Algumas lições de psicologia e pedologia
Chapter 5
O _test_ consistia em agrupar dois a dois os carrinhos do mesmo tom e côr. Não foi só a falta de material, mas tambêm o desejo de lhes indicar um processo muito simples e económico, que me levou a improvisar êste processo, em que as côres se sujam menos e se pode fácilmente renovar. Fora de uso, é preciso conservar as côres ao abrigo da luz.
Nas experiências que fiz na Casa Pia utilizei um dos _jogos educativos_ do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp. Êste jôgo é formado por quatro cartões, como os cartões do lôto, cada um dêles tendo pintado sôbre papel, que lhe está colado, uma série de figuras todas do mesmo tamanho, representando bandeiras de côres e tons diferentes, cada uma delas de seu tom e côr. As bandeiras são quatro por cartão, tôdas da mesma côr, no mesmo cartão, e em cada um dêstes dispostas pela ordem de quantidade de côr, sendo a primeira a mais carregada e a última a mais leve. Num dos cartões as bandeiras são de côr azul, noutro de côr verde, noutro de côr vermelha e noutro de côr amarela. Alêm dêstes cartões há uma série de cartões pequenos, cada um com sua bandeira, de sua côr e tom, a que corresponde uma igual nos cartões grandes. Utilizei êste jôgo, dando a cada aluno, e de cada vez, um cartão grande, sôbre o qual deviam colocar os cartões pequenos correspondentes. Após o exame de cada cartão grande, misturavam-se os cartões pequenos, os cartões já aplicados e os que restava aplicar. É um verdadeiro lôto.
Numerando nas costas os cartões pequenos, pode exprimir-se o êrro, por confusão, indicando-o por meio de uma expressão semelhante a um quebrado, em cujo numerador se escreva abreviadamente a côr e indique o número do tom do cartão grande, e em cujo denominador se escreva abreviadamente tambêm a côr e se indique o número do tom do cartão pequeno, que erradamente sôbre o primeiro se colocou.
Alêm desta prova sujeitei tambêm os alunos da Casa Pia, que examinei, a uma outra, que consistia no aproveitamento de um outro lôto de côres da colecção do Dr. Decroly e M.^{lle} Mochamp. Nesse lôto há quatro cartões, em cada um dos quais figuram quatro homens jogando a bola. Cada um deles figura vestido de certa côr, e cada uma das bolas com que está jogando tem a sua côr tambêm, mas diferente daquela. Alêm dos quatro cartões grandes, há uma série de cartões pequenos com figuras correspondentes à do primeiro.
A criança tem que colocar um pequeno cartão no lugar do cartão grande, que lhe corresponder. Como se vê, tem de fazer simultâneamente a identificação de duas côres. É um verdadeiro _test_ de atenção.
Estes lôtos ou lôtos semelhantes podem fabricar-se na própria escola, e constituem meios, muito interessantes para a criança, de lhe testificar a visão das côres e, como se verá mais para diante, de lhe educar a atenção e de a instruir.
Ao médico interessam principalmente as discromatopsias adquiridas, não só porque algumas são curáveis, visto serem de natureza tóxica, mas sobretudo porque são muitas vezes um sinal importante e precoce de graves lesões ópticas.
Ao educador, porêm, importam particularmente as discromatopsias resultantes da falta de atenção. Tive já ocasião de vos dizer que a instrução supre muitas vezes, até certo ponto, a cegueira das côres, o que faz com que o daltónico não só ignore a sua cegueira, mas até engane os outros, por distinguir objectos de côres diferentes e apropriadamente denominar diferentes côres que aliás não vê.
Mas é principalmente nos falsos daltónicos, naqueles que trocam os nomes às côres, por ignorância, e nos que as não distinguem por falta de atenção e exercício, que o educador tem muito a lucrar, ensinando a denominar apropriadamente as côres e sobretudo a discriminar-lhes as nuances. Os exercícios que se empregam na chamada educação dos sentidos e que mais própriamente a meu vêr se deve chamar a educação da atenção dos sentidos, porque o que se educa e aperfeiçoa principalmente não é o sentido em si, mas a maneira de o aplicar, êsses exercícios têm tambêm, áparte a sua acção sôbre a atenção, esta faculdade que é a base do que vulgarmente se chama inteligência escolar, a faculdade de aprender, êsses exercícios, repito, têm tambêm uma acção notável na educação do poder discriminativo, que é o que regula, e torna mais seguros e exactos, os juízos. Mas mais ainda. Como as côres têm um poder emocional, umas excitando e outras deprimindo, o que até em terapêutica se utiliza, elas podem servir para a educação do sentimento estético, preparando a criança para a emoção pelas obras da Arte e pelas da Natureza, o que tudo tem um grande valor moral. A criança é muito sensível a êste poder emocionante das côres e nele afinal está a razão da aplicação dos velhos estimulantes escolares: as condecorações e os cromos, e do útil aproveitamento no ensino das estampas coloridas. E a propósito vos chamarei a atenção para um livrinho muito interessante, intitulado: _O nosso Portugal_, trabalho do distinto professor da Casa Pia e meu dedicado amigo e colaborador, o Sr. professor Fernando Palyart Pinto Ferreira, de mais a mais discípulo desta Escola, livrinho que tive o prazer de prefaciar, e que é, entre nós, assim o julgo, a primeira aplicação consciente dos princípios fundamentais da psicologia visual infantil.
No _Método Montessóri_, de que agora tanto se fala, e que, vai para um ano, a Câmara Municipal de Lisboa mandou dois dos seus mais distintos professores, um discípulo desta Escola, o Sr. professor Rosa y Alberty, da Casa Pia, e sua esposa a Ex.^{ma} Sr.^a D. Pulcena Estrela da Costa, antiga aluna da Escola de Ponta Delgada, mandou, dizia, estudar êsse método com a sua própria autora, que se encontrava em Barcelona, no _Método Montessóri_, a educação da visão das côres tem um lugar importantíssimo. Nêle se faz uma inteligente aplicação pedagógica do processo de diagnóstico de que vos falei, o processo das lãs de Holmgren. Dá-se uma amostra de lã ou de retrós, de uma certa côr e tom, e manda-se a criança procurar uma igual, entre muitas outras de diversas côres e tons; mostra-se-lhe duas ou três côres e manda-se depois a criança ir procurá-las, de cor, de memória; ensina-se a criança a nomear as côres e os tons; a própria professora mostra-lhas, nomeando-as, dizendo-lhes os nomes por fórma a atrair a sua atenção, usando de tom e maneiras que seduzam a criança, e por vezes finalmente se organiza com as crianças da escola um jôgo em que cada uma por sua vez é encarregada de ir fornecendo às outras as côres e os tons que estas lhe vão pedindo, e que depois cada uma tem de agrupar e seriar.
Êste _Método **Montessóri**_, de que tanto agora se fala e que vai avassalando os jardins de infância e as escolas primárias de todo o mundo, não é bem uma novidade pedagógica, nem, como alguns supõem, uma simples moda, uma fantasia. Nem novidade porque nele se encontra a aplicação e por vezes a reprodução, pura e simples, de métodos de outros, nem simples e inútil moda ou fantasia, porque assenta nas mais sólidas bases da psicologia da criança.
A Sr.^a Montessóri teve o condão de com estranha eloqùência fazer a propaganda do método de educação dos sentidos de Froebel e principalmente das variantes adoptadas pelos médicos e professores dos asilos de crianças anormais. Fez e faz uma inteligente propaganda da aplicação dos métodos adoptados na educação dos que sofrem de insuficiência mental de origem patológica, àqueles em que apenas existe a insuficiência fisio-psicológica, própria da sua idade, aqueles em que por assim dizer existe um atrazo normal. E a Sr.^a Montessóri, médica e antropologista como é, encontrou meios excelentes de fazer essa aplicação. É sobretudo o notável aproveitamento que faz do _instinto dramático_ da criança, procurando educá-la pela emoção e por isso, ou deixando-a representar, e guiando-a na representação, ou tornando-a um espectador interessado, atento e entusiasta, que ouve bem o que propositadamente diante dêle se faz, e que depois reproduz por imitação.
Há porêm, na escola Montessóri, e principalmente na exposição dos métodos da Sr.^a Montessóri, misticismo a mais e froebelianismo a mais tambêm. E quando digo froebelianismo, quero referir-me ao êrro pedagógico do método froebeliano: à confusão da simplicidade lógica com a simplicidade pedagógica. Aos olhos da criança as formas que nós chamamos simples, as fórmas abstractas, não são as fórmas mais simples; no concreto e no complexo está muitas vezes o que parece mais simples à criança, porque a interessa mais.
Em português têm as senhoras e os senhores um livrinho interessante e bom para fazer uma idea do método Montessóri; é o livrinho da Sr.^a D. Luiza Sérgio, intitulado _Método Montessóri_; e se quizerem conhecer, alêm de uma apologia, uma severa censura e crítica à Sr.^a Montessóri e ao chamado seu método, leiam um artigo de Guido della Valle no n.^o 6 de Janeiro de 1911, da _Rivista pedagogica_, revista italiana.
Nos jogos educativos do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, a educação do sentido cromático tem tambêm um lugar importante. Alêm dos lôtos de que falei a propósito do exame do sentido cromático em rapazes da Casa Pia, há outros lôtos, e um dominó curioso, que muito interessa os pequeninos (já o tenho experimentado em meus filhos), um jôgo de dominó constituido por uma série de pequenos cartões, aproximadamente do tamanho das pedras do dominó vulgar, cartões a cada um dos quais estão, num dos lados, colados, lado a lado, dois papéis, cada um de sua côr. Joga-se como se joga o dominó. O aspecto, que a série dos cartões toma no fim do jôgo, interessa muito as crianças. E já que de novo falei nos jogos educativos do Dr. Decroly e de M.^{lle} Mochamp, dir-vos hei que cada um de vós terá muito que lucrar, lendo o pequeno folheto que acompanha a colecção daqueles jogos que o Instituto Jean Jacques Rousseau, de Genebra, costuma vender, folheto intitulado _Jeux educatifs_, e onde todos encontrarão compendiadas excelentes sugestões, úteis não só para improvisar processos de educação dos sentidos e de instrução tambêm, mas até material de ensino, que, pode-se dizer, qualquer pode fabricar. Inspirados naqueles jogos se pode dizer que são os processos e o material que se empregam na classe de anormais que no Instituto médico-pedagógico da Casa Pia de Lisboa, à Travessa das Terras de Santa Ana (a Santa Isabel), funciona sob a direcção do professor Fernando Palyart Pinto Ferreira e de sua esposa a Sr.^a D. Lucila Carmina Lopes de Santa Clara, distinta professora oficial, antiga aluna tambêm da Escola Normal de Lisboa, que com o Sr. professor Cruz Filipe, da classe de ortofonia, e o Sr. Joaquim Almada, da classe de dizer, comigo ali trabalham.
Minhas Senhoras e meus Senhores Meus Alunos
Agora mais do que nunca é preciso organizar os serviços de instrução por fórma que na educação se vise o aproveitamento de todos, a valorização de cada um, ao máximo, aumentando o mais possível o rendimento de suas faculdades. A guerra pede-nos os mais fortes e os melhores. Na paz só nos poderemos salvar, compensando o sacrifício que fizemos, valorizando ao máximo os que restarem, os que escaparem, e os novos. Temos infelizmente não só que suprir as faltas de todos os dias, as faltas triviais, mas alêm destas as formidáveis perdas que por certo resultarão dêste monstruoso acidente da vida do mundo: a actual guerra. Por isso há que tratar cada um dêstes homens embrionários, dêstes cidadãos _in herbis_, que nos confiam, há que tratá-los por fórma a bem medirmos o valor das suas faculdades e préstimos incipientes, e por meio da sciência, e com tôda a arte, aproveitar-lhas e desenvolvê-las e encaminhá-las o melhor possível. Não. Não podemos nem devemos como até aqui limitar-nos a aprender métodos de ensino, quási na ignorância e desprendimento do conhecimento da natureza e características da criança.
¿Que se diria de um alfaiate que nos quizesse fazer um fato, sem medida? ¿E sobretudo que se diria ao ver que o fato que nos destinava não nos servia, não se ajustava ao nosso corpo e ou nos tolhia os movimentos ou nos cobria de ridículo? ¿E com mais razão, que se diria do educador, que no desconhecimento da natureza da criança, a educasse, deformando-lhe a mente, prejudicando-lhe o carácter, e obstinando-se em adoptar processos os menos conformes com o seu temperamento, os menos convenientes para um inteligente aproveitamento da sua personalidade, e os menos conducentes à sua felicidade e afinal à nossa própria, porque são as crianças de hoje quem amanhã nos há-de governar e julgar? Vós respondereis.
Para vos ensinar a conhecer a criança e para vos ensinar a pelo seu conhecimento melhor aplicar e escolher os métodos que os vossos professores de pedagogia e de prática vos ensinam, para isso aqui estou.
Ajudai-me com a vossa atenção e eu vos ajudarei com a minha experiência, com o meu modesto saber e com a minha dedicação a mais sincera.
Está aberto o nosso curso dêste ano.
Belêm, 3 de Dezembro de 1916.
SÔBRE UMAS PROVAS DE EXAME DA ATENÇÃO VOLUNTÁRIA VISUAL[10]
Minhas Senhoras e Meus Senhores:
Havia eu prometido ocupar-me na série de _conferências pedagógicas_ organizada na última gerência ministerial do senhor professor Ferreira de Simas, havia eu prometido, ocupar-me, dizia, do ponto: _A pedologia prática e a prática do ensino na escola primária_, e prometera tambêm que essa minha conferência serviria êste ano de lição de encerramento do curso de Pedologia que tenho tido a honra de reger na Escola Normal de Lisboa. Sucede, porêm, que o meu último trabalho dêste ano foi industriar os meus alunos na prática da medida da atenção voluntária visual, e sendo assim pareceu-me poder conciliar o compromisso tomado com a necessidade de comentar as observações que, sôbre aquela fórma de atenção periférica, fizemos na escola anexa à Normal Primária de Lisboa, pareceu-me poder conciliar o compromisso com a necessidade do comentário, aproveitando as observações feitas para, por uma maneira mais concreta, dizer o que tencionava dizer sôbre o ponto que escolhera e a que a princípio pensára dar uma fórma mais teórica e geral.
O assunto: _a atenção e a sua medida_ é um ponto capital de pedologia psíquica aplicada à educação.
A atenção é a base do que Binet chamou a _faculdade escolar_, a faculdade de aprender na escola, a faculdade de assimilar o ensino nela ministrado, pelos métodos mais usuais. Para ser bem sucedido nos estudos são precisas, diz com razão ainda Binet, qualidades que dependem sobretudo da atenção, da vontade e do carácter. E «saber manter a atenção dos escolares, apropriar o grau de atenção à dificuldade e à importância do trabalho a realizar é quási tôda a arte do professor», diz Van Biervliet. Portanto, debaixo do ponto de vista da importância, creio ter escolhido um ponto excelente. E quanto ao que queria principalmente demonstrar na minha conferência: a possibilidade de praticar estudos pedológicos, sem perturbação nem prejuízo das funções e obrigações didácticas, nenhum melhor assunto serviria para defender esta tese do que êste: a atenção e a sua medida. Alunos meus tiveram ocasião de ver que, em alguns minutos, se poderia sem perturbar a classe, nem alterar o ensino, fazer importantes experiências que entre outras coisas podem ser aproveitadas para conhecer os alunos debaixo do ponto de vista da atenção, descobrir anormais, medir a fadiga, julgar horários, programas, métodos de ensino, e até ensinar a estar atento.
Tem sido sempre minha principal preocupação o professar pedologia que possa directamente aproveitar ao ensino primário, não aconselhando senão processos de observação e experiência, fáceis, compatíveis com a preparação dos alunos da Escola Normal Primária, e que não distraíam os mestres das obrigações didácticas, e antes pelo contrário contribuam para que melhor as cumpram, fazendo sempre lembrar-lhes que, mais do que ministrar noções, lhes compete preparar o espírito dos alunos para as receber, e para isso é indispensável saber conhecer os alunos, saber o que são, conhecer a personalidade de cada um, e saber-lhes aproveitar o feitio. Esta tem sido de facto a preocupação principal e a orientação com que tenho preparado as minhas lições e elas claramente se notam nas três lições que já publiquei:--_O ensino da pedologia, na Escola Normal Primária_, _O pêso do corpo da criança_, e _A agudeza visual_ _e a auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_.
Minhas Senhoras e meus Senhores:
No ensino ordinário da escola primária utiliza-se e treina-se muito a atenção voluntária visual verbal, isto é, utiliza-se e exige-se um estado de espírito em que o aluno voluntáriamente toma a atitude que mais convêm para receber as estimulações visuais determinadas pelas palavras escritas. Não será a fórma de atenção mais útil para a vida, porque no mundo ambiente, como diz Van Biervliet, a atenção não tem que dirigir-se, orientar-se, concentrar-se sôbre as fórmas verbais das cousas, sôbre a descrição dos factos, sôbre os resumos dos acontecimentos, mas sim sôbre as próprias cousas, sôbre os próprios factos, sôbre os próprios acontecimentos; não será portanto a fórma mais útil para a vida, mas é uma das mais úteis para o sucesso na escola. Alêm disso, por meio da sua medida, se podem resolver vários problemas escolares, principalmente porque por meio dela se pode medir a fadiga escolar. Aqui têm, pois, V. Ex.^{as} mais uma razão, e afinal a principal, da escolha que fiz do tema da minha lição de encerramento, que vai versar: _sôbre umas provas de exame da atenção voluntária visual,_ _colhidas em alunos da, escola anexa, à Normal Primária de Lisboa_.
Mediu-se a atenção pelo método da _correcção de provas_ (método de Bourdon), utilizando umas vezes o _test_ de Toulouse e Vaschide, uma fôlha impressa com 1.600 sinais, figurando cada um deles um pequeno quadrado com um traço do mesmo tamanho, dirigido para fora, e orientado segundo 8 direcções, o que dá lugar a 8 sinais diferentes, fôlha que obtivemos mandando reproduzir a que acompanha o vol. II da _Técnica de psicologia experimental_ de Toulouse e Piéron (edição de 1911), outras vezes utilizando trechos do livro de leitura habitual dos alunos da 4.^a classe da escola anexa, mandando nele riscar determinadas letras, uma ou duas, num tempo determinado (cinco minutos em regra) ou riscá-las, cortando-as numa certa porção de trecho, em que de antemão tinhamos verificado qual o número de letras escolhidas que nela havia, número que a criança, riscando as letras, deveria verificar, recomeçando o trabalho tantas vezes quantas fôssem precisas para alcançar o número de letras que no trecho existiam e que nós lhe haviamos préviamente indicado (processo de Van Biervliet). Mediamos assim a atenção pela correcção ou pela velocidade ou pela correcção e velocidade com que as crianças suprimiam sinais do _test_ de Toulouse e Vaschide ou letras dum trecho do seu livro de leitura.
O método que empregámos é aquele que permitiu a Binet verificar, numa escola primária de Paris, a coincidência da classificação dos alunos, debaixo do ponto de vista da atenção, feita por meio dos _tests_ colhidos em alguns minutos de experiência, com a classificação dos mesmos alunos feita pelas notas do professor, notas resultantes duma apreciação longa e demorada. E a propósito vale a pena lembrar que, citando estes factos, Binet acentuou que o êxito escolar resulta mais da atenção do que da inteligência, que o aluno mais atento pode não ser o mais inteligente e que por isso não é de estranhar que as crianças, que os _tests_ levam a considerar como inteligentes, não sejam sempre as mais adiantadas, as que mais aproveitam, as que dão melhores _tests_ da atenção.
O mesmo método de medida da atenção que pratiquei e fiz praticar aos meus alunos é um dos que permitiu a Ley demonstrar que os movimentos respiratórios lentos e amplos, dilatando vagarosamente e largamente o torax, com as espáduas bem aproximadas, sem elevação dos braços nem elevação do corpo sôbre as pontas dos pés, são um excitante da atenção voluntária, e foi êle que com o método dos _tempos de reacção_ tambêm permitiu a Ley verificar que um repouso de quatro minutos, sem execução dêsses exercícios respiratórios, actua muito menos benéficamente sôbre a atenção do que quando durante o mesmo tempo se executam movimentos respiratórios pela fórma que acima precisei.
Foi tambêm empregando êste método da _correcção de provas_ que eu obtive _tests_ da atenção em alunos da escola primária oficial de Belêm, sem classe de trabalhos manuais, e em alunos do mesmo grau escolar, da Casa Pia, com bastante prática de trabalhos manuais, _tests_ que me permitiram sustentar e demonstrar no meu discurso: _Da influência dos trabalhos manuais no desenvolvimento do espírito_, que os trabalhos manuais treinam a atenção, melhoram a atenção.
As primeiras experiências que fizemos na escola anexa foram praticadas utilizando o _test_ de Toulouse e Vaschide.
A medida da atenção por meio da supressão de letras ou sinais equivalentes funda-se no facto de numa série de percepções análogas, monótonas, tenderem essas percepções a alterar-se, a enfraquecer, a apagar-se, sendo necessário para evitar essa alteração e fazer com que as percepções continuem a efectuar-se correctamente, que a atenção voluntária intervenha, procurando assim fazer manter a intensidade inicial dos fenómenos sensoriais. Se a atenção voluntária tende a enfraquecer, a baixar, as percepções deixam de se efectuar uma ou outra vez, ou efectuam-se incorrectamente, e nós podemos medir essa baixa, o gráu de atenção, examinando os erros e a variação da velocidade do exame, durante um certo lapso de tempo, em que o examinando colhe uma série de percepções da mesma espécie e gráu (percepções monótonas).
Mandando riscar as letras num trecho em língua conhecida, o exame pode ser perturbado pela influência da leitura do texto, pela compreensão do texto, pelo sentido das palavras, sendo muito difícil, se não impossível, a quem não está habituado a abstrair, fazer com que só se procurem letras e não se leiam as palavras.
Tem-se procurado evitar êste inconveniente ou dando trechos em língua estranha ou empregando _tests_ como o de Henrotin (_Contribution à l'étude de l'atention visuelle chez les enfants_, in _Rév. de Pédotechnie_, n.^{os} 2 e 3, 1914), em que a prova é constitùida por uma fôlha com 832 letras, repartidas em 26 linhas de 82 caracteres de imprensa bem separados e muito nítidos, de maneira a evitar confusões, letras que, como por exemplo o _a_, o _e_ e o _u_, se encontram repartidas duma maneira irregular e por fórma tal que nada há que possa indicar ao examinando nem o lugar, nem o número das letras cuja supressão ou indicação se pede. Sucede, porêm, que nem tôdas as letras do alfabeto são igualmente visíveis, nem tôdas chamam igualmente a atenção, como o faz notar Van Biervliet; umas, como êle diz, o _x_ por exemplo, atraem pela sua raridade, outras como o _f_ e o _b_, letras ao alto, extensas, chamam mais a atenção do que as letras baixas _e_ e _r_, por exemplo. Entre estas, umas há bastante largas como o _m_, que nos impressionam mais, outras mais altas do que largas, outras tão largas como altas, etc. Para evitar estas diferenças que podem perturbar o exame, a medida da atenção, é que Toulouse e Vaschide propuzeram a sua prova, uma prova de sinais igualmente interessantes, que podem servir mesmo para os que não sabem ler; tem alêm disso a vantagem de evitar a influência do hábito da leitura e revisão de provas.