Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias

Chapter 1

Chapter 13,759 wordsPublic domain

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

*Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Agosto 2008)

Maria Amalia Vaz de Carvalho

Alguns homens do meu tempo

Maria Amalia Vaz de Carvalho

Alguns homens

do

meu tempo

A ILL.^ma E EX.^ma SR.^a

D. MARIA MANOELA DE BRITO

(Marqueza de Pomares)

_Minha querida Manoela_.

Para que um livro merecesse o teu nome inscripto na sua primeira pagina, seria indispensavel que esse livro fosse bello na fórma e sincero na intenção.

O modesto volume, que venho offerecer-te, só o segundo requisito póde ter a aspiração de realisar.

Na nossa estreita e leal amisade de alguns annos, amizade em que tens posto os carinhos de uma adorada irmã, eu aprendi a respeitar-te e a amar-te como a um d'esses raros typos femininos de sincera virtude despretenciosa, de alto pensar e de sensibilidade vibrante, que alliam n'uma harmonia felicissima as qualidades d'um grande coração com as faculdades d'um levantado espirito.

Pensas e sentes; comprehendes com singular subtileza e com ampla e ineffavel bondade, tens a curiosidade intelligente, e a sympathia larga e fecunda, que é de todos os predicados d'um entendimento o mais precioso e o mais raro...

Nunca estive perto de ti que me não sentisse _melhor_; nunca ouvi a tua voz, que não conhecesse de que fundo de sinceridade e de força moral ella provinha...

Perdoa-me se, pensando a teu respeito isto e mais do que isto, te faço uma offerta de tão pouca valia.

Muitos dos _estudos_ incompletissimos, que compõem este livro, foram escriptos á sombra chilreada e fresca das arvores da tua senhorial Portella--na companhia grata, carinhosa, dos dois hospitaleiros donos d'essa vivenda pittoresca e lindissima.

Quantas vezes ahi tenho chegado empallidecida, extenuada, doente e triste, e quantas vezes de lá tenho voltado mais vigorosa na alma e no corpo, trazendo no coração, como um balsamo e como um viatico, a imagem d'essa nobre vida de caridade e de abnegação, que partilhas com o companheiro do teu destino, e em que ambos são um suggestivo exemplo e uma excepção inspiradora...

Se outro valor não tivesse para ti este pobre livro, que tu amas porque é meu, bem o sei,--teria o valor de ter sido quasi todo escripto ao pé das grandes arvores que deram sombra aos jogos da tua infancia, e que tu decerto desejarias que emballassem, com a musica harmoniosa e calmante das suas ramagens murmuras, com o gorgeio alegre dos seus ninhos primaverís, o supremo somno que dormirás mais tarde, na serena beatitude das consciencias boas!...

Lisboa. Dezembro 1888.

Maria Amalia Vaz de Carvalho.

_GONÇALVES CRESPO_

As _Miniaturas_ e os _Nocturnos_ são incontestavelmente, e no dizer de auctorisados criticos, dois livros, que pódem classificar-se entre as perolas mais doces, mais preciosas, mais irisadas, da moderna litteratura portugueza. Leva-me hoje um pendor irresistivel a fallar d'esses dois livros, conhecendo que o assumpto, para mim, é a um tempo muito attrahente e muito difficil.

Dir-se-ha, que não póde fallar com justiça do poeta, aquella, que á sua memoria querida está ligada por tão estreitos laços; mas por que elle foi o companheiro da minha vida, o mestre e educador do meu espirito, o amigo inolvidavel cuja morte deixou orphãos os meus filhos, não terei eu direito de ajuntar a minha voz humilde ás vozes, que no paiz em que eu nasci, e no imperio em que elle nasceu, o proclamam um dos mais delicados poetas modernos, um dos cinzeladores mais primorosos da poesia portugueza, um _parnasiano_ no bom sentido da palavra, quer dizer, juntando como Coppée, mas em muito mais alto gráu do que este, a suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, á comprehensão clara, nitida e perfeita de todos os segredos complexos da alma contemporanea?

Parece-me que seriam rigorosos de mais os que tentassem coarctar-me esse direito, e que seria demasiada docilidade da minha parte o sujeitar-me a censores tão intransigentes e tão duros.

De mais, não escrevo eu exclusivamente para ser lida por mulheres? E onde está a mulher que me condemne n'este ponto? Não ha nenhuma, tenho a certeza d'isso.

Gonçalves Crespo não escreveu senão as _Miniaturas_ e os _Nocturnos_. Foram os versos da sua mocidade, colligidos debaixo d'aquelle titulo, que m'o fizeram conhecer e admirar; os _Nocturnos_ póde bem dizer-se que foram escriptos ao meu lado.

A obra do poeta tem pois para mim duas faces distinctas, mas para julgar as _Miniaturas_ sinto-me por assim dizer mais independente e mais livre.

Esse livro foi a revellação primeira, a revellação subita que eu tive d'aquelle, que treze annos depois, quasi que dia por dia, me expirava nos braços, pronunciando o meu nome, que a sua alma angelica, tão depurada pelo soffrimento, tão sanctificada pela resignação, enchia de bençãos.

Foi em 1870 que as _Miniaturas_ viram a luz pela primeira vez, revellando a Portugal todo e a todo Brazil, que um poeta original, delicadissimo, correcto até á perfeição, que um artista de primeira plana, um verdadeiro artista de raça, acabava de nascer para a litteratura portugueza.

Foi esse um bello periodo da curta vida do poeta, hontem desconhecido ainda, hoje acclamado por todos os que tinham no espirito uma scentelha de gosto, e no coração um vislumbre de sensibilidade.

Sobre a banca de trabalho de todas as mulheres distinctas, entre o cestinho de bordado e a jarra de violetas ou de rosas, achava-se então o gracioso volume das _Miniaturas_, e muita voz feminina tremula de commoção, e muita voz de artista, ebrio da belleza da fórma, repetia com enlevo essa doce elegia adoravelmente sentida, que se chama _Alguem_, esse poema de inconsavel e vaga tristeza, que se intitula: _Arrependida_, e a _Noiva_, e o ramo de saudades e de lyrios entretecido sobre o tumulo de _Modesta_ e a esplendida _Nera_, e a esculptural e voluptuosa _Sara_, e a ineffavel e consoladora _Transfiguração_.

Quantos aspectos do mesmo talento! quantas fórmas da mesma phantasia seductora! quantas expansões da mesma sensibilidade fina, subtil, quasi doentia, de requintada que era!

Muito longe do poeta, em um palacio meio arruinado, affastada de todo o convivio social, entre as verduras, as sombras, as caricias inspiradoras da Natureza inculta, vivia então uma creança de alma ardente, de sonhadora phantasia, de indomito imaginar, vizionaria juvenil, de que hoje--taes são as modificações que o tempo faz!--existe apenas, alterado ainda assim pelos annos e pelas agonias, o corpo envelhecido cuja mão escreve estas linhas.

Muitos teem contado essa historia a que a Morte veiu dar o seu tragico remate. Para que alludir a ella aqui? E que importam ao mundo as alegrias e as lagrimas que elle não sentiu nem chorou?

A verdade é que hei de lembrar-me sempre, tão viva se me conserva no espirito essa impressão dominadora, do que eu senti ao folhear pela primeira vez as _Miniaturas_, livro de um poeta para mim inteiramente desconhecido havia algumas horas apenas.

Pareceu-me que era um poeta como aquelle, que eu positivamente tinha esperado havia muito, e que elle chegára; que a minha aspiração indefenida e vaga se tinha realisado. Mais contentamento do que surpreza. A doçura dos que alcançam a praia que tinham desejado em longos dias de navegação monotona.

_Porque tardaste tanto, ó poeta? Eu te esperava Na minha solidão!_

faz elle dizer mais tarde á creança, que eu já fui, exprimindo assim, na sua simplicidade tão artistica, o sentimento de confiante alegria que a minha alma experimentára ao conhecel-o.

Pois bem; esse agudo prazer da intelligencia, completamente, absolutamente satisfeita no goso d'uma determinada obra d'arte, sinto-o eu hoje como no primeiro dia, ao ler as _Miniaturas_.

O talento de Gonçalves Crespo soffreu com a idade, com as mudanças que se deram no seu destino, com a acção tão complexa e tão profunda que a Vida exerce em todos nós, transformações importantes e progressivas; no emtanto para mim, e para muitos dos amigos dilectos do poeta, a mais encantadora, a mais perfumada efflorescencia do seu espirito raro, será sempre aquelle livro juvenil.

Muito mais pessoal que os _Nocturnos_, o volume das _Miniaturas_ lança uma luz mysteriosa e dulcissima sobre a figura singular, um pouco extranha, que foi Gonçalves Crespo.

Muito ao contrario do que geralmente succede, este artista, tão nervoso e vibratil, teve a primavera da vida nublada por todas as sombras, e o estio, de que a morte desfolhou as ultimas rosas, illuminado por todas as suaves e tranquillas alegrias, que a vida póde conceder áquelles que mais ama e a quem mais cedo tenciona abandonar.

É por isso que os _Nocturnos_ de uma belleza de fórma incomparavel, tocados ás vezes por um largo sôpro de epopeia, não teem senão a espaços, a musica dolente, tão enternecida e languida, tão acariciadora das almas tristes, que se prolonga e vibra em longos echos melancolicos nas paginas das _Miniaturas_.

Veja-se por exemplo _Alguem_, uma das peças que mais sympathias conquistaram ao nome do poeta:

Para alguem sou o lyrio entre os abrolhos, E tenho as formas ideaes do Christo; Para alguem sou a vida e a luz dos olhos, E se na terra existe é porque existo!

Esse alguem que prefere ao namorado Cantar das aves minha rude voz, Não és tu anjo meu, idolatrado! Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite me reclino e deito Melancolico triste e fatigado, Esse alguem abre as azas no meu leito, E o meu somno deslisa perfumado.

Chovam bençãos de Deus, sobre a que chora Por mim, além dos mares! Esse alguem É de meus dias a esplendente aurora, És tu, dôce velhinha, ó minha mãe!...

N'estas quatro estrophes está retratada uma alma, estão contadas as tristezas d'um destino, que mercê de Deus se desannuviou mais tarde, mas no qual então se condensavam todas as melancolias intimas, todas as duvidas sombrias, todas as amargas e silenciosas agonias da isolação.

Nem a mulher que elle ama, nos passageiros caprichos da mocidade, nem os amigos que o cercam, lhe matam a sêde de afféctos que o devora e tortura; a mãe, a _dôce velhinha_, essa está longe, essa chora além dos mares, essa nem o vê, nem o acaricia, nem dissolve ao fogo dos seus beijos os gêlos da duvida, que tão cêdo crestaram todas as flôres da mocidade na alma de Gonçalves Crespo.

Nunca houve ninguem mais modesto, mais inconsciente do proprio valor, mais desconfiado de si mesmo, mais dolorosamente torturado pela ideia das suas imperfeições reaes ou imaginarias.

Os requintados suplicios de que esta desconfiança foi origem, manifestam-se bem mais nas _Miniaturas_ do que no ultimo volume do poeta; por isso n'ellas a nota pessoal é mais vibrante, a commoção, por ser mais sincera, é mais directa e mais contagiosa.

Como documento psychologico para auxiliar a critica do poeta e do artista, as _Miniaturas_ são de um valor incomparavel.

II

A poesia de Gonçalves Crespo tinha origens complexas que é mister analysar, para comprehender completamente a belleza e a sinceridade palpitante da sua obra.

Nascido no Brazil, n'esse clima ardente e languido, no seio d'essa natureza exhuberante, que muito mais forte do que o homem, se lhe impõe e o subjuga fatal e irresistivelmente, Gonçalves Crespo foi transplantado,--pobre e delicada planta friorenta e morbida,--para uma região em que nunca se poude acclimar bem.

D'aqui, a doçura nostalgica, a saudade soluçante, que parece evolar-se como um aroma capitoso das suas poesias _brazileiras_, taes como a _Sésta_, _Na Roça_, _a Canção_, _Ao meio dia_, e mais tarde nos _Nocturnos_, as _Velhas Negras_, etc., etc.

Nem Gonçalves Dias, nem Alvares de Azevedo, nem Casimiro de Abreu, se deixaram assim inspirar, tão sincera e vivamente, pelas scenas familiares da vida brazileira, cuja graça pittoresca e especial dá um cunho inteiramente novo aos versos de Gonçalves Crespo.

E que o poeta tinha saudade--uma saudade que lhe estava no sangue, que era parte do seu temperamento, saudade que era um instincto contra o qual elle luctava em vão--de todos os esplendidos aspectos com que os seus olhos, ao abrirem-se á luz, se tinham inconscientemente embriagado.

Um dia de agosto, tropicalmente calmoso, passado no campo, á sombra das arvores, dava-lhe uma excitação penetrante, envolvia-o n'um banho de sensações voluptuosas. Sem mesmo dar por isso, era a lembrança tão viva e tão dominadôra da patria longinqua, que produzia em todo o seu sêr este effeito anormal.

É isto ainda que se traduz na melancolia sonhadora e vaga, d'esse pequeno poema, em que eu já fallei, intitulado as _Velhas Negras_.

Conheceram tanto dono!... Embalaram tanto somno De tanta sinhá gentil!...

Pódem as tristezas mudas d'uma raça escrava ser notadas com uma subtileza maior, com uma doçura mais ideal!...

A simplicidade que dá estes effeitos é que é a grande arte.

Ao longe, evocados magicamente pela voz do poeta, surgem os brutaes senhores, para quem as tristes filhas da raça negra foram o joguete d'um instante, a distracção d'uma hora de tedio ou de preguiça, e ellas, inconscientes, vagamente assombradas, tendo o pasmo silencioso d'um destino extranho, a angustia sem expressão e sem formula d'uma esmagadora injustiça, passaram de mão em mão, cumprindo o seu cruel fadario, e embalando de vez em quando nos braços emmagrecidos ou vergastados pelo azorrague do feitor, uma creança loura, rosada e _branca_ que lhes sorria, dando-lhes n'esse sorriso a indefinida revellação de alguma cousa de superior, de caricioso, de celeste!...

Só n'um coração de filho, e de filho saudoso, de filho amantissimo, pódem retratar-se, tão vivamente illuminadas, pódem destacar-se com tão magistral relevo, scenas entrevistas um dia, nas horas da imprevidente e distrahida infancia.

E a _Sésta_? Qual é a leitora que não ficou sabendo a _Sésta_ de cor!

Na rêde, que um negro moroso balança, Qual berço de espumas, Formosa creoula repousa e dormita, Emquanto a mucamba nos ares agita Um leque de plumas.

Na rêde perpassam as tremulas sombras Dos altos bambús; E dorme a creoula de manso embalada, Pendidos os braços da rêde nevada Mimosos, e nús. ..................................... ..................................... O vento que passe tranquillo, de leve, Nas folhas do engá; As aves que abafem seu canto sentido; As rodas do engenho não façam ruido, Que dorme a Sinhá.

Como se vê bem que este languido rythmo, a vaga suavidade d'estes versos, parecem feitos para acompanhar o movimento cadenciado e lento da rêde, e embalar o sonho de alguma filha gentil d'esse paiz, em que o clima dá ao corpo as preguiças infinitas, e a natureza luxuosa e desbordante dá ao espirito a mollesa, o cançasso fatal d'uma permanente lucta, na qual o homem é sempre vencido pela força inconsciente das cousas!...

Em Gonçalves Crespo havia pois a indolencia atavica, que elle só por extraordinario e doloroso esforço era capaz de vencer temporariamente. Por isso, emquanto as circumstancias excepcionalmente favoraveis lhe não amenizaram a existencia, elle viveu sempre em absoluto desaccordo com o seu meio.

A _lucta pela vida_, essa lei brutal das sociedades modernas, esmagava-o a elle, filho preguiçoso dos tropicos, artista quasi feminino, pela graça delicada e fragil do engenho, pela caprichosa subtileza da inspiração.

E digo muito de proposito _inspiração_, apesar da palavra andar proscripta dos modernos codigos artisticos.

Gonçalves Crespo trabalhava minuciosamente, como o mais esmerado operario, a factura dos seus versos, mas necessitava d'essa influencia qualquer, superior e extranha, que póde vir ao artista do seu mundo intimo, ou do mundo que o rodeia, que póde ser determinada pelo estado especial dos seus nervos, ou que póde provir de mil causas externas e independentes da sua vontade.

III

Quando elle escreveu as _Miniaturas_, dando-nos nas confidencias talvez involuntarias da sua alma, a revellação d'um artista adoravel, duas grandes tristezas o opprimiam, tristezas que elle, seguindo talvez sem dar por isso, o fecundo conselho de Goethe, transformou em poesia, que será lida emquanto se fallar e se escrever portuguez.

Eram-lhe hostis o meio physico e a atmosphera moral em que vivia.

Para ser grande na Arte, creio eu, que é preciso antes de tudo, ser sincero. Nunca ninguem logrou traduzir bem as dôres que não sentiu.

Brutalidades inconscientes do Destino tinham feito d'este moço,--de uma organisação nervosa como a d'uma mulher, accessivel, como os organismos mais sensiveis á influencia de todas as sympathias, gostando de agradar aos que viviam perto d'elle, impressionavel, desconfiado, sempre prompto a julgar-se com severidade injusta,--um estudante pessimo, um filho familia, quasi rebelde.

Queriam que elle, a livre phantasia graciosa e borboleteadora, caprichosa, e facil aos cançassos rapidos e aos tedios anulladores, se cingisse ao estudo arido e disciplinador da mathematica; que elle, exigente, doido por tudo quanto era bello, elegante, fino e distincto, tivesse a economia calculista e minuciosa d'um mediocre ou d'um grosseiro.

D'aqui, as luctas de familia, os descontentamentos do homem intelligente, que se vê injustamente julgado porque lhe prevertem as faculdades em vez de as aproveitarem.

Triste, isolado, sem affectos, descontente de si que não sabia sujeitar-se ao destino, e descontente com o destino que tão hostil lhe estava sendo, Gonçalves Crespo surprehendeu-se um dia a vazar no molde perfeito dos seus versos, as melancolias intraduziveis até ali, do seu pobre coração triturado e desconhecido.

Teixeira de Queiroz, o consciencioso analysta dos _Noivos_, o ironico observador de _Salustio Nogueira_, o pintor pittoresco e impressionista da _Comedia do Campo_, escreveu na terceira edição das _Miniaturas_ um prologo admiravel, um prologo por assim dizer _vivido_, que desenha com singular vigor e com exactidão minuciosa a physionomia litteraria e moral de Gonçalves Crespo.

Elle que foi um amigo da mocidade e um amigo da ultima hora, que recebeu as primeiras expansões do poeta e quasi que o ultimo suspiro do moribundo, comprehendeu bem e soube bem traduzir, a estranha dualidade moral que fazia de Gonçalves Crespo o mais alegre e o mais triste dos homens.

Porque muitos dos amigos d'elle, hão de morrer na falsa persuasão de que o lado menos verdadeiro do auctor das _Miniaturas_ era a tristeza funda, a magoa docemente resignada, que nas suas poesias transluzem. Tinham-n'o por um alegre, um doidivanas de phantasia picaresca e de imprevistas aventuras; formavam-lhe em volta do nome, sympathico a toda a mocidade do seu tempo de Coimbra, como depois se tornou sympathico a todas as classes sociaes de Lisbôa, uma lenda de bohemia extravagante, de ruidosa e turbulenta alegria.

Poucos o conheceram; poucos viram atravez da ironia bondosa e sympathica do seu sorriso, da bonhomia um tanto sceptica da sua palavra, vivamente e pittorescamente original, o verdadeiro homem que elle era.

A mocidade corrêra-lhe tão desflorida e tão triste, que nem os dez annos de tranquilla felicidade, de paz serena e dôce, toda illuminada de affectos intimos, lograram cicatrisar feridas que se lhe tinham rasgado no coração. E que ha mais triste, mais desolador para as almas grandes, do que passarem n'este deserto de homens chamado o mundo, mal julgadas, mal comprehendidas, mal interpretadas, tendo a consciencia de que ninguem cura das suas dôres, ou se preoccupa com os seus intimos e irremediaveis desconsolos?...

As cartas do auctor das _Miniaturas_, as suas cartas inimitaveis e incomparaveis, porque não conheci nunca quem escrevesse cartas mais perfeitas--perfeitas de graça, de simplicidade, de desleixo artistico--revelam-n'o, preza de melancolias incuraveis e extranhas.

Tinha preoccupações e infantilidades de artista. Nunca chegou a perceber a seducção irresistivel que exercia nos que o approximavam; nunca comprehendeu que tinha, como poucos, o dom da sympathia subita que se impõe, que domina e que vence. Se lh'o diziam sorria-se, com o seu sorriso peculiar de que todos os amigos se lembram com uma saudade enorme, feito de malicia e de duvida, de bondade e de ironia, sorriso que era o encanto caracteristico e mysterioso d'aquelle rosto revolto, expressivo e extranho, que tantos affectos inspirou na terra, que ficou gravado em tantos corações que não esquecem.

Esta duvida de si mesmo fazia-o soffrer. Nunca se consolou de pensar de si proprio o que ninguem mais pensava.

Encantadora fraqueza que o torna ainda mais nosso, que faz com que nós as mulheres todas o amêmos, porque se não envergonhou de partilhar as nossas pequenas vaidades, as nossas imperfeiçõesinhas organicas para as quaes o homem tem tamanho e tão altivo desdem!

IV

Tristezas quasi inconscientes do exilio, nostalgias de ave friorenta, visões vagas, indistinctas, radiosas da patria ausente; desgostos de ordem muito particular,--e a pairar sobre tudo isto, uma impressão dolorosa, indefenivel, que nem aos mais queridos elle confessava, mas que ungia de tristeza ineffavel os seus versos, que punha aqui e ali uma nota abafada e dilacerante na harmonia magistral da sua obra,--eis a triplice inspiração, que deu uma vida intensa ao seu primeiro livro, ao livro da sua mocidade, que tão querido lhe tornou logo o nome aos delicados de ambos os sexos.

As _Miniaturas_ teem já dezesete annos, o que é muito para um livro de versos d'este seculo, que fez da rapidez o seu programma e o seu mote, que não estaciona em cousa alguma e muito menos no modo de exprimir o que sente.

Pois apezar de muitos poetas contemporaneos de Gonçalves Crespo terem passado litterariamente, a geração que principia agora, lê as _Miniaturas_ com o mesmo enlêvo com que as leu a geração que vae envelhecendo já.

É que a verdadeira poesia, a que não se filia servilmente em uma qualquer escola transitoria e ephemera, mas a que exprime do modo mais bello e perfeito que é dado á sua epocha conhecer, os sentimentos que formam o fundo inalteravel da alma humana, não perde nunca o imperio que um dia exerceu, atravessa os tempos immaculada e eterna; é hoje o que será sempre, a fascinadora que nos enfeitiça, a amiga cariciosa que nos embala, a confidente que nos ouve, e que chora comnosco...

Muitos teem comparado Gonçalves Crespo a Theophile Gauthier, eu por mim declaro que acho injusta a comparação.

Theophile Gauthier é um perfeito joalheiro, um impeccavel burilador; cada verso d'elle é uma pedra preciosa, facetada, brilhante, admiravelmente engastada em ouro dos mais finos quilates.

Para dar uma forma peregrina aos metaes preciosos, para esmaltar deliciosamente as joias mais lindamente modeladas, ninguem excede o auctor dos _Emaux et Camèes_. Elle proprio o sabia e nunca desejou mais nada.

Em Gonçalves Crespo porém, havia mais do que isto. Havia uma alma transbordante de vida, capaz de comprehender e de traduzir os mais delicados cambiantes, as mais rapidas modalidades das outras almas.

Que intuição que elle tinha de todas as dôres, mesmo das mais extranhas ao espirito e ao coração d'um homem!...

Lembram-se d'aquella perola de tristeza chamada _Arrependida_?

_Ella_ deixára tudo para correr atraz da sua chimera e um dia desperta perdida, irremissivelmente perdida no abysmo de infamia a que uma mão de homem a arrastou:

Ella scisma ao luar! Todo o passado A seus olhos avulta, illuminado Pelos dubios reflexos da tristeza...

Por uma noite assim, limpida e clara, Sua modesta alcôva ella deixára Por esse que ali dorme, e que a... despreza!