Part 1
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ALEXANDRE HERCULANO
CONFERENCIA PÚBLICA REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA, NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900
POR
DIOGO ROSA MACHADO
PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA
PREÇO 200 REIS
LISBOA LIVRARIA EDITORA TAVARES CARDOSO & IRMÃO 5--LARGO DE CAMÕES--6 MDCCCC
ALEXANDRE HERCULANO
CONFERENCIA PÚBLICA REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA, NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900
POR
DIOGO ROSA MACHADO
PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA
LISBOA LIVRARIA EDITORA TAVARES CARDOSO & IRMÃO 5--LARGO DE CAMÕES--6 MDCCCC
Typ a vapor da Empreza Litteraria e Typographica Rua de D. Pedro, 184--Porto.
MEUS SENHORES.
O homem nasceu para viver em sociedade. Apesar de todos os paradoxos sustentados por João Jacques Rousseau contra o estado social, é incontestavel que só neste estado é que elle se póde aperfeiçoar intellectual e moralmente. O selvagem é feroz, cruel e sanguinario.
Com as nações succede o mesmo que com os individuos. Assim como os individuos isolados não progridem, assim tambem as nações que vivem separadas das outras permanecem estacionarias. Quanto mais amplas forem as relações sociaes maior será o desenvolvimento da intelligencia humana. Se o commercio abre o caminho para a civilização e fraternidade dos povos, é a mais alta cultura litteraria e scientifica que poderá fazê-las attingir o seu auge. A cultura litteraria, além de ser indispensavel a todo o homem, seja qual fôr a sua posição social, é o factor mais poderoso da solidariedade universal. Quando as obras litterarias e scientificas em que se revela a maior pujança do espirito humano estiverem vulgarizadas em todos os paises, então a fraternidade universal não será certamente um sonho vão, prestar-se-ha o culto mais ardente á liberdade e á egualdade, finalizarão as guerras, que são verdadeiros crimes sociaes. São os eloquentes escriptores, os sublimes poetas e os eminentes sabios que mais têm contribuido para o progresso intellectual e moral do genero humano; devemos pois tributar as mais ardentes homenagens a todos os bemfeitores da humanidade, a todos os grandes homens que a têm honrado com o seu genio litterario, scientifico ou philosophico.
São rarissimas as manifestações populares que não são excitadas pelas paixões politicas. Este facto é um triste symptoma da profunda ignorancia que ainda lavra no nosso pais.
As homenagens prestadas aos grandes escriptores e aos sabios eximios devem ter por unica origem a gratidão popular pelos relevantissimos serviços que prestaram, pelos grandes esforços por elles envidados para instruir e moralizar a sociedade.
Bem sei que a politica é indispensavel para o progresso dos povos, mas tambem é certo que no campo da politica se põem ordinariamente as paixões partidarias acima dos affectos mais nobres e sublimes do coração humano, acima do amor da verdade e da justiça, da rectidão e da imparcialidade que devem caracterizar todo o homem de bem, todo o cidadão honrado e virtuoso. É um espectaculo assás desagradavel o vêr que, no campo da politica vil e mesquinha, de um lado se encontram homens sempre promptos a adular os poderosos da terra, todos os tyrannos; seja qual fôr a denominação que se lhes dê; do outro, individuos que, sob a mascara das doutrinas mais avançadas, procuram lisonjear as paixões muitas vezes ignobeis e mesquinhas das turbas analphabetas, ignorantes e fanaticas. O homem que só procura a verdade e o bem, que não se deixa dominar pelas paixões politicas, que é imparcial e recto, que ousa fallar ou escrever sem preconceitos contra a profunda corrupção do seu seculo e do seu pais, que não hesita em vituperar os vicios de todas as classes sociaes, que não vende a sua consciencia no mercado dos poderosos nem procura illudir a plebe ignorante e fanatica, que muitas vezes applaude inconscientemente os discursadores frivolos, cujo merito apenas consiste na verbosidade vacua e na habilidade para afagar as preoccupações populares, o homem que considera a mentira um crime, que louva ou vitupera com toda a sinceridade e justiça, forcejando por não faltar á verdade, que não mercadeja com a sua intelligencia, que Deus só lhe deu para conhecer o bello, o verdadeiro e o justo, aquelle que assim procede com toda a dignidade é sempre o alvo das censuras mais acres e injustas, chega a ser muitas vezes calumniado pelos fanaticos de todas as escolas e de todos os partidos; mas, no meio d'estas grandes miserias sociaes, ha sempre um grupo de homens sensatos e moderados, illustrados e honestos, que comprehendem o seu modo de pensar e de sentir e lhe fazem a devida justiça; quando isto não succedesse, bastar-lhe-hia a pureza da sua consciencia para o consolar, para lhe suavizar as amarguras provenientes da injustiça dos homens, porque a consciencia é para todo o homem sincero, imparcial e recto a fonte dos prazeres mais intensos e duradouros, porque é a voz da consciencia que o impelle a proseguir denodado e imperturbavel o caminho da verdade e da justiça, sem lhe importarem os murmurios, os vituperios que em volta d'elle possam levantar todos os ignorantes e maus, todos os homens dominados pelo fanatismo religioso, philosophico ou politico.
Ha uma cousa muito mais nobre e elevada do que a politica, uma occupação que não degrada os caracteres nem corrompe os costumes, em que não é preciso sacrificar a consciencia nem praticar a injustiça, que nos serve de consolação no meio de todas as angustias: é a cultura litteraria e scientifica. Sem esta cultura tão proveitosa não poderiam realizar-se nas sociedades transformações beneficas, solidas e duradouras, não teriam os povos consciencia dos seus direitos e dos seus deveres, não conheceriam o seu passado nem saberiam como proceder para se tornarem mais moralizados e felizes, não poderia haver politica liberal e sensata.
Quando se trata de prestar homenagens áquelles grandes vultos que tanta luz irradiaram nos seus escriptos, todos, sem distincção de partidos, de escolas philosophicas e litterarias, devem unir-se para mostrar a sua gratidão para com aquelles que tão poderosamente contribuiram para o progresso intellectual e moral da sua patria e da humanidade.
Ninguem mais digno das nossas homenagens do que o grande vulto de cujas virtudes e meritos litterarios e scientificos venho hoje fallar-vos. Ninguem mais digno das nossas homenagens do que o eminente escriptor que se chamava Alexandre Herculano de Carvalho e Araujo. Ninguem mais digno das nossas homenagens do que aquelle cidadão illustre que foi a maior gloria portuguesa d'este seculo e uma das maiores glorias portuguesas de todos os seculos.
Lisboa, que foi o berço de Camões e de Vieira, de Diogo de Couto e de D. Francisco Manuel de Mello, tambem possue a gloria de ser a terra onde nasceu um escriptor em cuja alma se achavam, por assim dizer, conglobados muitos dos predicados que adornavam os espiritos d'aquelles grandes homens; um escriptor que chegou a adquirir na litteratura universal um dos nomes mais illustres; um grande lyrico, cujo sentimento religioso é profundo como o de Lamartine, cujo amor da liberdade é vehemente como o de Victor Hugo, cujo patriotismo é ardente como o de Béranger; um romancista que, alem de rivalizar com Walter Scott na erudição e no estylo, revela, na pintura das grandes paixões, a energia de Shakspeare e Byron, e nas descripções de batalhas se parece com Homero; um historiador eloquente como Tito Livio, vigoroso como Tacito, conciso como Sallustio, elegante como Xenophonte, claro como Taine, consciencioso e erudito como Thierry, imparcial como Maccaulay, philosophico como Guizot e poetico como Michelet; um epistolographo sentimental como Rousseau e sobrio como Voltaire; um polemista cujo estylo não é menos grandioso que o de Lamennais e que na vehemencia da indignação rivaliza com Juvenal. Ser tudo isto ao mesmo tempo é um dos phenomenos mais raros e maravilhosos que nos póde apresentar a historia litteraria. Pois tudo isto foi Herculano; este phenomeno extraordinario e verdadeiramente maravilhoso é-nos apresentado pela sua obra monumental e complexa.
É immensa a gloria de Herculano, mas tambem é immensa a gloria de Portugal por ter sido a patria de um escriptor tão insigne e de um varão tão austero. Herculano foi incontestavelmente um dos principaes mestres da nossa lingua, um dos pensadores mais profundos da nação portuguesa e um dos historiadores mais eloquentes, exactos e imparciaes que o mundo tem produzido. A immensidade do seu genio levou o grande historiador inglês, o illustre Maccaulay, tão sobrio em louvores, a proferir esta phrase enthusiastica: «A Hespanha deveria esforçar-se por conquistar Portugal só para possuir Herculano.»
O principe dos historiadores portugueses nasceu no dia vinte e oito de março de mil e oitocentos e dez. Ha por consequencia noventa annos que neste bello pais, nesta formosa cidade banhada pelo Tejo, debaixo d'este ceu puro e limpido, nasceu um escriptor em cujo coração se abrigava a sensibilidade ardente de um poeta e em cujo cerebro fulgia a intelligencia profunda de um philosopho. Ha noventa annos que nasceu em Portugal um dos seus escriptores mais brilhantes, fecundos e eruditos e o seu prosador mais eminente. Ha noventa annos que veiu ao mundo um dos artistas mais varonis, um dos caracteres mais austeros, um dos corações mais sensiveis, energicos e apaixonados, um dos mais brilhantes luminares da sciencia historica.
A natureza difficilmente produz os grandes homens; são rarissimos em todas as nações. Por isso devemos admirá-los e glorificá-los como entes extraordinarios que a Providencia destinou para conduzir a humanidade pela estrada do progresso e da civilização.
Se attendermos á pequenez do territorio que occupamos na Europa e á respectiva população, Portugal é uma das nações que maior numero de homens illustres têm produzido. O nosso pais tem sido o berço dos mais arrojados heroes e dos mais eloquentes escriptores. A litteratura portuguesa é tão rica e luxuriante como o solo da nossa patria.
A excellente posição geographica do nosso pais, o delicioso clima que possuimos, as bellezas naturaes que adornam esta abençoada terra sulcada de rios ora graves e imponentes, ora risonhos e graciosos, os valles amenos e serras magestosas de que ella é matizada e que despertam em nós o sentimento do bello, esse vasto e profundo oceano que nos offerece o espectaculo mais grandioso tornando-nos scismadores e melancolicos e impellindo-nos ás mais altas cogitações e ao mais profundo sentimentalismo, a aptidão assimiladora da nossa raça, cujo vigor não poude ser completamente destruido por mais de duzentos annos de educação jesuitica e de tyrannia inquisitorial, tudo ha contribuido poderosamente para que Portugal tenha produzido grande numero de homens distinctos em todos os ramos de litteratura, especialmente na poesia e na historia, que são os generos litterarios que mais se coadunam com a nossa indole nacional. No meio de tantos poetas e prosadores eminentes occupa Herculano incontestavelmente um dos primeiros logares.
Alexandre Herculano era um d'aquelles homens em quem se acham reunidos os predicados mais oppostos; possuia uma sensibilidade ardente e uma profundeza admiravel, uma imaginação vulcanica e uma grande perspicacia na investigação da verdade; a sua intelligencia era eminentemente analytica e synthetica; o seu espirito era simultaneamente poetico e philosophico; nas suas obras encontra-se um estylo ao mesmo tempo simples e solemne, conciso e energico, claro e imaginoso, sobrio e elegante. Era verdadeiramente assombroso o poder e a harmonia das suas faculdades. Herculano foi um dos genios mais notaveis do seu seculo e do seu pais; ninguem ainda revelou uma sensibilidade mais energica e varonil do que elle. Em todas as litteraturas rarissimas vezes se encontra um escriptor dotado ao mesmo tempo de aptidões tão elevadas e numerosas.
Não se deve estudar a vida de Herculano independentemente das suas obras, porque em todas se revela o fogo sagrado que o anima, a sua grande imaginação, a poderosa energia do seu temperamento, a rigidez do seu caracter, o seu ardente enthusiasmo por tudo quanto é nobre e bello, o seu amor da sciencia e da virtude, a sua paixão pela liberdade e a sua profunda abnegação; numa palavra, porque em todas as suas obras está vigorosamente estampado o seu nobre caracter e o seu grandioso espirito.
A indole eminentemente poetica e philosophica de Herculano revelou-se desde a infancia; as impressões que se experimentam nos primeiros annos da vida têm grande analogia com as inclinações dos ultimos annos: nas tendencias infantis já se descobre o que se ha de vir a ser na edade de homem.
Pelos escriptos de Herculano conhecemos muitos factos da sua vida, narrados com a sinceridade que caracterizava o eminente escriptor. No Monge de Cister diz elle, referindo-se aos dias-santos dos seus tenros annos: «Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava nos jogos e brinquedos, que são proprios d'aquella edade; mas, quando o sol descia para o horizonte, ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira, sósinho, a ouvir cair num tanque uma pequena bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho que se condensava brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que nelles bailavam. E alli me achava a noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto, mas ficava-me cá a saudade...»
Estas palavras eloquentes e repassadas da mais vehemente poesia mostram-nos que já na sua infancia Herculano revelava uma grande tendencia para a solidão, um temperamento melancolico, um espirito assás meditabundo, um coração muito impressionavel, uma alma verdadeiramente poetica, onde se começava a accender o amor da natureza. As suas tendencias infantis não denunciariam já o grave e austero solitario de Valle de Lobos? Aquella creança prodigiosa, que se afastava dos seus companheiros para meditar, havia de ser mais tarde o vigoroso cantor da _Semana Santa_ e da _Arrabida_, o sublime idealista do _Eurico_ e o renovador dos estudos historicos em Portugal.
Para bem se avaliarem os escriptos e as opiniões de Herculano é mister que examinemos a sua educação. Não ha homem algum, por maior que seja o seu espirito, em quem a educação não exerça uma poderosa influencia; são profundos os vestigios que deixam no espirito os primeiros habitos e idéas.
Herculano era naturalmente religioso como a maior parte dos grandes poetas, mas a educação que recebeu contribuiu poderosamente para que no seu espirito ficassem profundamente gravadas as crenças christãs. Estas crenças foram certamente modificadas pelo espirito philosophico de que a natureza o dotara, mas, embora chegasse a combater com a maior energia os novos dogmas que Roma introduziu no catholicismo, nunca em seu espirito se extinguiu a religiosidade, nunca renegou um só dos principios fundamentaes do verdadeiro christianismo. Em toda a sua vida foi um crente sincero, um enthusiasta da moral evangelica, um espiritualista ardente. Era um velho catholico, um sectario intransigente da igreja primitiva. Foi considerado hereje por uma grande parte do clero, mas aquelle hereje era um verdadeiro christão, que não admittia innovações no catholicismo nem transigia com a Companhia de Jesus.
A lucta que se travava no seu espirito entre a fé e o raciocinio, entre a religião e a philosophia, e que só póde ser devidamente avaliada por aquellas almas apaixonadas que, depois de receberem uma educação eminentemente christã, se acham invadidas pelo verme roedor do scepticismo, essa lucta dolorosa em que se estorce a alma do crente illustrado está admiravelmente descripta no magnifico prologo do «Parocho d'aldeia», onde se encontra o seguinte trecho, cuja sublimidade rivaliza com a dos mais bellos monumentos da poesia religiosa de todos os seculos:
«Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille; sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:--«Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque, filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até á hora de expirar na ignominia, até á hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio d'esta associação monstruosa da saude, do ouro, do poderio e dos crimes a um lado, e a da enfermidade, da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem horizonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida collocando no logar do destino a Providencia, e no do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo, um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste na verdade um Deus?»
Como é profundamente arrebatador este bellissimo trecho, onde o sentimento religioso é expresso com tanto vigor como nos Pensamentos de Pascal ou nos Sermões de Bossuet e onde a concisão e a harmonia se reunem do modo mais assombroso! No eloquentissimo prologo do «Parocho d'aldeia» ha mais profundeza, energia e solemnidade do que nos mais bellos capitulos do «Genio do christianismo» de Chateaubriand. Este admiravel prologo é um verdadeiro poema philosophico, onde se revela um raciocinio vigoroso alliado a uma pujante imaginação e ardentissima sensibilidade.
Como Pascal, Herculano caiu no scepticismo philosophico e, vendo quão profundas eram as dores que a duvida produzia na sua alma e quão grande era a fraqueza da razão humana, abraçou-se com a cruz, procurando refugio na religião, que era para elle uma fonte perenne de consolações e onde encontrava tudo quanto havia mais bello e grandioso para o seu coração ardentissimo, tudo quanto podia satisfazer a sua grande imaginação de poeta. Para Herculano o christianismo era não só a mais sublime de todas as religiões mas a causa principal da civilização moderna. Não ensinou Christo que todos os homens eram eguaes perante Deus, isto é, perante a Justiça eterna? Não foi elle quem primeiro prégou a fraternidade universal e a tolerancia? Não causaram as suas palavras vibrantes e sonoras, os seus discursos profundamente liberaes tanto susto aos tyrannos e hypocritas?
Para Herculano o christianismo era um facto altamente grandioso não só pelo lado poetico mas tambem pelo lado social; para elle tinham uma significação profundamente analoga estas duas palavras: redempção e liberdade.
Em Herculano havia duas almas, que mantinham entre si um perfeito equilibrio: uma, religiosa e poetica; outra, philosophica e propensa ao scepticismo. A primeira fez d'elle um escriptor de primeira ordem; a segunda, um pensador profundo, que eliminou da nossa historia tudo quanto nella havia phantastico e milagroso.
Herculano não era certamente um inimigo da philosophia; o que apenas teve em vista no prologo do «Parocho d'aldeia» foi exprimir as agonias intimas produzidas pelo scepticismo involuntario e mostrar quão doce era a tranquillidade gerada pela crença viva. O homem que introduziu em Portugal a philosophia da historia e que tão eloquentemente advogou nalguns dos seus escriptos a causa da instrucção popular, deu bastantes provas de quanto amava a cultura scientifica e philosophica. Aquelle prologo é apenas um desabafo de poeta, uma manifestação sincera e profundamente lancinante dos tormentos que opprimiam a sua alma, que gemia na duvida, embora nella estivesse profundamente gravado o sentimento religioso.
Os escriptores mais eloquentes têm ordinariamente sido religiosos. Se a nossa imaginação se transportar á Grecia, á patria da poesia, da eloquencia e da philosophia, lá encontraremos a propagar o idealismo o divino Platão, aquelle grande philosopho a quem Mithridates levantou uma estatua e Aristoteles um altar e cujo estylo poetico, enthusiastico, doce e harmonioso ainda hoje causa a admiração do mundo. Com que energia não é expresso o sentimento religioso nas sublimes odes de Pindaro e nas solemnes e magestosas tragedias de Eschylo!
Passemos a Roma, e lá acharemos o sentimento religioso revelado nas obras de Virgilio, de Cicero e de Tito Livio. O grande Lucrecio, o mais profundo e um dos mais eloquentes poetas romanos, que no seu brilhante poema «Da natureza das cousas» romanizou o epicurismo, negou a existencia dos deuses e a immortalidade da alma, divinizou a materia, explicou a origem do mundo sem intervenção divina e aconselhou o suicidio, foi sem duvida uma excepção.
Mas em nenhuma litteratura da antiguidade se exprimiu o sentimento religioso com tanta simplicidade, força, doçura, nobreza e sublimidade como na litteratura hebraica. Ainda nenhum escriptor antigo ou moderno conseguiu ser mais sublime do que Isaias, nem mais sentimental e terno do que David, nem mais magestoso do que Moysés, nem mais melancolico do que Jeremias.
Na edade média apparece-nos o sublime Dante, o cantor do catholicismo, produzindo essa obra prima intitulada _A Divina Comedia_, que levará o nome do seu auctor á mais remota posteridade e que é uma das mais bellas producções do espirito humano.
Nos tempos modernos foi o sentimento religioso que inspirou a Milton a sua maravilhosa e sublime epopeia _O Paraizo Perdido_, a Bossuet as suas eloquentes _Orações funebres_ e a Pascal os seus profundos e magestosos _Pensamentos_.
No seculo dezoito, nesse seculo philosophico e revolucionario em que fizeram grandes progressos o scepticismo e a incredulidade e se propagaram com immensa actividade as doutrinas que deviam produzir as grandes tempestades politicas e sociaes, nesse grande seculo, ao qual devemos comtudo immensos beneficios, João Jacques Rousseau, um dos mais eloquentes prosadores franceses, defendeu com muito enthusiasmo a existencia de Deus e a immortalidade da alma e exaltou a moral evangelica, distinguindo-se pelo seu deismo ardente, que elle manifestou num estylo tão suave e harmonioso que faz lembrar o de Platão.
No seculo dezanove, o seculo dos estudos historicos e da philosophia positiva, vemos o sentimento religioso expresso com uma vivacidade admiravel nas obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Manzoni, Walter Scott, Lamennais, Renan, Thierry, Guizot, Michelet, Flammarion, Tolstoi e muitos outros. Este sentimento sublime do coração humano existe não só nos que professam o christianismo ou qualquer outra religião positiva mas tambem em todos os sectarios da religião natural.