Part 4
A profunda melancolia que se observa nas deliciosas paginas da _Menina e moça_ de Bernardim Ribeiro e nos seus versos singelos e melodiosos, nas poesias sentimentaes de Christovão Falcão, de Camões e de Soares de Passos e na maravilhosa relação de naufragios intitulada _Historia tragico-maritima_, essa profunda melancolia tambem é vigorosamente expressa nas Poesias de Herculano e principalmente no seu magestoso, soberbo e sublime _Monasticon_.
Não é, porém, só na vigorosa expressão da melancolia que Herculano é um dos mais notaveis representantes da alma portuguesa; tambem o é na poderosa energia com que exprime todos os sentimentos nobres e elevados. O amor, a coragem, o patriotismo e a generosidade são affectos caracteristicos do povo português; Herculano exprimiu-os de um modo verdadeiramente assombroso.
Como Camões, foi simultaneamente poeta e soldado. O principe dos prosadores tem muitos pontos de contacto com o principe dos poetas. Camões combateu na Africa e na Asia em prol da patria; Herculano pelejou no cêrco do Porto a favor da liberdade. Camões esteve desterrado em Macau; Herculano viu-se obrigado a emigrar para se esquivar ás perseguições do governo absoluto de D. Miguel. Camões, impellido pelo seu ardente patriotismo e pela immensidade do seu genio, escreveu os _Lusiadas_, narrando em bellos e magnificos versos os feitos mais brilhantes da nossa historia; Herculano, levado pelas suas tendencias especiaes para os estudos historicos e pelo seu grande amor da patria, escreveu num estylo magestoso como o de Barros, harmonioso como o de Fr. Luis de Sousa, vigoroso como o de Tacito, vernaculo como o de Vieira e singelo como o de Fernão Lopes, a _Historia de Portugal_, o mais grandioso de todos os seus monumentos, a obra mais eminentemente nacional que em Portugal se escreveu depois dos _Lusiadas_.
O sentimento de dignidade pessoal era egual em ambos os escriptores. Camões nunca lisonjeou os poderosos no meio das maiores privações; Herculano nunca fez o minimo sacrificio da propria consciencia, foi sempre amigo da verdade e da justiça.
Em ambos brilhou o patriotismo no mais alto grau. Em Camões exerceu uma impressão dolorosa o desastre de Alcacer-Kibir; Herculano soffreu profundamente com o progresso da nossa corrupção moral e com a nossa decadencia politica. Camões, numa carta que dirigiu a D. Francisco de Almeida quando Portugal estava proximo a perder a sua independencia, escreveu: «Em fim acabarei a vida, e verão todos que fui tão affeiçoado á minha patria que não me contentei de morrer nella mas com ella.» Herculano, pouco antes da sua morte, profundamente sensibilizado pela decadencia moral e politica do seu pais, exclamou: «Isto dá vontade da gente morrer!»
Na vivacidade do dialogo, na virilidade do estylo e no ardente enthusiasmo que transmitte aos leitores, tambem se assemelha Herculano ao grande épico. É admiravel a energia com que o nosso mais eminente romancista historico pinta as almas dos seus heroes, fazendo resurgir o espirito religioso, patriotico e guerreiro de epochas remotissimas. No seu pequeno mas excellente romance _O castello de Faria_, que faz parte das _Lendas e narrativas_, encontra-se o seguinte trecho, cuja eloquencia simples, magestosa e robusta nos traz á memoria as passagens mais eloquentes dos Lusiadas:
«Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacã; todas as béstas se inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se num silencio profundo.
«--Moço alcaide, moço alcaide! bradou o arauto, teu pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galliza pelo muito excellente e temido D. Henrique de Castella, deseja falar comtigo, de fóra do teu castello.
«Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e, chegando á barbacã, disse ao arauto:
«A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero.
«O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel approximou-se da barbacã. Chegados ao pé della, o velho guerreiro saiu d'entre os seus guardadores, e fallou com o filho:
«--Sabes tu, Conçalo Nunes, de quem é este castello, que, segundo o regimento de guerra, entreguei á tua guarda, quando sai em soccorro e ajuda do esforçado conde de Ceia?
«--É, respondeu Gonçalo Nunes, de nosso rei e senhor, D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste preito e menagem.
«--Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruinas delle?
«--Sei, oh meu pae! proseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.--Mas não vês que a tua morte é certa se os inimigos perceberem que me aconselhaste a resistencia?
«Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:
«--Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castello de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castello sem tropeçarem no teu cadaver.
«--Morra! gritou o almocadem castelhano, morra o que nos atraiçoou!
«E Nuno Gonçalves caiu no chão, atravessado de muitas espadas e lanças.
«Defende-te, alcaide!» foram as ultimas palavras que elle murmurou.
«Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança.
«Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o proprio sangue com o sangue do homem leal ao juramento.»
Este trecho eloquentissimo, cuja energia é inexcedivel, revela-nos a maravilhosa aptidão que Herculano possuia para pintar as grandes paixões, as paixões heroicas. A falla que Nuno Gonçalves dirige a seu filho Gonçalo Nunes excitando-o a defender corajosamente o castello, embora com sacrificio da propria vida, não produz menos enthusiasmo no meu coração do que a falla de D. Nuno Alvares Pereira no Conselho de Guerra, que é incontestavelmente um dos trechos mais eloquentes dos Lusiadas. O estylo de Herculano é incomparavelmente mais epico do que o de todos os poetas que em Portugal têm florescido depois de Camões; é principalmente pela nobreza e virilidade do seu estylo magico que Herculano ha de ser sempre considerado um dos maiores prosadores do mundo. Assim como Platão possuia o enthusiasmo de Homero, assim nas obras de Herculano revela-se o ardente enthusiasmo do principe dos nossos poetas.
Todo o homem recebe uma influencia poderosa do meio em que vive; Herculano não podia deixar de receber esta influencia mas, pelos seus vastos e profundos conhecimentos e pela sua eloquencia energica, solemne e magestosa, elevou-se muito acima dos seus contemporaneos, alcançando sobre elles um poder espiritual tão assombroso que os seus escriptos eram considerados evangelhos.
A influencia que Herculano exerceu neste seculo foi muito superior á influencia de Sá de Miranda no seculo dezaseis porque, apesar da grande semelhança de caracter que tiveram os dois illustres escriptores, Herculano possuiu um talento mais genial e vasto. Quando Herculano residia no seu eremiterio da Ajuda, agrupavam-se em volta d'elle os talentos mais notaveis que Portugal possuia naquella epocha, e até o bondoso e illustrado rei D. Pedro V o visitava frequentemente para lhe pedir os seus conselhos. Herculano foi para o nosso país o grande patriarcha do seculo dezanove; nenhum escriptor ainda conseguiu neste seculo exercer sobre a sociedade portuguesa uma influencia egual á sua; ninguem, depois de Camões, influiu tão poderosamente na nossa litteratura e civilisação.--Disse.
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End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Diogo Rosa Machado