Algumas lições de psicologia e pedologia
Chapter 7
A inteligência depende do interêsse, das tendências, que, por sua vez, são funções da estrutura do indivíduo, da natureza da sua experiência anterior e da natureza da experiência de ocasião.
Sendo assim, fácil é compreender porque é que se podem considerar como não inteligentes, certos indivíduos cuja fórma de reacção mental de adaptação se revela dificiente em determinadas circunstâncias, em certos meios.
Percebe-se que, com Binet, se distinga a inteligência escolar da inteligência extra-escolar, se porventura as circunstâncias da escola são muito diferentes das de fóra da escola e os interêsses que a escola desperta são diferentes do que a vida ordinária ou o meio extra-escolar despertam.
Há inteligências que se não revelam na escola.
Verdadeiramente, completamente inteligente, porêm, é o que se ajusta a quaisquer circunstâncias, é o que se mostra inteligente em qualquer meio.
A inteligência não é apenas a inteligência que consiste em adaptar respostas a preguntas, na escola, falando, escrevendo ou calculando, mas tambêm a que se revela por actos e gestos de outra ordem, em circunstâncias de tôda a ordem.
A inteligência julga-se pelo valor adaptivo do gesto ou do acto considerado debaixo do ponto de vista da sua prontidão, rapidez, exactidão e perfeição.
A inteligência não tem um significado cognoscitivo apenas, revelação e utilização de conhecimentos; tem tambêm um significado moral e um significado estético, que se revelam na reacção às variações das condições morais e estéticas do meio, no condicionalismo ético e estético da experiência.
Compreende-se, pelo que lhes vou dizendo, que por exemplo, como faz Van Biervliet, se classifique a inteligência em espécies: _inteligência clássica_, isto é, inteligência que se revela principalmente nos trabalhos da classe, _inteligência prática e inteligência estética_.
Compreende-se tambêm que com propriedade se possa dizer que há uma imbecilidade intelectual, uma imbecilidade estética e uma imbecilidade moral.
Kirckpatrick considerando a inteligência, ou melhor a actividade intelectual, não própriamente sob o ponto de vista da sua finalidade, mas no do seu mecanismo, descreve, quatro tipos de inteligência, tendo como inteligência tudo aquilo que constitui acto de adaptação individual, e assim descreve: um tipo de _inteligência fisiológica_, um tipo de _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_, um tipo de _inteligência representativa_ e um tipo de _inteligência conceptual_ ou _conceptiva_.
A primeira excluo-a eu aqui, porque não depende de fenómenos da _memória associativa_. São fenómenos de adaptação de outra ordem, pura adaptação fisiológica, em que a própria imunização tem o seu lugar.
Dos outros tipos convem dar-lhes hoje uma noção.
Na _inteligência senso-motriz_ ou _perceptiva_ o que há, o que a caracteriza é uma adaptação imediata de movimentos e sensações de ocasião. Estes actos não se manifestam, não se repetem senão quando estímulos da mesma natureza actuam em circunstâncias semelhantes.
Por exemplo certos movimentos que se executam no decurso do jôgo do _foot-ball_, movimentos de equilíbrio, de ataque, de defesa ou melhor os movimentos que, quando tropeçamos e vamos a cair, fazemos para nos equilibrarmos.
São as próprias sensações que experimentamos, que _directamente_ provocam e regulam os actos de adaptação. De factos em relação com esta espécie de inteligência tratei eu num artigo sôbre mutilados da mão, que publiquei na _Medicina Moderna_ do Pôrto, com o título _Inteligência motriz_.
Na _Inteligência representativa_ os actos da adaptação podem ser provocados e regulados apenas por símbolos que se tenham associado a sensações anteriores. O acto pode executar-se em virtude duma experiência anterior regulada por acções semelhantes que víssemos executar ou que nos fôssem descritas. É a experiência anterior de outros a regular a nossa.
Na _conceptual_ ou _conceptiva_ o acto de adaptação revela-se não só na ausência de uma experiência _do mesmo tipo_, feita pelo próprio ou por outrem, vista ou descrita, como se dando nas mesmas circunstâncias, mas em resultado de experiências _várias e diferentes_, do próprio e de outros.
Uma pessoa quando salta dum carro em movimento, pode fazê-lo com sucesso ou porque já o tenha feito outras vezes, e portanto associe as acções sensoriais de momento às reacções anteriores (_inteligência senso-motriz_), ou porque já tenha visto saltar outrem ou lhe tenham dito como se deve saltar (_inteligência representativa_), ou porque reacções diferentes que tenha por si mesmo experimentado, observado ou visto descritas por outros, se tenham associado e combinado por forma a gerar o conhecimento das leis dos corpos em movimento, o que associado às acções do momento regula o acto de adaptação (_inteligência conceptual_).
Em tôdas estas formas de inteligência se verifica a associação dos resultados das experiências anteriores aos das experiências do momento, da mesma natureza ou não. O acto intelectual é um acto de adaptação e de revelação da memória associativa.
Na escola, onde se governa e conduz a experiência do indivíduo, em atenção ao futuro, se utilizam ou devem utilizar e cultivar todos os três tipos de inteligência, e, para a instrução, principalmente os dois últimos.
Mas nem tôdas as idades, nem em todos os indivíduos da mesma idade a _inteligência_ tem o mesmo valor. Compreende-se, portanto, bem o interesse que para o professor tem o saber e o poder analisar os actos intelectuais, por forma a, se assim se pode dizer, obter a _fórmula qualitativa e quantitativa_ da inteligência de cada um.
Pode calcular-se essa fórmula? Pode analisar-se a inteligência? Pode esta avaliar-se? Pode ser medida? Pode.
A inteligência é, se quizerem empregar os termos de Saffiotti: «_a capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações interpretação adequada e conformar com ela a sua reacção_».
A inteligência, perante isto e perante o que lhes tenho dito, deve depender da estrutura do indivíduo, das propriedades inatas, do momento do seu desenvolvimento, e tambêm da natureza e valor da sua experiência anterior, da sua cultura, regulada ou não intencionalmente por outrem.
Ora sendo assim poderá alguma coisa prever-se sôbre a inteligência, estudando a estrutura, as características biológicas do indivíduo, como se pode até certo ponto julgar do valor de um motor, das suas capacidades, pelo estudo do maquinismo, da sua organização, da sua anatomia, da sua estrutura, como se podem prever certas propriedades químicas, certas reacções, observando caracteres organo-nolépticos e físicos de certos corpos. É esta a base da avaliação da inteligência nos métodos que assentam no estudo das correlações psico-somáticas e psico-fisiológicas.
A inteligência pode ser avaliada tambêm analisando a forma, o mecanismo de certas reacções psíquicas elementares, sujeitando o indivíduo a _provas_ psíquicas de diferente tipo e natureza em que sobretudo influi a maneira da actividade intelectual, o tipo ou a espécie da inteligência.
Pode mesmo usar-se provas experimentadas em muitos, usando o que se chamam _tests_, que não são outra cousa do que verdadeiros _reagentes mentais titulados_, ou, se quizerem tambêm verdadeiros _padrões, tipos de reacção_, em que a forma desta e a sua velocidade, foi préviamente _observada e medida em muitos_.
É um tipo de avaliação em que se estuda ou analisa principalmente o mecanismo do acto intelectual, decomposto em elementos. É a base dos métodos de avaliação fundados no estudo das correlações psico-analíticas. Mas assim como na apreciação ou na classificação de um tipo de vinho não basta a analise própriamente dita; há que proceder a uma apreciação global, tendo em vista o fim comercial, por exemplo, a que visa a apreciação, assim tambêm no exame de inteligência é por vezes necessário recorrer a um exame global, em que não se atende apenas ao mecanismo do acto, mas tambêm à sua finalidade e à finalidade da sua avaliação.
Ora o educador não deve apenas preocupar-se com o mecanismo do acto intelectual do aluno, para o caracterizar e escolher o método de ensino que mais convenha. O educador não toma o aluno _em branco_, se assim se pode dizer. Os actos intelectuais que êle tem de regular, a experiência intelectual que êle tem de conduzir, tem um passado que influi e está em estreitas relações com os fins educativos. A experiência anterior do aluno tem uma grande importância e valor, e está dependente da sua idade e do meio em que viveu e vive.
Ao professor, no exame escolar da inteligência, convêm-lhe _reagentes_, _tests_, que precipitem em globo, em massa, se assim se pode dizer, a inteligência e dêem a forma e a natureza desta, e tambêm a da sua experiência anterior.
Se há questão pedagógica em que se possa falar de criança portuguesa, e duma maneira geral de um tipo ou tipos nacionais de criança, é a proposito da inteligência.
O momento histórico regula a inteligência e deve regular a sua formação.
A psicologia de que carece o educador não pode nem deve viver afastada da ética. E se há questão psicológica em que há que atender aos fins da educação, é a da inteligência.
Recordo-me da profunda emoção que me causou a leitura das palavras de um formoso livro, um dos que mais podem contribuir para a cultura do entusiasmo pela carreira de professor, o livro de Münsterberg: _A psicologia e o mestre_. Recordo-me. Diz êle e eu repito:
«_Agora é evidente que o estudo dos meios psicológicos póde ser útil sómente quando as aspirações do mestre tenham sido determinadas pela investigação ética independente do filósofo. Porêm tão prontamente com estes fins, os resultados cada, vez mais ricos da psicologia experimental, devem ser levados ao mestre de tal modo que êste possa conhecer e escolher os meios úteis para a satisfação das suas aspirações._»
A Educação é uma das artes em que a Psicologia serve a Ética.
Está aberto o curso de Psicologia.
INTELIGÊNCIA E APERCEPÇÃO[12]
/# «Notre réprésentation de la matiére est la mesure de notre action possible sur les corps; ele résulte de l'élimination de ce qui n'interesse pas nos besoins et plus géneralemente nos fonctions».
Bergson: _Matiére et mémoire_
«Il faut respecter en nous les lois de la nature, acepter les devoires nés de l'organisme, acomplir les fonctions pour lesquelles on est fait, avec le pouvoir énergétique que l'on posséde. Le but de la vie c'est tout le _perfectionement_ possible, physique ou psychique, par la méthode et la discipline».
Albert Deschamps: _Les maladies de l'esprit et les asthénies_.
«Non seulement une conception mécanique de la vie est compatible avec l'ethique; ele semble être la seule conception de la vie, qui puisse amener á comprendre oú est la source de l'éthique».
L[oe]b: _La conception mécanique de la vie_(tradução francesa). #/
Viver é essencialmente adaptar-se; é a luta pela adaptação, é o esfôrço para o ajustamento do sêr ao meio, acomodando-se, ajustando-se a êle, ou ajustando-o a si próprio. Educar é favorecer, conduzir intencionalmente, metódicamente êsse ajustamento, essa adaptação.
Ora o indivíduo possui em si faculdades, capacidades de adaptação, de ajustamento, de assimilação, de utilização do meio em que vive. Essas possibilidades revelam-se na sua actividade, na maneira porque procede, e desta actividade uma parte, uma forma há que é herdada, que nasce com o indivíduo, que é inata, que não é determinada pela experiência individual, que não é aprendida e outra que é adquirida, que resulta da experiência de cada um, dirigida ou não por outrem.
Por vezes, quási sempre, a forma da actividade inata é favorável ao ajustamento do indivíduo ao meio, à adaptação, às condições em que nasce e ordináriamente se encontra, e a maior parte das vezes tambêm a forma de actividade adquirida é como esta favorável ao ajustamento.
As condições mantendo-se as mesmas, a adaptação verifica-se, as necessidades são conformes à capacidade de utilização dos recursos. O indivíduo está adaptado ou adapta-se por instinto ou por hábito. Se, porêm, as circunstâncias em que vive o indivíduo são muito variáveis, se se rompe o ajustamento, se há conflito entre o instinto ou o hábito e as circunstâncias, o indivíduo pode ou não readaptar-se, pode ou não assimilar o meio, utilizando-o, adaptando-o ou adaptando-se.
Concebe-se que haja seres que se adaptem, independentemente da experiência, seres que nascem pode dizer-se, adaptados a certos meios, e só neles e em precisas circunstâncias podem viver: seres instintivos, ineducaveis, mas sôbre que o educador pode ainda assim influir, colocando-os em meios os mais conformes com os seus instintos, e pela forma mais conveniente à sociedade.
Concebe-se que haja seres que, alêm de se ajustarem por instinto a certas circunstâncias possam em virtude da experiência, conduzida ou não intencionalmente, adaptarem-se a ela, adquirindo estas formas de actividade que se chamam hábitos, seres educáveis sôbre que o educador pode actuar criando os hábitos que mais convenha, e que, como tive ocasião de lhes dizer, mostrar e demonstrar o ano passado, deve fazer-se segundo certas leis induzidas de experiências scientíficas que se têm realizado.
Concebe-se finalmente que haja seres que não só se adaptem por instinto, ou por hábito, que não só se adaptem a precisas circunstâncias, mas se adaptem tambêm fácilmente a novas circunstâncias, encontrando nelas sempre maneiras de se ajustar, de com elas viver em concordância, sêres inteligentes, sôbre que o educador deve actuar variando o mais possível as condições da experiência educativa, para que o mais possível tambêm se apure este dom sublime da inteligência, do poder de utilizar o meio, que é a base da felicidade e do progresso.
Só é verdadeiramente livre, quem é suficientemente inteligente.
Na lição da abertura do curso de aperfeiçoamento do ano passado, lição que intitulei _Da inteligência do escolar e da sua avaliação_, lição que devem ler, citei e adoptei, para certos casos, a definição de inteligência do Professor Saffiotti:
«Inteligência é a capacidade de estabelecer novas relações entre a própria personalidade e as novas condições; é a capacidade de tirar destas relações, _interpretação_ adequada e conformar com elas a sua reacção».
A inteligência é função portanto da interpretação e só se revela quando a interpretação é adequada e a reacção a que a interpretação conduz por sua vez se revela em actos de adaptação.
Ora é êste poder de _interpretação_ que se chama a apercepção. A inteligência depende da apercepção, da maneira porque se interpreta. Quem interpreta por uma maneira inadequada às conveniências da sua adaptação, não se adapta, reage por forma desfavorável, não procede com inteligência.
Vêem já portanto quanto interessa o estudo da apercepção. Leiam particularmente sôbre esta o que vem da pág. 430 à 434 da tradução francêsa do compêndio de Psicologia, de William James, 4.^a edição.
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A interpretação ou apercepção depende de uma série de condições que, como verão em James, Lewes denominou _a soma das condições psicoestáticas_: a natureza do indivíduo, o seu carácter, a sua experiência, a sua educação, os seus hábitos, o seu humor, etc. A apercepção é uma faculdade intelectual contingente, que depende dos mais variados factores, desde, os mais materiais aos mais espirituais, desde as necessidades do corpo às necessidades do espírito (usando a linguagem corrente), e sôbre que, tanto pode actuar o médico como o professor, tanto o gimnasta como o filósofo.
O aspecto físico, a forma do corpo por si indicam tendências, certas aptidões psicológicas, certas necessidades, certos interêsses que conduzem a experiência do indivíduo por forma a ele entrar em contacto com o meio em que vive, e que por sua vez conduz a determinada interpretação dele, e portanto o leva a reagir e proceder e adaptar-se por determinada forma. O psicólogo se quere descobrir a alma tem muito a ganhar em conhecer o corpo. Se quere prever a fórma de reacção do indivíduo tem que estudar os orgãos dessa reacção; se quere ser psicólogo a valer tem que ser antropólogo. O que tudo quere dizer que: psicólogo e antropólogo, psicologia da criança e pedologia física, se devem entrelaçar, se podem e se devem estudar conjuntamente.
As anomalias mentais da criança explicam-se por vezes fácilmente se se estudar a forma, os caracteres do seu corpo, se se julgar do grau do seu desenvolvimento físico, se se vê se o crescimento nela é normal ou não.
Há caracteres mentais que são sintomas de alterações orgânicas, e perturbações do crescimento que o médico pode corrigir para o professor depois aproveitar.
Há no nosso corpo um órgão até cuja influência sôbre a inteligência é tal que alguem já o chamou _a glândula da inteligência_ (Pende).
É tal a importância que o estudo da anatomia e da psicologia tem para o psicólogo que nos modernos trabalhos sôbre as astenias, defeitos ou insuficiências da energia orgânica, vícios de funcionamento orgânico, se se caracterizam êsses defeitos pela insuficiência revelada nos actos de adaptação social, e se vai até a explicar a moral e a filosofia de muitos por essa insuficiência de origem fisiológica, aparecendo-nos a moral como um ramo da biologia e a filosofia como uma arte dos psicasténicos.
Pierre Janet, um dos maiores psicólogos da nossa época, foi até a afirmar que talvez a filosofia não passasse duma doença do espírito. A filosofia, de facto, parece a consequência, a revelação duma actividade interpretativa filha de uma atitude mental, duma tendência anciosa para a procura de relações entre as cousas e os factos que nos cercam e se passam no meio que nos circunda, e que as dificuldades de adaptação, e a insuficiência da adaptação em certos gera.
Seja como fôr, o que lhes quero acentuar é que o estudo da psicologia e em particular o da _apercepção_, que será o objecto principal do nosso curso dêste ano, tem muito a ganhar iniciando-se pelo estudo da influência das condições orgânicas neste fenómeno, e mais particularmente ainda pelo estudo da influência que tanto na forma do processo aperceptivo, como na maneira por que se interpreta, como na natureza dos conhecimentos que se utilizam, influi o tipo fisiológico da criança, as suas tendências inatas, a sua constituição, o seu temperamento, e a fase do crescimento em que se encontra.
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Esta influência do organismo na apercepção, de que lhes tenho estado a falar, esta influência do condicionalismo fisiológico na interpretação das circunstâncias e na adaptação a elas, é já uma influência do passado no presente, é a hereditariedade a comandar-nos, é, pode dizer-se a tradução fisiológica do mote que tantos têm já glosado: _os mortos mandam_.
Mas não é só por esta forma que o passado se mistura com o presente e nos governa, nos impõe até certo ponto uma interpretação do presente, e nos regula, a nossa adaptação às novas condições. É tambêm, e talvez ainda mais, pelo resultado da nossa própria experiência, regulada, intencionalmente ou não, pelos outros, resultado das modificações que nas nossas reacções vai introduzindo o contacto diário com o meio em que se vive, com a natureza e com a sociedade, resultado da interferência das acções desta com as nossas reacções.
Dia a dia as nossas tendências, os nossos interêsses, o nosso saber, o nosso carácter, a nossa experiência, são postos à prova, e dia a dia nos vamos consumindo na emprêsa do ajustamento das nossas reacções às circunstâncias.
Impressiona-nos mais não o que é própriamente mais forte ou mais novo, mais estranho, mas o que é mais forte e estranho para nós, aquilo que é novo para o ponto de vista dos nossos interêsses, que cahe na zona do nosso saber e das nossas necessidades e que nós nos esforçamos naturalmente por assimilar na tendência vital, orgânica, da nossa adaptação. O que não sabemos, não vêmos; o que não experimentamos não sabemos.
Palavras estranhas ou letras associadas mesmo ao acaso, tendemos a interpretá-las e a lê-las, em nossa língua. Desenhos informes, nuvens que o acaso amontuou, manchas que o acaso estampa, borrões de tinta, tudo tendemos a interpretar como se fossem formas conhecidas e segundo os nossos conhecimentos e até certo ponto os nossos interêsses. Sempre o passado a mandar; sempre segundo a nossa mentalidade e a nossa experiência!
O mundo, a interpretação do que nos cerca, é função do nosso organismo e da nossa experiência ou saber.
A realidade é uma interpretação, consoante os nossos interêsses, e os nossos interêsses expressão da nossa organização e da nossa experiência, experiência livre, ou intencionalmente condicionada, como sucede na educação.
Meditem as palavras de Bergson que, livremente mas fielmente, julgo, assim poder traduzir:
«...O nosso carácter, sempre presente a tôdas as nossas decisões é bem a síntese actual de todos os estados por que já passámos. Sob esta forma condensada, a nossa vida psicológica anterior existe para nós mesmo mais do que o próprio mundo externo, porque dêste apercebemos apenas uma muito pequena parte, enquanto que pelo contrário utilizámos a totalidade da nossa experiência vivida já, experimentada e feita.»
Como que há, como Bergson tambêm diz, uma tendência constante do passado a reconquistar a sua influência, actualizando-se.
Dir-se-ia que só o génio não tem passado.
Vejam quão longe nos leva, e interessante e vasto é êste tema da inteligência e da apercepção.
* * * * *
Não imaginem, porêm, que apesar da _linguagem de subjectivo_ que venho empregando, se não pode tambêm em _linguagem de objectivo_, ia dizer em linguagem scientífica, em termos das sciências experimentais, não imaginem que se não podem tambêm interpretar, adoptando uma concepção mecânica da vida, estes fenómenos da apercepção e da inteligência, própriamente dita.
Reportando-nos a um notável trabalho de Bohn sôbre a _dinâmica, cerebral_, (_Rev. Philosophique_, março-abril de 1919) adoptemos a concepção que êle defende de que nos fenómenos psíquicos se verifica uma das grandes leis da sciência física, _a lei dos fenómenos recíprocos_. Quando se comprime um cristal de turmalina o cristal por êste facto electriza-se e a electrização desenvolve fôrças que se opõem ao encurtamento do cristal.
Quando se aquece um cristal de turmalina o cristal electriza-se tambêm; a electrização traz consigo um arrefecimento do cristal.
Dir-se-ia que o cristal que se electriza, apercebe a variação das circunstâncias e tende a reagir de acôrdo com a interpretação adequada. Afinal é um sistema de fôrças, orientado segundo um certo plano, que caracteriza o cristal e que reage contra as acções que tendem a perturbar-lhe o equilíbrio ou alterar-lhe o plano.
Pode conceber-se tambêm o indivíduo como um sistema de fôrças organizado segundo um plano hereditário, tendendo a reagir às acções externas ou internas por maneira a opôr-se ao desiquilíbrio do plano da sua organização, caracterizado por certas propriedades vectoriais, isto é que se manifestam em determinadas direcções ou segundo certos vectores (instintos, tendências, interêsses).
A cada acção vectorial ou polarizante corresponde, segundo Bohn, uma acção recíproca inversa, despolarizante.
Quando se excitam os sentidos, a excitação que é transmitida ao cérebro e dirigida depois aos músculos, às glândulas e às diferentes vísceras provoca excitações em sentido contrário, que provêm de todos estes domínios e vem por sua vez depois a reagir sôbre os primeiros receptores. Os centros nervosos são excitados pelos sentidos e estes excitados pelos centros nervosos. A interferência destas duas espécies de ondas nervosas, daria a memória associativa, revelando-se na apercepção e nos actos que a exteriorizam.