Part 2
Como a religião tem raizes profundas no coração do homem, hão de existir sempre, por mais alto que se eleve a sua intelligencia, almas apaixonadas que se comprazam em estar abrasadas no fogo sagrado do sentimento religioso. Eu não creio que este venha a extinguir-se no seio da humanidade mas estou profundamente convicto de que com o progresso da civilização a religião individual se ha de tornar cada vez mais pura, isto é, se ha de ir libertando das superstições com que a têm deturpado a imaginação e a ignorancia dos povos e os interesses sacerdotaes. Embora se derribassem os altares e se destruissem os templos, a religiosidade havia de existir perpetuamente no coração do homem porque bastaria a contemplação da natureza magestosa e bella que nos circumda para despertar em nós a idéa mais sublime a que se elevou a intelligencia humana, a idéa de Deus.
Se Herculano, além de ser um grande poeta, foi um dos prosadores mais poeticos e eloquentes que têm existido em todos os seculos, que admira que o seu espirito fosse eminentemente religioso? Todas as crenças são dignas do maximo respeito comtanto que haja sinceridade naquelles que as professam. O homem que não respeita as opiniões alheias é inimigo da tolerancia e da liberdade, por mais avançadas que pareçam as suas idéas. O fanatismo philosophico é para mim tão reprehensivel como o fanatismo religioso. Considero pois injusto, absurdo e ridiculo o deprimir Herculano por causa da sua paixão ardente pelo christianismo, da sua crença em Deus e na immortalidade da alma, como o têm feito alguns d'esses criticos superficiaes ou mal intencionados que costumam apparecer em todas as epochas para depreciar as obras mais excellentes que tem produzido o genio do homem.
É indubitavel que o christianismo exerceu uma influencia benefica no genio litterario de Herculano. Foi nas paginas sublimes da Biblia que Herculano bebeu uma parte das suas inspirações; foi no estylo biblico que elle escreveu o terrivel e eloquente opusculo _A Voz do propheta_ e os sublimes e dolorosos cantos do presbytero de Carteia, que fazem parte do seu mais bello e magestoso romance, a que deu o titulo de _Eurico_. Mas, no emprego do estylo biblico, Herculano, longe de ser um simples imitador, revelou sempre a poderosa originalidade que caracteriza todos os seus escriptos.
O sr. Theophilo Braga, na sua _Historia do romantismo_, diz que Herculano não se elevou acima da metaphysica christã; mas o distincto professor esqueceu-se de accrescentar que no tempo de Herculano a maior parte dos grandes espiritos que tanto illustraram o seu seculo nos paizes mais adiantados da Europa e da America, se achavam no mesmo estado psychologico e que a philosophia positiva ainda não conseguiu derribar o espiritualismo.
Em todas as escolas philosophicas tem havido pensadores profundos. O espiritualismo christão não impediu Herculano de ser um dos mais eminentes historiadores do seu seculo, assim como não tirou mais modernamente ao immortal Pasteur a glória de ser um sabio de primeira ordem, um dos maiores bemfeitores da humanidade. Não obstante as grandes modificações por que passou o altissimo espirito de Victor Hugo, eu considero o seu christianismo, embora philosophico, incomparavelmente mais puro do que o de Torquemada e S. Domingos de Gusmão, cujo procedimento fanatico estava em completo antagonismo com os principios sublimes, com as maximas sacrosantas proclamadas no Evangelho. Victor Hugo, apesar do seu espiritualismo ardente e do seu enthusiasmo pela moral evangelica, foi um dos escriptores mais eloquentes e philosophicos que a França tem produzido. Se Guizot e Thierry na França, Cantu na Italia, Maccaulay na Inglaterra, Herder e Niebuhr na Allemanha, Prescott nos Estados-Unidos da America puderam ser ao mesmo tempo historiadores de primeira ordem e espiritualistas christãos, porque não poderia succeder o mesmo em Portugal a Alexandre Herculano? Condemnar este grande homem pelo seu espiritualismo ardente e pelas suas crenças religiosas seria o mesmo que condemnar a sua epocha e a escola romantica de que elle foi um dos mais distinctos ornamentos, seria faltar á justiça e imparcialidade que deve ter o verdadeiro critico.
Creio que, em quanto a humanidade existir, ha de haver sempre discordancia em materia philosophica. A historia da philosophia, diz Herculano, é a historia de um edificio começado ha milhares d'annos em que um seculo revolve os fundamentos que outro lançou, para lançar os seus, os quaes egualmente são revolvidos pelo seculo seguinte, cujos trabalhos condemnará o que vier após elle. A duvida, a que o espirito de Herculano era naturalmente propenso, como se revela em muitos dos seus escriptos, impedia-o de se deixar dominar completamente pelas crenças religiosas, que nunca exerceram a minima influencia nas suas investigações historicas. Esta minha opinião é completamente opposta á que o sr. Theophilo Braga manifesta na Historia do romantismo quando nega a Herculano a possibilidade de comprehender a vida politica do povo portuguez pelo facto de ser um christão fervoroso e poetico. Mas o distincto escriptor contradiz-se na mesma página quando, para deprimir Herculano, faz os maiores elogios a Agostinho Thierry, que não era menos christão do que o principe dos historiadores portugueses.
Nenhum escriptor do romanticismo foi apreciado tão injustamente pelos seus adversarios como Alexandre Herculano, o que para mim é mais uma prova do seu immenso valor. Herculano, que foi accusado de impio pelos partidarios da reacção ultramontana e do jesuitismo, tem sido criticado injustamente por alguns escriptores que, declarando-se sectarios do positivismo, estão muito longe de seguir as pisadas de Taine e de Littré, dois positivistas eminentes que, pelo seu caracter austero, espirito philosophico e estylo elegante, primoroso, correcto e limpido, se tornaram dignos da veneração não só da França mas de todo o mundo. Venero todos os grandes homens, seja qual for a sua escola, porque todos têm contribuido poderosamente para o progresso; o que detesto é a injustiça, a maledicencia e o fanatismo. O critico, para ser eminente, deve pôr a sua consciencia acima de todos os preconceitos, de todo o espirito do partido.
O amor da verdade é a principal qualidade do historiador. Foi esta qualidade, associada a muitas outras, que fez com que Herculano fosse um dos maiores historiadores do mundo. Eu não quero dizer que elle não se enganasse, porque isso seria contrario á natureza humana; não ha ninguem infallivel, a não ser o padre santo para os partidarios do neo-catholicismo ou do catholicismo influenciado pela Companhia de Jesus. O que é certo é que Herculano examinava com a mais profunda attenção tudo quanto escrevia, empregava todos os meios de não falsear a historia, tudo sacrificava ao amor da verdade, fazia fallar os factos, não enchia a historia de generalizações falsas, intempestivas e absurdas; tudo quanto dizia firmava-se em documentos que elle criticava com a maior severidade e de cuja authenticidade estava profundamente convicto; não fazia syntheses que não se estribassem na mais profunda e rigorosa analyse. O mais abalisado analysta historico que Portugal tem produzido teve sempre receio de cair nessa laboração subjectiva, falsa e imaginosa, que caracteriza muitos espiritos do seculo dezanove.
Quantas obras historicas se não tem escripto, que, em vez da verdadeira philosophia da historia, nos apresentam a philosophia dos seus auctores! Os trabalhos historicos de Herculano foram incomparavelmente mais syntheticos do que tudo quanto no seu genero se havia escripto anteriormente em Portugal; mas, se a generalização philosophica não existe nelles mais copiosamente é porque ainda se não tinham realizado com a amplitude indispensavel as investigações eruditas sem as quaes toda a philosophia da historia seria apenas um edificio sem base; é porque ainda escasseavam os materiaes sufficientes para se poderem fazer em larga escala syntheses profundas, exactas e rigorosas.
Quantas syntheses formuladas no seculo dezanove não serão materia de riso para o seculo vigesimo! Os escriptores gongoricos e nebulosos, que têm falsificado a historia com syntheses falsas e temerarias, parecem-se com aquelle fidalgo da Mancha, chamado D. Quichote, que em cada moinho de vento via um gigante, em cada rebanho um grande exercito; no seu furor de generalizar, os modernos gongoristas em cada facto vêem uma lei.
Diz o snr. Theophilo Braga que Herculano não possuia disciplina philosophica; eu estou profundamente convicto do contrario. Foi a disciplina philosophica que deu a Herculano o mais excellente methodo no modo de escrever historia; foi ella que fez com que o nosso grande historiador procedesse sensatamente, começando pelo exame rigoroso dos documentos, passando á anályse exacta e minuciosa dos factos e por fim á generalização philosophica, de que elle usou com a devida sobriedade. Os historiadores que, em vez de ter o maximo rigor na investigação dos acontecimentos, enchem a historia de syntheses phantasticas e plagiadas, é que revelam falta de disciplina philosophica.
O methodo seguido por Herculano está em perfeita harmonia com as doutrinas de um dos maiores luminares da philosophia, o grande Bacon, que sustentava que a generalização se devia fazer vagarosamente, considerando as syntheses feitas á pressa como um grande obstaculo ao progresso das sciencias e uma causa poderosa da multiplicação das polemicas.
Só um genio historico verdadeiramente prodigioso como Herculano, poderia realizar em Portugal o que lá fóra se fez com muito mais elementos. O eminente historiador estava num pais atrazadissimo em estudos historicos e philosophicos, num pais em que uma parte do clero ora roubava documentos ora se recusava energicamente a entregá-los, num pais em que os monumentos historicos dispersos pelas collegiadas e mosteiros desappareceriam completamente se Herculano os não tivesse colligido. Póde alguem, diz Oliveira Martins, avaliar o trabalho do obreiro sem ferramenta nem trabalho são?
O amor da verdade e da justiça predominava de tal modo em Herculano que seria capaz de sacrificar-lhe todos os outros affectos do seu coração; elle punha a verdade acima de tudo. Herculano nunca teve em mira sacrificar a sua consciencia ao serviço de qualquer seita ou partido; no seu rigoroso espirito a paixão pela verdade estava acima da religião e do patriotismo. A grande imparcialidade com que Herculano apreciava não só os papas mas tambem aquelles homens a quem a igreja canonizou, mostra-nos evidentemente que o espirito catholico não suffocou nelle a paixão mais nobre do verdadeiro historiador, o amor da verdade. O seguinte trecho do segundo volume da _Historia de Portugal_ é uma prova da veracidade da minha asserção:
«Ao passo que um homem de genio, Innocencio III, se assentava no solio pontificio para manter a acção da jerarchia sacerdotal, surgiam da obscuridade outros dous homens que haviam de hasteiar de novo a bandeira da abnegação e fazer abraçar pelos seus sectarios a rigorosa pobreza repellida das congregações monasticas, instituindo em frente d'ellas as congregações mendicantes. Ninguem ignora os nomes d'estes dous individuos: Francisco de Assis e Domingos de Gusmão: aquelle, humilde mas abastado burguês italiano que, depois de convertido ao mysticismo, seguia com tanto ardor a vereda da mortificação como antes seguira a espaçosa estrada dos deleites; este, nobre e altivo hespanhol, já revestido de dignidades ecclesiasticas e que se arrojara á grande empreza da reforma sem perder os caracteres da sua raça. Austero e inflexivel, homem cujos avós pelejaram sempre contra os sarracenos com o ferro numa das mãos e o facho do incendio na outra, dir-se-hia que mal sabe combater de diverso modo os que não crêem como elle. A sua exaltação religiosa é intolerante: a luz suave do Evangelho não póde vê-la senão reflexa na espada polida, senão retincta em sangue. O gemido do hereje no patibulo é para elle um hymno ao manso cordeiro do Calvario: para elle o algoz exerce um sacerdocio.»
Neste eloquentissimo parallelo, um dos mais concisos, energicos e claros de todas as litteraturas, mostra-nos Herculano a profunda differença que houve entre os fundadores das duas ordens dos franciscanos e dominicanos. O fanatismo do terrivel S. Domingos de Gusmão foi por elle estigmatizado num estylo vigorosamente poetico; o facto da igreja ter posto este homem feroz, cruel e sanguinario no numero dos santos não impediu Herculano de pintá-lo com toda a fidelidade.
É de admirar que, referindo-se o eminente historiador a estes dois vultos da igreja, não fizesse a mais leve menção do santo mais popular para os portugueses, de Santo Antonio, que não só pertenceu á ordem franciscana mas tambem viveu no reinado de D. Affonso II e cuja gloria o clero português quasi que olvidou durante seculos deixando-o envolto na lenda milagreira e chegando apenas a occupar-se dos seus escriptos e a enaltecer a sua influencia social quando pretendeu fazer manifestações reaccionarias e jesuiticas. Estou profundamente convicto de que, se o grave historiador, apesar de ser eminentemente christão e patriota, não se occupou do referido santo, é porque, relativamente a esta gloria nacional, não encontrou nos cartorios que tão activamente revolveu documentos que satisfizessem o seu espirito extremamente severo e rigoroso. Aquelle grande philosopho, a quem o sr. Theophilo Braga chama catholico ferrenho, punha sempre o amor da verdade acima do proprio catholicismo. Até no modo de considerar a religião christã se revela a poderosa autonomia da sua vasta e profunda intelligencia. Com que energia não combateu Herculano as ambições clericaes, a politica da igreja! O catholicismo, que elle apreciava não só poeticamente mas tambem debaixo do aspecto prático, não o impediu de tirar conclusões, como pretende o auctor da _Historia do romantismo_. O espirito de Herculano era ainda mais positivo do que o de alguns positivistas que se deixam seduzir pelas miragens da sua imaginação e muitas vezes da imaginação alheia.
Nas Questões de litteratura e arte diz o sr. Theophilo Braga que as primeiras impressões do espirito de Herculano o tornaram um padre por dentro. Porque motivo o distincto escriptor não deu este epitheto a tantos outros portugueses illustres que não só foram catholicos mas nunca luctaram com os padres, nunca ousaram combater energicamente a reacção ultramontana e o jesuitismo, nunca se preoccuparam com os progressos que a Companhia de Jesus tem feito em Portugal? Que um homem rude, sem instrucção, tendo apenas algumas idéas superficiaes ministradas pelo jornalismo politico, chegue a confundir a religião com o jesuitismo, isso não me admira; o que me causa verdadeiro assombro, o que me impressiona muito desagradavelmente é que o sr. Theophilo Braga, cujo talento é assás notavel, procure deprimir Herculano dando-lhe o epitheto de padre. O grande lyrico João de Deus, vivendo numa epocha menos religiosa, foi um catholico fervoroso que nunca desagradou ao clero como Alexandre Herculano; mas quem se lembrou de dar ao espontaneo, singelo e mavioso poeta do _Campo de flores_ o epitheto de padre? Almeida Garrett, o glorioso reformador do theatro nacional, escreveu um elegantissimo tratado de educação, onde não se revela menos catholico do que Herculano; todavia qual foi o critico que procurou deprimi-lo chamando-lhe padre? Não me consta que alguem désse este epitheto nem a Rebello da Silva por ter sido o auctor dos _Fastos da Igreja_ nem a Camillo Castello Branco por haver escripto uma obra religiosissima, a _Divindade de Jesus_. A seguirmos a critica do sr. Theophilo Braga, não só poderiamos affirmar que o mosteiro dos Jeronymos ficaria em breve repleto de padres se quizessemos continuar a trasladar para aquelle sumptuoso monumento os restos mortaes dos nossos grandes homens, mas tambem dariamos o referido epitheto á maior parte desses genios prodigiosos cujos descobrimentos scientificos contribuiram tão poderosamente para o progresso da humanidade como Kepler, Newton, Leibnitz, Pascal, Descartes, Claude Bernard, Pasteur e tantos outros, cujo espirito eminentemente religioso é bem notorio.
Herculano era da maxima tolerancia para com aquelles cujas opiniões divergiam das suas; não admittia restricções para a livre manifestação do pensamento. Foi um catholico liberal como o celebre historiador e theologo allemão Doellinger, que fazia d'elle o mais alto conceito e o admirava enthusiasticamente, consultantando-o sobre muitos pontos historicos e chegando a occupar-se, nos Annaes historicos de Munich, da vida e obras do nosso eminente prosador, a quem fez os maiores elogios. Na questão religiosa, Doellinger, o grande historiador da igreja, um dos mais profundos theologos da Allemanha, desempenhou um papel semelhante ao de Herculano; foi o denodado campeão do partido dos velhos catholicos allemães, que ousaram arrostar as furias de Roma; como escriptor e lente de theologia, exerceu um grande prestigio no seu pais, combatendo energicamente as novas modificações feitas no christianismo e procurando assim desviar a mocidade catholica allemã da influencia nefasta dos jesuitas; por isso era mal visto em Roma, era detestado pelo partido jesuitico, pelos sectarios do neo-catholicismo.
Herculano foi o adversario mais temivel que os jesuitas tiveram em Portugal; era dentro do christianismo que elle os combatia com o maximo vigor; os seus vastos e profundos conhecimentos de theologia e de historia ecclesiastica foram as armas mais poderosas por elle manejadas para demonstrar os erros dos ultramontanos e a grande differença que existia entre as doutrinas jesuiticas e as que haviam professado os christãos dos primeiros seculos; era expondo lucidamente as opiniões dos Padres da Igreja e dos antigos papas que elle dava os golpes mais profundos na Companhia de Jesus e no partido ultramontano. Na verdade os jesuitas têm-se afastado tanto da igreja primitiva que não é mister sair do christianismo para combatê-los; é com o Evangelho na mão que mais solidamente se podem refutar os seus erros gravissimos. O Manifesto da Associação popular promotora da educação do sexo feminino, redigido por Herculano, o qual se acha inserto no segundo volume dos _Opusculos_, é a obra mais eloquente e profunda que em Portugal se tem escripto contra a educação jesuitica; é um livro que deve ser lido por todos aquelles que ainda se preoccupam com o futuro da nossa patria e prezam a moralidade da familia portuguesa. D'este brilhante opusculo vou reproduzir o seguinte trecho, que é sem duvida um dos mais eloquentes que se têm escripto em todas as linguas:
«O procedimento dos poderes publicos durante dez annos e as suas tristes hesitações na actual conjunctura legitimam, santificam a nossa resolução; porque se trata do envenenamento moral da sociedade pelo envenenamento moral da familia. Uma lei d'esta terra, uma lei de sete seculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de honra, diz que se póde ser homicida sem crime quando a prostituição do adulterio vai ennodoar o seio da familia. É que a familia é a molecula social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se num monte de podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é maior; porque nos seminarios da reacção não se hostiliza só a liberdade: ensina-se tambem a revelar á donzella e á mãe de familia delicias mais monstruosos que o adulterio. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs, nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, o erro, o motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa linguagem é simples e explicita como as nossas intenções.»
Herculano foi inimigo acerrimo da hypocrisia e do fanatismo; o seu culto era incomparavelmente mais interno do que externo; pela contemplação da natureza é que elle principalmente se elevava á idéa de Deus.
Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano mandou construir uma capella em Valle de Lobos. Isso não admira porque, sendo Herculano toda a vida um grande poeta, como o revelam as suas obras tanto em verso como em prosa, devia comprazer-se em ter deante dos olhos objectos que lhe recordassem os bellos e saudosos tempos da sua infancia. Na casa onde Herculano nasceu e passou os seus primeiros annos havia uma ermida onde um frade arrabido costumava dizer missa os dias-santos. No _Monge de Cister_ pinta-nos elle com as mais vivas côres a profunda saudade que lhe causava a lembrança dos dias-santos da sua infancia, do altar onde no sabbado á noite se punham jarras de flores, do frade que lhe contava lindas historias ao almoço. Os verdadeiros poetas, os grandes sentimentalistas amam sempre o passado. Os homens demasiadamente positivos não podem comprehender o sentimentalismo vehemente das grandes almas. Se a cruz era para Herculano o symbolo da liberdade, da fraternidade e do progresso, não é de admirar que elle a amasse entusiasticamente, como o revelou na sua eloquente e philosophica poesia _A cruz mutilada_, escripta na sua mocidade. O ter mandado Herculano construir uma capella em Valle de Lobos não é pois uma prova de que o seu espirito retrocedesse com a edade. Alem d'isso o grande escriptor não deixou de ser christão em epocha alguma da sua vida. Rousseau, a quem os padres chamam impio, nunca zombava da religião como Voltaire. É porque o auctor do _Emilio_ era um sentimentalista ardente como Herculano. Littré, apesar de positivista, não queria perturbar sua mulher quando ella estava deante do oratorio fazendo oração. Foi a instancias de sua esposa que Herculano mandou construir a capella de que já fiz menção. Ainda que elle não fosse catholico, haveria porventura neste procedimento alguma cousa digna de censura? O verdadeiro philosopho, o amigo da tolerancia e da liberdade conserva sempre no seu coração o mais profundo respeito pelas crenças alheias. A liberdade de consciencia é um dos principios mais sacrosantos, um dos direitos mais sagrados, não só na sociedade mas até no lar domestico, no sanctuario da familia. O chefe de familia não é um despota nem a mulher uma escrava. A religiosidade é uma tendencia natural da mulher, a crença é uma das condições da sua vida moral; se quizerem extinguir-lhe no coração o sentimento religioso, lançar-se-ha no caminho do jesuitismo, o que certamente será um grande mal para a familia e para a sociedade. A religião é um instrumento poderoso nas mãos do jesuita; quem conseguir arrancar-lhe esta arma prestará incontestavelmente um grande serviço ás gerações futuras. É por meio da propaganda verdadeiramente religiosa que se dão os golpes mais profundos na Companhia de Jesus. A religião nasce do coração e a philosophia da intelligencia. Se a mulher é mais dominada pelo sentimento do que pela idéa, como poderá ella comprehender systemas philosophicos que estejam em antagonismo com o seu estado psychologico, com as grandiosas aspirações do seu nobre coração? Embora todas as opiniões sinceras sejam para mim respeitaveis, eu entendo que, em vez de se aggredir o christianismo, falsificadores, que são os jesuitas e todos os padres cujas doutrinas sejam identicas ás dos filhos de Loyola.
Herculano, com a sua crença religiosa, ficou profundamente impressionado pelos estragos que a Companhia de Jesus fazia no christianismo; por isso mostra-nos, em muitas das suas paginas immortaes, quão perigosa é para o futuro da nossa patria essa sociedade fundada no seculo dezaseis por Santo Ignacio de Loyola e cujas intrigas obrigaram a sair de Portugal os lentes mais distinctos da Universidade de Coimbra. Na prosa mais poetica e viril que nos apresenta a nossa litteratura, expoz e criticou os factos mais interessantes da historia do ultramontanismo; com a sua vista de aguia previu os progressos que o jesuitismo havia de fazer em nossos dias.