Alexandre Herculano Conferencia pública realizada no Atheneu Commercial de Lisboa, na noite de 15 de Julho de 1900

Part 3

Chapter 33,653 wordsPublic domain

O sr. Theophilo Braga censura a Herculano o seu ardor em combater o jesuitismo e os novos dogmas introduzidos na religião catholica, dizendo que elle dispendeu as suas forças contra os moinhos de vento do marianismo, do infallibilismo e do syllabismo e que o jesuitismo se tornou para elle uma preoccupapão constante; mas, como o auctor da _Historia do romantismo_ se tem occupado dos mesmos assumptos, é evidente que escreve contra si proprio, o que me causa verdadeiro pasmo. Alem d'isto a censura feita a Herculano recae sobre a propria imprensa republicana, que muito frequentemente narra e estigmatiza escandalos jesuiticos.

É o poder da igreja tão pequeno que se não devam combater com a maxima energia as suas doutrinas contrarias ao bem social? Tem porventura o jesuitismo tão pouca força que se deva considerar um elemento desprezivel? Não tem a Companhia de Jesus progredido assombrosamente no nosso pais? Não estão os collegios jesuiticos repletos de alumnos? Leibnitz, um dos genios mais vastos e profundos não só da Allemanha mas de todo o mundo, disse muito sensatamente: «Dae-me a educação, que eu transformarei a Europa em menos de um seculo.» Alexandre Herculano, com o seu profundo criterio, conhecia a grande força da educação; por isso receava que o jesuitismo viesse causar a decadencia intellectual e moral da sua patria.

A moral perversa dos jesuitas foi no seculo dezasete posta a descoberto não por um impio, não por um atheu, mas por um dos mais eloquentes e profundos apologistas do christianismo, por um genio prodigioso que, depois de ter feito os mais assombrosos descobrimentos scientificos, depois de ter penetrado varios segredos da natureza, depois de ter resolvido os mais difficeis problemas da mathematica, levantou, em favor do christianismo, esse grandioso monumento philosophico intitulado _Pensamentos_, que, apesar de ter ficado incompleto, revela a profundeza do genio que o traçou; este grande homem, este escriptor religiosissimo, este moralista austero, que se chamava Blaise Pascal, foi quem mais poderosamente contribuiu para a queda dos jesuitas no seculo dezoito. As suas _Provinciaes_, escriptas num estylo comico e vigoroso, espalharam-se por toda a Europa e as maximas corruptas dos jesuitas foram ridicularizadas não só nas academias mas até nos palacios dos reis. Como poderia Herculano, o enthusiasta ardente da moral pura e severa do Evangelho, deixar de combater energicamente as doutrinas anti-christãs da seita jesuitica?

Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano, depois de se mostrar partidario do casamento civil, veiu a casar-se catholicamente; o distincto professor acha este procedimento contradictorio com as opiniões de Herculano. Quando, ao ler a _Historia do romantismo_, encontrei esta asserção tão infundada, fiquei realmente estupefacto. O sr. Theophilo Braga inverte completamente as doutrinas de Herculano, expostas com tanta lucidez nos seus _Estudos sobre o casamento civil_, e colloca-se a uma distancia que lhe torna impossivel apreciá-lo com exactidão.

Não ha escripto algum em que Herculano tivesse combatido o casamento catholico; pelo contrario, elle admittia duas especies de casamento: o catholico e o civil. O que repugnava ao seu espirito profundamente liberal e tolerante é que os individuos que não acreditassem no catholicismo se vissem obrigados a receber o sacramento do matrimonio, a praticar um acto contrario ao seu modo de pensar e que elle considerava um verdadeiro sacrilegio, uma offensa á religião. Se Herculano era um velho catholico, se elle estava convicto de que o sacramento do matrimonio remontava aos primeiros seculos do christianismo, como procedeu o grande historiador contra as suas opiniões casando-se catholicamente? Herculano nunca defendeu leis que prohibissem a qualquer individuo o seguir as suas crenças, tinha o mais profundo respeito pela liberdade de consciencia, era inimigo de todas as violencias feitas ao espirito humano, queria liberdade para todos, não era intolerante como os hypocritas da liberdade, que não respeitam a consciencia alheia. Herculano sustentou que devia existir um registo civil especial para os casamentos dos não catholicos, não admittindo que os nubentes fossem interrogados ácerca das suas crenças religiosas, o que, segundo a sua opinião, seria um attentado contra a liberdade de consciencia, um processo verdadeiramente inquisitorial. Quanto ao casamento catholico, considerava-o debaixo de dois aspectos: como sacramento e como contracto. Estando num país, cuja maioria era constituida por catholicos, admittia que o registo ecclesiastico servisse de registo civil. Era assim que o grande historiador procurava conciliar o principio sacrosanto da liberdade de consciencia com o respeito á religião do estado. Sejam quaes forem as opiniões ácerca das doutrinas sustentadas por Herculano relativamente ao casamento civil, é incontestavel que não ha fundamento algum para se affirmar que o seu casamento catholico esteve em contradicção com as suas idéas.

O seguinte trecho dos _Estudos sobre o casamento civil_ é uma prova evidente de quanto é inexacta a opinião do sr. Theophilo Braga:

«O catholicismo puro e desinteressado não tem culpa d'esta horrivel e immensa traição que nas altas regiões da jerarchia sacerdotal se está perpetrando contra elle. Não tem culpa de que o vendam por trinta dinheiros ao anjo mau da reacção politica. O catholicismo não quer que forcem os que não crêem nelle a receber um sacramento, porque não pede um acto que lhe repugna, que reputa uma profanação; não pede que os poderes publicos constranjam os membros do proprio gremio a não peccarem, porque a inquisição é para elle a maior affronta que lhe têm feito os homens. O catholicismo puro não confunde o sacramento, que é cousa espiritual, com o contracto, que é materia juridica, porque desde os tempos apostolicos, conforme temos visto, jámais os confundiram as tradições legitimas da igreja. Considerada a questão á exclusiva luz do direito, o sacerdote que auctorisa o contracto e o abençoa é, no primeiro caso, official civil, e no segundo, ministro da religião. É uma cousa simples, clara, inoffensiva. Em nome da liberdade, deixemo-la ficar na lei.»

O sr. Theophilo Braga tambem cae noutra inexactidão dizendo que Herculano, tendo-se manifestado contra o direito de propriedade litteraria, se contradisse vendendo o manuscripto do _Diccionario_ que o conselheiro Ramalho lhe deixára. Mas onde é que Herculano confundiu a innegavel propriedade de um livro, de um manuscripto ou de qualquer objecto tangivel com o que se chama propriedade litteraria?

A questão da propriedade litteraria é uma d'essas questões altamente transcendentes em que ha grande divergencia de opiniões; Herculano tratou-a com muita profundeza e originalidade, revelando o seu espirito eminentemente philosophico, a sua vigorosa dialectica. Ha certamente mais de uma opinião ácerca das suas doutrinas, mas o que nenhum critico imparcial poderá affirmar é que entre ellas e a venda do _Diccionario_ de Ramalho á Academia existiu a minima contradicção.

Herculano foi de uma coherencia admiravel nas opiniões religiosas, philosophicas e politicas que manifestou em toda a sua vida. Só quem interpretrar mal as suas palavras poderá affirmar o contrario. O seu espirito, que amava ardentemente a luz, nunca deixou de progredir.

Diz o sr. Theophilo Braga que foi o ataque do clero por causa da suppressão do milagre de Ourique que fez com que Herculano de catholico ferrenho se tornasse um christão semi-deista; isto está de accordo com o que tenho ouvido dizer a alguns padres, relativamente aos escriptos em que Herculano condemna a proclamação dos novos dogmas da infallibilidade do papa e da immaculada Conceição de Maria. Tudo quanto dizem os adversarios de Herculano a este respeito é completamente falso: nem são capazes de apresentar prova alguma em favor de tal asserção.

O caracter de Herculano foi muito superior ao do padre Lamennais, que, tendo defendido com muita eloquencia, no seu «Ensaio» sobre a indifferença em materia religiosa e noutros escriptos, as doutrinas ultramontanas mais retrogadas, abraçou quasi de repente o racionalismo depois que lhe foram condemnadas algumas obras. Este padre, tão notavel pelo seu talento litterario e philosophico, não recebeu na infancia uma educação religiosa como Herculano; só aos vinte e dois annos é que fez a primeira communhão: póde haver por consequencia muitas duvidas ácerca da sua sinceridade. Mas o espirito de Herculano não passou por transformações tão bruscas; em nenhuma epocha da sua vida se mostrou partidario do ultramontanismo; nunca defendeu a infallibilidade do papa; até nas suas poesias simultaneamente religiosas, philosophicas e liberaes, onde estão profundamente gravados os sentimentos e idéas da sua ardente mocidade, transluzem referencias aos padres hypocritas e fanaticos.

Na _Harpa do crente_, nessa magnifica colleccão de poesias em que se revela um grande poeta, um profundo metaphysico, um christão ardente e um patriota liberal, encontram-se os seguintes versos que fazem parte do seu bello e magestoso hymno intitulado _Deus_ e nos quaes certamente faz allusão áquelles padres que, pondo em pratica a mais ignobil hypocrisia e tendo em mira exercer sobre a plebe fanatica o seu dominio nefasto, procuravam aterrorizá-la com a pintura horrivel dos tormentos infernaes:

«Embora vis hypocritas te pintem Qual barbaro tyranno Mentem, por dominar com ferreo sceptro O vulgo cego e insano. Quem os crê é um impio! Recear-te É maldizer-te, oh Deus; É o throno dos despotas da terra Ir collocar nos céus. Eu, por mim, passarei entre os abrolhos Dos males da existencia Tranquillo, e sem temor, á sombra posto Da tua Providencia.»

O Deus de Herculano não é terrivel como o d'aquelles inquisidores que fizeram derramar tantas lagrimas, que condemnaram á morte mais horrivel tantos milhares de innocentes e procuravam abafar com o sangue de tantos martyres a idéa que procurava expandir-se. O Deus de Herculano não é o Deus que os jesuitas pintam como um tyranno para satisfazerem a sua infrene e desordenada ambição, para dominarem a sociedade, para converterem o mundo num montão de cadaveres, sobre cujas ruinas se assentariam com um riso hypocrita, satanico e cruel. O Deus de Herculano é o Deus de paz e de amor, é o Deus do Evangelho, é o Deus que derrama os seus copiosos beneficios sobre os justos e os peccadores, é o Deus de Fénelon e de Lamartine, é o Deus das almas generosas e puras, como elle proprio o confessa no seu eloquente e philosophico poemeto _A semana santa_, escripto quando apenas tinha dezanove annos.

Ninguem em Portugal ainda defendeu com tanta eloquencia o espiritualismo christão como Herculano, mas é principalmente debaixo do aspecto pratico que elle o considera; pode-se até affirmar que Herculano foi um dos escriptores mais positivos que Portugal tem produzido em todos os seculos: é pelo lado pratico, é baseando-se em factos que elle encara especialmente todas as questões religiosas, philosophicas e politicas; por isso a convicção que produz no animo dos leitores é profundissima; sem se engolphar nas mais transcendentes abstracções metaphysicas, que muitas vezes são inuteis, nem cair nas syntheses abstrusas e nebulosas, que falsificam o criterio, analysa os factos com tal clareza e severidade, que neste ponto ainda ninguem o excedeu nem egualou em Portugal; não se deixa arrastar pela imaginação como alguns positivistas; possue no mais alto grau uma qualidade bastante recommendavel: o bom senso.

Herculano pouca importancia ligou á discussão ácerca da parte dogmatica do christianismo; o que lhe attrahiu principalmente a attenção foi a moral christã. Sejam quaes forem as opiniões ácerca d'esta materia, o que é certo é que nenhum critico sensato póde contestar a Herculano a pureza das intenções. O grande escriptor prentendia fazer d'este povo um povo simultaneamente instruido e moralizado.

Se algumas vezes se refere aos dogmas do christianismo, foi ora para mostrar a conveniencia pratica da immutabilidade da fé, ora para combater o jesuitismo, que se ia alastrando em Portugal e cuja influencia chegou a ser tão poderosa em Roma que obrigou o papa Pio IX e a maioria dos bispos do mundo catholico a modificar profundamente o christianismo, a proclamar como dogmas o marianismo e o infallibilismo, que Herculano considerava duas heresias, a romper com as tradições apostolicas, a tornar o catholicismo muito differente do de S. Paulo e Santo Agostinho e a condemnar os principios sacrosantos da liberdade no concilio do Vaticano, nesse concilio que é a pagina mais negra e vergonhosa da historia ecclesiastica no seculo dezanove.

Entre as opiniões religiosas que Herculano manifestou no seu eloquente opusculo ácerca da suppressão das conferencias do Casino, escripto no anno de mil e oitocentos e setenta e um, isto é, seis annos antes da sua morte, e as que havia exposto nos primorosos artigos ácerca do christianismo, publicados no _Panorama_ muitos annos antes do clero ignorante e reaccionario o ter insultado nos pulpitos por causa da suppressão do milagre de Ourique, não existe a minima contradicção, o que prova cabalmente que não ha rasão alguma para que se diga que foi o ataque do clero que levou Alexandre Herculano a ser adversario do neo-catholicismo, o que seria contrario ao elevadissimo caracter do grande escriptor, cujas convicções eram profundas e firmes e que punha sempre o amor da verdade acima de todas as vinganças, como o revelou na _Tentativa historica da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal_, obra que o sr. Theophilo Braga, no seu _Curso de litteratura_ portuguesa, qualifica de capital e cuja exactidão scientifica é tão notavel que levou o eximio orador sagrado, o sr. Alves Mendes, a chamar no pulpito a Herculano o severo analysta da _Historia da Inquisição_. A grande imparcialidade com que Herculano escreveu esta obra monumental depois de ser ignobilmente injuriado por uma grande parte do clero, mostra-nos quão elevado era o seu caracter. Não se devem fazer affirmações em desabono de um morto illustre, cuja voz emmudeceu no tumulo, sem que se possa demonstrar cabalmente o que se affirma.

Herculano era a logica personificada. Depois de admittir um principio tirava d'elle as consequencias com o maximo rigor. Nos seus escriptos não é facil achar contradições. Se por vezes modifica as suas opiniões, é o proprio auctor quem o confessa com toda a franqueza e sinceridade, o que é a prova mais evidente do seu altissimo caracter. O sr. Theophilo Braga pretende apresentar-nos Herculano como um espirito incoherente e voluvel, mas quem, depois da leitura da _Historia do romantismo_, ler as obras do mais eminente historiador que Portugal tem produzido, ficará á primeira vista profundamente convicto de que a sua firmeza de convicções foi tão rara e admiravel que poucos escriptores em todo o mundo o teem egualado neste ponto.

No anno de 1843, isto é, tres annos antes da publicação do primeiro volume da _Historia de Portugal_, escreveu Herculano no _Panorama_ um excellente artigo ácerca do christianismo e da philosophia, onde mostra não só a grande discordancia que tem reinado entre os philosophos em materia de moral, mas tambem a constancia e immutabilidade das crenças religiosas; nelle se encontram os seguintes periodos:

«Desde a moral de Platão deduzida do amor da formosura divina: desde a moral de Epicuro, moral negativa, que põe o profundo desprezo da humanidade como pedra angular do proceder humano: desde as escolas da Grecia até o materialismo grosseiro dos encyclopedistas, que maximas, que regra de acções deixou de ter altares, deixou de ser condemnada? Nenhuma.

«Constancia, perpetuidade só teem os preceitos immutaveis das crenças religiosas.»

Estes periodos eloquentissimos provam claramente que, antes de ser aggredido pelo clero, já Herculano admittia o principio da immutabilidade da fé; era em virtude d'este principio que elle, sem condemnar a philosophia e a consciencia, que tambem considerava fontes das boas acções, dava a preferencia á religião como instrumento de moralidade.

Na carta que Herculano escreveu ácerca da suppressão das conferencias do Casino encontra-se o seguinte trecho, que revela a sua grande e admiravel coherencia e onde censura o papa e os bispos catholicos não só pela profunda modificação que fizeram nas doutrinas da igreja primitiva mas tambem pela condemnação dos principios sacrosantos da liberdade:

«Desde a promulgação da Carta tem-se realisado gradualmente uma revolução na igreja catholica. Com assombro da gente illustrada e sincera, vimos transformar em dogma uma superstição dos seculos de trevas, rendoso mealheiro de franciscanos, tinctura de pelagianismo, aproveitada hoje para aviar receitas na botica de S. Ignacio, a immaculada conceição de Maria, dogma que forçadamente conduz ou á ruina do christianismo pela base, tornando inconcebivel a Redempção, ou á deificação da mulher, á mulher Deus, á mulher redemptora, recurso tremendo nas mãos do jesuitismo, que, lisongeando a paixão mais energica do sexo fragil, a vaidade, o converte em instrumento seu para dilacerar e corromper a familia, e pela familia a sociedade. Depois, ludibrio d'esses homens de trevas, vemos o papa, celebrando uma especie de concilio disperso, mandar perguntar pelas portas dos bispos que tal acham aquelle appendiculo á fé catholica. Os bispos, pela maior parte, encolhem os hombros ou riem-se, dizem-lhe que está vistoso e vão jantar. Depois, os que falam em nome do pontifice, tendo tornado virtualmente absurdo, por inutil, o sacrificio do Golgotha para a redempção da humanidade, ou dando ao Christo um adjuncto na sua obra divina, divertem-se em negar no Syllabus os dogmas, um pouco mais verdadeiros, da civilização moderna, e tendo elevado o erro, apenas tolerado, e ainda mal que tolerado, nos dominios do opinativo, a dogma indisputavel, e sanctificado assim uma opinião peor que ridicula, convidam a sociedade temporal á guerra civil. É a Companhia de Jesus na sua manifestação mais caracteristica. Os principios da Carta, como de todas as constituições analogas, são condemnados, anathematisados, exterminados in petto.

«É a communa de Paris, perfigurada em Roma, a arrasar e queimar, em vez de edificios, todas as conquistas do progresso social, todas as verdades fundamentaes da philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se então o concilio parado. É que falta ao Syllabus a sancção divina. Dar-lh'a-ha a infallibilidade indossada pelo episcopado ou á sua ordem. Ajuntam-se não sei quantos bispos, muitos bispos; uns reaes, outros pintados: aggremiam-se; e o papa pergunta ao gremio, em vez de o perguntar a si mesmo, se é infallivel. Os bispos tornam a encolher os hombros ou a rir-se, dizem-lhe que sim e vão ceiar. O papa infallivel, que não sabia se era fallivel, fica emfim, descançado, e os bispos ceiados, dormidos e desappressados do _visum est Spiritui Sancto et nobis_ do concilio apostolico de Jerusalem, transferido definitivamente para a Casa-professa, voltam a annunciar aos respectivos rebanhos essa nova correcção das erroneas doutrinas da primitiva igreja.

«Taes são os deploraveis e incriveis successos que temos presenciado. O jesuitismo converte o infeliz Pio IX num Liberio ou num Honorio, induzindo-o a subscrever heresias, e a grande maioria dos bispos, creando na igreja uma situação analoga á dos tempos em que o arianismo dominava por toda a parte, e abandonando a maxima sacrosanta da immutabilidade da fé, tornam-se em arautos e pregoeiros dos desvarios de Roma. As novidades religiosas vêm perturbar as consciencias, e o marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo de vencida na igreja catholica.»

Neste trecho energico e ao mesmo tempo graciosamente satyrico revela-se o espirito logico e intransigente de Herculano; não ha ninguem que seja capaz de provar que entre as idéas nelle expendidas e as crenças religiosas da sua mocidade existe o menor antagonismo. Herculano permaneceu fiel ao velho catholicismo; foi a igreja quem introduziu novidades na religião; foi ella quem deixou de observar a maxima da immutabilidade da fé, que Herculano considerava sacrosanta, e que durante muitos seculos foi seguida pela grande legião dos varões illustres da igreja, como S. Boaventura, S. Jeronymo e muitos outros; por consequencia foram os padres obedientes ao pontifice que se afastavam das doutrinas da igreja primitiva. O Espirito Santo illuminou o papa e este obrigou os fieis, sob pena de excommunhão, a acreditar em dogmas que d'antes não existiam e sem os quaes se podia muito bem entrar no ceu. Os padres chamavam hereje a Herculano mas este, por sua vez, considerava heresias todas as novidades introduzidas na religião catholica. Pio nono era para elle um verdadeiro hereje, um inimigo acerrimo do christianismo puro, um instrumento da Companhia de Jesus.

O Chateaubriand português, o defensor mais eloquente que o christianismo teve em Portugal e cujo merito litterario é comparavel ao de S. Paulo e Santo Agostinho, foi tambem o adversario mais implacavel do jesuitismo e da reacção ultramontana. O sublime auctor da _Harpa do crente_ e do _Parocho d'aldeia_ recebeu do beaterio fanatico e d'aquelles hypocritas para quem a religião é apenas um instrumento de politica os epithetos de impio, de irreligioso, de anti-christão e até de atheu. É porque entre a religião de Herculano e a religião dos jesuitas ha uma differenca enorme e considerabilissima. O sentimento religioso de Herculano nascia de um coração puro, sincero e desinteressado; a religião era para elle um balsamo suave no meio das amarguras da existencia e a fonte mais caudal das boas acções. Pelo contrario, para o jesuita a religião é a arma mais poderosa de que se serve para corromper e dominar a sociedade. Herculano amava ardentemente o christianismo, não o christianismo impuro e falsificado dos jesuitas e dos neo-catholicos, não o christianismo de Santo Ignacio de Loyola e de S. Vicente de Paulo, mas o christianismo puro, o christianismo do Evangelho, essa religião sublime que se resume nos principios sacrosantos da liberdade, egualdade e fraternidade, que, embora nunca se possam realizar em toda a sua plenitude, são as mais nobres e grandiosas aspirações do coração humano. Para Herculano o christianismo era o grande civilizador dos tempos mordernos.

Com effeito, o que é a egualdade perante a lei senão uma traducção da egualdade perante Deus, proclamada no Evangelho? Não são porventura os povos christãos que caminham na vanguarda do progresso e da civilização? O que têm produzido as outras religiões senão a tyrannia e o despotismo? Que culpa tem o christianismo de que os padres o tenham adulterado e falsificado? Ha porventura alguma comparação entre os padres da igreja primitiva, que prégavam a liberdade de consciencia e a tolerancia, e os modernos jesuitas e lazaristas, que, em vez de explicarem ao povo as maximas sublimes do Evangelho, fazem consistir a religião principalmente nos exercicios de devoção externa?

Poeta e philosopho ao mesmo tempo, Herculano era profundamente melancolico. Como Bernardin de Saint-Pierre e Rousseau, amava ardentemente a natureza. Como S. Jeronymo e S. Basilio, era apaixonado pela solidão campestre; comprazia-se em viver longe do bulicio dos homens. O amor do infinito, que abrasava o coração de Santo Agostinho, tambem incendiava o coração de Herculano.

Alexandre Herculano foi um dos principaes representantes da alma portugueza. A tristeza, que tem caracterizado o povo português em todos as epochas, tambem caracterizava a grande alma de Herculano.

O celebre critico Villemain diz que o português era reflectido e melancolico antes da epocha em que todos os povos o deviam ser. Esta meditação melancolica, que nos distingue dos outros povos meridionaes e nos assemelha aos povos do norte, revelou-se muito cedo na nossa litteratura.