Alexandre Herculano

Chapter 7

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Esse amor illuminara-se duma vez para sempre aos olhos de Alexandre Herculano no «clarão do Evangelho triumphante». Toda a consolação e todo o saber encontrou no «Verbo que renovou o mundo corrompido». Os arrebatamentos do poeta, as affirmações do publicista e os combates do soldado e do apostolo, toda a sua vida e toda a sua obra estão repassadas de christianismo. Vibra em cada palavra e em cada gesto, nas victorias e no desalento, na ira e nas bençãos, na lucta e no repouso. Até a propria historia e a obra d'arte imaginativa, não menos que a contemplação da natureza, seriam para elle desenvolvimento de verdade religiosa do christianismo e ensejo da sua propagação. A visão da cruz e a atmosphera moral que d'esse symbolo irradiava, acompanhavam todos os passos do sonhador; os seus poemas são uma floresta espessa de cruzeiros e templos onde de continuo perpassam murmurios de orações e canticos de louvor. Toda a enredada architectura do _Monge de Cistér_ parece erguida, quando no conjuncto a observamos, para inscrever alli, em traços d'uma fulguração diamantina, a sentença do Evangelho que lhe serve de fecho:--_Se não perdoardes, tambem Deus te não perdoará._

Humanisou o christianismo; quebrou-lhe a rigidez e a seccura, amortecendo os rigores da consciencia, que elle facilmente accusa, pela uncção da suavidade, que a cada passo vae derramando entre os homens. Mais do que isso: soube como ninguem, pelo poder do genio, trazel-o á terra, infundil-o em todas as cousas creadas, vividas e sentidas, infundil-o em a natureza inteira por uma insinuação cheia de mysterio, que todavia nos arrebata em encantos de doçura e luminosidade intraduziveis. Esse dia santo, que elle celebrou com palavras que ficam como pergaminhos da nobreza de uma geração e seu orgulho, maravilha da união subtil mas vigorosa do amor divino e do amor terreno, do amor das cousas da terra santificado pela presença de espiritos angelicos, será perpetuamente o espelho da candura religiosa. «Um dia santo; um dia santo!...» disse o poeta comovido, deixando transbordar os seus affectos. «Assim juntas, estas duas palavras são as mais sonoras, as mais pinturescas, as mais saudosas da nossa lingua; para mim, ao menos. De todas essas memorias passadas, cujas ruinas o descrer da edade de homem me tem alastrado pelo coração, uma sei eu que vive ainda n'elle fresca e viçosa, e que me parece morrerá só quando eu morrer. É a lembrança dos dias santos dos meus tenros annos. Um domingo de então ainda me sorri suavemente quando deito olhos longos para o caminho tortuoso e agro, por onde já derramei, sem saber como, um terço de seculo da vida. Na orla d'esse horisonte crepuscular do passado avulta-me a capellinha da habitação da infancia ao dia santo, e o altar com os seus castiçaes de talha dourada e as jarras de flores, que lá se punham no sabbado á noite, e o alevantar cedo para todos e tudo estar lavado, espanejado, escovado e ordenado para a missa. Sabe Deus com quanta fé e devoção a minha alma tenra se balouçava na toada monotona que murmurava o velho frade arrabido, calvo e macilento, cujo burel desapparecêra debaixo das vestes variegadas do sacerdocio! Atravez da alta gelosia o sol vinha, semelhante a uma columna de vidro amassado com pó de ouro tombada do seu pedestal, bater de soslaio nos degraus do altar. As luzes trémulas das velas, cuja claridade se annulava no esplendor do dia, pareciam-me espiritos que se inclinavam esperando a presença real de Deus para o adorarem. Depois o frade que viera de longe, do convento de Ribamar ou da Boa-viagem, almoçava e jantava. E todos estavam contentes; porque era um santo mas jovial frade o bom do arrabido, e contava historias que era um pasmar. N'aquelles dias abençoados juraria eu que a folhagem das arvores era de um verdor mais vivo, os fructos mais saborosos, o ar mais diaphano, a agua mais transparente, o ceu mais azul, e até as alfaias da casa mais novas, e o caio dos muros mais alvo. Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e tripudiava nos jogos e brinquedos que são proprios d'aquella edade; mas quando o sol descia para o horisonte ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira, sósinho, a ouvir cair n'um tanque uma pequena bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquilla melancolia, fumosinho, que se condensava brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam a rolar, mas que n'elles bailavam. E alli me achava á noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto; mas ficava-me cá a saudade... Domingos dos doze annos, em que o meu espirito se harmonizava com o hymno eterno da natureza, salvé! A gloria litteraria, o amor da independencia, e talvez até o orgulho de proceder honesto, todos os meus sonhos de ambição dal-os-ia a troco de me sentir viver comvosco; comvosco, oh dias santos; porque os outros, esses, se não eram palidos como os de hoje, eram acres, dolorosos, inquietos. As paixões fervidas e insensatas da mocidade vinham chegando; e como que já sentia rugir a pouca distancia as tempestades que iam agitar e devorar-me os annos mais bellos da vida... Não tenho saudades dess'outros dias. Não tenho. Deixal-os ir. É pelos meus ricos dias santos de então que eu hei de sempre chorar.

«Ainda hoje ha um individuo, que exerce singular predominio sobre mim, e ignora-o. É o sineiro da minha meio-rural, meio-urbana parochia. Na escala das reputações de sinos, os da minha freguezia occupam logar modesto, e todavia, quando repicam antes da missa do dia, sinto passar em volta de mim uma como aura fugitiva dos dias santos da meninice, e o sol illumina-se da luz d'aquelle tempo. O repique, por estes sitios, é ainda patriotico e tenaz: ainda não o perverteu a peste da civilisação. Nem as cantigas populares, nem as harmonias do theatro se atreveram a pôr pé sacrilego nos degraus do campanario. Abençoado sineiro, que me parece has de morrer abraçado com as tradições do teu antecessor. Oxalá que, se eu te sobrevier, tenhas um herdeiro digno de ti! Mal sabes tu, quando no teu ardor d'artista te penduras por essas cordas, e as fazes vibrar, saltando de um a outro lado, banhando-te numa catadupa de sons estrugidores, que se despenham sobre ti, jorram pelas sineiras, e vão ennovelados esmorecer por esses ares; mal sabes tu, que, a certa distancia, no alto da montanha, alguem larga o livro, a pena, as ideias, e fica abstracto e immovel a aspirar as harmonias que lhe mandas frouxas, sacrosantas, ricas de saudades da infancia! Mal sabes tu quantas cogitações profundas, quantas dôres do espirito tens suspendido com essas divinas toadas. Oh, que se me podesses restituir a capella, e o velho arrabido, e a sua missa, e as suas historias, e o murmurio que tinham outrora as pequenas bicas a correr nos pequenos tanques, e a sombra que davam as nogueiras, e a melancolia do sol posto de ha vinte annos; se tal podesses!... Eu sei!? Caindo adorar-te-ia, fosses Deus ou Satanaz.

«Ai, não pódes; não pódes! Isto tudo sumiu-se. Hoje sou cidadão, jurado, eleitor, homem de lettras; podia ser commendador, conselheiro, governador civil, deputado, ministro, se navegassem para esse rumo as minhas ambições, e Deus me houvesse concedido o ser um nada mais parvo.

«Vida positiva, realidade do mundo, se tu fosses uma realidade tangivel, uma realidade que sentisse, uma realidade real, quizera ver-te jazer ante mim, para te pôr um pé sobre os peitos e calcar-te e cuspir-te nas faces! Só isto me consolava das saudades dos dias santos infantis e d'este viver miseravelmente desbotado.»[70]

Esta interpenetração das cousas e da alma, esta vibração unisona da essencia etherea do espirito e da materia visivel e palpavel, esta harmonia religiosa da consciencia e de toda a creação terrena, marcarão a orbita da qual nunca se affasta a alma de Alexandre Herculano.

Em Val-de-Lobos, no ermo da sua clausura, construiu uma capella. A religião carecia de symbolos, e reclamava para si um pedaço de terra onde os guardasse e fossem invocados e venerados. N'elles se havia de encontrar e integrar a adoração de Deus em espirito e nas visualidades tangiveis. O idealismo germanico e o symbolismo romano juntavam-se e completavam-se fundindo aspirações do espirito, absolutas na sua abstracção, e tradições da ordem terrena, essenciaes tambem pela permanencia e pela vitalidade historica, e captivantes pela belleza sensivel. E, assim, o templo, a que Deus descia para olhar os homens, seria o degrau mais alto a que os homens subiam para vêr a Deus.

II

Ha no _Monge de Cistér_ «um filho das Hespanhas» em que «a côr, o gesto, o olhar, tudo dizia que ahi dentro havia o espirito dum godo e ao mesmo tempo que n'essas veias corria o sangue dum arabe»; e as cartas de Alexandre Herculano a Oliveira Martins, que este ultimo publicou no _Reporter_, quando se fez a transladação dos restos do historiador para os Jeronymos, referem-se a «estas sociedades, meio romanas, meio germanicas na indole, e celto-romanas na raça, que estanceiam ao occidente.»

Porventura, estão alli designados os elementos ethnicos e tradicionaes que se associaram na formação do genio de Alexandre Herculano, meio romano e meio germanico na indole e na raça, com o espirito dum godo na idealisação da vida e o senso pratico dum romano na concepção da sociedade, por vezes sonhador e ethereo como um bardo errante das margens do Rheno, a espaços accordando e rompendo em impetos dum cavalleiro nado e tisnado nas terras ardentes do islamita, e de repente recobrando a serenidade e a capacidade de ordenamento pratico que distinguiu e tornou famoso o conquistador romano. Tinha a sêde de liberdade, a consciencia da responsabilidade, a paixão da sinceridade, a febre de apostolado e a tenacidade de combater caracteristicas do sangue anglo-saxonio, e possuia ao mesmo tempo aquelle espirito de sequencia, lucidez e justa distribuição, aquelle horror do desequilibrio e do incerto e indefinido, a percepção penetrante das realidades e a arte de as sujeitar á regra e á lei que engrandeceram o mundo latino.

A liberdade, essa era para Alexandre Herculano um dogma, e capital. Sabia que «Deus era Deus e os homens livres». O reconhecimento de Deus implicava a liberdade; a existencia de um ser superior, ao qual tinhamos de obedecer, revelado em nossa consciencia e n'ella habitando, exigia a anniquilação de todo o estorvo á contemplação da sua grandeza e á insinuação e execução da sua vontade.

Para Alexandre Herculano, como para todos os grandes caracteres do seu tempo, a liberdade foi o primeiro dos artigos de fé. Sobre todos os demais prevalecia e a todos os outros synthetisava. Onde menos acatada a encontraram, ahi se esforçaram por lhe assegurar a soberania. E assim deram a precedencia á revolução politica sobre quaesquer outras, e n'essa collocaram os principios de liberdade acima de qualquer outro principio ou conveniencia.

Seguiu-se ás esperanças d'essa geração um periodo historico adverso. É certo. Uma pleiade de philosophos e devotos da realidade, analysando os homens e as sociedades, e entrincheirando-se nos baluartes de uma sciencia que se reputou inexpugnavel e a ultima e terminante verdade, sorriu das crenças dos paladinos ingenuos de que era filha. Tomando-as sinceramente por illusão de romanticos generosos, aliás com a mesma candura que tinham posto em as amar aquelles de quem os novos prophetas immediatamente descendiam, apressou-se a desvanecer o erro e deu a mão ás arremetidas de um despotismo renascido e vestido em trajos desconhecidos e atraentes, mas herdeiro e fiel representante do absolutismo antigo e, a seu exemplo, fatal á felicidade dos homens.

A experiencia e mesmo o desenvolvimento da analyse scientifica e suas conclusões logo trouxeram, porém, o desengano. Pela segunda vez a supposta illusão de nossos paes se revela a verdade fundamental do progresso. Contradictou-se a religião da liberdade com a legitimidade da oppressão, a aspiração individual com a razão d'estado; mas a ideia imperialista que d'ahi cresceu e teve longos annos de triumpho, parecendo por momentos absorver e desbaratar em sua gloria rutila de baionetas, os planos magnificos da ideia liberal, vae por sua vez e em nossos dias descendo ao accaso. Favoreceram-na a concepção biologica das sociedades, accentuadamente reaccionaria, que oppôz a força á justiça e ao direito e nos imbuiu na convicção de que a base de toda a aggremiação animal era um estado de lucta interior permanente e essa lucta significava um bem, factor essencial do desenvolvimento da sua capacidade. A victoria do mais forte e a subordinação do mais fraco seriam consequencias de leis naturaes indeclinaveis e beneficas, ás quaes nos cumpria prestar reverencia, auxiliando-lhes a execução em toda a extensão da vida physica e moral do individuo e da communidade. Os interesses materiaes, levados já por circunstancias economicas a um subido grau de concentração e anceiando por se constituirem n'aquelle estado de tyrannia soberana, a que o capitalismo europeu e sobretudo o capitalismo norte-americano souberam conduzil-o, aproveitaram habilmente as instigações crueis de uma sciencia alheia a inspirações moraes; se a lei da vida organica consistia na victoria dos fortes e na escravidão dos fracos, as instituições sociaes, para serem salutares, logicas e efficazes, haviam de respeital-a, e a divisão entre servos e senhores seria tambem condição natural de boa ordem. E entretanto, emquanto semelhantes doutrinas se propagavam e captivavam os espiritos mais puros e os melhores corações, a guerra franco-prussiana e a formação do imperio formidavel que ella creou e consolidou, antepondo ao cesarismo desmoralisado, que derrubava, um cesarismo disciplinado, rigido, e intellectualmente riquissimo de saber, justificava e apregoava de modo pratico, com esplendor, o principio, então por excellencia scientifico, da força brutal. Para o effeito da boa administração o mandavam acatar as boccas dos canhões e os sabres dos guardas do estado, convencendo por esse meio os menos promptos em lhe descobrir as virtudes. Homens d'estado e multidões fanaticas, governantes soberbos e doceis governados, uns por ambição, outros por cegueira, uns na avidez do mando e outros na esperança de ventura, e todos victimas dos vendavaes que repetidas vezes vergam a seu bello prazer as sociedades e as arrastam em delirio, inconscientes e desvairadas, abjuraram os evangelhos da liberdade que se lhes figurou um culto da debilidade e de rebellião insensata contra o despotismo da natureza, e, preferindo o gendarme ao sacerdote, desconfiando da crença para se renderem ás armas, trocaram a reverencia da justiça e da caridade christã pela desapiedada glorificação da caserna.

Não cessavam, todavia, os estudiosos na observação e cogitação das leis intimas da vida; e os ideaes do humanitarismo e da religião desthronados não tardaram a rehaver um logar de proeminencia. A doutrina da evolução, que parecera o seu peior inimigo, provou ser o seu apoio mais solido; por ella deixaram de representar o sentimentalismo absurdo e enfermiço, de que foram acoimados, para se reduzirem a uma comprehensão exacta de lei organica das sociedades, producto e derivação do proprio desenvolvimento evolutivo. Um dos mais notaveis espiritos do mundo scientifico vinha a concluir o exame da doutrina evolutiva pela demonstração de que a resistencia e o progresso da especie resultavam, não da lucta mas da sua atenuação, não da força mas da união e auxilio mutuo; a livre cooperação substituiria pois a sujeição oppressiva dos fracos ao capricho e engrandecimento dos fortes, se quizessemos, como deviamos, respeitar a ordem natural. E, simultaneamente, a miseria dos trabalhadores, precipitados na escravidão do capitalismo pela torrente dos interesses materiaes, accelerada e engrossada pela abundancia de doutrinas que consagravam o imperialismo em toda a sorte de relações, desde as de amo e creado até ás das nações e estados, o clamor dos servos tornou-se uma ameaça e uma dôr, para as quaes os piedosos procuravam balsamos, os timidos e previdentes inventaram prevenções attenuantes, e os homens d'estado buscavam remedio, vendo periclitante a estabilidade e a propria vida do corpo social, e cumprindo-lhes defendel-a.

Apoz o eclipse de algumas decadas, o idealismo liberal resurge, inscrevendo nos livros da lei o principio da igualdade juridica dos homens, da igualdade de opportunidade, como modernamente se diz, corrigindo a phantasia do absolutismo igualitario de outras eras. Nos corações restaurou-se o culto da liberdade. E n'este renascimento da luz que um sonho de terrivel barbarie escureceu, a figura de Alexandre Herculano, protegida pelas sagradas paixões que o animavam, reapparece no resplendor de uma aureola eterna. Como o poeta de Além-mar[71], Alexandre Herculano, sentindo a onda de imperalismo que nos seus derradeiros dias avassalava a Europa, poderia exclamar:--«Triste, desthronada rainha, oh liberdade! Ainda que contra ti se volte todo o mundo, hei de eu ser-te fiel!» Na sua adoração da liberdade havia laivos de fanatismo, o unico talvez que em toda a vida revelou. D'ahi viriam todos os seus temores em acceitar normas de organisação social que de toda a parte lhe apregoavam efficazes para salvação de angustias. Na ordem moral, o socialismo estava justificado. Não o contestava; «não se lhe afigurava que chamar socialista a quem discute, que impôr um labeu mais ou menos affrontoso desfizesse um argumento, nem que fosse demonstração concludente e irresistivel o affirmar que taes ou taes theorias são más porque são socialistas, e que o socialismo é mau porque propaga essas theorias. As escolas socialistas, (que nem elle já sabia quantas eram então), teem doutrinas positivas e critica negativa. As doutrinas positivas pareciam-lhe longos rosarios de despropositos; a critica negativa, embora frequentemente exaggerada, era a seu vêr uma coisa seria. Havia ahi indicações de males profundos e dolorosos no corpo social, que faziam estremecer as consciencias; que faziam cogitar tristemente os espiritos liberaes e sinceros»[72]. Mas apavorava-o sómente o perigo que em cada explosão de socialismo ameaçava a democracia de se converter gradualmente em uma burocracia ou em uma oligarchia, perigo que a violencia despotica do espirito de partido e o odio das classes expropriadas temerosamente asseguravam, inevitavel.

Em ultima analyse, a tendencia politica de Alexandre Herculano, no encadeamento logico da sua crença espiritual e religiosa, seria o que actualmente se chama anarchismo, por absurda que a muitos possa parecer á primeira vista uma tal classificação applicada a um tradicionalista fervoroso;--anarchismo no bom sentido, no sentido de uma doutrina philosophica, temperado, ou, digamos melhor, limitado pela visão historica e sua demonstração da força de organisação inherente a toda a vida em communidade, mas, sem embargo, suspirando por toda a sorte de libertação, crendo no resgate da humanidade em Deus e aborrecendo todo o constrangimento imposto pelas vontades humanas isoladas ou colligadas. Aquelle socialismo de que mostrou signaes na presidencia da camara municipal de Belem, não se lhe teria figurado traição ao principio da liberdade; tornava-o inoffensivo, quebrar-lhe-ia todas as velleidades de despotismo a descentralisação extrema em que se realisava. E são de notar os compromissos a que no presente veio a ideia socialista para se conformar com o principio de liberdade,--as restricções que a si mesmo vae impondo, o desamor das grandes aggremiações, tão promptas em degenerar em tyranias, o valor cada vez maior attribuido á communa como instrumento da distribuição das commodidades elementares da vida. O socialismo contemporaneo da Inglaterra com a sua caracteristica insistencia na liberdade da terra e na liberdade do commercio, essa concepção da sociedade renovada, tão diversa do socialismo continental facilmente propenso á restauração cesarista, está mostrando até que ponto a intransigencia do apostolo da liberdade em Alexandre Herculano era a voz do propheta dos tempos proximos, ainda mesmo quando parecia combater-lhes o advento.

Essa crença na liberdade que obrigações não importava aos que passavam no mundo levando-a no peito?!... Conquistar a liberdade era servir a Deus, facultar aos homens a inteira sujeição aos seus mandados. A responsabilidade perante Deus, a todo o instante exigida na consciencia, em que elle se revelava, não podia tornar-se effectiva senão pela liberdade. Os despotismos da terra figurar-se-lhe-iam uma offensa á divindade. Urgia derrubal-os onde quer que se acoitassem, sob o manto dos reis ou sob as vestes do sacerdote, em nome do estado ou em nome da egreja, nos castellos do feudalismo ou nas officinas dos mestéres, na altivez dos capitães de guerra ou na vilania cupida dos rebatedores.

A religião determinava uma politica. Mandava desembaraçar o caminho que conduz a Deus. A predica, o sacrificio e o martyrio, as luctas civis e as guerras dos homens, todas as armas eram de Deus e Deus reclamava para sua defeza e triumpho, se pela liberdade, sua filha e serva, combatiam. Mas a religião determinava sobretudo uma moral, o exame constante da conducta da actividade humana, em toda a extensão, e a sua conformidade com a essencia divina, até aos movimentos minimos, até ao mais pequeno objecto em que da nossa vontade dependesse.

Pessoalmente, emquanto se tratava de dar exemplo, a tarefa não foi difficil a Alexandre Herculano. Por virtude do seu raro vigor quebrou de prompto muito estorvo ao proposito de servir em acção os principios que adorava em espirito. Cedo se libertou, e com firmeza e audacia, das escravidões vulgares do commum dos homens, e até das de muitos que se elevam não pouco acima do commum.

Riquezas? Não o tentavam. A simplicidade espartana dos seus habitos contentava-se com pouco; estava-lhe no animo, e confessava-a, a aversão a negocios e a aproveitar com boa arte mercantil os bens magnificos da sua intelligencia[73].

Honrarias? Detestava-as. D. Pedro V levou-lhe a casa a commenda da Torre e Espada. Recusou-a. E em uma carta publicada no _Jornal do Commercio_ deu as razões do seu procedimento. «Pertenço», dizia, «a uma classe obscura e modesta, quero morrer como nasci. Ha nisto uma grande ambição solapada. No meio do immenso consumo que se está fazendo e que se tem feito, ha trinta annos, de distincções, insignias, uniformes bordados, de titulos, gráus, tratamentos e rotulos nobiliarios, o homem do povo, que queira e possa morrer com esta classificação, deve adquirir em menos de meio seculo uma celebridade extraordinaria... Não sou commendador da Torre e Espada. O senhor D. Pedro V, que Deus tem comsigo, procurou-me um dia para pedir-me, dizia elle, um favor. Era o de acceitar a commenda da Torre e Espada. Recusei; e com a sinceridade, que elle sempre encontrou em mim, expuz-lhe amplamente os motivos da minha recusa. Aquelle grande espirito, complexo de extrema doçura, de alta comprehensão e de profundo sentir, debateu, sem se irritar, as ponderações, talvez demasiadamente rudes, que lhe fiz. Concluiu por me dizer que cada um de nós podia proceder n'aquelle assumpto em harmonia com as proprias convicções. Que elle cumpria o que reputava um dever de rei, e que fizesse eu o que a consciencia me ditasse. Como os outros homens, os reis, embora se chamem D. Pedro V, estão sujeitos a apreciar mal as pessoas e as coisas. Nem eu valia o que elle suppunha, nem a commenda valia nada. O que valia muito, apezar do seu innocente erro, era esse moço de vinte e quatro annos, esse filho de João I, D. Duarte extraviado no seculo XIX, vindo pedir como favor ao filho do povo que lhe acceitasse uma mercê, porque entendia que o dever a isso o obrigava».