Algumas lições de psicologia e pedologia

Chapter 2

Chapter 23,777 wordsPublic domain

No aluno professor poder-se há com vantagem praticar a psicologia experimental subjectiva. A psicologia experimental não é apenas a psicologia objectiva, repito. E a propósito lembrarei as palavras do fisiologista francês Prof. Ch. Richet: «A observação interior constitui uma psicologia de observação tam fecunda, tam legítima, como a psicologia a mais experimental que se possa imaginar. Os factos assim adquiridos pelo estudo do _eu_ têm tanto valor como os fenómenos fisiológicos registados nos laboratórios pelos métodos mais aperfeiçoados da técnica contemporânea.»

Apesar de tudo, porém, o nosso curso será principalmente um curso de técnica objectiva, porque êle visa, primeiro do que tudo, o estudo psicológico do educando e porque é minha tenção, mesmo quando se trate da prática da psicologia subjectiva, recorrer a ela apenas como um auxiliar da psicologia objectiva. A propósito recordo os dizeres do grande Binet: «Em nossa opinião, diz êle, não é preciso procurar limitar e simplificar as respostas do indivíduo em experiência, é preciso, pelo contrário, deixar-lhe a plena liberdade de exprimir o que sente, e mesmo convidá-lo a expressamente se observar de perto durante o decurso da experiência; esta maneira de proceder tem a vantagem de não restringir a investigação ao círculo da idea preconcebida: podem-se constatar muitas vezes factos novos e não previstos, que muitas vezes tambêm permitem compreender o mecanismo dum certo estado de consciência.»

Com felicidade, pois, se chamou «Curso prático de psicologia experimental» ao curso de técnica psicológica desta Escola, criado pelo Sr. Ministro de Instrução, Prof. Dr. Alfredo de Magalhães, cujo nome deve merecer sempre a todos nós, desta Escola Normal, uma grata homenagem, pela atenção que lhe merecemos e pelo entusiasmo, apaixonado entusiasmo e energia, com que procurou instalar e proteger a nova Escola. O curso prático, e acentuo a palavra prático, de psicologia experimental será uma maneira de logo, desde o início da freqùência da Escola Normal, habituar o futuro professor, a sentir-se professor, a despertar-lhe e trenar-lhe a aptidão, a pô-lo em contacto real, directo, concreto com a massa que tem de trabalhar, com a sublime argila que tem de moldar: a alma tal qual ela é.

Trabalhar a alma da criança com alma e com arte, com arte e com acêrto, com acêrto e com sciência, tal é o nosso escopo.

A psicologia que havemos de praticar, será, mais uma vez o digo, de carácter principalmente objectivo, não só pela dificuldade, se não impossibilidade, do exame subjectivo no meio e com os indivíduos que temos de trabalhar, não só porque o exame objectivo constitúi uma fórma excelente de fazer a educação scientífica do aluno professor, de dar-lhe hábitos de observação e experiência extrospectivos ou melhor exteriores, essenciais à arte de educar, mas tambêm porque em psicologia, pode-se dizer, que o que mais importa ao educador são os actos psíquicos, os fenómenos mentais de que introspectivamente se tem menos conhecimento.

Em psicologia pedagógica o sub-consciente vale mais que o consciente. E mesmo quando ao educador compete regular o comportamento do adulto, quando ao educador compete fazer reeducação, compete-lhe principalmente examinar o sub-consciente, porque é nele que se guarda a fôrça que a experiência anterior gerou e que regula e influi, por vezes, mais do que nenhuma, no comportamento do indivíduo.

A conduta é principalmente governada pelo sub-consciente e neste tem tanta influência a infância, o que ela foi em cada um, que quando a fadiga ou a doença perturba o exame introspectivo e a fiscalização, censura e govêrno, que por meio dele podemos exercer nos nossos actos, é a mentalidade infantil que aparece, se exterioriza e nos revela, tal como fomos e no íntimo somos.

Uma escola de psicologia há até, que hoje já invadiu a filosofia, a medicina e a pedagogia, que assenta tôda no estudo do sub-consciente e particularmente na pesquisa das impressões que nele gravou a vida sexual. Refiro-me à _psico-análise_, de Freud e seus sequazes, que, apesar dos ataques violentos que tem sofrido, mormente depois da declaração da última guerra (mais talvez por xenofobia do que por outra cousa), contém muito de verdade. Tirado o que há de místico, de escabroso e de exagerado no seu pansexualismo, a psico-análise pode e deve ser conhecida pelo educador. E, para terminar com estas referências à questão da importância do consciente e do sub-consciente em educação, lembrarei a já banalizada definição de Gustavo Le Bon: _A educação é a arte de fazer passar do consciente para o inconsciente_. A reeducação, essa é muitas vezes o trabalho oposto, digo eu, o de trazer do inconsciente ao consciente, para transformar e depois voltar a tornar inconsciente.

A educação, na idea de Bacon, é o conjunto dos hábitos adquiridos na infância. A reeducação é muitas vezes a correcção dêsses hábitos; mas tanto em educação como em reeducação há que aproveitar a Natureza, porque ela, ainda segundo Bacon, não se governa, senão deixando-a governar, conhecendo-a, aproveitando-a, seguindo-a.

Meus Alunos:

A arte de educar, como logo no princípio eu disse, é a arte de regular a conduta presente e futura do educando, e a psicologia experimental, de escôpo pedagógico, é a psicologia que pela experiência ensina a conhecer as causas, o mecanismo da conduta do indivíduo ou da classe a educar.

Psicologia experimental é quási pedagogia experimental. E não imaginem que esta pedagogia experimental é menos do que a outra, porque não tem em conta os ideais, a parte política, religiosa, social, a finalidade da educação. Não.

O Ideal quando não é factor da acção, é produto da acção, ou as duas cousas ao mesmo tempo, factor e produto da experiência pessoal, e o que nós vamos aprender é a arte de estudar práticamente, experimentalmente, os factores e o mecanismo da acção, ou melhor das reacções do indivíduo sujeito à influência dos meios, isto é, ainda a parte prática, experimental, utilitária, debaixo do ponto de vista educativo, que talvez melhor do que psicologia, se poderia chamar, à maneira de Bechterew, a _reflexologia pedagógica_, e nela bem podemos estudar o valor, a acção e a formação dos ideais.

Com isto declaro aberto o «Curso prático de psicologia experimental», que neste semestre será essencialmente um curso de propedêutica, destinado ao estudo das noções preliminares e fundamentais de anatomia, fisiologia e psicologia, que mais importam à _psico-técnica_...

Disse.

15-III-919.

O PÊSO DO CORPO DA CRIANÇA[3]

Meus Alunos Senhoras e Senhores

Quiz um pouco o acaso que o _pêso do corpo da criança_ fôsse o tema da minha última lição. O fim do ano, como sabeis, veio-nos surpreender num ponto ainda atrasado do programa a que me obrigára: o estudo dos métodos da pedologia somática, particularmente da pedometria e com ela o dos principais caractéres métricos da criança. O pêso do corpo da criança terá que ser o tema da lição de encerramento do meu curso dêste ano. E, embora pareça o contrário, talvez não pudesse encontrar melhor tema para encerrar o concurso.

A lição de abertura que vos li foi, como devia ser, uma lição-programa e uma lição-promessa. Na lição de encerramento que vou ler-vos tambêm, procurarei fazer com que ela seja o que deve ser uma lição de encerramento: uma lição em que até certo ponto se recapitulem as noções principais expostas durante o curso, uma lição-conclusão, e uma lição em que se procure provar a realização de algumas das promessas que se haviam feito na lição inicial.

A criança é fundamentalmente um ser humano em via de crescimento; é um homem ou uma mulher em via de formação. A sua principal função é crescer, procurando atingir a grandeza que a hereditariedade lhe destinou e alcançar o equilíbrio morfológico e fisiológico do adulto, que constitui a perfeição do ser. Respeitar o crescimento, a lei natural do crescimento, é o principal dever do educador, e tôda a educação se tem de subordinar a esta questão de medida: _não perturbar a lei natural do crescimento_.

O pêso não cresce como deve ser? Diminui, pára, aumenta de mais ou de menos? Um problema se põe. O regimen de vida ou de educação provavelmente não é o que convêm. Modifique-se e observe-se, por exemplo por meio da balança, a influência das modificações. A balança guia a higiene, e na higiene assenta a educação. Por isso, com razão dizia eu no Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose, em 1907, e o repetia no Congresso Pedagógico do ano passado: «O problema escolar é essencialmente um problema métrico.»

Mas mesmo que a medida do pêso e sobretudo a da sua evolução não servisse, como serve, para julgar da saúde e do estado da nutrição da criança e por êle aferir o valor do meio em que a criança vive e dos meios educativos de que se serve quem dela cuida, mesmo que o estudo das variações do pêso não tivesse grande significação para os educadores, ainda assim, como muitas vezes vos tenho dito, valeria a pena ensinar o professor a pesar a criança. Mais do que uma vez, na realidade, vos tenho afirmado que uma das vantagens do ensino da pedologia aos futuros professores está em ela servir excelentemente para fazer a sua educação scientífica, para os ensinar a observar, a descrever, a medir, a experimentar, a analisar e a criticar, para aperfeiçoar o _bom senso_, que é a mesma cousa que o espírito scientífico, que permite sentir e descobrir a realidade e medir a possibilidade. O _bom senso_ é a principal qualidade de carácter de qualquer e principalmente do professor.

Aprender a pesar é aprender a julgar, e com razão, por isso, um médico francês, o Dr. Baudrand, numa tese extensa e notável sôbre o crescimento, diz: «Um médico que regista o pêso assemelha-se ao magistrado que aprecia o valor de um prejuízo e calcula o valor da indemnização.»

A pesagem tem ainda sôbre outras muitas medidas pedométricas a vantagem de ser a mais fácil de tôdas; nem exige instrumentos especiais, nem técnica muito diferente da das pesagens mais comuns e, porque está sujeita a menos erros, permite ao professor ou ao médico não ser tão fácilmente logrado, como sucede com muitas outras medidas pedométricas, que praticadas mesmo às vezes por quem tenha cultura especial levam a conclusões falsas, a listas de números que outra cousa não são mais do que números, vistosos na aparência, mas vazios na significação.

_Meçam sim, mas meçam só aquilo que fôr fácil de medir, menos sujeito a erros e que sirva para julgar da saúde do educando, e das influências que sôbre êle tem o regimen de vida e os métodos de ensino._

Mais uma vez insisto, chamando-lhes a atenção para a obrigação que têm--quando medirem e quizerem apresentar os resultados de suas medições--de exporem minuciosamente o _modus faciendi_ que adoptaram e se darem ao trabalho de, pelo menos nas primeiras medidas, repeti-las algumas vezes, no mesmo sujeito e na mesma sessão, para verificar a técnica. O observador não tem só que conquistar a confiança dos outros, precisa tambêm de conquistar a sua própria.

O pêso do corpo do escolar, não obstante haver balanças especiais, pode tomar-se com uma balança décimal ordinária, aferida, e convêm que quando, por qualquer razão, se não possa despir completamente a criança, ela tenha sôbre si o menor número possível de peças de vestuário: um leve calção nos rapazes, uma simples saia ou uma saia e um corpete nas raparigas. A pesagem deve fazer-se no mesmo indivíduo, sempre à mesma hora, de preferência de manhã, e nas condições o mais idênticas que fôr possível. Convêm tambêm repetir a pesagem em cada ano, com intervalo de semestre, por exemplo.

Podem parecer exageradas as precauções que acabo de aconselhar, mas não o são por que é bom saber-se que as variações do pêso não são sempre sinal de crescimento, e porque tambêm está provado que o pêso da criança como o do adulto oscila durante o dia, e de época para época do ano.

_Há oscilações regulares diárias do pêso_. De manhã, ao levantar da cama, todos pesam menos do que à noite. Esta diferença de pêso chega a ser, numa criança de dez anos, de setecentos gramas, e num adulto pode chegar a um quilo (Camerer), quilo e meio (Ammon). Parece resultar êste facto de que durante o dia, as perdas que se sofrem por saída de substâncias do organismo são compensadas pela entrada de substâncias reparadoras, enquanto que durante a noite as perdas não são compensadas. Nos adultos a diminuição do pêso durante a noite é em média igual à elevação do pêso durante o dia, mas nas crianças a diminuição do pêso durante a noite é menor do que a elevação durante o dia, o que corresponde ao crescimento.

Pode algumas vezes observar-se uma diferença de gramas a mais, simplesmente porque o intestino ainda não se esvaziou.

As estações influem tambêm e produzem oscilações no pêso. Está provado que êste aumenta mais de agosto a dezembro do que de abril a junho. O aumento máximo verifica-se no primeiro período apresentado e o mínimo no segundo. De dezembro a abril o valor do aumento é intermédio. Estas oscilações podem depender ou resultar de desarranjos que o organismo experimenta com as mudanças de estação e tambêm com mudança de hábitos que podem levar a aumentar ou a diminuir as perdas. A sudação e os jogos, por exemplo, tudo que modifica a função dos emuntórios ou a desassimilação, tudo pode influir. Aos factores metereológicos devem juntar-se os da _metereologia do ensino_, os exames por exemplo, que desarranjam e consomem. O conhecimento dêstes factos levou-me a determinar, de acordo com o distinto médico-inspector da Casa Pia e seu professor, Dr. Jorge Cid, que a medida e observação periódica de todos os alunos fôsse feita duas vezes ao ano, nos primeiros meses do ano lectivo, a começar em outubro, e naqueles que imediatamente precedem as férias grandes, nos três últimos.

Ás vezes, com a melhoria da alimentação, com a mudança de ares, com a liberdade, a criança aumenta extraordináriamente de pêso, como por ex. observei na _colónia de férias_, instalada na Figueira da Foz, por iniciativa e sob a protecção do meu mestre Dr. Bernardino Machado,--colónia em que vi crianças aumentarem _cinco vezes mais_ do que em igual período aumentaram alunos da mesma idade, dum colégio excelente, como é o Colégio Militar (vidè medidas do Dr. Mascarenhas de Melo, apresentadas no Congresso Internacional de Medicina de 1906, e o meu artigo, _Uma_ _colónia de férias_, publicado no _Boletim da Assistência Nacional aos Tuberculosos_, em 1908).

Êste facto, que tem sido observado por vários, dos grandes aumentos de pêso que, às vezes mesmo ao fim de quinze dias, se notam nas _colónias de férias_ das crianças pobres das cidades, dessas que eu chamei em tempos pobres _exilados da Natureza_, mostra bem a importância destas instituições peri-escolares: as _colónias_, para que me não canso de vos chamar a atenção, instigando-vos a promover sempre que vos fôr possível a sua organização, mas sempre com o auxílio do médico, a quem cabe a selecção dos casos e a indicação daqueles a quem convêm a praia e daqueloutros a quem o campo mais convêm.

Na apreciação do pêso do aluno deve ter-se em vista mais a fórma porque êle cresce do que a diferença do seu pêso para a média dos da sua idade. Muito seria para desejar que à semelhança do que se faz, por ex. em Bruxelas, o professor dispuzesse de uns cartões quadriculados onde apontasse o pêso do corpo de seu aluno em cada ano e fôsse traçando a curva da sua variação ao lado da curva média normal, que convinha se tratasse de obter com dados colhidos entre nós. Muito convinha, direi de passagem, que se generalizasse o uso da _Caderneta da mocidade, da Instrução militar preparatória_, tal como está, ou melhor, _simplificada_.

Nem a todos é destinado o mesmo tamanho: há crianças leves e crianças pesadas, como há indivíduos altos e indivíduos baixos, indivíduos loiros e indivíduos morenos. A inferioridade do pêso, por isso, nem sempre significa que a criança sofre. Mas acresce a isto o não termos ainda, nós portugueses, médias nossas, pelas quais nos possâmos seguramente guiar. A raça influi no pêso, e a composição étnica de cada povo deve influir na média do pêso absoluto da sua população, em cada idade. Para as raparigas portuguesas não conheço tabela alguma; para os rapazes costumo guiar-me, enquanto não organizo uma tabela com os pêsos observados nos rapazes da Casa Pia, costumo guiar-me, dizia, pelas observações do Dr. Mascarenhas de Melo, publicadas nos _Anuários do Colégio Militar_ e de que aquele meu distinto colega fez um apanhado na sua comunicação ao Congresso Internacional de Medicina, realizado em Lisboa em 1906, comunicação intitulada: _Sur l'Antropométrie médicale_. As tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo servem, porêm, apenas para o estudo do pêso dos dez aos dezanove anos. Sôbre estas observações e sôbre pedometria escolar podem vêr um pequeno relatório que com o título--_Antropometria escolar_--escrevi para o Congresso da Liga contra a Tuberculose de 1907 e que com poucas modificações foi reimpresso o ano passado, por ocasião do Congresso Pedagógico de Lisboa[4].

A título de curiosidade porei em face umas das outras algumas médias das tabelas do Dr. Mascarenhas de Melo (observações portuguesas) e algumas extraídas dum trabalho de Camerer, de Stuttgart:

+---------+-------------+-------------+-------------+ | | Rapazes | | | | Idades | (Masc.^{as} | Rapazes | Raparigas | | | de Melo) | (Camerer) | (Camerer) | +---------+-------------+-------------+-------------+ | 10 anos | 29 kg. | 30 kg. | 27 kg. | | 11 » | 30,5 » | 32,5 » | 29 » | | 12 » | 33 » | 35 » | 32 » | | 13 » | 36,5 » | 37,5 » | 37 » | | 14 » | 42 » | 41 » | 43 » | | 15 » | 47 » | 45 » | 48 » | +---------+-------------+-------------+-------------+

Uma alemã parece pesar, a partir dos catorze anos, mais do que uma portuguesa da mesma idade.

Estas médias são às vezes assombrosamente excedidas, nos casos de obesidade. Neste momento estou tratando na minha clínica particular de um rapaz de quinze anos, um obeso com gigantismo, obeso hipófiso-genital, que pesa bastante mais de cem quilos!

O primeiro ano da vida é aquele em que o pêso aumenta mais. Em média, segundo Camerer, por ex. ao nascer, um rapaz pesa três quilos e quatrocentos gramas e uma rapariga três quilos e duzentos gramas. Na Maternidade de Lisboa, no tempo do Prof. Alfredo da Costa (1899-1904), a média do pêso dos rapazes foi de 3^{kg},236 e a do das raparigas 3^{kg},103.

Nos dois primeiros dias a criança perde uns duzentos gramas, mas ao oitavo ou ao nono recupera o pêso da nascença. O aumento diário das crianças criadas ao peito, ainda por ex. segundo Camerer, anda por uns 30 gr. até à quarta semana, de 26-28 da quinta à décima segunda, de 20-24 da décima terceira à vigésima, de 16-18 da vigésima primeira à trigésima sexta, e de 10-15 da trigésima sétima à quinquagésima segunda.

_No quinto mês da vida, em regra, a criança dobra de pêso, e ao fim do primeiro ano costuma tê-lo triplicado._ Pode dizer-se que nos cinco primeiros meses o aumento é de cêrca de setecentos gramas por mês; nos cinco meses seguintes é metade menor. Daqui a regra indicada por Terrien para calcular o pêso de uma criança de peito durante o primeiro ano: para os cinco primeiros meses, multiplicar 700 pelo número de meses que a criança tem e juntar ao produto o pêso que ela tinha à nascença; para os cinco meses seguintes, multiplicar 350 pelo número de meses que ela tem _alêm do 5.^o_, e juntar-lhe o pêso do quinto mês, isto é, o dôbro do pêso à nascença.

«No segundo ano de vida o aumento de pêso é notavelmente menor que no primeiro e chega tam só, tanto nos rapazes como nas raparigas, a cêrca de dois quilos e meio; dos três aos cinco anos o crescimento diminui um pouco mais, não passando de um a dois quilos por ano. Finalmente, ao fim do quinto ano os rapazes vêem a ter 18 quilos e as raparigas 17. A partir desta idade, até aos catorze anos, os _rapazes_ aumentam de 2 a 3 quilos; segue-se depois dos _quinze aos dezóito_ um período de maior crescimento, com aumento anual que pode chegar a oito quilos. Nas _raparigas_ o acréscimo anual pode manter-se até aos doze anos à volta de dois quilos, e dos _13 aos 16_ o aumento anda por uns 4 a 5 quilos. A partir dos _16 nas raparigas_ e dos _19 nos rapazes_, o acréscimo pode cessar. Em regra, porêm, poucos são os indivíduos nos quais permanece estacionário o pêso adquirido aos 16 ou aos 19.» (Camerer).

Duma longa série de observações feitas em crianças portuguesas de escolas primárias oficiais do Alentejo e de escolas primárias não oficiais de Lisboa, série infelizmente pouco homogénea e insuficiente para algumas idades, dessa longa série de observações feitas pelo Dr. Moraes Manchego e pelo Sr. Major Desidério Beça, tirou o Dr. Manchego os elementos com que construiu uma curva de crescimento do pêso em portugueses de 6 a 19 anos de idade, curva que conjuntamente com algumas tabelas interessantes, foi apresentada num trabalho daquele distinto médico:--_Contribuição ao estudo do crescimento da criança portuguesa_ (Trabalhos do 3.^o Congresso Pedagógico, realizado em abril de 1912, por iniciativa da Liga Nacional de Instrução[5]. Por ser interessante e dizer respeito a observações portuguesas, transcrevo dêsse trabalho, digno de apreço, as seguintes linhas:--«Na curva portuguesa há primeiramente um pequeno acréscimo com o máximo nos 8 anos, que joga perfeitamente com o acidente similar já apontado no mesmo trôço da curva homóloga da estatura, depois vem um crescimento quási insensível até aos 12 anos; a seguir apresenta-se uma depressão, e aos 13 anos começa o crescimento muito intensivo com o máximo absoluto aos 16 (êste acréscimo é de 6^{k},8); depois desta idade a curva desce muito de ano para ano, sendo o acréscimo para os 19 anos apenas de 1^{k},5. O aumento de pêso dos 6 aos 19 anos é de 36^{k},8, isto é, o pêso que aos 14 anos já duplicou é aos 19 superior ao triplo do que corresponde aos 6 anos.»

O que convêm, porêm, principalmente fixar é que durante o crescimento se observam dois períodos de crescimento máximo: o primeiro período corresponde ao primeiro ano da vida, e o segundo nas _raparigas_ ao que vai dos _doze aos dezasseis anos_ e nos _rapazes_ dos _quinze aos dezóito_. O primeiro dêstes períodos é, como diz Camerer, uma continuação da excessiva energia fetal do crescimento (lembremo-nos, como faz notar Variot, que em nove meses se passa de um óvulo de duas décimas de milímetro a um féto que mede meio metro e pesa cêrca de três quilos!)

O segundo período de crescimento máximo corresponde, tanto nos rapazes como nas raparigas, à puberdade.

As condições de vida das mães influem no pêso dos filhos. Sem ir buscar exemplos lá de fóra, basta dizer-lhes, para documentar a afirmação, que o falecido e ilustre professor da Escola Médica de Lisboa, Alfredo da Costa, encontrou notáveis diferenças entre os pesos à nascença dos filhos de mulheres que passaram os últimos tempos da gravidez em repouso e tranquilidade moral e os daquelas que pelo contrário até ao último momento trabalharam e viveram na miséria. As crianças destas últimas pesavam sempre menos.

Niceforo, no seu afamado volume--_Les Classes Pauvres_,--publica um quadro comparativo do pêso médio de umas séries de rapazes e raparigas, por onde se vê que o pêso médio é mais baixo nas crianças pobres do que nas ricas, da mesma idade.