Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 12
Qual de nós tem esta viva impressão intellectual, tão delicada e subtilmente expressa aqui, ante a musica mais ou menos bella de um livro de prosa? E, no entanto, são incompletos todos os artistas da palavra que a não sentem. A palavra é _tudo_ para o escriptor, visto que é o unico meio que elle tem de traduzir as variadissimas, as infinitas modificações do espirito humano. Os dois Goncourt fizeram do estylo uma sciencia, a mais complexa e requintada das sciencias. Comprehenderam e muito bem, que todos os doentios symptomas, todos os phenomenos pathologicos da alma moderna, todos os effeitos multiplos, inteiramente ineditos que na Vida produz a comprehensão morbida que nós temos da Vida, precisavam tambem de uma formula nova que os exprimisse.
Para as doenças recentes que o excesso da civilisação, o _détraquement_ nervoso, as diversas aberrações cerebraes nos teem trazido, precisava-se de uma technologia ainda não sabida até hoje. A elles foi-lhes necessario encontrarem a arte de _notar os sentimentos indiscriptiveis_; de traduzir as imperceptiveis vibrações da alma; as mutações rapidas da sensibilidade; as delicadezas doentias de uma geração estragada pelo excesso da vida nervosa e cerebral. Julio de Goncourt conseguiu, pois, á custa de um trabalho mental exagerado e exclusivo que lhe custou a vida, dar á lingua franceza a subtileza, o nervosismo, a intensidade harmonica, a rapidez e a variedade de cambiantes que ella não tinha.
O estylo d'elle, ou antes o estylo dos dois irmãos, tem musicas e tons esbatidos, e perfumes agonisantes, e fremitos voluptuosos, e sobresaltos hystericos. Para lêr e apreciar a obra dos Goncourt é necessario ter como elles, os nervos vibrantes, o cerebro excitado, e a sensibilidade estranhamente irritavel.
Escrevendo a Zola, a respeito da morte de seu querido irmão, Edmond de Goncourt, dizia:
«A meu vêr, elle morreu do trabalho, morreu sobretudo da elaboração da fórma, da cinzeladura da phrase, do lavôr do estylo.
«Estou-o vendo ainda, pegar dos trechos que tinhamos escripto em commum, e que, ao principio, nos tinham satisfeito, e trabalhar n'elles horas e horas, tardes inteiras, com uma obstinação quasi colerica, mudando aqui um epitheto, pondo n'uma phrase o rythmo que lhe faltava, emendando uma expressão, fatigando, gastando o cerebro á procura d'essa perfeição tão difficil, ás vezes impossivel, á lingua franceza, na traducção das coisas e dos sentimentos modernos. Depois d'essa tarefa enorme, cahia para cima d'um sophá, moido pelo cançasso, e alli ficava um longo espaço de tempo, silencioso, a fumar.»
Balzac, que teve como nenhum dos discipulos que vieram depois d'elle, a larga, a profunda, a milagrosa intuição dos sentimentos que agitaram, moveram, convulsionaram, subjugaram o seu tempo; Balsac, que pintou os _frescos_ collossaes e as deliciosas miniaturas, que soube fazer viver as suas eternas figuras, criminosas, sublimes e depravadas, cheias de odio ou cheias de amor, illuminadas pela chamma de todas as paixões, queimadas pela fornalha rubra de todas as cubiças insalubres, e que, não contente de personalisar, á grande maneira de Shakspeare, a Avareza, a Sensualidade, a Paternidade ludibriada e dolorida, a Amisade viril, os sentimentos fundamentaes do homem emfim, soube ainda penetrar nos refolhos mais reconditos da alma feminina, e colher ahi a fragil, a doce flor da melancholia, as tristezas silenciosas do amor trahido, as saudades, cuja raiz suga as forças todas de um coração solitario; Balsac, que foi muito maior que todos os modernos pelo pensamento proprio e pela vida dos seus personagens, não soube vencer, nem subjugar como elles as tyramnias da Fórma.
Foi tambem n'esta lucta titanica de que sahia, deitando um vapor denso e quente de todos os póros do seu corpo athletico, que elle consumiu e gastou a existencia.
A morte surprehendeu-o quando, no seu ultimo livro, a _Cousine Bette_, elle tinha emfim alcançado uma victoria decisiva e tinha quasi achado a formula, que o podesse contentar.
A verdade é esta: ha escriptores para a maioria do publico. Esses não teem mais do que traduzir os sentimentos communs a toda a humanidade. Ha escriptores para os delicados, para os doentes d'essa terrivel nevrose cerebral que hoje martyrisa os pensadores, os artistas, os investigadores incontentaveis da verdade. Esses hão de ler com prazer agudo, quasi doloroso, os livros de Julio e Edmundo de Goncourt. De resto, não ha, entre os modernos, livros que mais vivamente ponham a nú a personalidade de quem os escreveu. Ha paginas inteiras que são confidencias mentaes. Ha estudos que foram feitos depois d'estas longas meditações em que a alma se revela nas suas minimas particularidades, nos seus mais intimos e dolorosos segredos!
Por isso se explica que, nas suas _Idéas e Sensações_, elles escrevessem esta observação que, applicada aos dois artistas de que tratamos, é d'uma verdade tão intensa e palpitante.
«Para as delicadezas, para as requintadas melancholias d'uma obra, para as phantasias raras e deliciosas que se executam na corda vibrante da alma ou do coração, não será necessario, indispensavel mesmo, uma pontinha de doença no artista?
E, como Henrique Heine, não terá cada um d'esses escriptores de ser como que o Christo da sua obra, o crucificado physico da sua fé?...»
Os Goncourt foram isto, e é por esse motivo que os que soffrem se sentem um pouco irmãos d'esses artistas de tão morbida e delicada tristeza!
_GEORGES SAND_
Á LUZ DA SUA CORRESPONDENCIA
O nosso tempo tem, e com muita razão, um verdadeiro enthusiasmo, pelo genero especial de litteratura constituido pelas _correspondencias_, pelas _memorias_, pelas notas e observações colhidas dia a dia, por estas confissões involuntarias, sem fito feito, que mais que nenhum outro trabalho intellectual nos desnudam o segredo da psychologia humana.
Muitas _correspondencias_, que n'estes ultimos tempos teem visto a luz, mais serviriam para _diminuir_ os seus auctores de que para os engrandecer no espirito da posteridade. Em compensação outras ha, que vieram mostrar a uma luz bem mais favoravel, bem mais doce, aquelles que o mundo julgava com a sua proverbial e incuravel injustiça.
A este numero pertence a Correspondencia de Georges Sand.
Quando eu, sugeita como todas as mulheres aos desfallecimentos da alma, ás subitas e inexplicaveis tristezas, succumbo ao peso da Vida, tão hostil aos que pensam, tão dura e cruel aos que sentem muito, e pego em um d'esses volumes em que uma alma enorme de mulher conta dia a dia a historia do seu pensamento, sinto-me como que milagrosamente reconfortada.
A leitora n'este ponto pára um pouco surpreza e um pouco triste, não é verdade? E pergunta-me espantada:--Pois quê?!... Tem esta opinião a respeito de Georges Sand?
Seria longo e seria melindroso entrar a este respeito em minuciosas explicações.
Diante d'esse genio assombroso que para o mundo se chama Georges Sand, eu não indago as fraquezas que macularam tristemente uma parte da vida intima da mulher que tinha por nome de familia Aurora Dudevant.
Na sua Correspondencia, escolhida por mãos piedosas, expurgada de todas as recordações impuras d'um passado, que a grande mulher expiou nobremente e longamente, não ha um reflexo, senão muito longiquo e apagado, das luctas tremendas, das tragicas luctas que se deram n'esse espirito revoltado e extraordinario.
Porei portanto de parte considerações de uma ordem extranha ao assumpto que trato, ao vir transplantar para aqui as notas que a leitura da Correspondencia de Georges Sand me arrancou irresistivelmente.
E de resto, que pode haver de mais interessante para um espirito de mulher, obscuro e humilde embora, do que as confidencias d'uma mulher de genio? E se pensarmos que o _genio_ não é mais que o maravilhoso poder da condensação concedido a um cerebro humano, a faculdade de synthetisar em si as impressões e as sensações de muitos, e de formular com eloquencia e verdade, para todos comprehensiveis, as paixões e os sentimentos da multidão anonyma,--comprehenderemos, ao penetrar na vida interior d'esses seres privilegiados, que nada do que os faz sentir, palpitar e soffrer, nos é extranho a nós.
Sentimos, talvez em gráu menos intenso, tudo que elles sentiram; o que nos falta é a palavra inspirada e verdadeira com que o possamos exprimir.
É sob este ponto de vista, particular, que as cartas de Georges Sand nos interessam tão vivamente.
Lacrimosas e repassadas de angustia, palpitantes de indignação e de revolta, resignadas e entristecidas depois, como que envoltas na pacificação melancolica do crepusculo da vida, e tendo a serena magestade e as linhas ondulantes e suaves das paizagens outoniças, respira-se n'ellas a verdade, a espontaneidade mais sincera, a mais natural despretenção.
Ser sublime, sem nunca deixar de ser simples; aspirar continuamente aos mais altos pincaros do pensamento, attingil-os muita e muita vez, e não ter nunca a consciencia da propria grandeza, a vertigem da propria elevação, antes conservar-se, atravez de tudo, humilde, ignorante do seu valor e como que impregnada de um vago aroma de _bonhomia_ rural--eis o encanto mais singular d'esta mulher singularissima.
Nenhuma, entre as que deixaram na historia do espirito humano um rastro luminoso, lhe é superior; emquanto que ella, na complexidade da sua opulenta organisação, tem de todas um traço caracteristico.
Ha n'ella, como em _Madame Rolland_, o amor enthusiastico da liberdade, a paixão robusta da justiça, o sentimento ardente e viril da democracia; no emtanto, mais feminil que _Madame Rolland_, ella teria lagrimas e gritos de piedade, e accentos de enternecida eloquencia, para salvar das garras do algoz a bella cabeça patricia de Maria Antonietta.
Tem, como a Sevigné, a ternura maternal senão absorvente e exclusiva, pelo menos penetrante de carinho, e cheia de engenhosas e subtis delicadezas.
Como a Stael, adora as letras, devora-a a curiosidade de todos os segredos da intelligencia, professa a altivez intransigente e desdenhosa, em face das tyrannias brutaes.
Advoga continuamente, como Madame de Recamier, a causa dos vencidos, concilia os odios, pacifica as divergencias, implora com incansavel constancia a favor de todas as victimas e embebe-se na doce utopia de um mundo, onde todos se amassem e se abraçassem, e tivessem, como premio supremo da lucta de tantas gerações de martyres, a fraternidade, a paz universal.
Como Georges Elliott, a grande romancista ingleza, tão _humana_ e tão natural, ella estuda de preferencia os simples, os humildes, os obscuros, e encontra n'essas organisações rudes e inconscientes os mais reconditos thesouros de bondade e de amor.
Porem o que a especialisa e distingue d'entre todas, o que lhe dá o cunho d'uma superioridade incontestavel, o que a faz do nosso tempo, e lhe conquista as sympathias da nossa geração,--é a sua viva e fecunda comprehensão da Natureza em todos os seus aspectos, e o seu tão sincero e tão moderno naturalismo em face das paixões irreprimiveis da humanidade ou das bellezas santas e pacificadoras da terra.
Paizagista adoravel, nunca nos dá em termos technicos, e de uma precisão de botanico ou de geologo, a descripção minuciosa do que vê.
É incontestavelmente melhor o seu processo artistico, em que peze aos sectarios fanaticos da escola descriptiva.
O que ella nos dá, com uma riqueza de linguagem em que nenhum mestre a excede, com uma poesia penetrante e evocadora que só póde comparar-se á de Michelet, é a robusta, a sádia, a profunda, a deliciosa impressão que recebe dos mil variados aspectos da natureza physica.
Nos seus livros respira-se o aroma resinoso dos pinheiraes alpestres; a frescura dos regatos sombrios onde a pervinca humedece o azul dos seus olhos pequeninos, e avelluda o verde escuro da sua folhagem lustrosa; a melancolica doçura das florestas gorgeiadas de rouxinoes; o idyllio suave das campinas humildes; o cheiro do feno e dos trigaes floridos; a acre respiração que sahe dos flancos da terra humida, dilacerados pelo ferro da charrua...
Ha nas paginas d'ella a estridula alegria victoriosa das auroras escarlates; a languidez voluptuosa e electrica do meio dia abrasado, quando uma sêde infinita contorce em espasmos de febre tudo que respira e vive; a tristeza, dilacerante e intensa como um adeus, da hora do crepusculo; a immensa paz cariciosa, protectora e calmante, das silenciosas noites!...
Quem melhor de que este coração tão eminentemente feminino sentiu e communicou aos que a leram, as delicias de que a terra, a nossa eterna Amiga, é tão prodiga, para os que entendem as harmonias ora vibrantes ora enlanguecidamente morbidas, ora de uma intensidade perturbadora, da sua orchestra colossal?
Se mais nada lhe devessemos alem d'esta iniciação sagrada, era enorme ainda assim a divida contrahida por todos nós com a nossa grande e gloriosa irmã.
Mas devemos-lhe mais alguma cousa, e ha n'esse _alguma cousa_ um vasto alcance moral. Devemos-lhe a alta licção que ella nos deu, trabalhando sempre, trabalhando sem um dia de afrouxamento ou de cançasso, perdoando aos que a encheram de injurias e de insultos, sem uma só tentativa de retaliação ou de vingança, sem um grito de raiva, sem uma interjeição de furor. A qualidade predominante d'este caracter, fraco ás vezes, vacillante no seu caminho, e de uma indecisão devida ás influencias que actuaram na sua juventude desamparada de toda a luz moral, é apezar de tudo, é atravez de todos os erros que lhe sombrearam para sempre a memoria, a mais completa bondade, desartificiosa e simples. Bondade immensa, bondade inextinguivel, que mais d'uma vez a transviou, mas que teve a força triumphante de a rehabilitar; bondade a que se devem as suas culpas, gravissimas é certo, mas tambem as suas raras virtudes, e entre ellas os thesouros, os mananciaes inexgotaveis da sua evangelica, ardente e apaixonada caridade.
Oh! a caridade! a doce virtude que a todas sobreleva, e cuja limpida corrente, nascida no humilde presepe de Bethlem, o mundo tem tentado em vão enlodar e corromper!... Flôr, que desabrocha luminosa e perfumada na alma dos que são bons, que os consola de tudo, até da ignominia a que os homens ás vezes os condemnam, e que tem,--como certos seixos côr de purpura que se apanham á beira do oceano, e que o oceano tem polido no eterno fluxo e refluxo das suas ondas tumultuosas,--o dom mysterioso de extinguir e apagar todas as maculas...
É possivel que a leitora condemne agora como um crime de lesa-moral, como uma contradicção inexplicavel e extranha, o meu enthusiasmo _confessado_ por essa mulher, que foi um genio, mas que foi tambem uma enorme peccadora.
Eu peço-lhe porem que, antes de pronunciar a implacavel sentença que condemna a escriptora inimitavel, leia algumas das cartas adoraveis que ella escreveu, e com as quaes remiu, litterariamente, muitos dos peccados que não tracto aqui de conhecer nem de indagar.
O nosso tempo, grande em tudo, é grande principalmente pela tolerancia, pela equidade, pela bondosa indulgencia que o homem lhe merece.
Longe de vêr n'elle o criminoso irremissivel dos tempos da sombria escholastica, a victima fatalmente condemnada pelo peccado original ás chammas do inferno, ou ás chammas da fogueira, o monstro que se havia de deixar mutilar ou se havia de deixar perder, para quem a natureza e as suas forças indomadas eram outras tentações demoniacas, e que só podia ter perdão sob a condição barbara de ser anti-humano,--o nosso seculo, conhecedor de todos os segredos defezos aos seculos que o antecederam, só vê no homem o criminoso, quando lhe é de todo impossivel vêr n'elle o doente ou o vencido pela fatalidade das cousas.
Os seus grandes pensadores, herdeiros n'este ponto, de antepassados gloriosos que foram como que os prophetas da nova era, e que se chamaram Voltaire e Diderot, ensinam-lhe a não condemnar o reu, sem primeiramente o terem ouvido. Exigem mais ainda, para depois sentenciarem.
Exigem que se conheçam as influencias atavicas a que elle obedeceu, o meio em que se formou o seu caracter e se desenvolveu a sua educação, as circumstancias especiaes que na vida o rodearam, o conflicto que o destino estabeleceu entre as fatalidades que o arrastaram e o dever que se lhe impunha.
II
Não venho contar aqui, é claro, a vida de Georges Sand, que de resto, é sufficientemente conhecida. Não venho advogar a causa das suas paixões irregulares, que ella chorou com lagrimas de sangue, e que eu, pela admiração infinita que a grande mulher me inspira, quizera, á custa d'um sacrificio immenso, poder apagar da memoria de todos que a amaram. Era-me tão doce, poder levantar-lhe um altar no meu espirito, sem as dolorosas restricções que a sua desvairada mocidade me impõe!..
Eu queria vêr n'ella apenas os ultimos trinta annos da sua vida, illuminados pelo mais grandioso talento que ainda ardeu em cerebro feminino.
Não posso!..
Para que ella fosse a sublime desenganada, cuja palavra era uma lição, cujo conselho era um dogma, cujo sorriso doce e triste era feito de experiencias amargas e de decepções crudelissimas, era indispensavel que ella tivesse percorrido a Via Dolorosa, ferindo-se em todos os silvedos, precipitando-se em todos os barrancos, dilacerando os pés em todas as urzes da estrada!..
Lembremo-nos comtudo que Georges Sand, filha d'uma ligação irregular e portanto condemnada pela sociedade e pela familia; eternamente combatida entre dois poderes igualmente funestos--o primeiro, a avó _voltaireana_ e sem crenças, o segundo a mãe, plebeia, leviana, inteiramente ignorante,--só poude sahir d'esta situação difficil, dolorosa, causadora de eternos conflictos, pela porta d'um casamento desigualissimo, um casamento que fatalmente a predestinava á desgraça.
Esse casamento fez d'ella--natureza superior, bella e robusta organisação artistica, espirito cultivado e grande--a quasi escrava de uma especie de bruto, sempre ebrio, incuravelmente grosseiro, de gostos baixos, de costumes iguaes aos gostos.
Nada d'isso a desculpa, bem sei. Eu não quero, nem devo desculpal-a. Sei que este virtuoso e sabio mundo impõe a cada mulher a facil obrigação de ser heroica, julgando-a muito feliz por lhe merecer depois um pouco de consideração banal, ou um grão de louvor condescendente!..
Mas a esta mulher em particular, dada a educação que ella tivera e o meio em que viveu por tanto tempo, quem podia dar-lhe forças para levar ao cabo a sua missão de sacrificio? Não tinha uns braços de mãe que a amparassem; um exemplo santo que a fizesse preferir a tudo o incompensado, o obscuro, o aspero dever! Não havia ao pé d'ella uns labios immaculados que a beijassem e lhe dissessem:
--Tem delicias austeras, tem voluptuosidades verdadeiramente dignas das que são grandes, o cumprimento do dever, por mais duro que elle seja. Vaes procurar a felicidade ás paixões ephemeras, que na ebriedade da sua febre romantica te pintaram os artistas e os poetas, cuja obra tem sido o alimento de tua vida interior? Olha que elles todos mentem! O que de lá trarás, do paiz das chymeras azues e das miragens enganosas, é uma sêde de ideal ainda mais ardente, é o tedio da vida ainda mais profundo e mais penetrante; é uma chaga aberta que só em longos annos de renunciamento e de velhice tu poderás sarar, mas cuja cicatriz, eternamente asquerosa, desformizará, para sempre, a formosura ideal do teu genio sublime!--»
Mas ai! ella era moça, tinha a sofrega curiosidade da vida; tinha lido os poetas da paixão; tinha-se contaminado d'aquella febre sensual, que se exhala, como um miasma putrido, dos livros ardentes de Rousseau. O periodo, de resto, era de delirio ardente. Gosar, eis o motte d'essa geração de desequilibrados, nascida d'um beijo entre duas batalhas sangrentas.
Quando ella voltou das suas primeiras excursões ao paiz maldicto onde se respira a _malaria_ dos desejos insalubres, que immensa dôr inconsolavel se evola, como um aroma de morte, das suas tristes cartas!
«O meu coração envelheceu vinte annos! Já nada na terra me sorri! Para mim já não póde haver nem paixões profundas, nem vivas alegrias. Tudo está dito! Dobrei o cabo. Cheguei ao porto, não como esses nababos que regressam em redes de sêda, ao tecto de cedro dos seus palacios, mas como os pobres pilotos, que esmagados pelo cançasso, queimados pelo sol, deitam a ancora, para não exporem mais ao mar a chalupa avariada. Não têem de que viver em terra, e demais a terra aborrece-os. Tiveram antigamente uma bella vida, tiveram riquezas, aventuras, combates e amores. Talvez lhes fosse grato recomeçar... mas como se a embarcação está desmantellada e a carregação perdida?..»
Desesperada, na hora dos remorsos supremos, que os orgulhosos nem a si confessam, sentindo porventura essa dôr incomportavel, que deve ser o tedio de si propria, é a morte que ella chama com lamentos de uma incomparavel e poderosa melancolia.
E voltando depois, d'essa viagem que ficou celebre no mundo das letras, pelos formosos livros que produziu, pelos versos divinos que inspirou, voltando a _Nohant_, ao ninho humilde onde segundo ella propria diz, não póde viver mas onde a morte lhe será mais doce, murmura meigamente:
«Vim dizer adeus ao meu paiz, ás memorias da meninice e da mocidade, porque decerto comprehendes que a _vida me é odiosa e impossivel_ e que é forçoso, absolutamente forçoso que eu morra.»
Oh! quem me dera poder citar largamente, d'essas cartas que resumem uma vida, e uma vida cheia, accidentada, agitada por todas as paixões que fazem pulsar febrilmente um coração de mulher, quem me dera poder citar todos os trechos adoraveis, que me arrancaram lagrimas!..
Sonhadora, que nenhum desengano conseguiu acordar; vizionaria, que nenhuma realidade chama á terra; ave enamorada, a que nenhuma queda parte as azas de enorme envergadura, ella vae sempre, pedindo ás amarguras dilacerantes de uma chymera impossivel, consôlo para as dôres sem nome que outra chymera lhe deixara...
Pisam-n'a? abandonam-n'a? Enganam-n'a? Que importa!
A vida prometteu-lhe a felicidade, e ella vôa, sem cançar nunca, atraz da sombra errante que lhe foge!
Allumiada, a intermittencias rapidas, pela cruel faculdade critica que é a sua superioridade e o seu martyrio, ella despenha por suas proprias mãos do pedestal marmoreo o idolo que as suas proprias mãos ali tinham erguido.
Que importa? Porque se enganára uma vez não é licito esperar que se engane eternamente.
A bella figura immaculada, que a sua phantasia imaginou, ha de vir; não tarda ahi; é mister que ella tenha todo o seu coração vivo e juvenil, para lh'o entregar, renascido das proprias cinzas.
E levantando-se mais vigorosa apoz o desfallecimento de todo o seu ser, e resurgindo mais apaixonada e mais crente da completa derrocada de todas as paixões e de todas as crenças, ella caminha insaciada e insaciavel, peccadora inconsciente, somnambula da paixão, ambiciosa sempre trahida d'essa chymera eterna que se chama amor feliz!
Mas em meio da carreira vertiginosa e febril ha duas forças que a chamam, ha dois poderes secretos que a redimem e a salvam.
A maternidade e o trabalho.
Então no seu horisonte nublado e tempestuoso ergue-se, a principio indecisa e dubia, depois purpurea, victoriosa, flamejante, a luz pura que vae illuminar a vida d'esse grande espirito transviado e enlouquecido.
Os homens pagaram-lhe, com insultos, o amor que, na sua fragilidade, ella lhes teve, mas o filho extremecido, preferindo o appellido glorioso que o genio de sua mãe lhe conquistara ao nome herdado de seu pae, deu-lhe n'este acto de adoração intensa e delicada a desforra de todas as humilhações, a victoria de todas as derrotas.