Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 13
Mais tarde, no outomno tão purpureado de tons opulentos, da sua vida de trabalhadora intrepida, ella sabe com a palavra convencida e grave dos que soffreram, luctaram e venceram, incutir coragem aos que fraquejam, ensinar o caminho do bom e do justo aos que vacillam na escolha da sua estrada, dar animo, incentivo e applauso aos artistas, que succumbem ao desalento d'uma hora infecunda, ser ella propria um exemplo de força viril e de femenil ternura.
Os seis volumes da correspondencia de Georges Sand são como que a ascensão d'um espirito para a região luminosa da bondade, da justiça e do amor! Á proporção que a vida lhe declina--a pacificação, a doçura e a paz vêem descendo sobre o seu agitado espirito, até fazerem d'elle um exemplo de força e caridade, de resignação e de tolerancia.
«Quanto mais vivo, diz ella n'uma das suas cartas, mais profundamente me prostro diante da Bondade, porque vejo que é ella o beneficio de que o Senhor é mais avaro. Onde a intelligencia não existe, chama-se bondade ao que é simplesmente inepcia. Onde não existe a força, julgam bondade ao que é apenas apathia. Onde a força e a luz intellectual se encontram, é raro que se encontre tambem a bondade, pois que a experiencia e a observação produziram a desconfiança e o odio! As almas votadas aos mais nobres principios são tambem muitas vezes as mais acres e as mais rudes, porque as decepções as adoeceram para sempre. A gente estima-as e admira-as ainda, mas já não póde amal-as. _Ter sido desgraçado sem deixar de ser intelligente e bom, faz suppôr uma bem poderosa organisação, e são estas as que eu mais procuro e mais amo._
N'um periodo caracteristico d'uma carta a Lammenais diz assim, com entristecida e commovedora franqueza:
«Mestre, ha n'este mundo atalhos pelos quaes os seus pés nunca passaram, abysmos onde o meu olhar mergulhou. Viveu com os anjos e eu tenho vivido com os homens e com as mulheres; sei como se padece, sei como se pecca, sei a immensa necessidade que existe d'uma regra, que torne possivel a virtude. Confie em mim, creia que ninguem a procura com mais desejo de encontral-a, com mais respeito pela virtude e com menos personalidade; porque eu não tentaria jámais palliar as minhas culpas passadas, e a idade já me permitte o encarar com placidez as tempestades, que palpitam e morrem no meu longinquo horisonte.»
A um dos queridos amigos da mocidade, tão piedosamente conservados até á velhice, ella escreve um dia, n'uma d'estas horas em que a verdade nos acode irresistivelmente aos bicos da penna, n'uma explosão de sinceridade cheia de lagrimas?
«Oh! como eu soffri n'esta vida, meu pobre irmão!.. E tu, sentes-te agora mais tranquillo?..
«Eu, por mim, tive um terrivel duello comigo mesma, um combate gigantesco com o meu ideal. Que ferida, que dilacerada, que ás vezes me senti!.. Agora vegeto docemente, placidamente. Pareço a mim mesma um cypreste que viça em cima d'um cadaver. Meu Deus! meu Deus! quantas lagrimas eu não contive! quantas queixas não suffoquei! quantas dôres sem consôlo eu guardei para mim só!..»
E n'outra carta, como que tirando a suprema conclusão dos sacrificios interiores, que se impoz pelo amor do bem, escreve d'este modo:
«Desde que sinto pezar por sobre mim a mão da velhice, experimento uma paz, uma esperança, uma confiança em Deus, que eu não tinha nas commoções da mocidade. Acho que Deus é tão bom, tão bom, por nos envelhecer, por nos acalmar, por destruir em nós o egoismo, tão aspero em quanto se é moço!.. E queixamos-nos de perder alguma cousa, quando a verdade é que alcançamos tanto, que as nossas ideias se ampliam e se tornam mais justas, e o nosso coração se faz mais vasto e mais doce, e a nossa consciencia victoriosa emfim, póde olhar para o caminho já percorrido e dizer: «Cumpri a minha tarefa, está perto a hora da recompensa!»
Comprehende-se que, em seis volumes, ha centenas de paginas que eu citaria com prazer, e que justificam amplamente o enthusiasmo, que n'este rapido artigo se revella. As cartas em que Georges Sand deixa transparecer, com divina eloquencia, o seu patriotismo de vizionaria, a sua caridade inexgotavel e ardente, a sua doce tolerancia para as fraquezas humanas, o seu genio simples e bom, feito de sinceridade e de ternura...
A indole porem d'estes estudos não comporta tamanhas delongas, e na impossibilidade de citar tudo, quasi que acho preferivel não citar nada. A tentação todavia arrasta-me ainda a transcrever para aqui, ao acaso, mais alguns trechos caracteristicos:
Quando a França parece querer suicidar-se nos excessos selvaticos da Communa, quando todos se curvam desalentados ao pezo da mesma dôr impotente, ella, a valente mulher, exclama cheia de fé:--«Sinto me fluctuar ao acaso sobre as vagas, mas buscando a terra, porque sei que a terra existe, e que tudo lá vae dar fatalmente.
«A verdade, o bem não são mentiras; basta que a gente os sinta viver dentro de si propria, para ter a certeza firme de que elles existem no coração da humanidade.»
E quando Flaubert, nas suas explosões de epileptico, lhe mandava em cartas que tambem estão publicadas, mas que são incontestavelmente inferiores ás cartas d'ella, os seu lamentos pueris ácerca dos males imaginarios que o torturam, Georges Sand, a martyr de tantas agonias, em vez de rir-se desdenhosamente d'essa velha creança, que, a tanto talento juntava tão extraordinarias fraquezas, tracta, pelo contrario, de combater o soffrimento que a sua alma intrepida nem concebe, e explica-lhe d'este modo o ideal da sua velhice.
--«Amar sempre, sacrificar-se continuamente, não reassumir a posse de si proprio senão quando o sacrificio já não seja necessario áquelle a quem se consagra, e sacrificar-se ainda, na esperança de servir a unica cousa verdadeira que ha n'este mundo--o amor!
«Não fallo aqui da paixão pessoal, fallo do amor da raça humana, do sentir que cada ser amplia até aos outros seres! Esse ideal de justiça, de que tu me fallas, nunca o poude comprehender separado do amor, visto que a primeira lei, para que uma sociedade natural subsista é a que faz com que os membros que a compõem se sirvam mutuamente e mutuamente se amem. Chama-se nos animaes instincto este concurso de todos para o mesmo fim; nos homens, porem, deve chamar-se amor; quem se subtrahe ao amor subtrahe-se á verdade e á justiça.
«Lamento a humanidade; quereria vêl-a boa porque não posso separar-me d'ella; porque _ella_ é _eu_; porque o mal que ella se faz a si me fere o coração; porque a sua vergonha me faz corar; porque os seus crimes dilaceram as minhas entranhas; porque não posso comprehender o paraizo na terra ou no céo para mim sósinha.»
E como o grande escriptor de madame Bovary, na sua eterna lucta contra o que elle chama a _bêtise humaine_, continúa a expandir-se em manifestações colericas que irritam quem lhe lê as cartas, Georges Sand, sempre serena e doce, sempre maternal, responde-lhe:
«Quanto mais desgraçado és, mais eu te quero!
«Como te apoquentas, como te affliges com a vida!.. Porque, no fim de contas, é da vida que te queixas. Ella nunca foi melhor em tempo algum, para ninguem! A gente _sente-a_ mais ou menos, comprehende-a mais ou menos, soffre por causa d'ella mais ou menos, e quanto mais adiantado está em relação á epocha em que vive, mais tem de padecer em resultado d'essa desharmonia.
«Passamos como sombras sobre um fundo enublado que o sol apenas rompe em raros instantes, e chamamos incessantemente por esse eterno sol que não póde allumiar-nos. Está em nosso poder affugentar as nuvens...»
«Tens demasiado amor pela litteratura; ella ha de matar-te sem que tu consigas matar a _tolice humana_. Pobre tolice humana! Eu não a detesto como tu. Pelo contrario! Olho para ella com olhos maternaes, porque a considero uma infancia, e toda a infancia é sagrada para mim! Que odio que lhe votaste! que enorme guerra lhe fazes! Tens intelligencia e sciencia de mais; esqueces-te de que ha alguma cousa superior á arte, e essa cousa chama-se sabedoria, da qual a arte no seu apogeu é apenas a expressão simples.
A sabedoria comprehende tudo: o bello, o verdadeiro, o bom, e por conseguinte o enthusiasmo que d'elles derivam. É ella que nos ensina a vêr fóra de nós, alguma cousa de mais elevado que o que está em nós, e a assimilal-o pouco a pouco pela contemplação e pela admiração. Mas eu nem sequer conseguirei fazer-te comprehender bem o modo pelo qual encaro e percebo a _felicidade_, quer dizer a acceitação da vida tal qual ella é.»
Quem não sentirá sympathia por estas palavras de fé, de pacificação e de conforto! De quantas dôres superiormente supportadas, de quantos erros expiados d'um modo sublime, se compõe esta serenidade augusta que dá a velhice de Sand uma grave e encantadora magestade.
E ao par d'estas graves lições de alta moralidade, d'estas lições que reconciliam com a vida o espirito mais dolorido, mais inquieto e mais revoltado, encontram-se aqui e ali phrases encantadoras d'uma graça femenil deliciosa e fina. «Quando eu tiver exgotado a minha taça de amargura, hei de então levantar-me. Sou mulher, tenho ternura, tenho piedade, e tenho impetos de colera. Não terei nunca a serenidade d'um erudito ou d'um sabio!.. «Os fortes são aquelles que não amam! Não serás nunca um _forte_ e ainda bem!»
«Sou ainda, senão necessaria, pelo menos extremamente util a todos os meus, e emquanto houver em mim um sopro da vida, hei de pensar, trabalhar, soffrer por elles!» ... «Já não tenho tempo de pensar em mim, de scismar em cousas desanimadoras, de desesperar da especie humana, de olhar para as minhas proprias dôres e para as minhas alegrias passadas e de chamar a morte. Olha, se a gente fosse egoista era o caso de a vêr chegar com alegria; é tão commodo dormir para sempre, ou accordar para uma vida melhor! Mas para quem tiver ainda de trabalhar, a morte não deve chegar antes da hora em que o extenuamento completo nos possa abrir as portas da liberdade.» ... «Não sejas fraco! então?! Devemos o exemplo da nossa força moral a todos que nos cercam e podem ouvir-nos! E eu?! Julgas que eu não tenho tambem necessidade de auxilio e de amparo, na minha longa tarefa ainda por concluir?
«Pois não tens amor a ninguem, nem sequer á tua velha amiga, que sempre canta, e chora muitas vezes, mas que se esconde para chorar, como os gatos se escondem para morrer?.. »
Estas cartas a Flaubert são todas d'uma graça maternal, d'um encanto affectuoso que conforta e fortifica. Depois de se terem lido, a gente sente-se envergonhada de succumbir a meio do caminho, de se lamentar egoista e puerilmente, porque a vida é triste e incompleta, e cheia de aspirações e de esforços vãos!
Para Georges Sand a vida, dura e inhospita como lhe foi, a vida que segundo ella propria confessa _lui a manqué de parole_ muitas vezes, muitas vezes a fez sangrar por todos os póros da sua carne, muitas vezes a dilacerou e abateu, nunca logrou prostral-a.
Tinha--dom raro e milagroso que constitue a unica superioridade d'este mundo--tinha a faculdade da _eterna renovação_ que a natureza empresta a raros eleitos seus.
_Mon coeur mille fois brisé et toujours heureux de vivre_--dizia ella aos setenta annos, definindo, d'este modo profundo e brilhante, o seu coração de valente e de luctadora, tão energico e tão meigo, e dando-nos assim o segredo de seu genio cheio de contrastes, illuminado por todos os esplendores, obscurecido por todas as sombras, opulento e suave, risonho e melancholico, impetuoso e terno, bom sobretudo, bom como a grande natureza sua inspiradora e sua mãe, sua confidente na mocidade agitada, sua amiga na serena velhice.
Confidencias d'um apaixonado coração de mulher, que teve na amisade os ardores e os extremos que outros, nem nos amores sabem ter; despretenciosas lições de arte, de litteratura e de bom senso; conselhos d'uma delicadeza penetrante, d'uma alteza de pensamento maravilhoso; descripções formosissimas; palavras de caridade e de conforto; doces expansões de amor materno; profissões eloquentes, e singelas ao mesmo tempo, de tolerancia, de benevolencia universal, de religiosidade profunda e intima, quasi que instructiva, de amor da humanidade elevado ás sagradas proporções d'um culto;--eis o que nos dão essas cartas soberbas, superiores talvez pela significação e pela verdade a toda a obra da prodigiosa romancista.
* * * * *
Será a vida de Georges Sand um exemplo a apontar-se? É claro que não, e que ninguem, d'este rapido esboço critico, póde deprehender tal absurdo. O genio, porem, tem attenuantes excepcionaes para os seus excepcionaes desvarios.
E se a obra da grande escriptora nos deixa ás vezes entristecidos e descontentes, se a sua mocidade nos desola como uma pagina lamentavel da vida dos grandes entendimentos, as suas cartas reconciliam-nos com ella, e são os seis volumes das suas cartas que eu recommendo a todos os que me lerem.
INDICE
Pag.
Gonçalves Crespo 1 Ramalho e Eça 37 Ramalho Ortigão 53 Anthero de Quental 107 Antonio Candido 165 Teixeira de Queiroz 225 Octave Feuillet 257 Os irmãos Goncourt 292 Georges Sand 325
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correcção | +----------+---------------------+----------------------+ |#pág. 2| rigorosas | rigorosos | |#pág. 102| Ortigão gão | Ortigão | |#pág. 105| phantasticamenre | phantasticamente | |#pág. 132| indifrença | indifferença | |#pág. 134| vibracao | vibração | |#pág. 139| dolorosa, | dolorosa | |#pág. 150| carateriscos | carateristicos | |#pág. 150| concontaminados | contaminados | |#pág. 151| no Quental | do Quental | |#pág. 154| e _Diario_ | o _Diario_ | |#pág. 156| apapparece | apparece | |#pág. 163| enenriqueceu | enriqueceu | |#pág. 175| iguorante | ignorante | |#pág. 182| muitos notaveis | muito notaveis | |#pág. 188| imaginção | imaginação | |#pág. 196| displinadora | disciplinadora | |#pág. 197| demonstrucção | demonstracção | |#pág. 202| ou ou | ou | |#pág. 205| que orador | que o orador | |#pág. 213| livro arbitrio | livre arbitrio | |#pág. 248| e | é | |#pág. 250| positita | positiva | |#pág. 278| acima do do | acima do | |#pág. 280| accceito | acceito | |#pág. 295| E extraordinaria | É extraordinaria | |#pág. 315| chamado chamado | chamado | |#pág. 328| mararavilhoso | maravilhoso | |#pág. 330| pelos menos | pelo menos | +----------+---------------------+----------------------+
Foram mantidas as variações de nomes próprios.