Algumas lições de psicologia e pedologia
Chapter 3
Ley e outros verificaram que em regra as crianças atardadas são inferiores em pêso aos normais que em idade lhes correspondem. E Sluys, o antigo e illustre director da Escola Normal de Bruxelas, num interessante opúsculo que muito vos recomendo--_Loi de Croissance_,--chama a atenção para o emmagrecimento dos sobreexcitados e sobrecarregados pelos trabalhos de preparação dos exames[6]. E já que acidentalmente vos recomendei a leitura dêste livro sôbre as variações do pêso do corpo da criança, não quero deixar de vos aconselhar tambêm a leitura do que escreveu e das tabelas que sôbre o pêso publicou nas suas _Lições de Pedologia_ o nosso distinto conterrâneo Dr. Faria e Vasconcelos, professor em Bruxelas, de quem por várias vezes tenho tido o prazer de vos falar.
Afinal a balança, como fiz vêr, pesa, mede a marcha da nutrição e permite apreciar as condições de vida e os regimens de trabalho. Perturbar o crescimento é perturbar a vida, é afrouxar os meios de defesa, é predispor para a doença, é inferiorisar o indivíduo.
Foi minha tenção ler-vos esta lição de encerramento do curso, no _Lactário de Lisboa_, instituição que eu muito desejava que visitasseis em minha companhia.
De facto, em nenhum sítio melhor eu poderia mostrar o valor da medida do pêso nas crianças. Nos lactários, nessas benemeritas instituições destinadas a distribuir leite para alimentação artificial das crianças, cujas mães, por doença, e as mais das vezes apenas por imposição do trabalho, não podem amamentar, a balança não é apenas um meio de estudar o crescimento, é um meio de salvar a vida. A aleitação artificial desregrada é uma espécie de infanticídio que vitíma muitas crianças. Graças à balança, o médico pode dirigir a alimentação por fórma a evitar muitos e danosos males.
Mas, meus alunos, os lactários e as consultas para recemnascidos não são apenas laboratórios de pesagem e agências de alimentação láctea. São verdadeiras escolas que em muita parte com êxito freqùentam normalistas como vós, que ali vão aprender a alimentar e a tratar de crianças.
Para o ano, se me fôr permitido e se se me oferecer, como espero, ocasião e facilidade, procurarei fazer com que o _Lactário_ e o _Instituto de Puericultura_, da rua Alexandre Herculano, para que agora chamo a vossa atenção, se relacionem com esta Escola Normal.
A preparação do professor deve ser uma espécie de preparação materna.
Professoras ou professores só têm a ganhar com se habituarem a lidar desde muito cedo com crianças, e a estudá-las, estimá-las como pais. E êste deve ser a meu vêr o principal fim da co-educação na Escola Normal.
De resto, eu quereria que desde o primeiro ano do curso, alunos e alunas estudassem Pedologia para se habituarem a viver com as crianças, para se habituarem a vê-las não só no mutismo e no rijo formalismo, muitas vezes necessário, das aulas, onde se lhes estanha a fisionomia, se lhes paralisam os movimentos, se lhes esconde a graça, se lhes abafam os sorrisos, se lhes sufocam os cantares, mas tambêm para se habituarem a vê-las, e lidar com elas, quando em plena liberdade, com a eloqùência da sua mímica, com a alacridade dos seus gritos, esfusiando alegria, irradiando afectividade, nos prendem, nos alegram, nos comovem, nos enternecem, nos interessam e nos fazem estimá-las, compreendê-las, protejê-las, e educá-las.
Meditai as palavras de Waynbaum, com que terminarei a minha lição e que se referem à fisionomia da criança:
«A voz do sangue, o amor da progenitura, o instinto natural pouco entram na constituição dêste sentimento sólido e orgânico que fórma o amor do pai pelo seu filho. Estes laços naturais, hereditários, existem certamente, mas não valem o laço que a própria criança cria e faz aparecer no nosso coração, êsse laço que é uma arma poderosa que a natureza lhe deu e de que ela largamente usa para se prender a nós, para se tornar uma parte de nós mesmos.»
Meus alunos, senhoras e senhores, que em breve todos sejais professores.
Futuros pais, sêde bons professores: _futuros professores, sêde como pais_[7].
Lisboa, 19-IV-915.
A AGUDEZA VISUAL E A AUDITIVA DEBAIXO DO PONTO DE VISTA PEDAGÓGICO[8]
Minhas Senhoras e Meus Senhores Meus Alunos
Sejam as minhas primeiras palavras, no dia de hoje, de saúdação e agradecimento e principalmente de agradecimento para com S. Ex.^a o actual Ministro da Instrução Sr. Prof. Ferreira de Simas, e para com o Conselho desta Escola a quem sobretudo devo a honra de poder novamente retomar êste logar, grato para mim como nenhum outro, e onde poderei continuar a série de lições que o ano passado iniciei, desejando e esperando que elas, pelo menos, sejam tam atentamente ouvidas e tam proveitosas como o ano passado tenho a certeza que foram.
Meus Alunos
Posso dizer que a lição que vou fazer-vos, embora seja a lição de abertura do meu curso dêste ano, não é no entanto a primeira lição que êste ano vos dou. A primeira foi aquela que cada um de vós recebeu, quando eu, acedendo ao criterioso convite do Sr. prof. Tiago da Fonseca, secretário desta Escola, procedi à medida da agudeza visual e da auditiva de cada um dos que pretendiam matricular-se, a fim de que na sua distribuição pelas turmas e pelas salas se atendesse às indicações tiradas daquele utilíssimo exame.
Procedi a êsse exame não como médico, mas como professor, e procedi por fórma a dar-lhes uma norma de inspecção, segundo a qual todos, no exercício das suas funções, em qualquer escola que seja, poderão proceder a ela, e por meio dela classificar, segundo a visão e a audição, os seus alunos em um dos três grupos:--_supra-normais_, _normais_, _infra-normais_, distribuindo-os nas salas das classes pela maneira que mais convêm ao ensino: adiante os que ouvem e vêem pouco, ao meio os que vêem e ouvem regularmente e ao fundo os que ouvem e vêem melhor. Tive sempre tambem o cuidado de, quando verificava a existência de anormalidade, ou melhor, quando encontrava candidato que via ou ouvia a uma distância notávelmente inferior àquela a que a maioria costuma vêr e ouvir, tive sempre o cuidado, dizia, de lhes aconselhar a que se dirigissem a médico competente para que se julgasse da causa da inferioridade e se corrigisse esta, se porventura isso fôsse possível; enfim, para que se tratassem. Quiz assim não só cuidar ou fazer com que cuidassem da saúde de órgãos importantíssimos para todos e principalmente para quem aprende e para quem ensina, mas tambêm quiz assim indirectamente aconselhar-lhes ou apontar-lhes a maneira de proceder que convêm que adoptem quando tiverem como eu, na sua qualidade de professores, de examinar e medir a agudeza visual e auditiva dos seus alunos.
A instrução, como sabeis, faz-se nas nossas escolas sobretudo à custa de excitações visuais e auditivas. O professor dirige-se principalmente à vista e ao ouvido do aluno. Se vista e ouvido não estiverem em condições de aprender nítidamente, de serem clara, forte, profunda e agradávelmente impressionados, a instrução não se fará ou far-se há defeituosa e deficiêntemente; a falta de aproveitamento com facilidade se fará notar.
Aquele que nem vê nem ouve bem, acaba por deixar de prestar atenção; não se aplica, não se instrui e não se educa tambêm, como deve ser, porque a experiência é pouca e má, porque não excita convenientemente os sentidos, porque não enriquece convenientemente o cérebro em imagens, precisas e nítidas. Não tem ou tem pouco sôbre que trabalhar; não desenvolve a inteligência.
Pelos olhos tomamos nós habitualmente conhecimento dum grande número de propriedades e tal é o papel que as imagens visuais representam na _cerebralidade_, na compreensão das cousas, que Gaston Gaillard, num artigo notável sôbre as _condições ópticas e fórma visual da inteligência_, disse: «a inteligência parece ser uma espécie de faculdade óptica.» Fisiologistas e histologistas têm demonstrado que a visão tem uma influência importantíssima no desenvolvimento dos centros cerebrais, e vários médicos têm demonstrado tambêm que muitas vezes o atraso intelectual nas crianças, que os franceses chamam _arriérés_, nos débeis mentais ou _atardados_ como se vai dizendo em português, o atraso, a inferioridade resulta muitas vezes dum defeito de visão. Vários casos se apontam tambêm de perfeita normalização de crianças anormais-inferiores, por simples tratamento ou correcção conveniente do seu defeito visual. Êstes anormais são verdadeiros _anormais de ocasião_ ou anormais por _deficit sensorial_, como os chama Ley. E já que vos estou falando das relações da visão com o desenvolvimento intelectual, com muito prazer e com muita utilidade para vós vos chamarei a atenção, convidando a lê-la, para a conferência realizada em 20 de Maio de 1914, na Sociedade Portuguesa de Estudos Pedagógicos, pelo nosso distinto Inspector Geral de Sanidade Escolar e meu muito presado amigo Dr. Costa Sacadura, conferência intitulada: _Influência do estado da visão sôbre o desenvolvimento intelectual e físico das crianças_.
Cousa semelhante ao que acabo de vos dizer a propósito da inferioridade da agudeza visual, poderei dizer tambêm a propósito da baixa ou redução da agudeza auditiva. A criança que ouve mal, compreende mal, acaba por desinteressar-se, distrai-se, deixando de escutar e aprender, atrasando-se na instrução por falta de noções que lhe ministram oralmente e que ela não aprende, atrasando-se na educação, por _deficit_ de excitações sensoriais auditivas. O professor Bezold, de Munich, notou que quanto maior fôr a dureza do ouvido, tanto menor é o desenvolvimento intelectual. E Rouma no seu importante livro: _La parole et les troubles de la parole_, conta que numa classe de crianças semi-surdas, em Berlim, classe composta por 12 alunos, entre os quais havia 4 que tinham sido apontados como intelectualmente inferiores, êstes se mostraram como perfeitamente aptos para o trabalho escolar e provaram ter uma inteligência perfeitamente normal, logo que foram colocados num meio em que se os educou tendo em vista a sua inferioridade física.
A dureza do ouvido deforma as imagens auditivas e a criança procurando reproduzir os sons, as palavras que ouve emite sons, pronuncia palavras deformadas, adulteradas, sofrendo assim dum defeito de pronúncia por simples defeito da audição.
A redução da agudeza visual e da auditiva veem a ter tambêm uma influência importante no feitio moral daqueles que delas sofrem. A má compreensão dos factos que se passam em redor e de que tomam conhecimento por intermédio de órgãos insuficientes e a dificuldade de comunicar com as outras pessoas, acarretam muitas vezes conseqùências mais ou menos emocionantes que podem perturbar o carácter. Lembrem-se das diferenças psicológicas, de ordem moral, que todos sabem que existem entre o surdo e o que ouve, e entre o cego e o que vê. E neste momento, ao tratar-se dêste assunto, eu relembro a transformação que se operou no meu espírito, e a alegria que experimentei, quando pela primeira vez eu, que era um _míope inconsciente_, olhei para o que me cercava, através de umas lunetas de vidros divergentes. Corrigi a minha vista e então comecei a aproveitar mais nas minhas aulas, onde muitas vezes não seguia o que se expunha no quadro preto, por supôr que isso era só para os que junto dêle estavam, e comecei então tambêm a usufruir uma maior soma de prazer, o prazer de vêr e gosar o que se vê. A minha concepção do mundo modificou-se, melhorou. Passei a ser mais optimista; encontrei no mundo e na vida um fim estético, harmonioso, espectacular, se me permitem o termo.
E lembrar-me eu que entre vós, segundo as minhas recentes observações, há, de 43% de inferiores ou defeituosos da visão, apenas uns 10% com a vista corrigida! Correi já, por vosso interêsse, aos médicos oculistas; eis o meu conselho.
Pelo que respeita ao ouvido, os 9% de infra-normais que a observação me levou a encontrar, na população desta Escola, que não se descuidem tambêm, porque é possível que nalguns se trate de defeito corrigível, talvez apenas de uma obstrução ocasional, que simples lavagens ou duches auriculares farão desaparecer. Devo dizer-lhes que as percentagens que acabo de apontar dizem apenas respeito a alunos com inferioridade bilateral dos olhos ou dos ouvidos, reconhecida pelos processos simples, que todos viram praticar, e dos quais lhes vou agora dar mais minuciosa conta.
Numa sala desta Escola que me pareceu ser daquelas onde menos se ouve o barulho da rua, que neste sítio infelizmente não é pequeno, coloquei em face de uma das janelas, a seis metros aproximadamente dela, e a uma altura que correspondesse aproximadamente à dos olhos da maior parte dos alunos, coloquei, dizia, um cartão em que colocara o _quadro optométrico_ dos Drs. Mario Moutinho e Costa Sacadura, quadro que suponho se encontra espalhado por tôdas as escolas, mercê de uma larga e útil distribuição.
Marquei a giz sôbre o chão um traço indicando a distância de 5 metros para àquem da parede onde pendurava o quadro optométrico.
Numa outra parede, no tôpo da sala, tracei a uma altura correspondente à dos ouvidos na maioria dos alunos, um traço horizontal, a giz, sôbre o qual a partir aproximadamente de 1 metro de uma das extremidades marquei um zero e, a partir dêste, pequenos traços verticais indicando os decímetros e os metros (4 metros aproximadamente).
Quando ia proceder aos meus exames, procurava obter o maior silêncio possível, na proximidade da sala, e fazia entrar os alunos um a um ou dois a dois, e de maneira a evitar que se distraíssem. Uma empregada tomava-lhes à entrada o nome e eu logo começava o meu exame, em que fui várias vezes auxiliado pelo meu venerando colega Sr. prof. Pedro Ferreira. Para a medida da agudeza visual, mandava colocar o aluno em frente do quadro optométrico a uma distância aproximadamente de 6 metros. As letras do quadro estão dispostas em 3 linhas paralelas e tais que para uma visão normal devem respectivamente ser lidas a 20, 10 e 5 metros de distância. Mandava procurar ler a 6 metros as letras da linha inferior, aquelas que se devem lêr, quando a visão seja mediana, à distância de 5 metros. Se o aluno as lia tôdas ou dois terços delas à distância de 6 metros, colocava-o no grupo dos _supra-normais da visão_, se não, mandava-o tentar ler as letras da mesma linha à distância de 5 metros. Se as lia, colocava-o no grupo dos _normais_: finalmente se o aluno nem à distância de 5 metros lia sequer dois terços das letras que a essa distância devia ler se a visão fôsse normal, colocava-o no grupo dos _infra-normais_, e procurava então vêr quais as letras que conseguia ler a essa distância de 5 metros. Se lia as da linha média, que um normal devia ler a 10 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1/2 do normal, se lia a 5 metros só aquelas que um normal lê à distância de 20 metros, dizia que tinha uma agudeza visual igual a 1/4 do normal. Se nem estas lia, dizia que tinha uma agudeza visual inferior a 1/4 do normal.
O exame era feito em separado, para cada um dos olhos, tendo o cuidado de evitar que com a mão carregassem sôbre aquele cuja agudeza visual se não estava medindo. Em regra, e esta parece ser a melhor fórma, mandava colocar um cartão de visita diante do ôlho a encobrir, mas um pouco afastado dele.
Esta técnica, que é uma técnica de confiança para determinar com precisão a agudeza visual, pode ser empregada por qualquer professor, e praticada em todos os escolares, mesmo naqueles que não sabem ler, visto que junto às letras e com dimensões respectivamente iguais às delas se encontram no quadro optométrico linhas com sinais (_optotipos_ se chamam) que um analfabeto pode perfeitamente apontar (zonas circulares incompletas, com abertura voltada segundo quatro direcções).
Para o exame do ouvido, mandava colocar o aluno em frente da linha que traçara na parede, voltado para ela, junto dela e com o ouvido direito à altura do zero. O aluno, com um dedo, sem carregar, tapava o ouvido esquerdo e olhando em frente, prestava atenção a vêr se ouvia o _tic-tac_ de um relógio de algibeira, que eu lhe aproximava do ouvido. Logo que o aluno dava sinais de o ouvir, começava eu a afastar o relógio, fazendo deslocar êste sôbre uma linha, não perpendicular à face, mas sim dirigida para diante, perpendicularmente ao pavilhão da orelha. E deslocando o relógio procurava determinar a maior distância a que o aluno conseguia ouvir o bater dêsse relógio.
Fiz uma série de observações e verifiquei que _com o meu relógio_ a maioria ouvia o _tic-tac_ a uma distância de 2 a 3 metros. Em vista disto considerei como _infra-normais_, na audição, francamente infra-normais, os que ouviam o máximo a 1 metro e _supra-normais_, na audição, francamente **supra-normais**, os que ouviam a 3 metros e mais.
Para o exame do ouvido esquerdo, mandava voltar o aluno, colocava-o com o ouvido esquerdo à altura do zero, pedia-lhe para tapar o ouvido direito e olhar bem em frente, ou fechar os olhos, e procedia depois por uma fórma semelhante à que adoptei para o exame da agudeza auditiva do ouvido direito.
Quando a redução da agudeza auditiva era notável (menos de 1 metro), mandava sentar o aluno no fundo da sala, voltado para a parede, e colocando-me atrás dele, no lado oposto, falava-lhe em tom ordinário por fórma a ver se me ouvia e para isso o mandava repetir a frase que eu pronunciava ou executar movimentos que lhe ordenava.
Êste processo, da medida da agudeza auditiva, ao contrário do que adoptara para medida de agudeza visual, não é exacto, não é preciso, não é seguro, mas serve, e isso basta, para comparar os alunos debaixo do ponto de vista da agudeza auditiva e distribuí-los nas aulas, de acôrdo com ela.
Nas crianças é necessário talvez tomar mais precauções do que aquelas que com os senhores tomei é conveniente sentá-las, vendar-lhes: os olhos e de vez em quando _fingir_ que se aproxima ou afasta o relógio, para assim julgar do valor das suas respostas.
Devo dizer-lhes, o que tambêm importa, que levava, em regra, dois a três minutos com o exame da agudeza visual e da auditiva.
Na Casa Pia, onde eu e o Dr. Jorge Cid temos feito várias observações, usando de processos semelhantes àqueles de que vos falei, verifiquei há dias a existência de alguns factos curiosos para que não quero deixar de chamar-vos a atenção. Considerando apenas os alunos que neste momento freqùentam a 4.^a classe de instrução primária, e com êles os que em Julho a freqùentaram e distribuindo-os por ordem crescente das idades verifica-se: que à medida que se avança na escala das idades, e aumenta o número de anos de internato, diminui a percentagem de alunos que fizeram exame do 2.^o grau, e _diminui a percentagem dos que têm audição normal_. Quere isto dizer que é provável que o atraso de alguns alunos provenha de inferioridade auditiva. Por outro lado encontram-se dois máximos de freqùência da visão inferior à normal um (30%) coincidindo com o máximo de freqùência de exames do 2.^o grau (61%) e outro (40%) coincidindo com o máximo da idade (16 anos e mais) e o mínimo da freqùência de exames (40%), factos estes que interpreto por esta fórma: a anormalidade visual nos rapazes de 16 anos e mais (máximo de idade), que ainda não fizeram exame do 2.^o grau, coincide e deve estar relacionada com inferioridade mental e a grande freqùência da visão inferior à normal nos rapazes de 14 a 15 anos, grupo a que na sua maior parte pertencem os que fizeram exame do 2.^o grau, é naturalmente devida à _miopía_ que o trabalho das aulas agrava, quando não determina. Quando um dia me ocupar particularmente dêste importante defeito da visão, a miopía, procurarei obter alguns dados especiais recorrendo, provávelmente, para isso, ao registo das observações oftalmológicas e às estatísticas do distinto médico-oftalmologista da Casa Pia Dr. Xavier da Costa.
A miopía é uma verdadeira doença profissional da escola; é em grande parte um produto do trabalho escolar. A sua freqùência aumenta à medida que se avança no grau do ensino. E já que levantei êste incidente, não deixarei de vos recomendar a leitura de uma interessante e utilíssima conferência feita na Imprensa Nacional, em 19 de Abril de 1914, pelo Dr. Sebastião da Costa Santos, tambêm distinto médico-oftalmologista, e em que por fórma muito clara e completa se trata da miopía e doutros assuntos de oculística que se prendem com a higiene escolar.
O exame da agudeza visual e da auditiva presta-se tambêm a permitir julgar até certo ponto de certas qualidades de ordem psíquica que ao educador muito interessa conhecer. A maneira por que o aluno se apresenta, a rapidez ou a lentidão dos seus movimentos, a rapidez ou a lentidão na leitura do quadro optométrico, a maneira agitada ou, pelo contrário, lenta e dócil por que se comporta, a precisão ou a indecisão na compreensão e execução das nossas ordens, tudo permite, com grande probabilidade de acêrto, formar um juízo útil e necessário para o educador, sôbre o grau de emotividade, ou sôbre a _potencialidade nervosa_ de cada aluno, destrinçando particularmente os dois tipos extremos, o do _hipersténico_, agitado, e o do _hiposténico_, tardo nas suas reacções. O educador encontrará nesse exame elementos importantes para calcular possibilidades na educação, e tirar indicações muito úteis para a escolha dos meios educativos a empregar.
O exame da agudeza visual e da auditiva feito à luz dos conhecimentos que vos procurei transmitir permitir-vos há convencer-vos, desta verdade fundamental: _de que os escolares são diferentes uns dos outros_. E convencidos disso, o vosso espírito estará preparado para a adquisição desta outra verdade: _de que o ensino se deve individualizar o mais possível_.
A pedologia, estudo da criança, vos ensinará a conhecer os vossos alunos, e a encontrar o caminho educativo que mais convêm seguir.
Pudesse eu deixar-vos convencidos disso, e conseguisse que em tôdas as escolas o professor determinasse a agudeza visual e a auditiva e eu, e todos os que tivessem contribuído para isso, teríamos alcançado a não pequena glória de ter promovido na escola o que o grande professor Biervliet, a propósito do mesmo assunto, não duvidou chamar um _progresso imenso_.
Disse.
A VISÃO DAS CORES[9]
Minhas Senhoras e meus Senhores:
Foi objecto da minha lição de abertura, no ano findo: _A agudeza visual e a auditiva, debaixo do ponto de vista pedagógico_, tendo-me servido de pretexto para a lição o exame da agudeza visual e da auditiva por mim praticado, nos alunos desta Escola, com o fim de se regular a sua distribuìção nas aulas. Será êste ano objecto da minha primeira lição um assunto que se prende tambêm com a fisiologia dos sentidos, servindo-me de pretexto para ela o exame que êste ano tambêm fiz a alunos desta Escola, mas não só com o fim de julgar da sua agudeza visual e da sua agudeza auditiva, mas tambêm para julgar até certo ponto do seu sentido cromático, do grau da sua visão, na visão das côres.
Deu origem a esta ampliação do exame fisio-pedagógico que se começou a praticar o ano passado por iniciativa do Sr. Secretário desta Escola, e seu distinto professor sr. Tiago da Fonseca, deu origem a essa ampliação, um simples acaso. Um dos jornais da cidade, ao noticiar que eu ia proceder ao exame dos alunos, falou em _daltonismo_, e isso fazendo-me suspeitar uma confusão entre o exame da agudeza visual e o do sentido cromático e recordando-me da importância que êste pode ter na escolha dos candidatos a professores, resolveu-me a fazer a minha primeira lição dêste ano sôbre o _sentido cromático e os seus defeitos_, e proceder, como procedi, a um _exame elementar_ dêsse sentido.