Chapter 6
Pretendia a camara crear um fundo permanente destinado a subministrar capitaes baratos aos cultivadores, para os amanhos ruraes. Para isso reservaria annualmente tres quartos do producto do imposto da farinha fabricada, até completar a somma de 35:000$000 réis, podendo todavia substituir aquelle imposto por qualquer outro, uma vez que o seu producto fosse pelo menos equivalente aos mesmos tres quartos designados. A caixa emprestaria aos cultivadores do concelho, por prazo nunca excedente a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o capital necessario para o movimento da cultura annual dos predios respectivos, e desde logo ficavam determinadas minuciosas condições regulamentares dos emprestimos, incluindo a hypotheca especial dos fructos do anno corrente ao contracto, e, se esses não chegassem, dos dois annos immediatos, até integral reembolso; a preferencia de direito e acção da caixa sobre qualquer outra acção e direito particular em relação aos fructos do anno corrente; e muitas mais exigencias das quaes resultava uma fiscalisação assidua da caixa sobre a economia individual do lavrador.
Se esse projecto houvesse sido convertido em lei, deixaria ampla a admissão do mais rematado socialismo. Não haveria motivo para recusar a todas as demais forças da economia nacional o beneficio que para uma d'ellas se tinha mostrado legitimo; não haveria razão para que o estado, arvorando-se capitalista por meio do imposto, descontasse aos lavradores e não procedesse de modo igual com o commercio, com a industria, e com todos os outros elementos da riqueza do paiz. O communismo era perfeito; a socialisação da riqueza completa. O estado reclamava da economia individual os capitaes necessarios á communidade, pelos meios obrigatorios e coercitivos de que dispunha, e iria depois entregal-os á classe que carecia de auxilio; aprehendia por imposto e repartia por justiça. Mas, porque seria banqueiro a municipalidade e não o seria igualmente a administração geral de toda a fazenda publica?
O jurisconsulto, quem reconheceu o valor das instituições juridicas como Alexandre Herculano, não podia declinar as consequencias de tal condição de espirito e havia de as levar até onde ellas se impõem por virtude da logica e pressão do bem publico. Mas não houvesse legado exemplo pratico do seu systema e processos de estadista, ainda em campo puramente doutrinario nos facultaria elementos para julgar que o seu individualismo andava sujeito a quebras e restricções, apezar da robustez formidavel. Não nos mostrou Alexandre Herculano como no seculo XII a lei, fortalecendo os costumes, conciliava as religiões mais discordantes e as punha lado a lado vivendo em harmonia? E, se a lei conciliava os deuses e continha as paixões religiosas, como nos disse, se convertia a tolerancia em regra de governo, porque não conciliaria os homens e as necessidades terrenas elementares? Não nos fallou elle da «propriedade, filha sacrosanta do trabalho» e, se essa lhe mereceu tão sagrado respeito e absoluta defeza, que designação e sentimentos lhe provocaria ess'outra propriedade que, em vez de ser filha do trabalho, se funda na espoliação do trabalho,--a elle que do coração abominava todas as tyrannias?
A vulnerabilidade do individualismo de Alexandre Herculano, descobrindo-se em mais de um ponto e por diversos lados, como acabamos de notar, não viria porém da deficiencia do principio de liberdade, que proclamava com uma fé indomita, mas unicamente do atrazo das concepções politicas da sua epoca e da impossibilidade de se definirem de um modo positivo e pratico, n'essa altura incapazes de traçar uma construcção da sociedade, nos seus aspectos economicos, solida e bem ponderada sem prejuizo da inteira garantia das liberdades essenciaes. Para um devoto da tradição, que viu todo o organismo social enraizado no passado e o estudou nas suas mais delicadas e profundas ramificações e origens, para quem soube prender por laços estreitos a existencia das gerações presentes ás instituições, aos sentimentos, á sabedoria acummulada das gerações extinctas, aos seus erros e desvarios e ás suas virtudes, a sociedade não podia pulverisar-se em um aggregado de liberdades desconnexas, no concurso fortuito dos seus atomos, em simples associação mecanica ou mera juxtaposição. Não; uma constituição juridica a ligaria, traduzindo as relações moraes e a dependencia religiosa e suas derivações--tudo o que elle sentia instantemente. Se, por amor da intangibilidade dos principios, contestou a legitimidade da nova ordem que lhes offendia a coherencia, não foi porque ella afinal deixasse de se conter nas suas crenças, mas tão sómente porque ainda não tinha conseguido definir-se na lucidez perfeita que o correr dos tempos, a meditacão dos apostolos e o clamor de experiencias dolorosas vieram a attingir em epocas posteriores. Não era possivel vêr-se ainda, como claramente hoje se demonstra, que a divisão e concorrencia anarchica das classes, importando victorias relativas e tyrannias consequentes, significam em resultado ultimo a annulação de toda a garantia de liberdade; não era ainda possivel vêr-se não só como a condição economica se tornava a base da liberdade politica, moral e religiosa, mas tambem em que termos e com que segurança a independencia economica se alcançaria sem privação da liberdade, antes fortalecendo-a. Não haviamos chegado a comprehender de uma maneira precisa--grandes correntes do pensamento nos offuscavam! até que ponto importava moderar as asperezas da lucta pela vida, onde não podessemos supprimil-as totalmente, para que a liberdade, nas suas formas politicas e sociaes concretas se penetre de todo o amor, para que ella, principio religioso e de dever na esphera do sentimento e da moral, se consubstanciasse em simples regras de justiça e de cooperação na esphera juridica.
A conciliação de duas phases de um estado de espirito, identico na essencia embora diverso nas modalidades, de prolongada gestação na qual se consumiram o scismar e o trabalho de inumeraveis e altissimas capacidades e as paixões de exercitos de combatentes e martyres, essa duplicação de vida mental que permittiu respirar com igual facilidade o alento de duas epocas, atmospheras de uma mesma substancia mas differentes todavia na proporção e logar dos elementos constituivos, foram phenomenos absolutamente excepcionaes, tão fóra das normas vulgares que mal os comprehenderam os que os presenceiaram. A ductilidade de pensamento que a tão variada extensão pôde amoldar-se, de tal modo se destacava do commum, provavel e logico, que a muitos se tornou impossivel deslindar a surpreza e lançaram-na á conta das apostasias de crença, debilidades de animo e collapsos de entendimento. A propria tenacidade dos principios, levada a ponto de exaltação religiosa, tornava-se impedimento de progresso, reagindo contra tudo o que se lhe afigurava morder a integridade rigida na qual elles se haviam fundido.
De resto, mais poeta e historiador do que pensador, mais moralista do que philosopho, mais prompto em contemplar as cousas creadas e as renascer do que propenso a martelar systemas novos e apural-os, Alexandre Herculano não se sentiria talvez muito inclinado á correcção e revisão amiudada, senão continuada, dos principios cuja influencia de inspiração e fortaleza usufruira por largos annos.
O caso de Stuart Mill é uma excepção surprehendente na historia das doutrinas politicas no seculo XIX; não seria facil repetir-se, mesmo entre os da sua força e edade[65]. Da liberdade comprehendida no sentido de uma larga emancipação não só da lei mas da influencia da opinião e do costume, por uma rarissima agilidade de pensamento, verdadeira prolongação de juventude que lhe facultou deducções imprevistas dos seus principios, Stuart Mill veio até á acceitação d'aquellas concepções que no seu tempo o individualismo encorporava na vaga designação de socialismo, temendo-as e proscrevendo-as, como resurreição de despotismo, reacção calamitosa e sem nome. «Por um lado», escreveu[66], a repudiavamos com a maior energia esta tyrannia da sociedade sobre o individuo que se suppõe contida na maior parte dos systemas socialistas; por outro olhavamos para um tempo em que a sociedade não mais se encontrará dividida em duas classes, uma de ociosos, outra de trabalhadores; na qual a regra de que os que não trabalham tambem não devem comer será applicada, não só aos pobres, mas a todos imparcialmente; em que a divisão do producto do trabalho, em vez de depender, como em alto grau agora acontece, dos accidentes de nascimento, será feita d'accordo, sobre um principio de justiça: em que emfim não mais será impossivel, ou se julgará impossivel, que os seres humanos se esforcem energicamente procurando bens, destinados não para elles exclusivamente mas para serem partilhados com a sociedade á qual pertencem. Consideravamos que o problema social do futuro consistiria em unir a maior liberdade individual de acção com a communidade de propriedade das materias brutas do globo e com uma igual participação de todos nos beneficios do trabalho combinado». Sem a presumpção de julgar que se podia prever immediatamente a forma exacta das instituições conduzindo com segurança áquelle fim, nem em que epoca, remota ou proxima, seria possivel applical-as, criam todavia que «a educação, o habito e a cultura dos sentimentos fariam que um homem cavasse ou tecesse pelo seu paiz tão bem como por elle combatia».
Assim pensava já e o escrevia, vagamente, Stuart Mill em 1848, e quatro annos depois, em 1852, aberta e firmemente o advogava; e isto se póde considerar ainda hoje a mais bella e a mais cathegorica aspiração socialista, a mais accessivel a todo o entendimento e a mais pratica na execução. É maravilha que tão longe alcançasse quem partira de ponto tão distante e diverso. Viver duas vidas, duas epocas, em uma só existencia, fazendo succeder em um unico cerebro, aliás igualmente poderoso em ambas as modalidades, o espirito duma geração ao espirito da geração precedente, é, na verdade, um acontecimento de incomparavel estranheza.
Por certo o conheceu Alexandre Herculano no seu vastissimo saber. Mas não se convenceu. Convém verificar o facto para inteira comprehensão do seu caracter e disposição de espirito. Não lhe amesquinhou, todavia, a grandeza; reconheçamol-o. Em taes alicerces se fundava que podia bem affrontar rebeldias caracteristicas da propria fortaleza, compensadas por uma solidez de estructura, sem embargo alguma vez impenetravel á irradiação de novos astros mas sempre protecção e defeza de magnificos thesouros, ideaes elevadissimos, que serão a eterna medida do valor dum ser humano.
Quando hoje lemos a discussão do socialismo e do individualismo entre Oliveira Martins e Alexandre Herculano, posta n'aquella altura de sinceridade affectuosa e vitalidade mental de que esses dois extraordinarios espiritos foram dotados, sorrimos sem desrespeito, antes com uma carinhosa gratidão pelo sagrado esforço de quem assim procurava trazer ao mundo felicidade, e por alcançal-a se consumia e atormentava em cogitações e em duvidas. O que então era obscuro e incerto para homens realmente grandes, é hoje evidente e incontestavel para o vulgo. «O decurso de trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje as ideias passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados horisontes»[67]. Sómente não envelhecem, antes vivem e se prolongam em perenne frescor e mocidade, o consolo e orgulho de verificarmos quanto o pensamento humano tem caminhado, quanto valeu para a fortuna dos homens e das sociedades a exaltada coragem dos seus obreiros, que bençãos devemos e tributamos aos apostolos, como Alexandre Herculano e Oliveira Martins. Como é fertilisante e bella a irradiação dos seus sonhos! Os tempos e as ideias mudam incessantemente; mas não muda nem póde mudar o espirito que pesa e julga e ordena as realidades. Para sempre sejam louvados aquelles de muita bondade que nol-o inspiram elevado, puro e grande!
ESCUDOS DE FORTALEZA
ESCUDOS DE FORTALEZA
Abrigava-se sob escudos impenetraveis a fortaleza de Alexandre Herculano. Não se segue no mundo caminho recto, como elle seguiu, sem o auxilio continuado de armas proprias para remover os obstaculos infinitos que se nos deparam, sem o bordão em que o peregrino se apoia para vencer asperrimos fraguedos. Não se mantem a firmeza de animo, que foi talvez a maior gloria da sua auréola, sem a protecção de um nimbo de sentimentos inaccessiveis a toda a corrupção e assalto de fraquezas. Em torno da sua figura humana de athleta, adejam legiões angelicas, baixando invariavelmente em seu soccorro, se as contingencias da sorte transitoria, a que o seu ser mortal andava exposto, ameaçavam prostral-o, feril-o ou desvial-o da derrota luminosa do seu sonho.
I
Guardava-o Deus de cair em tentação. Resoava-lhe do continuo nos ouvidos a harpa do crente e, perpetuamente, sem hesitar, rendeu-se ás modulações das suas cordas. Cria que «Deus era Deus e os homens livres». «A terra vacillava ante o olhar do Senhor». «Louvaria o Eterno!» Quando se ergueu a voz d'aquelle moço «velador de angustias», pallidas as faces, nas veias a febre, alagada a fronte de um suor frio, os olhos humidos de pranto e dentro do peito a dôr que o ia roendo; quando a poesia lhe murmurou na alma a «ultima nota de quebrada lyra», «o triste adeus do trovador que expira», que hymnos cantou, que visões perpassaram
«No delirio febril d'aquella mente Que, balouçada á borda do sepulcro, Volve apoz si a vista longamente?»
Turvou-o a _Desesperança_; segredou-lhe maldições do Deus que «por insania» adorára. Aos pés do seu throno não chegavam os gemidos da terra. A Providencia era uma crença vã, e mentia quando apontava ao poeta, em ancia de gloria, a immensidade. Mas o _Anjo da Guarda_ impôz silencio á rebeldia blasphema. Se o misero agonisante podesse comprehender a amargura com que o anjo lhe chorava a perdição no amor terreno, e a doçura que ha no affecto do homem aos mensageiros de Deus, despiria, rindo, o corpo enfermo, para se lhes unir, «para aspirar o goso celestial do amor sem termo». E logo, sem tardar, respondendo á voz do anjo, a _Graça_ ungiu o moribundo. Era uma «harmonia suave», perante a qual a sombra da morte se aclarou e o coração, alliviado do peso da dôr, pediu «o hymno da oração em vez do canto irado». O poeta sentiu então de novo o que o «revocava a Deus». Inspirava-o a esperança. E adormece na Resignação, contricto, rogando ao anjo bom que não o abandone na «hora fatal», e lhe repita aquelles segredos de doçura onde aprendera
«Que é o céu a patria nossa; Que é o mundo exilio breve; Que o morrer é cousa leve; Que é principio, não é fim»[68].
A successão dos estados da sua alma, os termos pelos quaes attingiu a constituição ultima, a religião, «abrigo extremo», consolação de toda a miseria terrena, da deshonra, do exilio ou da injustiça, essa formação progressiva do seu ser espiritual, deixou-a Alexandre Herculano marcada, estampada, na pintura da morte do trovador, de resto apenas um incidente e exemplo, porque toda a sua obra poetica é uma profissão de fé quasi ininterrompida. Em toda ella prevalece o cantico religioso sobre o anceio mortal; resume-se em louvor, adoração e abdicação do homem em face do principio divino, embora considere esse principio nas modalidades transitorias, como convém ao poeta, embora o encontre e veja com os olhos do corpo e da lembrança, extasiando-se em delicia, nas capellas, nas ermidas, nos mosteiros, nos templos, pelos campos desertos, pelos adros, pelos cruzeiros e pelos cemiterios das aldeias, nas tradições e nos momentos ingenuos disseminados pela terra patria.
O confronto do caracter de Alexandre Herculano com o de José Estevão poderá talvez definir melhor do que qualquer outra explanação os attributos proprios de cada um.
Foram ambos figuras primaciaes da grandeza moral do seu tempo. Sel-o-iam em qualquer epoca, culminantes. Resumem as duas formas mais nobres da dignidade humana. E, todavia, quanto são differentes! Alexandre Herculano procede por principio religioso; José Estevão por humanitarismo. Um tira a sua força da obediencia a uma Vontade suprema, que n'elle vive e se realisa mas que não é d'elle; o outro é arrastado por sympathia e inspiração fraterna, basta-lhe para razão de heroismo o sentimento da solidariedade, auxilio mutuo e reino da justiça entre os homens. D'ahi, d'essa reducção essencial da sua natureza psychologica, conjunctamente synthese e centro de derivação da vida de cada um d'elles, as consequencias praticas diversas da expansão das respectivas individualidades. Amaria José Estevão a vida civica e a vida urbana, até mesmo caprichos e complexidades mundanas, o calor de carinhosas amizades, tudo aquillo em que os homens se juntam mais estreitamente e é filho do seu aturado commercio; inclinar-se-ia Alexandre Herculano á solidão, ao labor silencioso dos campos, ao isolamento meditativo, a tudo aquillo em que mais por completo podia conceber a invariabilidade do divino e a relatividade das relações do contingente e do infinito. Este nunca trocaria pela glorificação de faculdades humanas o culto do Eterno, como era corrente nas revoluções do seu tempo que trouxeram na rua, postas em andores, mulheres figurando a Razão. Ás tendencias de Alexandre Herculano para o claustro, para a contemplação, e para o estudo e apologia dos primeiros seculos do christianismo e do seu vigor e dilatação na edade-media, corresponderia em José Estevão a paixão politica e a actividade impetuosa, e o sentimento da justiça fundada, não em determinação divina, mas na imposição dos principios abstractos concebidos e affirmados pela intelligencia humana e em seu nome enthronisados. Dum ao outro ia toda a distancia que medeia entre uma philosophia, embora de affecto sublimado, e uma religião de amor que, ainda por amor, algumas vezes será rigida em excesso, nada propensa á indulgencia. E da diversa natureza do impulso fundamental veio a diversidade de attitude no decorrer da existencia terrena d'aquelles dois genios, conduzindo Alexandre Herculano ao recolhimento e á fascinação do ermo, porque para elle de prompto se purificava n'esse estado e se mantinha illesa a crença religiosa, a consciencia da presença de Deus no universo e os estimulos de obediencia á sua vontade, emquanto José Estevão, atravez de todos os desenganos e recobrando animo de todos os desalentos, voltava constantemente á interferencia nos combates das multidões, porque assim sentia de perto effectuar-se a aspiração humanitaria, em absoluto dissolvida, reduzida a nada, fóra d'esse ambiente. Para o crente, impregnado de adoração e abdicação, o amor, mensageiro do Senhor e seu interprete, poderá encarnar em toda a materia e em todo o orbe; não percebe quebra do principio divino ou infidilidade aos seus mandados consagrando-se ás arvores e fugindo dos logares em que o convivio dos homens é activo. Porém para o humanitario, o amor, symbolisado em justiça e acção, só nos homens teria o seu principio e não podia, por uma logica instinctiva e imperiosa, desviar-se d'elles sem em absoluto se perder pela ausencia de objecto que o consubstanciasse. José Estevão vivia cercado de amigos em todas as contingencias da vida publica e da vida intima, nas alegrias e mágoas do seu lar e nas luctas politicas; Alexandre Herculano, que tambem teve amigos, e exaltados na admiração e no affecto, aliás retribuindo com infinitos carinhos do seu coração, era facil em se refugiar no isolamento e consolar-se de toda a amargura na beatitude do silencio da vida ingenua, onde por certo acharia realisada e integra a aspiração de serena e plena conformidade com a vontade do destino. Não valeria tanto para o poeta religioso a meiguice das petalas das rosas como o sorrir de labios humanos, e não mentiria menos á missão divina?
Assim tambem, ainda por consequencia de um mesmo pendor, a religião que para Alexandre Herculano era uma força intima, immanente, inflexivel, e por isso essencialmente sujeita a suscitar conflictos insoluveis com a ordem mundana, para José Estevão podia sem difficuldade acceitar-se em termos de compromisso entre necessidades presentes, tradições e principios eternos, resolvidos os antagonismos, quando se declarassem, a beneficio da paz publica e dos interesses da sua causa. O caso de consciencia, intransigente na primeira d'essas duas concepções religiosas, admittia na segunda concessões mutuas e limites convencionaes, formulas de conciliação politica, subordinada por momentos á salvação da republica, e por contradicções estranhas, mas afinal beneficas, corroborando-se e negando-se ao mesmo tempo. O clero, a egreja constituida, não quiz mais a José Estevão do que a Alexandre Herculano, mas por differente motivo. Um desfazia-lhe a virtude dos milagres, atacava-o na capacidade intrinseca e arguia-o de traição a Christo: o outro deixava-lhe a liberdade dos milagres e não o incommodava nas relações divinas, e apenas se esforçava por lhe restringir o despotismo e as cobiças terrenas, cerceando-lhe regalias e reduzindo-lhe a auctoridade de adquirir, mandar e dispôr, e accusando-o de infidelidade aos interesses do povo e da nação[69].
O confronto do modo de ser religioso d'esses dois grandes caracteres não significará, todavia, que a religião de Alexandre Herculano fosse inactiva, e muito menos deshumana. Revelará apenas que a sua alma, religiosa por essencia, dependente conscientemente de uma outra alma infinita e eterna, da qual se reconhecia mero instrumento e frouxo reflexo, encontrára, por virtude d'essa constituição e prisão, as obrigações supremas de vida entre as quaes a primeira seria o amor, imposto pela abdicação no principio divino. O humanitarismo não seria n'esse systema de deveres uma religião, como de facto foi no sentir de José Estevão; consubstanciaria sómente a summula dos deveres religiosos, e manifestamente aquelles a que Alexandre Herculano mais quiz e com extremo ardor se consagrou. O mundo estava subordinado a Deus; e não seria absorvido pela humanidade, renegando a subordinação, posto que na humanidade tivesse a obra de Deus mais bafejada do seu alento.
De resto, a emoção religiosa em Alexandre Herculano, sendo christã e demais educada na tradição do christianismo latino, tão rematadamente caridoso e, por concreto, distante da abstracção cruel em que redundou no espirito oriental, não poderia tender ao extasi, esteril e mortifero além do resgate individual, mas logo se transfundiria na objectivação pratica, na traducção do seu principio dominante em forma e movimento, em acção. Não resultaria em ascetismo, mas na moralisação de todas as energias organicas, aliás livres em sua esphera, reconhecendo-se-lhes a legitimidade da expansão. Assim como lhe impunha entre os impulsos iniciaes o amor da terra e da patria, levava-o consequentemente ao amor dos homens que a povoam e á intervenção em toda a complexidade das suas relações, tão extensas na multiplicidade de manifestações e aspectos como coordenadas e indivisiveis na unidade do espirito que as liga e rege.