Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias

Chapter 3

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Na _Hollanda_ o paysagista, o pintor que fixa na tela, com realidade triumphante, as suas impressões ainda as mais rapidas, o coração honesto e enthusiasta, que vibra, apaixonado, ao contacto de todos os bellos, grandes e puros ideaes humanos; o artista que se embriaga com os espetaculos sempre novos da Natureza, revellam-se egualmente com a mesma felicidade e com a mesma pujança dominadora.

O humorismo tão singular, d'uma tão contagiosa e communicatica influencia, que transparece habitualmente em todos os trabalhos de Ramalho Ortigão, esse não faz mais do que polvilhar finamente, aqui e acolá, com uma poeira diamantina e translucida, as paginas d'este livro, que marca uma hora de enternecimento dôce e de viril enthusiasmo na vida do escriptor.

Como faz bem ao espirito desconsolado pelo espectaculo do cynismo universal, da indifferença dissolvente, ironica e desdenhosa, esta nobre explosão de fecunda sympathia, esta nota de commoção penetrante, que se levanta, n'uma especie de impulso heroico, convidando á lucta, convidando ao trabalho, convidando aos gosos austeros que dá o accordar da consciencia, e tendo apenas a _felix culpa_ de exaggerar um pouco o bem que viu, e talvez de carregar em demasia o mal que se presenceia diariamente na nossa pobre patria, bem digna de melhor sorte...

A ironia de Ramalho Ortigão, d'um relevo poderoso, d'uma subjugadora e victoriosa alegria, todos nós a conhecemos desde muito.

D'essa ironia, de que chispam relampagos multicores, fez elle a sua melhor arma de combate, contra a tolice, contra o erro, contra a vulgaridade, contra o ridiculo.

O que nós não sabiamos porém, é que elle, que pode rir assim, podia egualmente arrancar, pela commoção communicativa da sua palavra, em que o enternecimento põe modulações deliciosas, lagrimas aos nossos olhos, flores de poesia ao nosso coração.

* * * * *

Antes de mais nada, eu devo confessar que o meu temperamento, a minha indole, o feitio especial da minha imaginação, me tornariam absolutamente inapta para comprehender e admirar a nação hollandeza, senão vista e descripta pelos olhos peninsulares e pela phantasia tão eminentemente latina, tão colorida e illuminada, de Ramalho Ortigão.

Se eu fosse á Hollanda, voltava de lá, estou certissima, sem ter visto coisa nenhuma do que o illustre escriptor lá viu, a não serem, talvez, alguns d'aquelles _primeiros aspectos_, tão adoravelmente descriptos por elle, e em que, mais d'uma vez, a sua ironia deliciosa espreita sorrateiramente o leitor, como a avisal-o de que é necessario, apesar de tudo, contar sempre um bocadinho com ella, de que pode estar um pouco adormecida, levemente anesthesiada... mas que, emfim, está muito viva, graças a Deus, e não espera morrer tão cedo.

Cada vez me convenço mais de que ha antagonismos de raça ineluctaveis, visto que eu, depois de ter lido, verdadeiramente vibrante da feliz sensação de _admirar_, n'esse prazer de intelligencia que uma bella obra de arte nos produz, o livro de Ramalho Ortigão, me não decidi a fazer a minha malla, a pegar nos meus dois filhos pela mão, e a ir viver para todo o sempre na Haya ou em Amsterdam...

Não me decidi, não; não me decido, e era capaz de apostar que Ramalho Ortigão, apesar de ter voltado da Hollanda, como incontestavelmente voltou, moralmente fortalecido e engrandecido intellectualmente, rico de preciosissimas acquisições novas, que definem e accentuam largamente o seu progresso mental, ainda assim não deixaria, por ella, o nosso céo azul d'uma luz tão suave, o nosso clima amollecido e doce, a preguiçosa facilidade com que a vida nos emballa n'este cantinho de terra abençoado pela natureza, que o Oceano beija, lambe e acaricia, em cujas praias de areia dourada elle canta o seu grandioso canto de liberdade, mas contra o qual elle não investe em furia, obrigando o homem á eterna resistencia, á eterna lucta, á eterna e fatigante heroicidade...

O Oceano não foi para nós o mestre rigoroso, severo, exigente, implacavel, que disciplinasse a nossa alma e o nosso corpo no exercicio permanente de uma força e de uma tenacidade mais que humanas!

Elle imprimiu á nossa imaginação, ondulante e scismadora, a mysteriosa saudade que das suas profundezas desconhecidas se evola, com um effluvio de sonho!

Elle fez-nos os poetas de uma epopeia rapida, os aventureiros inconstantes de uma phantasiosa conquista.

Tambem a _griffe_ d'esse leão indomado pousou na nossa alma nacional, mas que diverso o modo porque elle influiu em nós!

Bem sei que moralmente valem mais, incomparavelmente mais, as nações e os individuos que fazem o seu destino, que o subjugam, que o transformam, que o modificam, que o dominam, do que aquelles que o acceitam passivamente, n'uma inercia inutilmente contemplativa.

Mas, sob o meu ponto de vista feminino, que de certo não é o mais intrepido, que melhor não é deitar-se a gente ao sol, na areia luminosa, emquanto a vaga azul, coroada de espumas brancas, vem espreguiçar-se humilde aos nossos pés, vem lamber, vencida e cariciosa, a orla dos nossos vestidos, do que ter dia a dia, hora a hora, momento a momento, de disputar ao _grande inimigo_ torvo, mysterioso, sombrio, que uiva, eternamente agonisante, a sua lamentação tragica, o sólo movediço e traidor sobre o qual construimos o nosso lar sagrado!...

É enorme, porém, bem o sei, a lição dada ao mundo por essa raça athletica e fleugmatica que a natureza educou, fortificou moralmente, e que ao mesmo tempo livrou do erro sympathico de ser imaginativa e cogitadora como nós.

Se ella, em vez de luctar com as temerosas ondas, se pozesse a contemplal-as de braços cruzados; se ella, em vez de indagar scientificamente os meios mais proficuos de vencer a permanente invasão das aguas, e de as aproveitar na cultura especial dos seus campos, se lembrasse apenas de fazer ao mar as odes mais soberbas e inspiradas, não existia já decerto, ou, se existisse, não tinha nem uma só das fortes qualidades que distinguem essa honesta, essa trabalhadora, essa robusta, séria e pezada Hollanda!

As nações são aquillo que as fazem as condições do seu sólo, os phenomenos do seu clima, a sua structura geographica, o temperamento e a origem da sua raça.

A Natureza, hostil, ensinou a esta o calculo, a previdencia, a tenacidade inquebrantavel, e tambem, deixem-me accrescentar, o frio e arido egoismo nacional; a humida vaporação eterna dos seus canaes e dos seus rios deu-lhe o amor intelligente dos _interiores_ confortaveis, commodos e aquecidos, em que a Arte põe a sua nota soberba e luminosa, ou a bonhomia intima e doce dos seus aspectos; a lucta continua e ininterrupta para salvar do perigo a familia perpetuamente ameaçada, levou-a a sentir por esta um amor mais vivo, mais profundo, mais recatado e penetrante, ungido de protecção enternecida e de casto embevecimento, mas tambem um d'estes amores absorventes que não deixam logar para a sympathia universal, de que outras raças são superiormente inspiradas!

Todas as virtudes e energias, todas as bellas qualidades _humanas_ e sympathicas, de que Ramalho Ortigão nos faz no seu livro a attrahente pintura, todos os defeitos tão graves que não quiz vêr, mas que existem n'ella, deve-os a raça neerlandeza justamente a essa tensão de vontade que ella exerce incansavelmente desde seculos, e que tanto lhe modificou a indole primitiva.

E apesar de eu sentir que ella nos é superior em tanta maneira, porque é que me não resolvi ainda a ter-lhe um bocadinho de affecto?

Não sei! É talvez um capricho de mulher, indigno de manifestar-se á luz do dia, _irracional_, como tanta cousa feminina; mas que eu teria escrupulo de não confessar aqui, com intrepidez heroica.

Não é na verdadeira Hollanda--não direi na Hollanda em _carne e osso_, mas em agua e lodo!--que eu gostaria nunca de viajar.

Na outra, sim. Na _Hollanda_ de Ramalho Ortigão, n'essa fulgurante e magnifica _Hollanda_, tão deliciosamente phantasista, perco-me eu a cada instante n'um enlevo de admiração sentida, e é das suas paginas, coloridas como um quadro de Rembrandt, que eu tento dar, aos que as não leram ainda, uma idéa, posto que imperfeita, remota, incompletissima.

* * * * *

O estylo d'este livro é uma verdadeira festa para o ouvido, e direi mesmo para os olhos; tanto as palavras teem n'elle uma côr, um relevo, um encanto, estranhos e indiziveis. Ha periodos que são quadros.

Parece que o escriptor poz na sua palêta todas as côres, na sua pintura todos os tons, toda a luz do sol no objecto que contemplou.

Nunca a lingua portugueza adquiriu flexibilidade mais ondeante, energias mais dominadoras, graça mais sinuosa e mobil, ondulações mais serpentinas, rythmo mais harmonioso, poder mais intenso, vitalidade mais estranha.

Esta lingua, que modernamente poucos operarios teem affeiçoado para as exigencias multiplas e caprichosissimas da Arte contemporanea, tem nas mãos de Ramalho Ortigão umas docilidades de mulher do Oriente, uns langores submissos de escrava creoula, uma energia mascula, uma limpidez matinal, uma intrepidez heroica, um sabor vivo e são das coisas, que penetra o leitor do mais requintado goso intellectual.

Ha todas as notas n'esta orchestração soberba.

Dir-se-hia que esta prosa tem a cadencia melodiosa, o movimento rythmico do verso mais cinzelado e mais perfeito, do verso de Heine ou de Victor Hugo.

Como apropriadamente e obedientemente ella se cinge aos milhares de assumptos que trata e revolve! Philosophia, historia, politica, religião, costumes domesticos, costumes publicos, a Arte em todas as suas manifestações, a Natureza em todos os seus aspectos--tudo ella toca, tudo descreve e pinta, abraça, penetra e faz comprehender.

É simples e é pittoresca; é grave, comica e enternecida; é apaixonada e austera; tem a poesia meiga das coisas intimas; tem a adjectivação opulenta das descripções pomposas; tem a riqueza decorativa e a suavidade recolhida e casta; é transparente como uma renda de Malines ou de Alençon; é translucida como um diamante ou como uma saphyra; é fresca e diaphana como a neblina da madrugada; é perfumada como um cacho de lilazes; é rendilhada como uma joia da Renascença.

Ri, canta, chora, pinta, descreve, raciocina, fustiga; e sempre faz pensar, acordando dentro de nós o bando das idéas mal definidas e informes, que dormem, como pombas cançadas, no espirito de todo o ser que pensa e que soffre.

Eu tenho pena de não poder arrancar das paginas do volume alguns periodos, alguns trechos de prosa que me ficaram vibrando cá dentro como a melhor das musicas.

O livro abre com um capitulo de historia, intitulado--_As origens_.

Destaca-se d'elle, com uma nitidez viva de contornos, a figura poderosa e sympathica do grande revolucionario hollandez Marnix de Sainte Aldegonde, a quem, juntamente com Guilherme de Orange, o _Taciturno_, se deveu a definitiva formação e a independencia da patria, o homem que á frente da _Liga dos Maltrapilhos_ resistiu a Filippe II, e impelliu a Hollanda no caminho da sua libertação nacional e religiosa, fazendo d'este pequeno paiz, d'uma heroicidade séria e reflectida, uma especie de vanguarda dos exercitos revolucionarios que conquistaram mais tarde, com tanto sangue e tanto martyrio, a liberdade do seu governo interno e a liberdade da sua consciencia.

Veem depois _Os primeiros aspectos_, a que eu já me referi. A _verve_ encantadora de Ramalho esmalta adoravelmente algumas d'estas paginas.

Estes _primeiros aspectos_ tem coisas engraçadissimas e que não esquecem mais.

Lembro-me de um verdadeiro drama que podia intitular-se a _Venda de um repolho_, passado entre uma creada de Amsterdam e um vendedor ambulante de hortaliças, em que a phrase, o movimento e a acção comica são incomparaveis.

Todo o feitio de observação especial de Ramalho se revela n'este capitulo caracteristico e _vivido_, para fallar á moda.

Os espantos do viajante recem-chegado são tão legitimos, nós partilhamol-os tão do intimo d'alma, que nos movem tambem, que nos agitam, que nos fazem morrer a rir. É toda uma Hollanda _ratona_, que surge, á flor da nossa imaginação.

O escriptor estava-a então vendo com os olhos do seu corpo. O sentimento, o raciocinio, a admiração despertada por uma longa serie de virtudes,--de virtudes moraes, de virtudes civicas, de virtudes patrioticas, de virtudes de toda a especie,--não tinha ainda irrompido violentamente de dentro do moralista que ha em Ramalho, tornando-o cego para todos os ridiculos, surdo para todas as notas discordantes. E os quadros succedem-se com uma vivacidade triumphadora, e a gente segue-os espantada do poder de realidade palpavel, que uma penna, correndo sobre uma folha de papel, pode ás vezes attingir.

Pouco a pouco, os olhos namoram-se da estranhesa imprevista de todos aquelles aspectos. O artista entrega-se inteiramente á novidade, á graça especial e desusada de que elles lhe apparecem impregnados; a curiosidade do espirito, eminentemente observador, acorda, atrahida por tantas revelações subitas d'um modo de vêr, de viver, de sentir, tão diverso do que elle conhece desde a infancia; e então o pintor, abstrahindo de comparações, de philosophias, de ideas complexas, que lhe transtornariam a limpidez perfeita do seu apparelho optico, pega da palêta, põe n'ella as côres mais finas, mais ideaes, mais delicadas, d'um esbatido mais doce, d'uma suavidade mais penetrante, d'uma fulguração mais radiosa e mais deslumbradora, e começa a pintar, á luz do céo da Hollanda, aquosa e esmaecida, as raças, as physionomias, os trajos, as figuras que destacam n'um meio pittoresco e caracteristico, os grupos que passam enlaçados, essa festiva, essa apparatosa procissão d'um povo em festa!

Vejam, por exemplo, este fragmento d'uma pagina consagrada ás mulheres da Frisa, que fica cantando no ouvido, como a estranha musica em que se fundem todas as graças melodicas de uma lingua opulentissima.

«As mulheres da Friza são de um encanto estranho. Muito altas, direitas, serias, caminham todas--as mais humildes, as mais obscuras--com uma magestade simples de princezas, e teem nas maneiras uma graça altiva, casta, ondulante e fria, que lembra a origem aquatica que se lhes attribue, como filhas de antigas sereias do Mar do Norte. Os pés estreitos, as mãos longas e afiladas, o pescoço alto, o busto vigoroso, o vestido preto, que todas usam, liso, cingido ao corpo, comprido, de mangas justas e curtas, completam a expressão eminentemente aristocratica d'estas figuras sacerdotaes de uma belleza quasi sagrada, como a dos marmores classicos da esculptura antiga.

«O toucado frisão de uma retrospectividade bysantina, envolvendo-lhes a cabeça em rendas e em placas d'oiro polido, imprime-lhes uma feição cultual, uma vaga analogia de sacrario e de altar. O tradiccional capacete, casco d'oiro em duas peças, semelhantes na forma a uma dupla cobertura destinada aos dois hemispherios do cerebro, cobre-lhes inteiramente o craneo; escondendo o cabello com uma austeridade guerreira, deixando apenas desvestido o espaço da fronte e o alto da cabeça envolto em renda branca. Algumas d'estas physionomias de donzellas são inteiramente insexuaes, de grandes olhos suaves, o rosto do mais correcto oval, o nariz longo e fino, a boca cortada n'um traço recto, innocente e calmo, sem vestigio algum do movimento e qualquer musculo em que vibrasse a malicia, o apetite ou o desdem, bellezas de uma serenidade gothica, não contaminadas pela nevrose dos seculos da analyse, errantes n'uma especie de somnambulismo nostalgico e anachronico, entre as paixões modernas, taes como os poetas contemporaneos poderiam apenas imaginal-as, brancas e frias, coroadas de boninas, com um livro na mão, esculpidas em alabastro e deitadas sobre um tumulo feudal, ou de escapulario de monjas, com a cabeça aureolada por um disco de luz, n'uma vidraçaria de cathedral entre as companheiras de Santa Ursula.»

Momentos antes--vejam o contraste!--Ramalho referindo-se á extravagante meticulosidade do aceio hollandez, tinha-nos feito, com a riqueza de vocabulario mais atroadora, uma descripção de todas as vassouras, espanadores, utensilios de limpeza que são indispensaveis ao mais humilde dos _ménages_, descripção que deve ficar positivamente como um modelo do genero!

É assombroso todo este capitulo, d'uma variedade de kaleidoscopo, ao mesmo tempo comico e pathetico, enternecido e alegre, pittoresco e philosophico, fazendo desfilar deante do nosso deslumbrado olhar, n'um delicioso capricho de magica, todas as scenas, todos os quadros, todas as visões e todas as idéas!

Nos _Campos e Aldeias_ está na sua verdadeira especialidade o paysagista, o pintor, o homem que sabe vêr melhor tudo o que vê.

Eu, por exemplo, ia aos campos da Hollanda, e sahia de lá com a impressão indefinida, confusa e tristonha, de ter visto uma enorme planicie chata e verde,--um gigantesco prato de espinafres--sem accidentes de terreno, sem caprichos imprevistos de scenario, com muitos moinhos a cercarem-n'a e muitos rêgos de agua mais ou menos largos, mais ou menos profundos a desenharem por toda ella os seus xadrezes, d'onde se levantam, de madrugada e ao pôr do sol, humidas vaporações insalubres.

Ramalho Ortigão vê e faz-nos vêr, pelo encanto magico da sua penna que é um pincel, tudo que alli viram de vago e simples, de indefinido e penetrante, de terno e de melancolico, os grandes artistas hollandezes, os mestres incontestados e inexcediveis de toda a moderna escola de paisagem.

E o seu estylo opulento pinta as metamorphoses, as variações infinitas d'essa luz, as colorações prysmaticas d'esse ceu cheio de neblinas transparentes, as decomposições phantasticas das nuvens, a admiravel riqueza sintillante e tremelusente que os espelhamentos do sol põem nos lagos tranquillos e nos lympidos canaes, as harmonias do tom, as gradações infinitas do eterno verde, a calma doçura tranquilla,--tudo emfim que aos seus grandes amigos sinceros e eloquentes a velha natureza inspira, em todas as suas apparencias multiplas, em todas as suas transfigurações multiformes.

Ha n'este capitulo uma comparação entre a velha barca hollandeza, que elle chama o _phantasma benigno da patria_, a aquatica alma _errante do paiz_,--essa barca onde o hollandez navega paxorrentamente, levando comsigo a mulher, a pequenada, o gato, o cão e os passaros--e a nossa pittoresca e extincta falua do Tejo e do Douro, que me pareceu verdadeiramente encantadora.

E ainda aqui--que a Hollanda me perdoe!--eu prefiro a nossa falua, a nossa alegre falua, que a civilisação afugentou e inutilisou, essa falua onde tudo era pittorescamente meridional, e onde o arraes contava historias picarescas que faziam rir os passageiros, e lhes aligeiravam as horas de longa jornada, feita sem commodos de especie alguma, mas com luz, mas com sol, mas com a farta alegria da natureza a envolver e a illuminar por dentro a alma de uma pessoa.

A mim, valha a verdade, não me seduz muito nem a barca nem a falua, a não ser como ornato decorativo da paisagem. Mal por mal, em todo o caso, antes a falua, por que essa ao menos é animada e palreira, jocosamente expansiva!

Nas _Cidades_ hollandezas, de um luxo tão intelligente, de uma riqueza tão racionalmente distribuida, em que a arte accumula os seus thesouros, a beneficencia as suas admiraveis instituições, a solida e bem entendida civilisação as suas escolas, as suas universidades, os seus institutos, os seus lyceus, as suas bibliothecas e museus, os seus jardins botanicos e de acclimação, os seus estabelecimentos de instrucção, de sciencia, de caridade, de commercio, de industria e de recreio, n'essas _Cidades_ em que se condensa toda a vida intellectual da livre e laboriosa Hollanda, a alma do escriptor, tão moderno nas suas aspirações e nos seus ideaes, dilatou-se n'um impulso de robusta e fecundante alegria! Vê-se que elle admira aqui, sem esforço, sem idéa reservada ou preconcebida, a enorme expansão moral, mental, economica e artistica, d'este povo que merece um logar de honra incontestavel entre os povos modernos da Europa, d'este povo que, depois de crear pelo trabalho incessante, a sua riqueza enorme, fez d'ella um elemento de civilisação, de moralisação, de desenvolvimento nacional, de felicidade e de paz interior.

A pintura feita pelo brilhante escriptor de todas as instituições, pela existencia das quaes a Hollanda affirma a sua extraordinaria superioridade, como nação educada, como nação caridosa, como nação artistica,--é de fazer chorar de tristeza, de desalento e de inveja todo o portuguez que tenha um bocadinho de coração.

Comparar o que nós fazemos com o que esse povo tem feito, horrorisa!

Mas por doer, a lição nem por isso deixa de ser proficua.

Agradeçamos a quem nos aponta implacavelmente, serenamente, o pouco que nós somos ante a Civilisação, ante o moderno Ideal, e o muito que precizamos caminhar, para merecermos o nome a que ouzada e immerecidamente aspiramos.

Não é quem nos emballa e adormece com lisonjas banaes, tão mentirosas quanto inuteis, que é nosso amigo, e nos presta um leal serviço.

Ramalho Ortigão com este livro, que é um exemplo e um castigo, que é um incentivo, que é um grito de alarme lançado em meio da nossa preguiça, da nossa indolencia, da nossa empavezada e burgueza vaidade, fez, como eu já disse, mais do que uma obra bella, fez uma obra boa, de que nos cumpre aproveitar a utilidade immensa.

No meio das paginas inteiramente consagradas pelo auctor á descripção e á enumeração de todas as coisas feitas pela raça neerlandeza em favor do seu proprio engrandecimento, e da sua propria illustração, paginas que parecem escriptas por um Taine com entranhas e com alma, Ramalho interrompe-se por momentos, e n'uma lingua idylica e harmoniosa, n'uma lingua em que ha eccos de Shakespeare e visões de Ariosto, n'uma lingua que parece feita de gotas de luar e de raios do sol, de aromas indefinidos, de vagas scintillações fatuas, de vibrações de harpa eolia occulta entre os salgueiros, faz-nos a pintura palpitante, luminosa, musical, colorida, da _Floresta da Haya_, d'esse bosque sagrado que elle julga proprio para abrigar, na sombra estranha e dôce da sua densa ramaria mysteriosa, os amores profundos e tragicos, as sublimes paixões heroicas da lenda e da historia, o somno esquecido e calmo dos grandes deuses mortos, os divinos dialogos ardentes que os poetas puzeram na bocca dos seus amantes immortaes.

As _casas_ e os _individuos_ revellam-nos a delicada e fina efflorescencia que brota naturalmente do ideal religioso, moral, politico e artistico da raça hollandeza. Tal é o paiz, tal a familia.

Esta é sempre o reflexo do modo de sentir e pensar collectivo; e nunca á nação moralisada e instruida, livre, conscia e sabedora dos seus direitos e dos seus deveres, correspondeu outra coisa que não fosse a familia fortemente constituida, vivendo na ordem e no equilibrio dos sentimentos e das faculdades.

N'este ponto são bem mais felizes as nações protestantes, as raças saxonia e germanica, do que a nossa raça latina tão profundamente eivada da mais esterilisadora decadencia.

É que n'essas raças não existe tão profundamente accentuado o divorcio religioso entre o homem e a mulher; ahi, como frisantemente o faz notar o escriptor da _Hollanda_, embora, mais tarde, no seu livro de _John Bull_ se contradiga n'este ponto, a religião é o _facto culminante da familia_.

A sagrada communhão do espirito existe entre todos os membros da mesma familia, entre todos os que se reunem, penetrados de affecto, ternamente aconchegados em torno do mesmo lar.

O chefe de familia tem, por assim dizer, a direcção espiritual de todos os seus; e elles acceitam livremente essa lei religiosa que lhes foi ensinada, d'um modo tendente a desenvolvel-os, não a amesquinhal-os e a a entenebrecel-os para sempre.