Algumas lições de psicologia e pedologia

Chapter 4

Chapter 43,878 wordsPublic domain

M.^{elle} Yoteyko, a ilustre professora belga, considera como indispensável na escola normal a prática de um exame do sentido cromático, por causa da importância que a diferenciação das côres tem no ensino. É sua opinião tambêm que a êsse exame devem ser obrigatóriamente sujeitas tôdas as professoras dos jardins de infância e, mais ainda, atribúi-lhe, e com razão, grande valor no exame pedagógico dos alunos da escola primária.

E isto lembra-me as palavras do professor americano Rowe, quando num dos seus livros, diz: «na cegueira das côres está muitas vezes a explicação da aparente estupidez que revelam certas crianças das nossas escolas, diante dos mapas».

O exame fisio-pedagógico que o ano passado se começou a praticar nesta Escola, deve ser ainda mais ampliado do que foi êste ano, e quando êste assunto, a _visão das côres_, não fôsse julgado como de maior importância, para servir de mais a mais de tema a uma lição de abertura de curso, bastaria para justificar-me e dar-lhe o valor que lhe contestassem, o tomá-lo como pretexto para chamar a atenção para êste capítulo importante e quási virgem entre nós, do exame das aptidões.

Hoje, minhas senhoras e meus senhores, a fisiologia e a psicologia, não são apenas sciências de gabinete, simples curiosidades, domínios de investigação scientífica desinteressada, ramos de conhecimentos sem maior aplicação e utilidade. Não. O fisiologista e o psicólogo têm hoje o seu lugar até na oficina, até na fábrica. A êles se recorre não só para julgar das aptidões do operário, mas até para regular a própria técnica. Opera-se neste momento uma profunda reforma nas indústrias, visando a levar ao máximo o rendimento de cada operário, recorrendo-se para isso à fisiologia e à psicologia. É o _tailorismo_ que avança, é a organisação scientífica do trabalho.

A fisiologia e a psicologia são tam úteis, mesmo fora dos domínios da Medicina, que neste momento, até em plena guerra elas figuram, sendo os seus processos de análise regular e obrigatóriamente praticados no exame dos candidatos a aviadores, êsses heróicos soldados, que nesta guerra, formidável pela sciência e pela barbaría, tanto influem na estratégia. Na nossa legislação militar, a propósito da inspecção médica dos candidatos a aviadores, já se fala do exame das reacções psico-motrizes. Mas mais ainda. A _psico-fisiologia_, de que em suas proveitosas lições muitas vezes vos fala o Sr. professor Dr. Alberto Pimentel, logrou até encontrar aplicação em pleno campo da refrega, onde por exemplo, M. Lahy, chefe dos trabalhos práticos de psicologia experimental na Escola de Altos Estudos de Paris, e actualmente mobilizado como oficial, teve ocasião de com notável utilidade aplicar os seus métodos de estudo a gloriosos soldados da Argonne, durante a tremenda campanha de Verdun.

E, minhas senhoras e meus senhores, se a psico-fisiologia presta já tantos serviços na escolha dos candidatos a operários e em soldados, porque não há-de ela ter tambêm o seu lugar no exame dos candidatos à profissão de professor?! Pensai nisto, que é nesta arte que andais a aprender: a arte de educar, que é mais necessário rigorosamente escolher os mesteirais, porque são êles que lidam com a mais preciosa e delicada das nossas matérias primas: a criança, e se ocupam da mais importante de tôdas as indústrias: a indústria da formação de cidadãos úteis, prestimosos na sua profissão, excelentes nas suas virtudes físicas e morais, e no seu amor à Pátria!

Meus Alunos:

A visão das côres e a aptidão a discriminá-las não se revela logo após a nascença, nos primeiros dias. Factos que a sciência regista levam a supor que essa faculdade visual se manifesta _claramente_ e _indiscutívelmente_ só ao fim de alguns meses. Ao poder de discriminação das côres, segue-se o de nomeá-las. É interessante fazer notar o facto de que a criança aprende mais fácilmente os nomes das cousas do que os das côres. Citam-se casos em que crianças de dois anos e mais, conhecendo perfeitamente os nomes de certos frutos bem característicos, pela sua fórma e pela sua côr, uvas, morangos e laranjas, não sabem no entanto apropriadamente aplicar-lhes os nomes das côres que ostentam.

Trace, professor da Universidade de Toronto, que examinou vários vocabulários infantis, da língua inglesa, chama a atenção para o facto de ter encontrado apenas perto de trinta nomes de côres num vocabulário de mil e cem palavras. E várias vezes, diz êle, não encontrou, em vocabulários de crianças de dois anos, um só nome de côr, não obstante essas crianças possuirem já de trezentos a quinhentos vocábulos.

Um outro facto a pôr em destaque é o de que a criança pode discriminar as côres, possuir vocábulos para as nomear, mas não associar correctamente a côr ao seu nome. Parece que é esta a principal dificuldade que a criança tem no reconhecimento das côres.

Creio que foi o professor Monroe, professor de Psicologia em Westfield, quem realizou o maior número de experiências sôbre o sentido cromático de crianças, de três a sete anos de idade. São curiosas as conclusões a que chegou. As meninas distinguem, em geral, mais fácilmente, as côres, e reteem mais fácilmente tambêm os nomes destas. Esta superioridade no sentido cromático é mais acentuada dos cinco aos sete anos do que antes, e está de acôrdo com a superioridade do sentido cromático que as estatísticas dos defeitos de visão das côres levam a atribuir à mulher, onde êles são menos freqùentes. E como essa superioridade se revela mesmo nas idades em que as crianças dos diversos sexos têm as mesmas ocupações, pode-se atribui-la a uma diferença sexual inata, em que talvez se possa tambêm, como alguns fazem, encontrar a causa do coquetismo, da garridice das côres dos trajos da mulher.

As experiências sôbre a visão das cores nas crianças, são muito delicadas, por serem difíceis e muito sujeitas a erros. Para se fazerem, ou se lhes mostram côres e se lhes perguntam os nomes, determinando a percentagem dos erros cometidos, ou se nomeiam côres e se pede à criança que as vá indicando ou escolhendo numa colecção de objectos, iguais ou diferentes, diversamente coloridos, ou se lhes mostra uma côr e se pede para dentre muitas diferentes escolher uma igual, ou, e êste é o processo de escolha na criancinha de tenra idade, se observa a sua expressão fisionómica e a sua mímica, vendo se ella sorri ou chora, ou se assusta, ou se aproxima, ou se afasta ou, mais precisamente, medindo, contando como faz Baldwin, que considera como a melhor maneira de julgar do valor dos estímulos sensoriais na criança, o estudo das reacções motrizes que êles provocam, e principalmente os movimentos da mão, contando, como eu dizia, o número de movimentos de aproximação ou atracção, e o dos de recúo ou repulsa, que as diferentes côres provocam, quando mostradas a distâncias diferentes.

Para terminar esta parte da minha lição, dar-lhes hei conta ainda de dois factos mais, que interessam muito ao estudo da visão das côres na criança.

Lehman notou que as côres que a criança reconhece mais fácilmente são aquelas cujos nomes melhor sabe, e notou mais ainda que os tons que não têm nomes especiais não são por elas reconhecidos.

Outro facto tambêm de que vale a pena tomar conhecimento e fixar é de que experiências de diversos levam a considerar como côres de maior predilecção na criança, o vermelho e o azul.

Assim como há diferenças individuais na sensibilidade à luz, que permitem discriminar diferentes graus de intensidade luminosa, assim como há diferenças individuais na sensibilidade visual que permitem discriminar, pela fórma, os objectos a distância, assim há diferenças individuais na sensibilidade visual que permitem discriminar as côres e perceber as variações de tonalidade de cada uma delas. E do mesmo modo que há cégos que sentem a luz mas não vêem os objectos, há cégos que vêem os objectos mas não lhes vêem as côres. Há de facto indivíduos, raros é verdade, que vêem os quadros mesmo os mais ricos em colorido, os mais variegados, como se fôssem pintados em cinzento, de vários tons.

Há tambêm indivíduos, e estes na percentagem aproximada de 3 a 4% no homem e 1 a 2% na mulher, que discriminando algumas côres como o azul e o amarelo, não distinguem o verde do vermelho e vice-versa.

Para alguns dêstes indivíduos, como dizia Arago, as cerejas nunca estão maduras. E neles compreende-se que possa suceder, como diz M.^{elle} Yoteyko, que não vejam os morangos, num morangueiro carregado dêles, ou não descubram um lápis de lacre, em cima de um relvado. É a êste grupo de cegos cromáticos ou indivíduos daltónicos, que pertencia aquele de que Fuchs por exemplo fala no seu _Manual de Oftalmologia_, que queria remendar um fato preto com um pedaço de pano encarnado, julgando que êste era preto!

A cegueira total para as côres ou _acromatopsia total_, a cegueira parcial para as côres ou _acromatopsia parcial_, a cegueira especial para o vermelho, ou _aneritropsia_, e outros defeitos cromáticos de menor vulto ou _discromatopsias_, denominam-se muitas vezes, em globo, _daltonismo_, termo que mais própriamente se deve empregar nos casos de _aneritropsia_, ou cegueira para o vermelho.

A palavra _daltonismo_ deriva de Dalton, nome do célebre físico inglês, que vendo que confundia as côres das flôres, examinou o espectro solar e constatou que a parte do espectro que se chama vermelha, lhe parecia apenas quási uma sombra, quási um feixe sem luz (vid. sôbre êste assunto da visão das côres um livrinho excelente que muito vos recomendo: o livrinho de M.^{elle} Dr.^a Yoteyko, _Aide-mémoire de psychologie expérimentale et de pédologie_, vol. 1, _Les sensations_, pág. 309).

Há indivíduos que confundem os nomes das côres e que no entanto não sofrem de discromatopsia, pois discriminam bem as côres e os seus tons; são apenas ignorantes. Assim, por exemplo, sucedia a um doente do Hospital de S. José, examinado pelo meu prezado amigo e distinto oftalmologista Dr. Costa Santos, hoje director daquele Hospital, que lhe falava de um «azulinho côr de alface», não obstante distinguir bem os tons azuis e verdes.

Em contraposição há _daltónicos_ que com tôda a propriedade chamam vermelhas as cerejas e verdes as fôlhas, mas que não distinguem o vermelho do verde; empregam os qualificativos verde e vermelho, por os ouvirem empregar aos outros. Há mesmo mais: há _daltónicos_, que distinguem um objecto verde de outro igual, mas em vermelho, não própriamente porque a _qualidade_ da côr os impressione, mas sim pela _quantidade_ da côr, pelo seu pêso, pela quantidade de pigmento que contêem. Se êsses objectos fôssem um vermelho e outro verde, mas de tons da mesma quantidade, igualmente leves ou igualmente carregados, então não os distinguiriam, confundi-los-iam, achá-los-iam perfeitamente iguais.

Está-me lembrando neste momento um dos nossos mais notáveis oftalmologistas e até por sinal grande apreciador de quadros, que me confessou e por fórma bem sincera e brilhante, que sentia mais ou menos o vermelho, mas quási não via o verde; para êle o verde e o vermelho são tão distintos como o azul e o amarelo. E na mesma ocasião em que isto ouvia, um colega que assistia à conversa, informou-me de que um dos nossos melhores paisagistas não distingue fácilmente os tons de certos objectos que vê e está pintando. Sofre da dúvida das côres.

As discromatopsias ou defeitos da visão cromática, passam por vezes desapercebidas aos indivíduos que deles sofrem. Assim como há _míopes inconscientes_, de que o ano passado por exemplo falei na minha lição de abertura sôbre a _agudeza visual e auditiva, sob o ponto de vista pedagógico_, há _daltónicos inconscientes_. E um dos mais notáveis exemplos que dêles se pode apresentar é o que Fuchs menciona no seu _Manual_: um médico de uma companhia de caminhos de ferro, médico encarregado de examinar o sentido cromático dos candidatos a empregados da companhia, que o procurou para lhe pedir algumas instruções sôbre os métodos dêsse exame, e que Fuchs no decurso da conversa e em vista dos erros que notou que êle cometia no exame das provas, verificou ser um daltónico, e nem mais nem menos do que cego para o vermelho!

A cegueira ou a simples diminuìção da agudeza cromática pode ser congénita ou adquirida. Há lesões oculares que a determinam e discromatopsias há que são atribuíveis a intoxicações, pelo álcool ou pelo tabaco.

Van Biervliet atribui certas discromatopsias congénitas a uma acção resultante de hereditariedade por falta de treino do sentido cromático nos ascendentes.

Interpretando, como em regra se interpreta, a diferença séxual notável que existe entre a percentagem das discromatopsias no homem e na mulher, com vantagem para esta, ao maior uso que esta faz do seu sentido cromático, notávelmente aplicado em certos trabalhos como os trabalhos de bordadora e de modista, profissões muito espalhadas entre os indivíduos do sexo feminino, generaliza e diz que os visuais, cujos pais eram pintores, iluminadores, mosaístas, etc., nascem, graças ao treino realizado pelos seus ascendentes, com uma retina e centros visuais mais sensíveis às côres. É uma opinião, de resto discutível.

Tendo examinado todos os candidatos à matrícula no 1.^o ano desta Escola Normal, pela fórma que adiante descreverei, àparte uma ou outra hesitação, discromatopsias própriamente ditas só em dois candidatos, senhoras, encontrei, verificando uma confusão notável de tons do amarelo, com que experimentámos, amarelo canário claro, e amarelo gema de ôvo.

A visão das côres tem sido particularmente estudada nos escolares anormais. Zihen cita casos de atardados de doze a quinze anos, com suficientes conhecimentos escolares, podendo sustentar uma conversa sôbre assunto simples, mas incapazes de reconhecer as côres. Ley, cujo trabalho sôbre o _atraso mental_, em escolares é o mais bem documentado que conheço, e que observou 110 crianças da escola especial para atardados, de Antuérpia, que tive o prazer de com o maior proveito e na companhia do seu director o Sr. professor Yack, tive o prazer, dizia, de visitar, por sinal um mês antes de rebentar a guerra, Ley encontrou 23 crianças com graves defeitos da visão das côres, e 45 reagindo normalmente, correctamente, seriando de cinco a seis tons de oito côres diferentes. Pode haver, portanto, em face de tudo o que dissemos, crianças inteligentes com fraca visão das côres ou mesmo cegueira, e inferiores mentais com boa visão cromática.

Vale a pena citar tambêm, nesta altura, o facto mencionado por vários e verificado por M.^{lle} Descoeudres, de Genebra, de que as côres mais vulgarmente confundidas pelos anormais são o azul e o violeta. M.^{lle} Descoeudres cita tambêm no seu _Manual_ para a educação de anormais, como notável, o caso de um rapaz epiléptico, que desde os oito aos treze anos, apesar de tempos a tempos se lhe mostrar uma série de fichas ou tentos, de côr azul ferrete com uma ficha de côr violeta, de permeio, pedindo-se-lhe que indicasse aquela ficha que não era como as outras, êle não a encontrava, não obstante compreender bem a pergunta. Êste rapaz confundia tambêm o verde-malva com o azul claro.

Há na visão das côres um elemento que importa muito considerar: é a atenção. A falta de atenção explica muitas vezes erros da visão das côres, que à primeira vista se poderiam ter como sinais de daltonismo. Ao lado do daltonismo verdadeiro, há um falso daltonismo, uma cegueira de distracção, que não própriamente cegueira ou incapacidade de visão das côres.

Numa série de rapazes da Casa Pia, principalmente entre aqueles atardados, que com onze, doze e treze anos de idade, ainda freqùentam a primeira classe de instrução primária, tendo dois a três anos de casa, observei eu que alguns, quási todos, cometiam erros graves na visão das côres, mas erros que variavam com a natureza do _test_ e com a hora do exame. O aluno 4.337 que de manhã, antes de começar as aulas, apenas confundia o verde claro com o azul claro, e alguns tons de verde, entre si, à tarde, logo em seguida à quarta hora da aula, confundia alguns _tons verdes com tons vermelhos_, como se se tivesse tornado daltónico de manhã para a tarde. Era a fadiga que lhe diminuia a atenção, e o levava a cometer erros dêstes. O aluno 305, êsse ainda mais claramente mostrava que os erros que cometia na visão das côres resultavam de falta de atenção, pois que quási não cometendo erros no exame discriminativo de vários tons do vermelho, verde, azul e amarelo, na mesma sessão cometeu erros tais que confundia roxo com vermelho, alaranjado com amarelo claro e azul com verde, simplesmente porque tinha de atender de cada vez a duas côres, que se mostravam ao mesmo tempo. Olhava só para uma, a que cobria uma maior extensão, e que êle distinguia perfeitamente, não se importando no entanto com a outra, para que aliás se lhe chamava tambêm a atenção. Bem diz M.^{lle} Descoeudres a propósito da visão das côres nos anormais: «é preciso sempre entrar em linha de conta com o factor atenção, por causa da qual se torna difícil o pronunciarmo-nos sôbre as noções de côr nos anormais.»

Não basta para explicar as anomalias da visão das côres invocar por exemplo uma das duas teorias clássicas da visão cromática: a de Yung-helmholtz ou a de Hering. Não basta explicar, como se faz na primeira destas teorias, explicar, por exemplo, a cegueira para o vermelho, pela ausência, na estrutura da retina, de uns elementos que são mais particularmente sensíveis ao vermelho e nos dão esta sensação, e dizer que, faltando êles, a luz vermelha impressiona os elementos principalmente sensíveis à luz verde, e que nos dão a sensação do verde, fazendo assim com que o vermelho nos impressione como se fôsse apenas um tom daquela côr. Não basta explicar, como se faz na teoria de Hering, a cegueira para o vermelho e para o verde, pela falta de uma substância foto-química, alterável pela acção da luz vermelha e da luz verde, e que conforme o sentido da alteração origina a sensação do verde ou do vermelho. Não. É necessário lembrarmo-nos que a atenção é elemento muito importante, a considerar tambêm na visão das côres, podendo só por si dar origem à confusão delas, sem que haja própriamente incapacidade orgânica para a visão.

Há uma concepção filosófica da visão, devida a Tscherning (vid. _Année psichologique,_ 1914, pág. 43), que permite compreender bem a influência que a atenção pode ter na visão. Tscherning compára a sensibilidade visual à sensibilidade táctil e diz que se pode considerar os raios luminosos, que dimanam do exterior para a retina, como uma espécie de antenas invisíveis, presas ao fundo dos olhos e que com êles se movem, antenas com que nós examinamos os objectos. São o que êle chama os _fotóforos_. Se tivessemos um só fotóforo estariamos nas condições de um cego, que se guia com a ponteira da bengala; como, porêm, temos vários fotóforos, quando olhamos para os objectos, como que passeamos sôbre êles esta espécie de retina aparente, como que os apalpamos, examinando-os atentamente, tal como sucede quando julgamos do paladar de uma substância, saboreando-a com atenção. É uma concepção interessante, que me parece permitir muito bem fazer uma idea da influência que a atenção pode e deve ter na apreciação das qualidades dos corpos pela vista, e entre elas a côr.

O exame da visão das côres na escola pode permitir explicar insucessos que se dão no ensino por meio dos mapas e das estampas nas lições de cousas, e nos lavores, mas, àparte êste préstimo, tem tambêm o de por vezes servir para orientar o aluno na escolha da profissão. O professor deve sempre preocupar-se com o futuro do aluno. Ao daltónico são vedadas certas profissões, principalmente nas carreiras marítima e militar e na de maquinista, onde se é obrigado a guiar-se, como sucede nos caminhos de ferro e nas embarcações, interpretando sinais de côres diferentes. Esta questão tem tanta importância que num excelente manual inglês de higiene escolar se consagram, no capítulo que trata dos olhos e da vista, bastantes linhas à questão do exame da visão das côres nos que deixam a escola, por terem terminado o seu ensino (_the leavers_).

São muitos os processos adoptados no exame da visão das côres, e pode-se dizer que não são de mais, visto que muitas vezes é necessário sujeitar o indivíduo a vários exames, para descobrir-lhes os defeitos ou melhor para verificar o defeito. Aquele que pretende ingressar em carreira em que se liga grande importância à visão das côres, serve-se de vários meios ardilosos, tendentes a vencer a barreira que se lhe põe do exame rigoroso a que são sujeitos; chegam a estudar os _tests_, a habilitarem-se para o exame médico. Aprendem a ser observados, e a enganar. E compreende-se que possam chegar a fazê-lo, visto que, como já tive ocasião de dizer nesta lição, o daltónico pode distinguir as côres, sem as vêr, atendendo únicamente à quantidade e não à qualidade da côr, e pode apropriadamente aplicar-lhes os nomes. Na criança é preciso contar sobretudo com os erros que comete por ignorância e falta de atenção. Uns e outros podem levar a considerar como daltónico, quem o não seja. Não é bom o processo de perguntar os nomes das côres à criança, para julgar da sua visão. O melhor é mostrar, sem nomear, um tom de uma certa côr e mandar escolher entre muitas uma côr e tom igual.

Os processos mais comummente empregados são os das lãs de Holmgren, os dos quadros pseudo-isocromáticos, como os de Stilling, e os das luzes de lanterna, como o de Edridge Green, por exemplo.

Com as lãs, escolhe-se no meio de muitas meadas, de várias côres e tons, uma de certa côr e tom, e manda-se procurar uma meada que lhe seja perfeitamente igual. Pode-se tambêm escolher, por exemplo, meadas de três côres diferentes, mostrá-las, misturá-las depois com as outras, e mandá-las procurar, ou ainda mandar separar as meadas por côres, e seriá-las para cada côr, segundo os tons. Nos quadros pseudo-isocromáticos há letras ou outros sinais de côres diferentes sôbre fundos coloridos por tal fórma que um daltónico não os possa distinguir.

Com a lanterna mostra-se, a distâncias diferentes, luzes cuja côr e tom se faz variar por meio de vidros apropriados. Etc.

A agudeza da sensibilidade cromática mede-se por fórma semelhante àquela por que se mede a agudeza visual própriamente dita. Empregam-se, para isso, quadros especiais, com sinais de diferentes côres, e de determinado tamanho, e escolhidos por maneira a que se saiba de antemão as distâncias a que são ordináriamente vistos por normais. No exame da agudeza cromática vê-se a que distância são vistos pelo examinando e compára-se esta com aquela a que normalmente elas se vêem.

No exame dos escolares da classe especial de Antuérpia, a que no decurso desta lição já tive ocasião de me referir, Ley empregou uma colecção de meadas de lã, de oito côres diferentes e cinco a seis tons por cada côr. Examinou _isoladamente_ cada um dos escolares (e esta precaução é importante porque evita os erros por imitação), e para examiná-los apresentava-lhes uma meada de lã verde-pálido, e _sem lhes nomear a côr_, mandava-lhes escolher, entre as meadas, todas as que fossem da mesma côr, tanto as de tom mais leve, como as de tom mais carregado. Esta prova era seguida de uma outra semelhante em que em vez de uma meada verde-pálido, se lhe dava uma côr de rosa, muito clara.

No exame sumário que pratiquei em alunos desta Escola, empreguei, em vez de meadas, carrinhos de retrós, de quatro côres: vermelho, verde, azul e amarelo, e para cada uma destas côres escolhi dois tons, um muito carregado e outro muito leve. De cada tom havia dois carrinhos, e os tons das diferentes côres foram escolhidos por fórma que a quantidade da côr fôsse a mesma para os tons correspondentes, carregados ou leves, de cada uma delas.