Algumas lições de psicologia e pedologia

Chapter 1

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Rita Farinha (Abril 2010)

ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA

Professor de Psicologia experimental e Pedologia na Escola Normal Primária de Lisboa

ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA E PEDOLOGIA

LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL EDITORA

LISBOA PORTO--RIO COIMBRA DE JANEIRO

SÉDE 132, Rua Aurea, 138, Lisboa

PSICOLOGIA E PEDOLOGIA

ANTÓNIO AURÉLIO DA COSTA FERREIRA

Professor de Psicologia experimental e Pedologia na Escola Normal Primária de Lisboa

ALGUMAS LIÇÕES DE PSICOLOGIA E PEDOLOGIA

LVMEN EMPREZA INTERNACIONAL EDITORA

LISBOA PORTO--RIO COIMBRA DE JANEIRO

SÉDE

132, Rua Aurea, 138, Lisboa

Comp. e impr. na Typ. Costa Carregal--Porto

AOS MEUS COLEGAS E AOS MEUS ALUNOS DA ANTIGA E DA NOVA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA DE LISBOA

ÍNDICE

Pág.

Prefácio 5

O ensino da pedologia na escola normal primária 7

A arte de educar e a psicologia experimental 17

O pêso do corpo da criança 29

A agudeza visual e a auditiva debaixo do ponto de vista pedagógico 47

A visão das côres 61

Sôbre umas provas de exame da atenção voluntária visual 89

Da inteligência do escolar e da sua avaliação 111

Inteligência e apercepção 123

Sôbre psicologia, estética e pedagogia do gesto 135

PREFÁCIO

_Com o título_ Algumas lições de Psicologia e Pedologia _publíco neste pequeno volume as principais lições que li e comentei, como professor da antiga Escola Normal do Calvário, e da actual Escola Normal de Bemfica, às quais acrescento a conferência que realizei no Conservatório, por ocasião da Exposição de Arte na Escola.

Algumas das lições são verdadeiros planos e resumos dos meus cursos.

A matéria vai exposta com a maior clareza de que fui capaz e pela forma que me pareceu melhor, em atenção à preparação habitual dos alunos das Escolas Normais e ao fim que essas escolas têm ou devem ter em vista. Busquei principalmente interessar e orientar os meus alunos, habituando-os a confiar na prática dos métodos scientíficos em pedagogia.

O livrinho vai ilustrado com uma gravura, reprodução duma cópia feita pelo professor Eduardo Romero, da Casa Pia, cópia de um curioso desenho de R. Gudden, de Francfort s. M., excelente exemplo de um fenómeno de apercepção, que encontrei publicado no manual de Starch:_ Experiments in Educational psychology, _e que me pareceu ser uma ilustração muito apropriada para acompanhar as minhas lições de Psicologia e Pedologia, e particularmente a lição:_ Inteligencia e apercepção.

_Estou certo de que a leitura dêste livrinho, e a dos livros que nele cito, será de muita, utilidade para os alunos das Escolas Normais e para os candidatos aos concursos de Inspectores primários.

Belem--25--XII--920._

A. Aurélio da Costa Ferreira.

O ENSINO DA PEDOLOGIA NA ESCOLA NORMAL PRIMÁRIA[1]

Minhas Senhoras e meus Senhores:

Parafraseando o emérito Claparède, direi:--como se consideraria uma escola de horticultura onde se não ensinasse a botânica?!

Que se poderia dizer de uma escola que preparasse professores para a infância, seus educadores, e em que se não professasse a pedologia?!

Como se chamaria aquele que hoje, no estado em que se encontra a sciência, quizesse como outrora tratar de doenças, empíricamente, sem saber, sem nunca ter estudado a anatomia e a fisiologia e as suas aplicações ao diagnóstico e não soubesse examinar convenientemente, scientíficamente, um doente, e procurar as indicações? Seria, hoje, porventura, um médico? Não. Nem mereceria confiança, nem mereceria consideração e as penalidades da lei até sôbre êle recaìriam.

Como se poderiam considerar aqueles que hoje se obstinassem a pretender desenvolver a inteligência, formar caractéres, corrigir os instintos da criança, sem nunca ter aprendido a estudá-la, a medir-lhe a inteligência e a examinar-lhe o feitio mental, as suas tendências e as suas aptidões?

Pois se a psicologia tem progredido tanto que hoje há processos quási tam seguros para fazer tudo isto, como há na clínica para estudar o pulso ou a respiração, desconhecê-los não será, pelo menos, ser um professor incompleto, atrazado, fóra do seu tempo? Sem dúvida que sim.

Bem posso dizer como eu mesmo dizia no último Congresso Pedagógico de Lisboa: «querer e crer que sem conhecimentos de pedologia, de higiene escolar, de metodologia dos trabalhos manuais e da ginástica, possam saír das nossas escolas normais professores dignos da nossa época, a quem os governos possam confiar a educação das novas gerações, capazes, como dizia, parece-me, numa das suas célebres lições de pedagogia, o meu querido mestre, Dr. Bernardino Machado, capazes não só de transmitir--_«em tôda a sua pureza o património da civilização dos antepassados, a hercúlea fôrça atávica que nos pode permitir reabilitar-nos perante a história»_--mas tambêm capazes de fazer tudo o que fôr possível fazer-se para fomentar o progresso, melhorar a raça, melhorar o solo, melhorar o país; querer que aqueles a quem compete fazer e refazer a pátria, a façam e refaçam como noutros tempos, como no nosso tempo já não deve fazer-se, é tão estulto como querer confiar hoje a defeza da nossa terra aos heróis de outrora, a valentes de cota e malha, ou os progressos do nosso comércio, às antigas e gloriosas caravelas!»

Van Bierveliet, da Universidade de Gand, numa das suas magistrais lições de pedagogia scientífica, feitas para professores de instrução primária, exprime-se assim:

«Consideremos uma classe qualquer e interroguemos o professor; saberemos logo que num conjunto de cincoenta alunos, por exemplo, se encontram dois ou três que demostram uma grande diligência, e aceitam com prazer tôdas as tarefas que se lhe impõem. Constituem os primeiros da classe, o que pode chamar-se a _cabeça da classe_. Na grande massa dos alunos, dominam aquêles em que o zêlo é moderado; cometem erros e sabem as suas lições mais ou menos bem. Finalmente, um número mais ou menos considerável da classe acha que a tarefa que se lhe impõe é demasiado pesada e aborrecida; constitui o grupo dos _preguiçosos_, dos mandriões. Estes, fazem os seus exercícios mal, ou nada fazem, e aprendem muito pouco, uma ou outra pequena cousa, um ou outro fragmento de lição. As classes apresentam uma cabeça, um corpo e uma cauda; geralmente a cabeça é composta por dois ou três indivíduos e a cauda, pelo contrário, é muitas vezes notavelmente desenvolvida; as classes são organismos por vezes _microcéfalos_ (de cabeça pequena) e _macrures_ (de cauda grande).

«A simples constatação dêste facto, basta para demonstrar que o regimen escolar é pouco atraente para as inteligências em formação.

«Se num jantar de cincoenta talheres se constatasse que três pessoas sómente mostravam bom apetite, trinta comiam com repugnância e o resto nada comia, concluir-se-ia, com alguma razão, que ou o _menú_ era medíocre ou que os convivas tinham o estomago caprichoso e que por isso lhes não convinham os pratos que lhes eram oferecidos ou destinados. O mesmo se pode dizer das classes. Há inteligências excepcionalmente vivas que assimilam tudo, como sucede com as pessoas que têm o que se usa chamar estomago de avestruz, que tudo digerem. Há outras, pelo contrário, que perante os conhecimentos apresentados, pelos métodos mais correntes, se comportam como dispépticos da inteligência. Que se faz em regra a estas? Castigam-se. Melhor fôra curá-las.»

Melhor fôra, acrescento eu, saber conhecer o feitio mental dos alunos, agrupá-los consoante as suas semelhanças e diferenças, e saber administrar-lhes os mesmos conhecimentos por métodos diferentes, aqueles que melhor se acomodem e mais convenham ao seu feitio.

As mesmas doenças não se tratam sempre do mesmo modo; tem que se atender ao doente. No ensino sucede a mesma coisa. Não se ensinam todos pelo mesmo modo; tem que se atender ao aluno.

Um professor de instrução primária não pode, não deve desconhecer, ao entrar no exercício da sua profissão, a psicologia infantil e os processos de a estudar e de a observar. Não basta conhecer a _metodologia_, é necessário a _psicologia_.

A metodologia deverá, de resto, ajustar-se à psicologia da classe e à do aluno.

Diz Claparède num livro, cuja leitura muito lhes aconselho (_Psychologie de l'enfant_):«Muitas pessoas supõem que só a prática do ensino pode formar o professor e dar-lhe a verdadeira experiência. Seguramente, a importância da prática é capital para formar um especialista numa determinada arte. Mas é preciso esforçar-se por reduzir ao mínimo as experiências, as tentativas, sobretudo quando se trata de seres humanos. O professor que entra na prática da sua profissão, sem ter o menor conhecimento de psicologia, vê-se naturalmente reduzido a tentar, a fazer experiências com que os alunos podem sofrer; é obrigado a experimentar _in anima vili_, e algumas vezes essas experiências são demasiado longas e peníveis para as gerações de alunos que as têm de sofrer. Sem dúvida, a prática pode, dentro de certos limites, compensar a insuficiência dos conhecimentos teóricos, mas à custa de quantos rodeios e de quantos erros! Á força de construir pontes que abatem, ou máquinas que estoiram e se escangalham, pode um técnico sem instrução teórica acabar por ser um bom construtor e encontrar empíricamente as fórmulas que êle é incapaz de calcular. Mas quem quereria semelhante engenheiro?

«Um professor sem educação psicológica está precisamente no mesmo caso, com esta diferença, contudo: que, quando uma ponte tende a abater, no decurso da sua construção, pode ser reparada imediatamente ou pode ser refeita. Enquanto que se se trata de uma inteligência ou de um carácter que erradamente se forçou ou tratou na sua evolução, só tarde se dá pelo mal, quando êle já se não pode remediar, e nunca em nenhum caso se pode refazer, reconstruir, fazer de novo outra inteligência ou outro carácter.»

Estas parábolas devem convencer as senhoras e os senhores normalistas da utilidade do estudo da psicologia, do estudo das faculdades mentais, na preparação dos professores de instrução primária.

Mas que psicologia?

Será a psicologia clássica dos compêndios de filosofia? Será a psicologia especulativa? Será a psicologia, o conhecimento das faculdades mentais pelo exame introspectivo de indivíduos excepcionais, supra-normais quási sempre, filósofos que se deram ao trabalho de se estudar a si mesmo? Não.

A psicologia do adulto é diferente da da criança e o estudo desta não se pode fundar no exame feito por ela própria. O estudo da psicologia da criança é quási como o da dos animais. A criança não é um homem e é quási tam diferente do homem como a lagarta da borboleta. Que se diria de quem quizesse alimentar ou tratar a lagarta do bicho da sêda como a sua borboleta, como êle na sua fase de insecto perfeito? E no entanto lagarta e borboleta, tam diferentes na fórma e nos hábitos, são o mesmo indivíduo. Assim sucede com cada um de nós, na sua fase infantil e na sua fase adulta.

A propósito da psicologia clássica, talvez com mais razão do que dizia Binet da antiga pedagogia, se pudesse dizer: «deve ser completamente suprimida», no ensino das escolas normais, acrescento eu.

Eu sei com que razão se tem apresentado contra o ensino da pedologia, ou estudo da criança, aos professores de instrução primária, o argumento de que êle tem levado êstes a distrair-se das suas funções docentes, para se dedicarem a estudos e experiências que não só prejudicam, porque afastam o professor da sua principal missão: instruir e educar, como tambêm porque o levam a fornecer dados que por insuficiência ou carência de preparação scientífica, que só em cursos superiores e especiais se pode adquirir, são em regra dados perdidos, cheios de erros, falseados, quási inúteis para a sciência.

Mas o que eu pretendo fazer não é preparar psicólogos, antropologistas, filósofos; nem eu, nem ninguem deveria pretender fazê-los numa escola normal primária, principalmente com as habilitações que os senhores podem e devem ter. O que eu pretendo fazer é ensinar os principais elementos de pedologia, que a sua preparação literária consente e que os professores devem conhecer para melhor ensinar.

Procurarei, em suma, ensinar _rudimentos de pedologia e as suas aplicações ao ensino na escola primária_.

Seria estulto que eu, médico antropologista, embora director de um instituto de educação, eu que não fiz estudos regulares de metodologia do ensino primário, nem nunca professei êsse ensino, viesse ensinar-lhes todo o programa actual da pedagogia, sciência e arte de ensinar, como seria igualmente estulto e injustificado que se exigisse a um professor de instrução primária, que não tivesse feito estudos especiais de antropologia, e não tivesse suficientes conhecimentos de técnica-pedométrica, que ensinasse a pedologia, sciência que é conveniente e, mais do que conveniente, indispensável ensinar ao futuro professor.

Não é preciso exagerar como Chaillou e Mac-Auliffe, quando na sua _Morfologia médica_, dizem: «A educação é e continua a ser puramente pedagógica. _Escapa ao único homem que deve dirigi-la, ao médico._» Não. Mas é preciso dizer-se, porque é fácil provar que o é, que é necessário que parte da preparação do professor primário seja feita por médico especializado nas aplicações das sciências médicas à pedagogia, e que o professor seja um auxiliar do médico.

Os exercícios que habitualmente passarei, serão exercícios de educação scientífica e neles terei em vista não só ensinar como se estuda e desenvolve as faculdades da criança, mas tambem o ensinar a estudar e a desenvolver as faculdades dos que a têm de educar.

A S. Ex.^a o actual Ministro de Instrução Pública caberá a honra de ter introduzido no quadro dos estudos do curso normal, o ensino regular da pedologia.

Por minha parte, procurarei corresponder aos desejos de S. Ex.^a o Ministro, repartindo com todos os meus alunos o que da matéria souber e com êles estudando o que fôr preciso estudar, pondo ao seu dispôr os meus hábitos, os meus recursos e o meu método de trabalho.

Que a dedicação e a lialdade com que sempre uso servir nos lugares para que me nomeiam, possam compensar outras minhas faltas, que eu possa provar ao digno director e ao ilustre corpo docente dêste estabelecimento de instrução, a que agora muito me honro de pertencer, quanto desejo contribuir para o bom nome e reputação desta Escola, e finalmente que eu possa ter o maior e melhor pago que desejo ter: o poder ouvir dizer aos meus alunos que na vida prática de bastante lhes serviu o que procurei ensinar-lhes, os conhecimentos que lhes transmiti, os hábitos que lhes criei e as prelecções que lhes fiz.

A ARTE DE EDUCAR E A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL[2]

«To educate is to bring out all the powers that are in the child and to traim him to use them to the best advantage of himself and indirectly of the nation of which he is a part».

(Miss C. Aguther, _Child Study_, June, 1917).

Minhas Senhoras e meus Senhores:

A arte de educar é fundamentalmente a arte de regular a conduta presente e futura dos que se têm de educar. Implica forçosamente o conhecimento da conduta, das causas dela, do seu mecanismo e das possibilidades que o indivíduo oferece. A arte de educar assenta como a arte de curar, na anatomia e na fisiologia e assim como o médico, médico que tenha de exercer a profissão, tem não só de conhecer as doenças e os remédios, mas tambêm conhecer os doentes e encontrar as indicações, assim tambêm o educador, que tenha de educar, tem não só de conhecer os fins da educação e os meios da educação, a pedagogia e a metodologia, mas tambêm de saber conhecer o educando e encontrar a fórma de educação que mais lhe convenha e se adapte ao seu feitio. E assim como para o estudo do doente não basta conhecer os sintomas das doenças, porque é necessário sabê-los observar, assim tambêm não basta ao educador conhecer os fenómenos da educação, a psicologia, mesmo que esta tenha a feição moderna e scientífica, e se chame psico-fisiologia ou psicologia experimental, é necessário tambêm principalmente possuir a técnica da observação e da experimentação. Saber psicologia pode não ser saber fazer psicologia, como saber quais os sintomas das doenças pode não ser saber observá-los e fazer diagnóstico.

Ensinar num curso prático de psicologia experimental, que é como oficialmente se chama o curso que tive a honra de ser chamado a reger, ensinar nesse curso numa Escola Normal, é fundamentalmente ensinar o que fôr preciso para habilitar os futuros professores a conhecer e praticar os meios scientíficos de estudar práticamente os fenómenos mentais, isto é, possuir as regras e os meios de condicionar êsses fenómenos, por fórma a que outros os possam observar nas mesmas condições, e verificá-los.

Educar não é hoje, como noutros tempos se supunha, criar, é essencialmente orientar. Não é lutar contra a natureza. O educador dos homens como o educador dos animais, tem que aproveitar as boas tendências, os talentos, para os enriquecer e desenvolver, como dos instintos diz o educador e moralista Foerster, falando do ensino dos animais. E quanto às más tendências, tem que saber inibi-las, ou sublimá-las. Talvez que nesta altura, para lhes dar uma exacta idea acêrca do valor e possibilidades do ensino e quebrar-lhes preconceitos que a todos os professores desta Escola pertence o combater, e isto, por minha parte, na intenção de aproveitar o pretexto de demonstrar que a arte de educar hoje assenta e quási se confunde com a arte de estudar os fenómenos psíquicos, com a psico-técnica, talvez que, para isso, não lhes pudesse de momento aconselhar melhor leitura, como leitura prévia, do que a do livrinho _Criminalidade e Educação_, do Sr. Padre António de Oliveira que não é só, como todos sabem, uma admirável figura de filântropo, mas, mais do que isso, uma figura notável de educador, com vocação e larga e valiosíssima experiência.

É preciso que a arte de educar seja como a arte de curar.

É necessário ouvir tambêm o prático, ouvir o que educa, ouvir o que cura, sobretudo quando sucede como deve ser, que a arte que praticam seja arte esclarecida pela sciência, e não simples empirismo.

Educar é condicionar intencionalmente as reacções do indivíduo. Educar, portanto, implica, primeiro do que tudo, o saber estudar as causas e mecanismo das reacções individuais. E o estudo dessas reacções feito experimentalmente tem o maior interêsse e importância para o educador. Muitas dessas reacções são de ordem interna e só o próprio indivíduo as pode observar directamente, mas essas mesmas são acompanhadas doutras reacções, acessíveis ao estudo directo dos outros e portanto podem ser estudadas objectivamente, sem intervenção do exame dos próprios em que elas se dão. O educador, em resumo, tem de estudar o mecanismo das reacções individuais e a maneira scientífica de as condicionar.

De acôrdo com estas ideas, já a dentro da velha Escola Normal, onde tive a honra de reger durante alguns anos o _Curso de Pedologia_, o meu distinto colega naquela e nesta Escola Sr. Professor Dr. Alberto Pimentel, cujo livrinho de lições lhes aconselho, procurou orientar o ensino teórico da Psicologia. Eu, por minha parte, completarei êsse trabalho ensinando-lhes a técnica dos estudos psicológicos, segundo essa orientação.

Disse eu que a psicologia experimental se prende tanto com a arte de educar, que por vezes até quási se confunde com ela. Não é quási se confunde, confunde-se até. Em psicologia animal, ramo da psicologia quási desconhecido entre nós, a psicologia experimental funda-se na _educabilidade_, é o proprio exame da educabilidade, é a propria arte da educação exercida com o fim de estudar os fenómenos e os recursos mentais do animal.

Vejam por exemplo, para fácilmente e sob uma fórma agradável apreenderem melhor o assunto, o excelente livrinho de Hache-Souplet, director do Instituto de Psicologia Zoológica, intitulado _De l'animal à l'enfant_ (Bibl. de ph. contemporaine) e que se pode considerar um pequeno manual adoptável na preparação dos professores de ensino infantil.

Não se surpreendam com êste atrevido conselho de lhes indicar um livro de psicologia zoológica, como meio de preparação pedagógica. Há grandes afinidades entre a psicologia dos animais superiores e a das crianças e sobretudo é a estas duas psicologias, a zoológica e a infantil, que é, quando não indispensável, pelo menos mais necessária a prática dos métodos da psicologia objectiva. Num dos melhores e mais modernos livros de _psicologia pedagógica_, o de Thorndike, notável professor de psicologia pedagógica numa escola de mestres, têm um livro cheio de estudos interessantes de psicologia zoológica sôbre a inteligência dos animais, estudada pelos meios da psicologia experimental; e o afamado e emérito psicólogo suisso, cujo nome já vai sendo banal citar entre nós, o Professor Claparède disse, ao publicar o programa do Instituto de Sciências da Educação de Genebra: «Para ser completa uma escola de sciências da educação deveria possuir um serviço anexo..., quero dizer, um laboratório de psicologia animal...»

Adestrar um animal, regular-lhe a conduta, é aprender muitas vezes a ensinar uma criança. Algumas vezes, por isso, recorrerei, se as circunstâncias o permitirem, a alguns exercícios de psicologia animal, para lhes esclarecer uma ou outra questão psicotécnica pedagógica.

O exame objectivo das reacções será o escopo principal do meu curso. Curso prático de psicologia objectiva podia bem ser o título a dar-lhe. Psicologia objectiva não quere porêm dizer, que seja exclusivamente um curso de psico-fisiologia, como muitos podem supor. A psico-fisiologia é apenas uma parte da psicologia objectiva, aquela em que se estudam as variações fisiológicas, própriamente ditas, que acompanham ou condicionam os fenómenos mentais. As reacções exteriorizam-se tambêm por outras fórmas, que não podem sómente ser estudadas pelos métodos da fisiologia. O estudo das reacções provocadas por certos reagentes mentais é um verdadeiro estudo pedagógico. Outra cousa não é a maior parte das vezes o estudo dos chamados _tests_, como é por exemplo o dos _tests_ para a medida da inteligência, de que por certo já têm ouvido falar e talvez tenham já visto descritos.

A psicologia experimental será talvez ainda preferível à psicologia objectiva, porque a psicologia experimental atinge tambêm o estudo introspectivo dos fenómenos mentais, o seu estudo directo, e êste há-de-nos ser preciso quando se tratar do estudo da psicologia do professor, da psicologia de quem ensina, porque o ensino não depende só da psicologia do educando, mas tambêm da do educador, e bom é que êste aprenda a saber examinar-se, a estudar as reacções que o aluno e a escola nele determinam para examinar a sua aptidão, e a corrigir vícios de reacção, que são por vezes causa de graves perturbações escolares. Não é só o aluno anormal que perturba a classe, é o professor anormal, é o que não se adapta à profissão, é o que não a sabe praticar, por falta de cultura ou por falta de intuìção.