Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Chapter 11
N'este momento, pois, o ponto interessante e capital a discutir vem a ser este: Dos resultados já liquidados de todas as sciencias particulares poderá sommar-se um capital de conhecimentos positivos, capaz só por si de constituir a moral social?
Se a resposta feita pelos observadores, pelos moralistas, pelos philosophos, fôr affirmativa, que elles tratem de formular esse codigo, visto que a humanidade, eterna tutellada, abomina a independencia da sua propria razão, e preciza de ter escripta, e reduzida a preceitos dogmaticos, cada uma das leis a que tem de subordinar o seu destino.
Se a resposta, por emquanto, for negativa, trabalhe-se no sentido de augmentar as riquezas já coordenadas, e tracte-se de chegar cedo á conclusão pacificadora, pela qual todos nós anceiamos.
Acreditemos, para nossa consolação e para nosso descanço, que ha em nós, independentemente de qualquer principio extranho, embora superior, a aspiração permanente ao que é bom, ao que é bello, puro e harmonioso.
Muita vez, é claro, a paixão desvaira a mulher, mas a mulher religiosa nem sempre escapa a esses desvairamentos, visto que a Historia os aponta nos seculos do mais exaltado ascetismo. Não queiramos particularisar tanto o sentimento da moralidade, que esta não possa viver senão ao abrigo de qualquer templo.
É um mau serviço que fazemos, pois que não nos é dado a nós, nem a ninguem, obstar a que o ideal religioso vá pouco a pouco cedendo o passo á invasão triumphante, embora desconsoladora, da sciencia positiva e experimental.
* * * * *
Escrevendo o que ahi fica, eu não tomo o partido contra as tendencias da minha epocha, nem a favor d'ellas. Sou o relator imparcial do espectaculo a que assisto. Não ha porém, a meu ver, tragedia mais dolorosa do que esta de que o meu tempo é o theatro.
E sinto no fundo desconsolado e escuro da minha alma de mulher, aquella ineffavel tristeza dilaceradora que Virgilio sentiu, quando, pelas florestas do seu Lacio, ouviu passar a voz lamentosa e inolvidavel, que annunciava ás gentes a morte do velho Pan!
Desgraçadas as gerações que são fatalmente condemnadas a assistirem ao desmoronar de um mundo.
_OS IRMÃOS GONCOURT_
I
Um dos defeitos, ou, se preferem, uma das virtudes do nosso tempo é a _curiosidade_.
Somos curiosos de tudo; descemos ás minuciosidades mais microscopicas, e subimos ás mais altas generalisações. Nada eguala o cuidado attento com que reunimos os documentos dispersos, que devem conduzir-nos á acquisição de uma verdade qualquer, senão o poder de synthese com que sabemos, do encadeamento de todos os phenomenos, tirar a lei que os explica, relaciona e domina.
Em cada ramo do pensamento humano se revella, por todos os modos, a nossa insaciavel e inquieta curiosidade.
A litteratura está, como todas as mais manifestações da actividade physica ou mental do homem, subordinada a esta tendencia tão moderna do nosso espirito. Os livros hoje interessam-nos principalmente, por nos revellarem o machinismo interno de quem os escreveu, e atravez d'elle o homem, com as suas contradicções e desordens mentaes, com os seus desequilibrios, fraquezas, vicios e virtudes.
A critica tornou-se uma especie de romance historico, muito mais interessante que os romances da imaginação.
Para conhecermos os homens, e d'entre os homens o escriptor,--quer dizer, aquelle que mais deve ter condensado em si todas as energias intellectuaes do seu seculo--pegamos nos seus livros e analysamos miudamente, scientificamente, anatomicamente essas creações vivas que elle nos legou.
Cada livro é um orgão ainda palpitante do corpo que estamos dissecando.
Não nos contentamos, porém, com o livro, desde logo destinado pelo seu auctor a ser lido e interpretado pelo publico.
Queremos, exigimos, muito mais. As cartas, os diarios posthumos, as confidencias involuntarias, pelas quaes a alma se manifesta irresistivelmente, nas suas particularidades, nas suas idyosincrasias, eis o que hoje nos satisfaz.
É extraordinaria a indiscricção com que temos ido rebuscar todos os documentos do passado, para encontrarmos n'elles a alma occulta, a vida mysteriosa e latente.
N'esse ponto, temos tido como instrumento maravilhoso de investigação e de critica, o nosso proprio scepticismo, o nosso _dilletantismo_ tão moderno, pelo qual nos é facil penetrar em todas as epochas, comprehender todas as civilisações e assimilar todas as idéas, ainda as mais oppostas e as mais extremas.
O passado, porém, já nos não basta. O homem do passado não é o homem d'hoje. O seculo XVII não pensa como o seculo XVIII, do mesmo modo, porque o nosso seculo não pensa como qualquer dos dois.
A alma contemporanea é bem mais complexa. Dizem que o cerebro moderno tem mais circonvoluções. Pudera! Se elle tem por força muitas mais idéas. Tem todas as que tinham os seus antecessores, e mais aquellas de que fez a acquisição por seu esforço proprio.
E depois _sabe muito_, sabe de mais, este endemoninhado seculo! Não ha coisa que não fôsse desenterrar para sobrecarregar mais e mais a memoria e a consciencia.
Os que estão acima do nivel vulgar, os que por sua desgraça, pensam, julgam e criticam, são todos mais ou menos _hystericos_. Ha uns requintes doentios, uma etherisação morbida, um excesso de actividade cerebral no homem da nossa geração, que fôram inteiramente desconhecidos n'outras epocas mais equilibradas e mais sadias. O systema nervoso desconjunta-se-lhes á força de o terem em continua e dolorosa vibração. D'aqui as oscillações e os desequilibrios fataes de todo o mechanismo interno.
Penetrarmos o _porquê_ d'essas aberrações, que nos surprehendem e desorientam nos que são grandes pela imaginação e pelo talento, eis um dos nossos eternos e justificaveis apetites.
É esse que nos leva a devorarmos tudo que são autobiographias, memorias, correspondencias, indiscricções litterarias, sejam de que genero fôrem. As cartas de Julio de Goncourt, o _Diario_ dos dois irmãos, ultimamente publicado por Edmond de Goncourt, fôram, portanto, e estão sendo, objecto da maior curiosidade da parte dos _gourmets_ litterarios de toda a Europa, e não sei se da America tambem.
Os dois Goncourt, por muito tempo desconhecidos e _negados_, são hoje, finalmente, considerados como os continuadores do pensamento de Balzac, sob uma fórma litteraria, mais artistica, mais requintada, mais _tourmentée_ que a do grande romancista da _Cousine Bette_.
N'este exercito, cujos generaes se chamam Flaubert, Zola, Daudet,--são os Goncourt que vão na vanguarda, desbastando a grande floresta, em que Balzac foi o primeiro a penetrar, com as suas passadas de gigante e a força herculea do seu machado de explorador.
Esta geração começa a perceber quanto deve a Balzac; e é realmente honroso para ella, pagar emfim a divida que os contemporaneos d'esse escriptor assombroso, tão grande como Shakespeare, deixaram de solver!
Se os Goncourt são os precursores da escola chamada _naturalista_, e cuja paternidade se attribue injustamente a Flaubert, é fóra de duvida que elles, o proprio Flaubert, Zola, Daudet, e alguns discipulos d'estes, são apenas os filhos espirituaes de Balzac.
Elles são incontestaveis e distinctos artistas; elle era o Genio.
Cada um d'elles tem a sua accentuada individualidade propria. Um, a analyse impessoal, outro a amplificação e a força brutal e desregrada; este a sensibilidade feminina quasi doentia; aquelle a fina intuição psychologica, a _visão interior_ n'um grau de lucidez estranho.
Todos, porém, procedem do Mestre.
O seu largo sôpro creador penetra-os e inspira-os a todos. Nenhum d'elles teria a magistral perfeição technica da fórma e a comprehensão ampla do assumpto que tractam, na altura em que a possuem, se o auctor da _Eugenie Grandet_, do _Pêre Goriot_, e de tantas obras immortaes lhes não tivesse ensinado o caminho a seguir.
Os Goncourt, todavia, sendo os primeiros que se filiaram, sob uma fórma diversa, na escola iniciada pelo genial creador da _Comedia Humana_, nem por isso são os mais conhecidos e os mais apreciados. Só uma limitada _élite_ intellectual seguiu com profundo interesse o trabalho d'estes irmãos gemeos em litteratura.
Duas qualidades predominantes os distinguem. A finura subtil e delicada da analyse e a linguagem que á força de _trabalhada_ adquiriu uma fluidez, uma flexibilidade, uma sinuosidade ondeante, uma transparencia crystalina, uns tons, uns cambiantes, umas côres que a tornam apta para _notar_ e traduzir a impressão mais fugitiva, ou mais rara, o traço mais leve, a sensação mais incoercivel, a sombra mais impalpavel do pensamento, ou do sentimento humano.
Por estas duas qualidades se percebe já que os Goncourt não poderão nunca ser uns escriptores populares. Só os delicados se comprazem n'estas subtilezas da idéa e da fórma.
O que n'elles porém avulta a todos os olhos, é este phenomeno raro de identificação, que fez de ambos _um_ só, sem que possa de modo algum descriminar-se a parte em que qualquer d'elles concorreu para o trabalho commum.
Edmond de Goncourt, quando perdeu o irmão mais novo, que estremecia como uma porção da propria vida, como um membro do seu corpo, ou uma parcella indivisivel da sua alma, ficou por largo tempo emmudecido, no lethargo que succede aos grandes abalos da sensibilidade.
Sahiu d'esse estado, porém, e escreveu entre outros livros, muito inferiores em todo o caso aos que tinham sido collaborados por Julio, um estranho livro, que é necessario lêr attentamente, para que se possa penetrar até certo ponto no segredo da maravilhosa união intellectual, que fazia um só escriptor dos dois escriptores mais requintados e mais vibrantes da moderna litteratura franceza.
Chama-se _Les frères Zenganno_ este livro que, á parte a linguagem, não tem a meu vêr outro merito positivo que não seja a revelação ou antes a critica d'esse phenomeno psychico-litterario de que acima fallámos.
_Les frères Zenganno_ são dois clowns, que trabalham sempre juntos, conseguindo, por um milagre de gymnastica, harmonisar e identificar os movimentos communs.
Percebe-se aqui a allusão ao trabalho litterario em que os dois escriptores consumiram a existencia.
Entremeiados, porém, na obra, um pouco extravagante e levemente phantastica, ha capitulos que são uma confidencia completa, e que mais do que tudo que eu podesse dizer, explicam o caso phenomenal que tanto interesse merece aos observadores, aos criticos e mesmo aos simples profanos da arte.
Oiçamos por exemplo este trecho:
«Os dois irmãos não tinham um pelo outro um simples affecto fraternal. Não. Estavam mutuamente ligados por laços mysteriosos, por affinidades psychicas, e isto apesar de serem de idades muito diversas e de caracteres diametralmente oppostos. Os seus primeiros movimentos instinctivos eram identicamente os mesmos. Experimentavam sympathias ou antipathias egualmente subitas, e quando iam a qualquer parte, sahiam do sitio onde haviam estado, tendo a respeito das pessoas que tinham visto uma opinião inteiramente similhante. Não só os individuos mas tambem as cousas, com o _porquê_ irraciocinado do seu encanto ou do seu aspecto desagradavel, lhes fallavam do mesmo modo a ambos. Emfim, as idéas, essas creações do cerebro, cujo nascimento é d'uma phantasia tão livre, e que tanta vez nos espantam pelo «não sei como» do seu apparecimento, as idéas, de ordinario tão pouco simultaneas e tão pouco parallelas nas uniões de coração entre homem e mulher, até as idéas nasciam commum aos dois irmãos, que não raro, depois de uma pausa silenciosa se voltavam um para o outro para se dizerem a mesma coisa, sem que achassem explicação ao singular acaso que fazia encontrar nas suas boccas, duas phrases que formavam apenas uma só. Assim moralmente _acolchetados_ um ao outro, os dois irmãos precisavam de confundir constantemente os seus dias e os seus serões, separavam-se sempre a custo, e cada um d'elles experimentava na ausencia do outro, o sentimento estranho, indefinivel de alguma coisa de incompleto e de mutilado.
«Quando um tinha sahido por algumas horas parecia que o que sahia levava para fóra o poder de attenção do irmão que ficára em casa, e que não podia fazer mais nada senão fumar até á volta do ausente.
«E se a hora annunciada para o regresso passava, o cerebro do que estava á espera, enchia-se de desastres, de catastrophes, de accidentes medonhos, de preoccupações estupidamente sinistras, que o faziam correr continuamente do quarto á porta da rua. De modo que só forçadamente os separavam; que um, nunca acceitava o convite que o outro não devesse partilhar; e que, relembrando todos os annos da sua existencia commum, elles só recordavam terem passado vinte e quatro horas completas, um longe do outro.
«É necessario, porém, accrescentar que, entre os dois irmãos, este estreitamento de fraternidade fôra feito por alguma coisa de mais poderoso ainda que tudo isto. O trabalho de ambos achava-se tanto e tão bem confundido, os seus exercicios de tal modo identificados, e tudo que elles faziam unidos, parecia pertencer tão pouco a qualquer dos dois em particular, que os applausos eram sempre dirigidos á associação e que nunca o par tinha sido separado na censura ou no elogio. Era d'este modo que estes dois seres tinham chegado ao ponto de constituirem _um_--e caso raro, quasi unico nas amisades humanas--de não terem senão _um_ amor proprio, _uma_ vaidade, _um_ orgulho que o publico feria ou acariciava ao mesmo tempo em ambos.»
Foi trabalhando d'este modo, tão subtilmente descripto pelo ultimo que ficou, ferido e inconsolavel para sempre, que elles, fazendo da physiologia o novo instrumento do romance contemporaneo, e levando para os estudos delicadamente cinzelados da Historia o mesmo escrupulo de analyse e a mesma finura extraordinaria de processo, pintaram, desde _Maria Antoinette_ a adoravel, sympathica, leviana e altiva rainha, até _Germinia Lacerteux_ a pobre e humilde creada, victima inconsciente e fatal de um temperamento de hysterica; desde as deliciosas e corruptas amantes de Luiz XV, até á doce e graciosa _Renée Mauperrin_; desde as endemoninhadas cortezãs do seculo XVIII, até á austera e pensadora madame Gervaisais; conseguindo, ao par d'isto, pôr tanta da vibrante personalidade de ambos em toda a sua obra, que a gente reconhece-os em Charles Demailly, o homem de lettras, victima da sua propria delicadeza organica, e em dezenas de figuras, eminentemente modernas, que atravessam as suas paginas impressionadoras e tão intensas de vida.
Ninguem exprimiu com uma penetração mais intima do que elles, a _nevrose_ contemporanea com todos os seus simptomas de depravação ou desequilibrio moral; a melancholia dos espiritos, exhaustos pelos excessos de actividade mental; as baixas miserias da experiencia quotidiana, tão cheia de catastrophes interiores e de angustias dilaceradoras e invisiveis.
Mas tambem ninguem, como elles, resuscitou, em mais garrida e rendilhada moldura, esse mundo galante, artistico, enfeitado, risonho, frivolo, vicioso e triumphante, que principia na orgia da Regencia e acaba na orgia da Revolução.
II
Depois de Balzac, ou antes d'elle, talvez, o espirito que maior influencia exerceu no destino dos dois irmãos, foi Gavarni, o insigne caricaturista, o desenhador admiravel, a quem mais tarde elles erigiram, n'um livro de grande arte, um monumento de admiração reconhecida e terna e de critica verdadeiramente magistral.
Ainda os dois escriptores estavam como que encerrados na perfumada guarda-roupa d'esse seculo dezoito, que amaram tanto, resurgindo, com o seu poder de evocadores, as interessantes figuras d'aquelle mundo extincto, d'onde nós vimos todos, e que, tão diverso e tão distante é de nós, quando um acontecimento fortuito os fez travar relações com o artista, que mais profundamente _sentiu_ e amou o tempo em que viveu.
Gavarni não comprehendia nem amava o passado. Como Balsac, cujas obras illustrou, o que elle amava, o que lhe prendia a attenção, o que lhe embebia amorosamente o olhar investigador, eram os typos que a cada instante acotovellava pelas ruas.
Os Goncourt fallando em Coriolis, o pintor da _Manette Salomon_, descrevem d'este modo _saisissant_ o artista que se compenetra apaixonadamente dos espectaculos do seu tempo. Este pintor sente o que sentia Gavarni; o que os dois escriptores sentiram tambem mais tarde; e é d'este modo especial de encararem a arte que toda a obra d'elles deriva naturalmente.
«Vagueiava de um lado a outro de Paris, estudando os typos salientes; tentando apanhar na passagem, n'essa multidão enorme de transeuntes, a physionomia moderna; observando os novos signaes da belleza d'um tempo, d'uma epoca, d'uma humanidade; o caracter que se imprime como uma dedada de artista n'esses rostos agitados, febris, o caracter que marca e designa para a Arte; o aspecto exterior dos pensamentos, das paixões, dos interesses, dos vicios, das doenças, das energias d'uma grande capital. A sua curiosidade penetrava essas physionomias de civilisados, que levam o pensamento para tão longe do vago sorrir dormente dos Egyneos, da divina placidez grega; esses rostos devastados pelas idéas, pelas sensações, por todas as acquisicões da actividade moral do homem, extenuados pela complexidade das preoccupações, atormentados pela aspereza das carreiras, pelo trabalho insano, pela difficuldade e agrura do viver.
«E interrogava a expressão das pessoas atarefadas, que passam a correr pelo meio da rua, lembrando formigas n'um formigueiro, com um pacote debaixo do braço, ou um embrulho na algibeira, homens de miseria, que passeiam a sua fóme, em frente do balcão dos cambistas; physicos de larapio, escondendo a maldade do instincto, sob a femenilidade d'uma cabeça de imperatriz romana; figuras estranhas de inventores incomprehendidos, que vão ao acaso, monologando pelos passeios, com gestos inconscientes de actor.
«Estudava aquella belleza singular e espirituosa, a indefinivel belleza da mulher de Paris. Seguia as apparições imprevistas; as caritas irregulares e radiantes; as pequeninas creaturas estranhas, que desabrocham, como flôres, d'entre as pedras da calçada e que, de repente, desapparecem,--com o seu arzinho de costureiras, que vão amanhecer cortezãs--por uma porta humilde e escura, por uma escada ingreme e repugnante. E tentava analysar o encanto d'essas magras raparigas, que teem nas fontes como que o reflexo do candieiro da officina, pallidas das noites perdidas á costura, e como que vagamente torturadas pela nostalgia da preguiça e do luxo. Ás vezes debaixo d'uma touquinha muito pobre, dava subitamente, com uma graça requintada, uma expressão rara, um ar de suavidade martyrisada, de melancholia virginal, que a vida dos grandes centros, o refinamento das civilisações, o fim dos sangues empobrecidos parecem fazer cahir sobre o rosto das costureirinhas miseraveis. Uma vez levou na memoria, para um estudo que principiou no dia seguinte, o rosto da filha d'uma parteira, uma pobre pequenita lymphatica, tão mansinha, tão definhada, tão branca, com os olhos tão cheios de ceu, sob a sombra das pestanas, que fazia scismar n'um anjo doentinho.
«No seu intimo, n'aquella agitação dos seus passeios, havia um mal estar terrivel e indefinido, a inquietação que se apossa do homem abandonado pela religião da sua mocidade. Sentia-se n'esse momento critico, n'essa hora da vida d'um artista em que elle sente morrer dentro de si a primeira consciencia da sua arte; instante de duvida, de tortura contradictoria, de anciedade, em que, incerto a respeito de proprio futuro, hesitante entre os habitos de seu talento e a vocação da sua personalidade, _elle sente agitar-se e estremecer dentro de si o presentimento de outras fórmas e d'outras visões, o começo de novos modos de sentir, de vêr, e de querer!..._
O trabalho interior que, por este modo incisivo e brilhante, os dois Goncourt, aqui descrevem, fez-se n'elles, sob a influencia de Gavarni.
É mais raro do que parece este dom especial, que nos torna, por assim dizer, physicamente sensiveis ás fórmas, ás linhas, ao relevo e ás côres do que nos tem cercado desde a infancia....
Parece que o nosso tempo é aquelle que nós devemos saber pintar melhor.
Nem sempre.
Na arte, o mais difficil é traduzir as coisas simples, as coisas reaes, sem nos afastarmos da exactidão, e sem cahirmos na banalidade.
Pintar por exemplo o aspecto de uma rua; um grupo de gente do povo que conversa e gesticula; uma senhora que passa, bem vestida, discreta, envolvida muito prosaicamente no seu chaile de cachemira, distincta, fina e natural; pôr em attitudes expressivas e _reaes_ duas porteiras que tagarellam; esboçar com rapidez frisante um _decavé_ da Bolsa ou de _baccarat_ que vae andando cabisbaixo, lugubre e banal; desenhar a dois traços um _dandy_ de charuto na bocca e ar _spleenetico_; dar emfim o tom vivo, o destaque poderoso e ao mesmo tempo a nota exacta e verdadeira áquillo em que nós, nem reparamos já, á força de o termos visto milhares de vezes, eis um milagre que só realisam artistas consummados e organisações muito especialmente dotadas.
É muito mais facil ser phantasista do que ser verdadeiro, descrever a largos traços o pôr do sol por detraz de uma cordilheira gigantesca, do que pintar uma paisagem doce, simples, vulgar, que apenas se distinga pela doçura da luz, pela graça enternecedora e humilde da expressão.
A verdade de todos os dias parece impôr-se a todos nós, sentimol-a, vêmol-a, ella penetra-os por assim dizer: pois apezar d'isso tudo, tentemos traduzil-a artisticamente, e veremos depois que esforço, que condensação de vida intellectual, essa pequena coisa tão grande exige de nós!
Pois é positivamente, repetimos, esse dom possuido em alto grau pelo grande pintor de costumes do seculo XIX chamado Gavarni, que elle soube communicar aos dois irmãos Goncourt.
Os que duvidarem que leiam a lancinante, a dolorosa historia tão mesquinha e tão tragica, tão humilde e tão desoladora da creada _Germinia_; que leiam aquelle terrivel estudo chamado Charles Demailly, em que Julio de Goncourt como que advinha e prophetiza as torturas da sua vida de escriptor, e a agonia longa e martyrisante da sua morte de artista ambicioso e incontentado.
Muitas das cartas de Julio são dirigidas a Gavarni. Ha outras a Flaubert, a Paulo de Saint Victor, a Theofilo Gauthier, a Saint Beuve, á princeza Mathilde, a Zola, etc., etc.
Todas ellas explicam, esclarecem, commentam, illuminam, dia a dia, o trabalho constante que os dois irmãos proseguiram, até á morte do mais novo, atravez de todas as hostilidades da critica, da indifferença do _grosso publico_, do desdem de muitos, da ironia incredula, ou do pasmo ingenuo de quasi todos.
O amor da litteratura, este amor que nós, em Portugal, só por ouvirmos fallar d'elle, conhecemos incompletamente, amor que absorve, que encanta, que allucina e que mata por fim--como matou Flaubert, como matou Julio de Goncourt, como matou Balsac, como é muito provavel que mate brevemente Daudet--o amor da litteratura respira-se n'estas cartas com um perfume subtil que as embalsama, e que as impregna admiravelmente.
Póde mesmo affirmar-se que este amor é o maior que domina a vida dos dois irmãos, e que os faz vêr a vida nos livros e atravez dos livros.
E a cada obra bem feita, que sentido e sincero applauso! que vibrar de phrases sonoras traduzindo a admiração, o goso agudo da intelligencia satisfeita!
O estylo, isto que a nós nos parece apenas o instrumento mais ou menos perfeito de que a idéa se serve, e que a outros parece toda a arte, dá-lhes a elles, quando é cinzelado com o primor a que aspiram, prazeres comparaveis aos que nós, os que não commungamos n'essa religião da fórma, temos diante de um grandioso espectaculo da Natureza ou diante de uma sublime acção do homem.
«Ha no seu livro, diz Julio de Goncourt n'uma carta a Michelet, phrases feitas de luz, paginas inteiras de sol, epithetos que se respiram, idéas que fremem e palpitam sobre a haste das palavras!!»