigão, não seja um critico. Mas a sua critica, quando é superior, quando é frisante e verdadeira, é quando elle a executa pelo mesmo processo magistral de que usa nos seus livros descriptivos.

Então sim, porque a licção ressalta naturalmente do aspecto exterior das cousas.

A _toilette_ d'uma lisboeta aperaltada; a mobilia aprumada e symetrica d'uma casa burgueza; a sessão d'uma assembléa constitucional; o interior d'uma botica sertaneja; a apparencia d'uma egreja de cidade em dia de festa, etc., etc., etc., dão-nos a impressão directa e viva dos sentimentos, que todas estas cousas traduzem ou com os quaes todas estas cousas se relacionam.

Pelos _puffs_ exaggerados, pelos altos tacões dos sapatos esticadissimos, pelo chapeu inesthetico, pelo espartilho ridiculamente apertado, por todos estes deploraveis symptomas d'uma imbecilidade que já vem de muito longe, comprehende-se tudo que o escriptor nos quer demonstrar: falta de educação, falta de gosto, falta de modelos artisticos, pressão secular de influencias deleterias e funestas.

Pela regularidade fria e systematica d'um _interior_ de burguez, que nenhuma scentelha de arte espiritualisa ou illumina, percebe-se naturalmente a comprehensão acanhada e restricta que elle tem da vida e do encanto profundo e moralisador da intimidade domestica; vê-se a inaptidão artistica que o afflige, a impossibilidade absoluta e fundamental em que elle está de crear uma existencia, praticamente agradavel e espiritualmente feliz, em que se fundam, n'um accordo sympathico, as exigencias requintadas da civilisação e as satisfações mais puras da vida moral.

E por aqui diante, o mesmo processo de arte dá para a intelligencia os mesmos resultados.

É este o segredo que individualisa Ramalho Ortigão e que faz com que sendo elle um artista plastico, por assim me expressar, seja igualmente um notavel moralista.

É indispensavel porém que o leitor tire dos quadros a moralidade que d'elles deriva!

* * * * *

N'uma _advertencia_ muito bem feita que precede o livro, Ramalho Ortigão diz que as _Farpas_, são escriptas n'um espirito de _dilettantismo_ emancipador e desinteressado e pelo que vi n'um artigo lido hoje mesmo, a palavra dilettantismo não foi tomada pelo critico na accepção que o escriptor lhe dera; não é pois fora de proposito, que eu aqui explique um pouco ao leitor, qual o _dilettantismo_ de que Ramalho Ortigão se diz inspirado ao traçar os capitulos bellissimos das suas novas _Farpas_.

No conflicto enorme, desordenado e confuso de theorias, de systemas, de doutrinas e de hypotheses, em que o seculo XIX tem baralhado os seus desgraçados filhos, cada questão tem tantas faces, cada phenomeno é contemplado sob uma tal multiplicidade de pontos de vista, cada verdade é tão ondeante, elastica e malleavel, cada doutrina tem tantos aspectos, cada theoria apresenta tal somma de _nuances_, que se vae pouco a pouco perdendo, nas altas regiões do pensamento, aquella especie de homens de uma peça só, systematicos até á teima, fanaticos até á heroicidade, obstinados até ao pyrrhonismo, que de cada ideia só viam um angulo, que julgavam que a verdade era só uma, e não podia ser encarada por diversos modos!

Esses homens, fanaticos, no sentido mais amplo da palavra, tinham uma fé ardente n'aquillo em que tinham fé! uma paixão profunda pela ideia que serviam, e por isso, arcando com obstaculos terriveis, que nós já não conhecemos, obraram grandes feitos de que nós já somos incapazes!

Em philosophia, em religião, em moral, ou em politica, estes homens iam para diante, altivos, intemeratos, um pouco obcecados pela sua crença no absoluto, mas por isto mesmo inacessiveis ás mil influencias que neutralisam a vontade moderna, e sem perigo de cederem ás correntes contrarias que hoje sollicitam, de tão diversos pontos, o pensamento que quer ser imparcial, o desejo de verdade que quer ser sincero!

Em contraposição a estes homens capazes d'um só amor e d'um só odio, surdos ás vozes todas que contradissessem o _á priori_ do seu sonho, existe hoje uma raça mais doente e mais fraca talvez, mas sympathica na sua indecisão, e perfeitamente moderna no capricho ondeante da sua sensibilidade!

E é a esses que inspira e dirige o espirito de dilettantismo de que falla Ramalho Ortigão.

Diz pouco mais ou menos Bourget, o systematisador moderno do dilettantismo, fallando de Renan o mais genuino _dilletante_ de quantos se conhecem modernamente, que é mais facil perceber esta palavra do que definil-a com precisão.

E accrescenta: «é menos uma doutrina que uma disposição de espirito a um tempo muito intelligente e muito voluptuosa, que nos inclina simultaneamente para as diversas formas da vida e nos leva a emprestarmo-nos, ora a uma ora a outra d'estas fórmas, sem nos darmos inteiramente a nenhuma d'ellas.»

Dilettantismo e doutrinarismo--eis os dois polos do pensamento do homem!

O espirito de systema tende a desapparecer da elaboração mental d'este seculo, e á proporção que elle affrouxa desenvolve-se e cresce essa extranha faculdade--que faz uma especie de Proteo de cada entendimento, e que tomando a vida como uma illusão universal que ora se faz ora se desfaz, ora se tece a oiro e perolas, ora se destrama, phantasticamente, substituindo a nudez mais completa á opulencia mais asiatica, acha a verdade d'um momento em cada fórma passageira que encontra debaixo dos olhos.

Comprehendendo d'esta fórma o _dilettantismo_ acha-se uma faculdade superior, um dom que póde multiplicar os gosos intellectuaes pela multiplicidade de pontos de vista que nos revella. Não encontro, porém, no volume das Farpas que tenho presente, a applicação d'essa faculdade, eminentemente subjectiva.

O que eu encontro e saudo n'elle é a obra d'um artista para quem a lingua portugueza é o instrumento mais docil e o teclado mais vasto e mais sonoro, e em quem a _visão das cousas_ é tão violenta e tão intensa que possue o milagre de communicar aos outros a sua privilegiada lucidez.

_ANTHERO DE QUENTAL_

I

OS SONETOS

Não ha, talvez, em toda a litteratura portugueza uma individualidade mais distincta, mais original, mais _á parte_, que a d'este homem.

Não é simplesmente como escriptor, como litterato, como _auctor de livros_, que Anthero de Quental tem de ser considerado.

Para bem estudar esta figura singular, para a vêr á luz que lhe é propria, para a comprehender sob todos os seus aspectos varios, é indispensavel alguma coisa mais do que a faculdade critica, applicada á litteratura, é necessaria a comprehensão profunda e clara de todas as causas que determinam esta phase,--de certo transitoria, de certo temporaria--de _nihilismo_ mental, em que se debatem os artistas mais vibrateis e delicados, as almas mais sensiveis e morbidamente agitadas d'este fim de seculo, a um tempo tragico e banal.

Como podia eu, pois, conseguir o que imagino que só conseguiria um critico no genero especial de Bourget, por exemplo, um critico que recebe as influencias germanicas e as transmitte, modificadas pela sua imaginação e pela sua rasão latinas; um critico cosmopolita e capaz de comprehender todos os estados d'alma e todas as faculdades caracteristicas das mais diversas raças?

A critica tem acompanhado o movimento progressivo das sciencias, e tem-se modificado e transfigurado ao influxo d'ellas.

Sem fallarmos nos criticos da Allemanha, muito menos accessiveis para nós e muito menos comprehendidos por nós, sigamos a evolução ascendente que a critica litteraria tem tido em França, e veremos como ella se tornou hoje uma sciencia completa, para a qual forneceram dados, elementos, observações e experiencias todos os ramos do saber humano, cada dia mais amplo.

Que longe nós estamos d'aquella boa critica, modesta e facil, em que a obra de arte era simplesmente julgada segundo as regras formuladas por Aristoteles, em que o livro, o drama, o poema se consideraram perfeitos ou defeituosos, conforme se cingiam aos preceitos da rhetorica e da poetica consagradas, ou se afastavam indevidamente d'elles!

Diderot teve no seculo XVIII, a maravilhosa intuição do que poderia vir a ser a critica; essa intuição, vaga ainda, illumina, todavia, de luz inesperada as suas formosas improvisações, os seus devaneios scintillantes de _verve_ sobre a arte do seu tempo.

Villemain, mais tarde, afastando-se de todos os que pretendiam arrogar-se em face do escriptor os direitos de bons criticos, e que não conseguiam ser mais do que rhetoricos importunos, relaciona pela primeira vez as litteraturas com os outros productos sociaes d'uma dada epoca; faz perceber as reciprocas influencias, que actuam em raças diversas e transformam lentamente uma civilisação determinada; mostra claramente, no seu estylo de erudito ainda subjugado pelos moldes classicos, o extraordinario poder com que as lettras imperam na politica, e a politica nas lettras, e o modo indirecto, mas poderoso, pelo qual a arte se torna um elemento de revolução, e da revolução surge e se levanta uma nova arte; revela, emfim, a força que as idéas teem sobre a acção, e a ineluctavel energia com que a acção limita ou modifica o imperio das idéas...

Sainte Beuve, adoptando muitos dos pontos de vista de Villemain, accrescenta-lhes tudo que póde tornar este methodo mais vivo, mais luminoso, mais humano, tudo o que póde dar movimento e graça ao corpo um tanto inteiriçado e hirto do eloquente professor do _Curso de litteratura_.

A critica de Sainte Beuve é uma creação! Na obra d'arte vê a época em que ella surge e o homem que a produziu. A anedocta elucidativa, o commentario suggestivo, o estudo minucioso do caracter do escriptor, o meio em que elle se moveu, a influencia directa, ou indirecta, que esse meio exerceu em todas as circumstancias caracteristicas da sua vida e no seu modo particular de encarar as coisas e os homens,--tudo concorre para esclarecer o critico eminente, a tudo dá relevo e côr o seu estylo fino, flexivel, todo em cambiantes, todo em linhas flexuosas, que penetra o assumpto, que o segue nos seus meandros mais caprichosos, nos seus labyrinthos mais emmaranhados, que se cinge a elle nas suas ondulações mais particulares, que o illumina de todos os lados e por todas as formas; malleavel, sagaz, levemente sceptico, inimigo sempre do absoluto de todas as doutrinas, do dogmatismo de todas as formulas.

O grande critico da nossa raça n'este seculo é com toda a certeza Sainte Beuve. Os que vieram depois d'elle, deram a formula mathematica, precisa, da doutrina que elle praticára e descobrira com uma ligeireza, uma elegancia, um gosto nunca mais realisados.

Taine acceitando a herança de Sainte Beuve, foi alem do que elle era, um naturalista que levou para os estudos d'arte o seu forte methodo scientifico, que verifica, prova, experimenta e conclue depois. A isso deve o ser considerado e com justiça o mestre da nossa geração. Taine póde ter discipulos, Sainte Beuve podia ter apenas admiradores. A litteratura aos olhos de Taine é, como tudo o mais, um producto fatal da raça, do meio, do momento, modificado n'este ou n'aquelle sentido, mas modificado apenas, pelo temperamento particular do artista.

A ordem, o equilibrio, a harmonia que existe em toda a natureza, achou-as elle na esphera do pensamento humano, n'esse grande mundo da arte que falsamente nos parecia caprichoso, cahotico, arbitrario, sem leis que o dominassem, sem causas a que estivesse fatalmente subordinado.

Comprehende-se bem como este ponto de vista--que outros tinham achado, mas que elle formulou scientificamente--revolucionasse a noção da critica, e lhe desse, ao mesmo tempo, harmonia, amplitude e grandeza.

D'este modo vê-se bem que em cada livro que lêmos, em cada obra por meio da qual um forte temperamento de artista, ou um grande cerebro de pensador se nos manifesta, está como que indicada a gradação successiva de todas as civilisações que, justapondo-se umas ás outras e desdobrando-se umas das outras, produziram o momento historico, a phase sentimental ou intellectual de que esse livro é involuntariamente echo, repercussão e reflexo.

A lei que liga estreitamente entre si todos os phenomenos da Vida, que explica o encadeamento fatal de todas as manifesções do pensamento, ninguem a formulou com mais lucidez e mais clareza do que Taine. Cada escriptor é o que não póde deixar de ser, dada a hora em que a sua obra se produziu, dados os elementos sociaes que concorreram para a elaboração d'ella, dadas as qualidades fundamentaes e irreductiveis da raça a que elle pertence, dada a organisação particular, que, em virtude de todas estas leis e de outras leis egualmente ineluctaveis, elle recebeu da natureza.