Chapter 8
Não quiz mais á lisonja do mundo do que aos regalos da riqueza e á ostentação das honrarias. Por não perder uma liberdade de critica sempre severa com a propria pessoa e com as estranhas, não o atemorisou a fama de impertinente ou orgulhoso, e desprezou, aborrecendo-o, o titulo de _excellente pessoa_ «que o mundo costuma dar a quem se acommoda com as suas opiniões, quer absurdas, quer judiciosas»[74]. Ouvindo, invariavelmente e exclusivamente, as indicações e o conselho da sua consciencia, desacatou com frequencia e por completo a opinião publica, «o mais sublime, o mais respeitavel, o supremo embuste d'este mundo».
A intuição moral não se limitaria, porém, á imposição de regras adoptadas na vida individual e intima. Fixando leis, conduzia ao julgamento de quantos as offendessem e á apreciação de toda a circunstancia em que fosse offendida.
O amor da patria, inspiração de Deus, levou Alexandre Herculano ao estudo da historia, e da conjuncção do historiador e do poeta e crente devia resultar, e resultou, um moralista profundo e ardente.
O conhecimento do mundo e do fatalismo das suas leis, o mecanismo inconsciente e intransgressivel do seu movimento, que bem cedo a historia lhe revelou, posto em presença da aspiração divina, que mais cedo ainda se lhe revelou no coração, fatal tambem por inspiração da consciencia religiosa e por demonstração das civilisações e das raças, imperativa e absoluta por essencia, obrigava o poeta a cogitar e a estabelecer as formas de existencia dos homens e das sociedades nas quaes se conciliassem em virtude, belleza e felicidade os elementos diversos que a intelligencia e a observação lhe apresentavam.
Isso preferia mesmo á concepção de systemas, que para o fim pouco adeantavam, capazes de ligar e synthetisar o amontoado de relações e dependencias oppostas e desconnexas no seu aspecto exterior. Compadecendo-se mal a nitidez descarnada e fria das systemathisações com o prisma multiface dos factos concretos e as suas penas, o seu peso na ventura e na desgraça dos homens, a philosophia cederia a primazia á regra da vida, porque a instancia intima de crear belleza sob o poder de visões era evidentemente em Alexandre Herculano superior á sêde de saber por mero orgulho ou simples curiosidade. A satisfação do dever podia mais na sua alma do que o deleite de penetrar e vêr e comprehender, exultando no reconhecimento das suas faculdades de aprehensão e exame. Ha na philosophia estreme, que em si contem e limita o seu destino e fim, qualquer cousa de peccaminoso egoismo e indifferença que o apostolo de uma missão divina não acceita sem correctivo. Se é philosopho, e não pode deixar de o ser em alto grau quando a robustez mental lhe descobre o encadeamento das cousas, logo aproveitará a philosophia, subordinando-a e apeando-a do throno, para instrumento e maior efficacia da sua missão, sem muito cuidar do mais que ella encerra ou se esforçar por o definir com clareza, em quanto não aproveita á fortuna dos homens e á elevação da sua dignidade. Só n'estes termos convém, e d'ahi resultou, sem duvida, que em Alexandre Herculano o moralista seguisse de perto o historiador, como este seguiu o poeta, deixando ambos a grande distancia e em manifesta obscuridade o philosopho e sua impassibilidade, a cujos dotes e companhia nunca mostraram grande afêrro, naturalmente porque lhes pareciam debeis na substancia, de caracter por demais altivo, insensato e vaidoso, e mesquinhos em beneficios, se os referiamos á desmedida presumpção com que pretendiam representar a sabedoria das sabedorias.
Foi implacavel. Nada indulgente comsigo, Alexandre Herculano mediu os outros pela propria craveira, e sem piedade flagellou vicios, erros, crimes e fraquezas, em todo o logar, tempo e circumstancia, onde quer que os encontrou. Costumes, instituições, processos politicos, religiões e crenças, tudo apreciou e julgou com uma severidade indomavel, a que os impetos illuminados do seu genio e a isenção da sua vida deram uma auctoridade tremenda.
As intrigas politicas e occupações analogas, «que são o recreio, o comodo, o alimento, a respiração e a vida do estadista e do cortezão»[75], em que Alexandre Herculano andou «extraviado», não por «culpa da vontade mas do entendimento», serviram-lhe para comprehender toda a abominação de taes manejos e fins, astuciosamente occultos em verdades graúdas, porque «em cada seculo ha uma verdade graúda que predomina, e que vae ajudando os espertos a consolarem-se dos dissabores da vida á custa do animal, alvar por excellencia, chamado cidadão, para cujo consolo vieram á terra as bruxas, a therapeutica, os fundos publicos, a ontologia, os duendes, as infusões, a esthetica, as petas e o palavreado»[76].
Quando emergiu do atoleiro, sentiu-se renascer. As circunstancias haviam-no «baldeado no charco da vida publica», mas «a Providencia, que provavelmente não o achou assaz corrompido para fazer d'elle um homem de estado, deu-lhe uma hora de contricção em que podésse desempegar-se, escorrer o lodo dos vestidos, lavar o rosto, e voltar ao gremio do mundo moral»[77].
Não foi debalde, como debalde não foi a sua passagem na côrte e a approximação das classes nobres, quer consideradas no convivio immediato, quer observadas nos fastos das eras passadas. Ahi teria visto e aborrecido «a etiqueta, as minucias de cortezania escolastica, as vaidades inquietas de todas as supremacias e eminencias politicas, litterarias, agiotas, artisticas, da impertinente aristocracia burgueza, mirando-se, escarnecendo-se, detestando-se»... «o egoismo das pequeninas vanglorias, as pontualidades parvoas e a sensaboria de convencional contentamento»[78].
Tudo isso e a repulsão do espectaculo de miserias ainda maiores levaria deante dos olhos quando ia a caminho do seu ermiterio de Val-de-Lobos, a viver entre a gente rude, cujos thesouros de ingenuidade reconhecera e adorava. «As fileiras dos antigos pelejadores cujo ardor aliás se achava enfraquecido pelo cansaço, haviam-nas rareado os annos, e os novos não tinham braços assaz robustos para o combate. Então chamava-se á tibieza tolerancia, e aos calculos do egoismo e da pusillaminidade civilisação. Os velhos interesses e as velhas preoccupações tinham voz e voto, preponderante ás vezes nas cousas publicas. Os tumultos, as luctas das facções, as guerras civis, eram ainda possiveis: as revoluções não. Para isso requeria-se que nas veias dos homens houvesse sangue, no coração crenças, e na sociedade seiva moral»[79].
Fugido da mentira de requintes de sensualidade e perfidia em que os senhores do mundo folgavam; buscando uma atmosphera de sinceridade e de paz, não só pelo anceio de se banhar em summa candura mas tambem, decerto, pela alta sapiencia de collocar em ambiente adequado o poder de meditação do seu espirito, affastado assim das distracções e constrangimentos que sem repouso o irritavam; «envelhecido antes de tempo pela contensão do espirito em comparar, conjecturar, deduzir»[80] e sobretudo pelo tremor de uma consciencia inquieta, meticulosa, votada a uma continua febre de acertar; a affastado pelas illusões de um momento das occupações litterarias a que se dedicára com intimo affecto e reconduzido por asperos desenganos ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saido; concebendo como, no desabar do imperio romano, tantas almas severas e energicas, desesperando do futuro de Roma, iam buscar os ermos, onde o christianismo nascente lhes indicava um refugio, e alli, a sós com as suas cogitações, cerravam os ouvidos ao importuno ruido de uma sociedade gasta e podre que esboroava, não tanto ao impulso dos barbaros, como pelos effeitos da propria dissolução interior»; convencido emfim de que «luctar com a Providencia não é esforço, é loucura»[81]:--uma fadiga mortal lhe reclamava horas de repouso, a defeza instinctiva do minguado alento de um organismo exausto de aspirações, contrariedades e desillusões, e rendeu-se-lhe. Reaccendeu então na alma o vigor amortecido e quebrado em luctas vãs; e deu-nos o exemplo da nobreza na derrota quem primeiro nos mostrára dignidade e gloria nos combates.
Combates!... Os que o vulgo apreciou nas obras de Alexandre Herculano e nos actos publicos da sua vida seriam bem frouxos comparados com os que no seu peito se travavam para o isentar de cair em falta. Conheceu as profundezas fataes da fraqueza humana, e do vigor com que procurou e alcançou remir-se da sua atracção depõe uma existencia inteira de dignidade.
O trovador prisioneiro, «á vista dos homens, saberia esconder o seu delirio e morrer com firmeza; mas, na solidão, a saudade de uma existencia cheia de amor e d'esperanças, a vergonha de supplicio affrontoso, e o temor da morte lhe não consentiam velar-se deante de si proprio com a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana ainda nas suas mais terriveis situações, para que a vida seja uma continua farça, da qual o coração é o actor mentiroso desde o berço até ao sepulcro»[82]. E Alexandre Herculano, tambem trovador e prisioneiro dos ferros das contingencias e convenções mundanas, teria soffrido as angustias do seu irmão do romance medieval; mas, mais corajoso, tirou deante de si mesmo a mascara que a vaidade e o orgulho põe na face humana, e do mesmo modo, virilmente, descobriu o rosto perante as multidões atonitas de tão estranha fortaleza, provocando, sem duvida, a aversão e escarneo da debilidade vulgar, para a qual estabelecia um confronto accusatorio.
Essa sinceridade, essa facilidade e até sollicitude em patentear em todos os actos da sua vida os mobis intimos, como para se certificar da rectidão do proprio procedimento sujeitando-o ao julgamento de estranhos, indifferentes, amigos e inimigos, constitue um dos mais finos traços da delicadeza o escrupulo da moral de Alexandre Herculano. A cada passo se confessa. Voluntariamente, com uma corajosa franqueza, expõe-se á affronta e á calumnia que da revelação do seu intimo lhe possam derivar; dava aos homens as contas que de todas as suas acções dava a Deus, sem temer a injustiça do mundo que tantas vezes lhe ignorou e menosprezou a inteireza e a candura. O sentimento da responsabilidade, filho dilecto da liberdade e seu fiel companheiro, obrigava-o a julgar-se frequentemente com o rigor que o dever lhe impunha na apreciação dos actos alheios, e até mesmo, não raro, com a severidade que por indulgencia e amor não tinha com os outros.
As relações de Alexandre Herculano com D. Pedro V e os termos em que nol-as expõe no prefacio da terceira edição da _Historia de Portugal_, são testemunho da sinceridade mais perfeita, mais repassada de grandeza moral, que pode coroar as faculdades portentosas de um talento peregrino. Nem amesquinha o proprio valor nem o isenta de confronto e subalternisação ao valor alheio; não cede um palmo do que lhe pertence e não regateia uma pollegada do que deve a outrem. Reconhece a propria força, sem jactancia, descobre com uma serena e firme justiça os escudos da sua fortaleza; e sem pejo, sem córar por se sentir vulneravel e fraco á semelhança dos communs mortaes, é o primeiro a apontar os golpes com que um outro mais forte lhe rompia e penetrava a armadura.
Emprehendera o estudo da historia de Portugal para educação do principe. Pagava ao filho a divida que contraira com o pae; a este devera a situação isenta de encargos pesados, que lhe permittiu dedicar-se por completo ao aturado trabalho da compilação da historia. Levára o estudo quasi até ao fim da primeira epoca da monarchia, quando a parte publicada suscitou a «animadversão d'aquelles que querem accomodar a historia ás crenças do vulgo, ás preoccupações nacionaes e aos interesses que n'ellas se estribam.» Abriram então na imprensa e no pulpito uma campanha contra o auctor de tão estranhas revelações, e os seus inimigos encontraram adeptos até nas regiões do poder. Difficultaram-lhe a edificação da sua obra. Inhibido de proseguir sem sacrificio de dignidade, abandonou-a.
Reagindo contra essa violencia deploravel, que privava a nação de conhecimentos fundamentaes para a sua vida e consciencia moral e politica, «demonstrações incessantes e sempre crescentes dentro e fóra do paiz»[83], obrigaram os poderes publicos a reconsiderar. Os homens do poder, «se não respeitam, geralmente fallando, a moral e a justiça, quando estas tão sómente se affirmam, acatam-nas quando estribadas em qualquer genero de força e quando, portanto, significam um risco. Por isso e só por isso, do mesmo modo que por meios indirectos lhe fôra tirada, a possibilidade de continuar a _Historia de Portugal_ foi emfim indirectamente restituida» a Alexandre Herculano. Mas era tarde. Na lucta contra a torpe estupidez que o assaltára, «a ambição litteraria, a confiança no futuro, a energia e o vigor da alma, o habito dos penosos estudos e das meditações, a perseverança no trabalho, e, até, a robustez physica tinham em grande parte desapparecido».
Depois, passado algum tempo, ainda tentou um ultimo esforço para proseguir no trabalho. Se porém o tentou, ingenuamente confessava que «não fôra para servir o seu paiz.» Só por uma grande amizade o fazia. «Emquanto alheio, não ao estudo dos homens e do mundo, mas ás suas ambições vulgares, consumia os melhores dias da vida em trabalhos a cuja sinceridade, ao menos, o futuro havia de fazer justiça, um acontecimento impensado tinha chamado ao throno aquelle para quem, na sua puericia, fôra destinada a _Historia de Portugal_. Devera-lh'a por mais de um titulo; mas, annulados, sem culpa sua, os meios de pagar, a obrigação desapparecia. Fôra, todavia, por elle, e só por elle, que ainda uma vez tentára o que a razão lhe representava como quasi impossivel.»
«Na procella em que naufragára o seu pobre livro o nome do soberano fôra murmurado em voz baixa, associado ao dos satellites da reacção, calumniado, como tinha de o ser depois, com torpeza sem exemplo, em negocio mais grave. Ouviu esse murmurio: conhecia bem os homens de que vinha, deu-lhes o asco que pediam e volveu a face. O facto tinha uma significação e um valor bem sabidos.
«Malquistar o soberano com o cidadão era nobre e grande; mas era incompleto: completava-se malquistando o cidadão com o soberano. Infelizmente a tentativa falhou. O vago, o mysterioso, o terrifico teem attractivos para as almas novas de profundo e energico sentir; para as intelligencias juvenis e robustas que a ambição da ideia devora e que, impacientes, forcejam por se precipitar nas vastidões do mundo moral para lhe devassar os segredos. A alma do rei era d'essas. Buscou-o e desceu, como diria o mundo, a justificar-se, porque nunca inquiriu se para chegar do throno ás regiões do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. Movia-o, além d'isso, o instincto proprio da sua edade e da sua indole. Queria sondar o abysmo de orgulho, de odios implacaveis, de impiedade, de paixões tempestuosas de que lhe fallavam com susto. Parece que a lenda exaggerava: o precipicio, o abysmo, eram de dimensões menos amplas. Verdade é que os precipicios e abysmos fascinam e atraem: póde tambem ser que fosse isso. Que, porém, se illudisse ou que acertasse, o rei achára que todas essas negruras do feroz plebeu se reduziam a uma sinceridade talvez rude, e a sinceridade, ainda rude, tinha para elle o attractivo do novo, do impensado. Achava onde retemperar o animo lasso do incessante espectaculo da condescendencia interessada, do applauso grosseiro que vale o insulto, da devoção requerente, do regirar e mentir dos que buscam recamar-se de avellorios e lantejoulas para se inebriarem, para esquecerem que se arrastam porque são lesos. Entrava apenas na edade de homem e estava já saciado do serpeiar flexuoso das linhas curvas: attrahia-o por isso irresistivelmente a dureza da linha perpendicular, recta. Aquella alma, tão rica de abnegação de si, quanto o era de affectuosa sympathia para com todos os opprimidos, para com tudo o que padece, comprazia-se em fitar a vista em olhos que não se abaixassem deante dos seus, em encontrar na ideia alheia a resistencia á propria ideia. Não tinha ciume de uma soberania superior á sua, a da razão, nem o humilhava a dignidade humana, que equivale no subdito á magestade do rei. O que repugnava profundamente a esse espirito era o baixo, o abjecto. O reptil, infusorio em grande, inquieta-nos, tenta a nossa fé na immortalidade com o dogma horrivel da geração espontanea, da omnipotencia do fermentescivel: o homem, que é homem, esse é que prova Deus.
«Foi na affeição de D. Pedro V, no desejo de lhe comprazer que achou alentos para galgar de novo a ingreme ladeira d'onde o tinham despenhado; foi animado por elle que proseguiu em ajuntar materiaes, não para levar a cabo os ambiciosos designios concebidos na edade das grandes audacias, mas para concluir o quadro sincero da epoca mais obscura da nossa deturpada historia; para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. Expressa apenas como desejo, a sua vontade tinha-se tornado para elle irresistivel: nem se pejava de confessar que elle começava a exercer já sobre o seu espirito aquella especie de absolutismo moral que, provavelmente, aos trinta annos havia de exercer, se vivesse, sobre o geral dos animos; singular especie de absolutismo, que encerrava a esperança da regeneração dos costumes publicos e, conseguintemente, a unica esperança da manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade; autonomia e liberdade que foram para elle crença e culto, porque lh'as tornavam santas a voz de uma consciencia virgem e as revelações de uma poderosa intelligencia.»[84].
Que alma segredava essas confissões! Que essencia sobrehumana as animou! Que resplendor divino nos confunde! O orgulho do stoico e a rigidez do crente abdicaram perante a personificação candida da justiça. Não temeram degradação no desprendimento. Conscientemente o tributavam, pesando sem impostura o proprio valor e sem aviltamento depondo-o no altar do affecto que o reclamava, devido por gratidão e não offerecido pela livre generosidade do devoto. O crente engrandeceu-se renunciando á altivez do propheta e trocando-a pela humildade do servo.
Nem sempre, porém, o espirito de Alexandre Herculano pairava n'essa esphera religiosa de adoração, e não raro de indignação, a que tão altos impulsos o erguiam. Por vezes, baixando ao meio das vulgaridades terrenas, benignamente as viu e lhes sorria.
Esta ironia grave, e affirmativa todavia atravez dos reflexos inquietos da multiplicidade dos seus prismas, objecto de justiça e simultaneamente desenfado de austeridade, o rigor sem crueldade, o rir sem malevolencia ou escarneo e ao mesmo tempo sem indulgencia, sem cobrir a nudez da falta, jocoso sem insolencia e agressivo, por corrigir, sem durezas de expiação ou vindicta; esse humorismo caracteristico do sangue anglo-saxonio insinuou-se na obra de Alexandre Herculano e nos seus prolongados combates de polemista. E é de vêr a doçura, salpicada de ingenuidade, com que nos colloca em frente das ambições e cobiças barbaras d'outras eras, no intimo condemnadas e condemnaveis, embora sejam pesado attributo das miserias humanas de todos os tempos.
Exemplifiquemos.
Na côrte de D. Thereza, mãe d'Affonso Henriques, ricos homens, cavalleiros e clerigos discutiam acremente, entre si e ao sabor de cada um, a legitimidade das pretensões do filho á posse do reino e o direito da mãe em lh'a negar. «As injurias voavam de parte a parte, os ferros polidos dos punhaes principiaram a reluzir meio-arrancados dos cintos, e a sala do conselho ia a converter-se n'um campo de batalha, quando dois homens, talvez os unicos que pelo seu caracter politico e ainda mais pela sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as scenas de sangue de que os paços de Guimarães estavam a ponto de serem theatro. Quasi ao mesmo tempo dois sacerdotes se alevantaram a pedir treguas em nome de Deus. Era D. Tello, arcediago de Coimbra, um d'elles: o outro: Fr. Hilarião, o bom velho abbade do mosteiro de D. Muma. Áquelle dissera muitas vezes D. Thereza que assaz grato lhe seria vel-o bispo da sua sé, a qual então se achava orphã de pastor; a este, a predilecção que sempre mostrára ao seu mosteiro e a elle em especial o moço principe, fazia crêr com bom fundamento que não eram vãs de todo varias palavras que uma vez lhe ouvira soltar ácerca não sabemos de que doação ao santo asceterio de Guimarães, de certa villa ou herdade, com cincoenta homens de creação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas, exitos e regressos. Não os moviam na verdade estas circunstancias que apontámos casualmente, a serem, D. Tello, inclinado a favorecer a justiça da bella infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Affonso Henriques. Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do mundo. Mas é indubitavel que ambos elles estavam persuadidos de que o outro seguia uma causa má e affligiam-se profundamente de verem assim a virtude desvairada e perdida no campo contrario... Ainda cremos na virtude dos cultores de politica: sabemos por experiencia que a maior parte das vezes as suas expressões são singelas e nascem de crenças mui fundas; sabemos tambem que as suas opiniões são em geral desinteressadas, e que jámais é o medo que os incita a prégarem a concordia e a paz. E se isto é assim n'estes tempos de perversão moral, com bom fundamento affirmamos que eram puras e generosas as intenções d'aquelles dois ministros do Senhor, n'um seculo em que as doutrinas do christianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera. É certo, porém, que apezar das deligencias que faziam cada um d'elles para aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido dos cavalleiros, que se doestavam com bastas e grossas injurias, cobriu as debeis vozes dos varões apostolicos. Finalmente foram ouvidos. A reputação de santidade de que ambos gozavam,--no seu bando já se entende,--porque em epocas de odios civis as reputações facilmente tocam o extremo da profundeza, mas na extensão ficam sempre em metade; essas reputações, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações, fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos homens, infanções e cavalleiros vieram emfim a uma conclusão razoavel; isto é, sairam d'alli cada vez mais afferrados ás suas opiniões e sem concluirem nada»[85].
Assim nol-os pintou o romancista historiador, em momento de os considerar sem impaciencia.
Se necessario fosse descobrir a couraça de ferocidade dos fundadores de dynastia, com tal destreza e arte procederia Alexandre Herculano n'essa tarefa que sorrimos, quando aliás poderiamos sem injustiça voltar a face indignada pelo espectaculo de crueldades barbaras. Assim, por exemplo, que sacrilegos aggravos não se teriam feito ao conde D. Henrique, duvidando-lhe da bondade! Apressa-se o historiador a corrigil-os, porque «devemos crêr, ao menos piamente, que o conde D. Henrique, na epoca em que alevantou o castello de Guimarães, não lançou nos fundamentos do seu edificio soberbo um carcere seguro e vasto com os intuitos de rapina que guiavam o commum dos senhores n'estas tristes edificações. Ainda que algum documentinho de má morte provasse o contrario, cumpria-nos pol-o no escuro, ou contestar-lhe francamente a authenticidade, porque o conde foi o fundador da monarchia, e a monarchia desfunda-se uma vez que tal cousa se admitta. Assim é que se ha-de escrever a historia, e quem não o fizér por este gosto, evidente é que póde tratar de outro officio»[86].