Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 2
Que sobriedade de mestre! que melancolia femenina! que profunda comprehensão d'uma dôr, que toda a emphase, toda a phrase diminuiriam forçosamente!
Tentar conhecer o céu do amor completo, do amor heroico, do amor feito de sacrificios superiores e de abnegações infinitas e cahir no lodo... Só um poeta sincero como Gonçalves Crespo saberia notar em dois traços esta agonia silenciosa e sem termo...
O que distingue particularmente o auctor dos _Nocturnos_ dos outros poetas da sua indole, é a ligeireza do traço, é o vago que parece envolver n'uma luz cerulea e dubia, n'um vapor transparente--e comparavel ao que á tarde envolve e esbate suavemente as montanhas,--as suas concepções mais perfeitas.
Não é possivel que ao lêl-o a imaginação se detenha apenas na pagina do livro e o não siga ás regiões de que elle tinha como ninguem a iniciação e o segredo.
Previlegiados entre todos, os poetas que fazem sonhar; os que teem na mão a chave de oiro, do paiz azul habitado pela Chymera!
V
Os _Nocturnos_ pertencem a uma phase inteiramente diversa, mais pacificada, mais tranquilla, mais perfeita, da vida do homem e da vida do escriptor.
Sem ter perdido nenhuma das suas qualidades de graça delicada e mimosa, nenhuma das subtilezas finissimas do sentimento e da expressão, nenhuma d'aquellas notas dolentes da alma creoula, que tão singular e tão fascinador o tornam para nós, Gonçalves Crespo attinge por vezes a amplidão magestosa e grave, tem o largo folego heroico, que nas _Minaturas_ ainda se não pressente.
Na evolução progressiva do seu genio poetico, elle subiu mais um gráu.
Nenhum segredo da forma lhe é defezo. Conquistou, venceu, domou inteiramente a caprichosa, que já não ousa, como a Galatheia do poeta latino, sumir-se entre os salgueiros acenando-lhe de longe.
A _Morte de D. Quixote_, a _Resposta do Inquisidor_, as _Primeiras lagrimas d'El-Rei_, a _Ceia de Tiberio_, prenunciam um poeta feito para os largos commettimentos, um poeta que marcaria o seu logar n'este seculo, com algumas d'essas obras que são a gloria d'uma raça, se a traiçoeira morte não viesse em plena virilidade de annos, em plena alegria de trabalho, arrancar-lhe das mãos a penna prodigiosa.
As traducções de Henrique Heine são no volume dos _Nocturnos_ das joias mais deliciosamente trabalhadas.
A inspiração meridional entrelaça-se de tal modo com a melancolia fugitiva e doce, com a ironica tristeza da musa germanica, que no dizer de alguem, o _Intermezzo_ apparece ali como a obra d'um Heine, mais completo, d'um Heine a quem não faltasse uma só nota na sua vasta alma de homem!
Poucos espiritos tambem, seriam talhados mais de molde para entenderem Heine e dar-lhe por assim dizer uma feição nossa.
É que a ironia que ressalta naturalmente das cousas, a ironia que não é nem uma blasphemia nem um soluço, mas sim o reconhecimento pacifico, tranquillo e triste das desconsoladoras verdades humanas, existe em Gonçalves Crespo na sua forma mais exquisitamente delicada, mais requintadamente artistica.
Como não havia elle pois de entender aquillo que é a propria essencia do genio do poeta allemão!
VI
Já no leito, onde agonisou com divina resignação dois longos mezes, e onde parece que o seu espirito de poeta assumiu uma forma ainda mais idealmente melancolica, Gonçalves Crespo escreveu com a mão tremula de doente um soneto consagrado aos annos d'uma gentil senhora, nossa querida amiga, por quem elle tinha o mais respeitoso dos affectos, em cuja casa hospitaleira elle encontrou sempre um acolhimento fraternal.
Essa senhora é a Condessa de Sabugosa, mulher do amigo, talvez mais ternamente amado por Gonçalves Crespo.
Seria lastima conservar para sempre inedito este soneto que tem para mim um triplo encanto. O perfume _camoeano_ que o impregna deliciosamente, a tristeza dulcissima, que elle respira, e a melancolica circumstancia de ser o ultimo que cahio, como uma perola solta, da lyra quasi partida do poeta moribundo.
Eis o soneto:
Na quadra azul da mocidade, a gente Parte rindo e cantando, estrada fóra, Gorgeia a cotovia em cada aurora, Suspira á noite o rouxinol dolente.
Ai! Ditoso o que parte alegremente, O que não vio aproximar-se a hora Em que é força volver atraz... embora Nos arfe o seio de illusões fremente.
Para ti ainda existe o sonho alado, A fé robusta, e a candida alegria Que nos chovem do céu claro e estrellado.
Nunca sejas forçada, flôr, um dia A erguer, chorando, o braço fatigado Em busca da ventura fugidia... ......................................... .........................................
A morte não consentiu que elle subisse aonde podia subir, que elle se affirmasse como se poderia ter affirmado. No emtanto, todos os que teem este sexto sentido divino, pelo qual, mesmo apezar dos desenganos que a vida encerra, vale a pena em todo o caso ter vivido, hão-de ler com intimo prazer os dois volumes do encantador poeta de _Alguem_.
É verdade que elle não respondeu a todas as interrogações que o nosso espirito se achou no direito de fazer-lhe, mas não respondeu porque o tempo lhe não deixou cumprir as mil promessas que a sua mocidade nos fizera.
E hoje que elle partiu para o paiz mysterioso d'onde ninguem voltou, e para onde, na tristeza ou na alegria, convergem os nossos olhares anciosamente prescrutadores, voam as nossas saudades n'um impeto de lagrimas, eu releio aquella soberba e indecifravel _Sara_, e pergunto a mim mesma se debaixo da forma esculpturalmente pagã dos versos, se não abriga um sentido occulto, um mysterioso symbolo...
Que ardente espiritualismo, tenaz e apaixonado, na carnalidade apparente d'esse poema!
Quanta dôr n'aquella aspiração, sempre trahida, de encontrar uma alma, no bello corpo insensivel que elle, como Pygmalião, quereria animar d'um divino sopro!
Na sua violenta sêde de perfeição, dolorosa e alanceadôra como poucas, nunca o poeta das _Miniaturas_ e dos _Nocturnos_ teve o contentamento da sua obra! Nunca achou que a Musa, que elle beijava, tivesse a vida, o fogo sagrado, que n'esse beijo fecundador a sua alma anceava communicar-lhe!
Era um insaciavel!
Nunca a Arte nem a vida o contentaram, a elle que teve todas as caricias luminosas da Arte, e todos os affectos sãos que a Vida póde dar e que a Vida só dá a rarissimos dos seus escolhidos...
Mas não estará n'esse eterno descontentamento, n'essa aspiração incansavel ao desconhecido, o signal mais caracteristico da sua grandeza?... Eu creio que sim.
_RAMALHO E EÇA_
I
O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA
Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz acabam de apresentar ao publico portuguez e brazileiro, ou, antes, de _consentir_ que lhe seja apresentado por um editor intelligente, o livro da mocidade de ambos, que ha quatorze annos teve em Lisboa um successo de curiosidade e depois de enthusiasmo, quando foi publicado dia a dia nos folhetins do _Diario de Noticias_.
Foi n'essa occasião, e não no livro que depois saiu a lume, que eu li o romance, e lembrava-me, como toda a gente, da impressão immensamente grata, que essa obra improvisada, escripta _à la diable_, tinha produzido em mim.
Fui, portanto, como é natural, uma das primeiras compradoras do volume, e, decerto, não fui, de todas as que o teem lido n'estes dias, a menos interessada e curiosa.
Queria saber, antes de tudo, se estava muito mudado o meu gosto litterario, se o _romance experimental_, o _romance naturalista_, o _documento humano_, e o estudo frio, analytico, impessoal, das miserias d'este mundo, me tinham de todo roubado a sensibilidade e a paixão, que a mulher tem no espirito, ainda que as não tenha em mais nada.
Felizmente não succedeu assim!
Eu que devoro os romances dos Goncourts, eu que admiro a força _rembrandnesca_ de Zola, eu que me sinto fascinada deante da obra de Flaubert, e que espero muito de Guy Maupassant, o dilecto discipulo, o continuador convicto do grande romancista morto, que escreveu a _Bovary_--eu posso ainda gosar intensamente um improviso qualquer da mocidade, em que a sensibilidade e a imaginação predominem.
Como eu gostei ainda hoje do _Mysterio da Estrada de Cintra_!
Infelizmente, conheço-lhe os defeitos innumeros, cousa que não conhecia ha quatorze annos; percebo bem onde os dois auctores foram beber a inspiração de muitas d'aquellas paginas mais brilhantes; estou vendo claramente as inverosimilhanças flagrantes, as falsidades, os _pastiches_, e, ante a critica da minha envelhecida rasão, educada por Taine, entendo, como entendem os auctores do romance, que o romance é execravel!
Tão indesculpaveis seriam os dois valentes athletas da moderna litteratura portugueza se fizessem hoje um livro assim, como seria lamentavel e triste que elles o não tivessem feito, quando ambos eram moços!
A par das imperfeições, quantas bellezas! que perolas de sentimento, de imaginação, de fina graça, de sonhadora melancolia!...
São falsos os personagens?!
De accordo; são falsissimos! mas são muito sympathicos!
Não ha nenhum de quem eu hontem, depois de ler o livro de um só folego, me não despedisse com uma certa saudade!
A _condessa W._ é uma condessa perfeitamente talhada n'um velho molde romantico.
Já não ha em parte alguma _condessas_ assim!
No mundo real nunca ninguem as viu; no romance moderno encontra-se de tudo, menos d'aquellas doces mulheres encantadoras e apaixonadas, arrebatadas e elegantes.
Paciencia.
Eu não a queria, decerto, para minha irmã, nem para minha amiga, mas gosto de a vêr assim de longe, na perspectiva que lhe faz o pincel prestigioso dos dois escriptores.
É verdade que ella não passa de uma ociosa e de uma hysterica; não tem rasão, não tem vontade, não tem principios, não tem heroismos de luctadora; moralmente, não vale nada aos meus olhos; artisticamente, encanta-me!
É uma creatura que ama, que soffre, que se mata nas duras penitençias de um claustro mais apertado e mais duro que uma cadeia, e que nas suas agonias impetuosas, nas suas dôres, nas suas ardentes aspirações á felicidade impossivel, se não parece nada com as detestaveis heroinas, inconscientes ou perversas, da moderna litteratura latina, tão desconsoladora, tão dura, tão cruel!
Mas valerá ella mais, por ventura, do que essas valem? perguntas-me tu, leitora!
Vale, sim!
Valem mais as que amam que as que vivem na inercia indifferente do coração! valem mais as que padecem que as que se deixam viver tranquillas na baixesa ignobil do peccado! valem mais as que se arrependem que as que nunca perceberam que erraram!
Decerto, que em face das leis immutaveis do Dever, nenhuma pode ter a absolvição social; no emtanto, ao menos esta, coitada! tem a sinceridade da sua paixão, tem o encanto vivo, penetrante e communicativo do seu fatal amor!
Não discutamos, porém, a moralidade do romance; essa lá lh'a pozeram os auctores na morte e na clausura voluntaria das duas desatinadas heroinas.
Discutamos simplesmente a sua belleza artistica.
O _Mysterio da Estrada de Cintra_ tem paginas, como nunca mais os dois homens, que as escreveram, tornaram ou tornarão a escrever.
Penetra-as o insubstituivel, o capitoso aroma da mocidade; são sentidas, são quentes, são tremulas de ternuras, são flammejantes de paixão!
O conjuncto da obra, é claro que é inferior a tudo que elles tem feito depois: ao _humour_, á fina e aguda observação, á critica mordente, á analyse incisiva, ao estylo poderoso e vivo das _Farpas_, do _Primo Bazilio_ e do _Crime do Padre Amaro_, e dos folhetins ultimamente escriptos para um jornal do Brazil;--mas, apesar de tudo, ha graças e desleixos que o artista só tem na flor inexperiente e virginal do seu talento, e que mais tarde são compensados por meritos mais distinctos, por qualidades superiores, pela firmeza magistral da penna, do buril, ou do pincel, mas que nunca mais podem ser substituidos!
Como as distinctas individualidades dos dois escriptores se destacam bem nas paginas do romance!
A phantasia, o magico poder do estylo de Eça de Queiroz, resaltam ao lado da critica mais philosophica, da observação mais penetrante de Ramalho Ortigão.
A morte de Carmen, a caçada na India, escreveu-as Eça com a penna que mais tarde, convertida ao realismo, contará a agonia de Luiza, a burgueza peccadora, e as _soirées_ de Leiria, entre padres e devotas; a carta de Rytmel á condessa, a descripção do claustro no Minho, as reflexões da pobre amante desvairada, antes da fuga que ia roubal-a para sempre á sociedade em que ella tinha vivido, á casta a que pertencia, revelam já todas as qualidades do espirito observador e amante do pittoresco, que fez de Ramalho Ortigão um dos melhores criticos de costumes da litteratura contemporanea.
A publicação d'este formoso romance arrancou, por uns dias a somnolenta Lisboa ao seu indifferentismo systematico por tudo que seja questão de lettras ou questão de arte.
Nas salas discute-se com immenso interesse o enredo do romance, o seu estylo, o contraste que elle faz com as publicações posteriores dos dois grandes artistas que o firmam.
Marcam-se as diversas _étapes_ que percorreu o espirito de ambos; e faz-se d'este modo uma critica litteraria, bem mais facil do que a que podia ter sido feita ha quatorze annos, quando o livro appareceu pela primeira vez, revelando, a quem sabe conhecer estas coisas, dois escriptores de raça.
Os homens, como é natural, interrogam insidiosamente as senhoras a respeito do que ellas pensam das duas heroinas do livro.
Elles, já se vê, gostam todos muito da Carmen, um typo estranho, muito menos real que o da Condessa, mas que, ainda assim, n'este momento em que tanto estão attrahindo as attenções do publico as _mulheres que matam_, tem uma certa opportunidade e uma certa verosimilhança.
A Condessa, porém, tem a sympathia occulta das austeras e a sympathia declarada das temerarias...
Ninguem quereria imital-a, todas a comprehendem mais ou menos.
É uma desequilibrada, uma doente.
A paixão entrou na vida d'ella, como entra um pé de vento n'uma casa mal abrigada.
D'ahi a revolução, d'ahi o desmoronamento.
Não nascêra para o peccado, não.
Era fina, era delicada; tinha o amor e o desejo de todas as harmonias moraes e sociaes; tinham-n'a educado correctamente, convencionalmente; houve quem presumisse na vida da pobre creatura todas as hypotheses, menos a de um sentimento real e sincero.
Foi esse que appareceu; que surgiu fatalmente, chamado por uma serie de circumstancias imprevistas; e como não poude ser na alma d'ella o bom pão que alimenta, foi a cicuta que empeçonha e mata!
É uma peccadora, bem sabemos, mas emfim é uma mulher!
Cumpre-nos a nós fazer com que as nossas filhas sejam mulheres, sem serem peccadoras; amem, sem que o amor as diminua e amesquinhe, antes auxilie o desenvolvimento, são e natural, de todas as suas forças e de todas as suas faculdades!
Se nós nos mettessemos de boa fé n'esta empreza tão grande de pôr na vida o romance, sem lhe pormos ao mesmo tempo o peccado?!...
Realmente a litteratura, que é sempre o exacto reflexo das tendencias moraes e sentimentaes de uma dada época, está accentuando cruelmente e demasiadamente o principio de reacção, que em começo foi justo e foi racional, contra os desmandos nebulosos do romantismo, contra a sensibilidade, exaggerada, _lamartineana_, da nossa mocidade.
Não seria tão bom que, depois d'estas tristes tentativas experimentaes, que os proprios mestres vão realmente abysmando nos lodaçaes mais torpes da palavra, do estylo e da idéa, apparecesse emfim a litteratura que retractasse o homem--o homem complexo, o homem _ondoyant_ e _divers_, tal como o viu Montaigne, o homem bom e mau no mesmo dia e ás vezes na mesma hora, o homem capaz de baixezas e de heroismos, de vicios e de abnegações insolitas, o _homem_ n'uma palavra--estranho mixto do que ha de mais bello e do que ha de mais ignobil?!
Não teriam então os detractores da _escola naturalista_ razão para dizer que ella, sendo em principio tudo quanto os seus sacerdotes maximos apregoam e proclamam de scientifico, de grande e de verdadeiro, não passa, na pratica, da escola das feias palávras e das acções ainda mais feias.
O verdadeiro naturalismo seria então creado pela primeira vez, tal como Shakespeare o presentiu no seu espirito barbaro e sublime, tal como Balzac o realisaria se não houvesse morrido no extazi mal definido ainda do seu descobrimento genial!
A litteratura do nosso tempo dar-nos-hia o homem e a mulher que nenhum outro seculo conheceu, e sobre os quaes tem reagido, de um modo estranho e tão difficil de analysar completamente, a influencia da nossa collossal e desequilibrada civilisação, feita de tantas duvidas, de tantas affirmações, de tantos problemas insoluveis...
Evitar o estudo das exaggerações morbidas, dos casos _pathologicos_, das aberrações mentaes, das enfermidades que pertencem ao dominio da sciencia, não seria no fim de contas o unico meio de rehabilitar a _Arte_ da dependencia, em que ella parece querer estar, do amphitheatro dos hospitaes, ou da enfermaria dirigida por Charcot?
O organismo do homem moderno, na sua complexidade maravilhosa, na enorme e labyrinthada complicação que lhe dá hoje o desenvolvimento do seu cerebro e dos seus nervos, é realmente um estudo difficilimo, um estudo que abrange todos os outros e que exige a analyse penetrante, fina e subtil do physiologista, a observação larga, profunda e sympathica do philosopho, a flexibilidade ondeante, o sopro creador do artista de genio.
Realisar o programma imaginado pelos mestres da arte contemporanea, é bem menos praticavel de certo do que passar ao lado d'elle, como elles até aqui teem feito.
É porque lhes falleceu a coragem para essa empreza de gigantes que elles teem convertido, a pouco e pouco, o seu _naturalismo_ n'uma especie de romantismo ás vessas.
Salvo excepções esplendidas, que são os milagres da moderna arte, os que d'antes faziam anjos, fazem agora monstros! Os que se davam ao trabalho de modelarem as suas estatuas no gello immaculado das alturas, amassam-n'as hoje no barro viscozo dos lodaçaes.
E a verdade onde fica?!...
A mim parecem-me tão pouco humanas as sylphides de Lamartine, como as femeas inconscientes de Zola.
Entre ellas está a mulher. Porque a não procuram? porque é que a não retratam, ou antes, porque é que a não criam?
Esperemos que a litteratura deixe de ser uma escola d'isto ou d'aquillo, uma reacção contra isto ou contra aquillo. Que ella seja serena como a verdade, e será emfim humana; que elle nos pinte quaes nós somos, e poderá então chamar-se natural.
É muito bom estudar as _miserias da nossa rua_, na phrase pittoresca de Eça e de Ramalho; mas, por Deus! parece-me demasiado restricto esse ponto de vista!
Imagine-se que os escriptores escolheram uma rua infeliz, uma rua povoada de remendões e de vendedoras de peixe!...
Parece-me isso um pouco o caso de alguns dos grandes romancistas contemporaneos!
Nunca me poderei chegar a convencer que abrir as paginas de um livro corresponda a ir visitar um hospital; que folhear um romance me dará conhecimentos eguaes aos que me daria a estatistica do _alcoolismo_, ou a de outro qualquer dos grandes vicios modernos.
A ignorancia é, de certo, minha, que sei pouquissimo, e que vou aprendendo cada vez menos.
Em todo o caso, obrigada ao _Mysterio da Estrada de Cintra_, que me repousou um pouco da _má companhia_ a que os mestres me teem habituado ultimamente.
_RAMALHO ORTIGÃO_
II
A HOLLANDA
Desde que eu li a _Hollanda_, e devo ao auctor a immerecida e lisonjeira distincção de ter podido ler um dos primeiros volumes publicados--desde que li d'um folego este livro, verdadeiramente encantador, sinto em mim o desejo, quasi que a necessidade de fallar a respeito d'elle.
Será que eu julgue auctorisada e util a minha apreciação?
Não, decerto.
O que eu tenho é o irresistivel desejo de conversar com esse numero mais ou menos restricto de amigos desconhecidos, que todo o escriptor, por modesto e humilde que seja, tem a certeza, de possuir, ácerca d'essa obra superiormente bella, e que, apezar d'um tanto phantasista me parece consoladora e sã, fortificante e boa.
Mas, se eu sentia em mim essa vontade persistente e tenaz, porque é que a não tenho realisado ha mais tempo?
Simplesmente pelo motivo, porque hoje mesmo hesito em o fazer.
Ha receios, que se não vencem senão a muito custo, tanto mais teimosos, quanto mais prolongado foi o tempo em que os deixamos actuar sobre o nosso espirito.
Depois ha livros _suggestivos_, que fazem pensar; que despertam em nós um turbilhão de idéas, de pensamentos difficeis de definir e de fixar bem, mas que tambem nos acordam contradicções que talvez pareçam ousadias, criticas que talvez o publico julgue pouco auctorisadas e, por isso mesmo, imperfeitissimas.
Estes livros seduzem-nos, captivam-nos, mas assustam-nos um pouco, como alguma coisa de poeticamente concebido e realizado, que fica para álem dos dominios reaes em que nos sentimos á vontade. A _Hollanda_ pertence a este numero de trabalhos, felizes e perigosos, encantadores e um pouco falsos.
Parece um bom companheiro de jornada que nos arrasta, abrindo-nos a cada instante horizontes intellectuaes só intrevistos de muito longe, rasgando-nos amplas janellas para o claro espaço, despertando-nos, com as suas observações quotidianas, um mundo inteiro de sensações adormecidas, mas ao pé dos quaes uma pessoa se sente desconfiada, temendo o demasiado prestigio, de imaginação, o optimismo excessivo do viajante...
E no emtanto não é como muitos julgarão, uma simples narrativa de viagem; é uma obra de arte e de moralidade.
E n'este momento dubio e _atormentado_ da nossa nacionalidade, momento que uns julgam de irremediavel decadencia, outros de vigoroso renascimento mental, este livro que nos conta com a magia incomparavel, estranha e captivante do seu estylo, a historia d'esse pequeno povo, muito mais pequeno do que o nosso, que á sua poderosa força de resistencia, que á sua intemerata energia deveu o grande papel que representa na historia da Civilisação, este livro d'uma factura tão magistral, affigura-se-me, apezar dos seus pontos de vista, nem sempre rigorosamente justos, uma obra eminentemente e grandiosamente patriotica, uma fecunda lição indirecta, um appello ao que ha de mais nobre e de mais reconditamente sagrado na alma de uma collectividade nacional.
É sob estes diversos aspectos que elle tem de ser julgado pela critica.
Eu, porém, não venho julgal-o, o que seria pretenção; venho simplesmente, como já disse, conversar a respeito da impressão luminosa e profunda que elle deixou em mim.
Ha muito que Ramalho Ortigão é considerado um dos melhores criticos de costumes, um dos melhores coloristas da moderna arte; sabia-se que a sua faculdade predominante, essa faculdade da qual, no artista, todas as outras derivam, e na qual todas as outras se filiam, era a de _ver_ o aspecto exterior das coisas com uma nitidez, uma precisão, uma minudencia e ao mesmo tempo uma largueza de observação, que podem chamar-se verdadeiramente geniaes.
Ora _ver_ em todas as suas formas multiplas, sob todos os seus aspectos variados, na complexidade das suas linhas, no relevo dos seus contornos, na harmonia da sua côr, uma porção de arte ou uma porção de natureza; e saber transmittir vigorosamente, originalmente as infinitas impressões recebidas pelos olhos ao espirito de quem o lê,--esta faculdade tão rara e tão estranhamente difficil, que constitue talvez um dom de temperamento impossivel de adquirir-se pelo estudo ou pela vontade, basta só por si para singularisar e caracterisar um artista, e é esta, sem duvida, a grande faculdade de Ramalho.
Nunca, porém, as suas qualidades de estylo se revellaram tão largamente, a uma luz mais ampla, mais bella, mais intensa, do que n'este livro que em todas as litteraturas seria justamente considerado uma obra bella, e que hoje, na nossa, é um verdadeiro milagre.